Archive for Março, 2005

LÍNGUAS MINORITÁRIAS NA EUROPA (XX)

O Corso pertence ao grupo linguístico ítalo-românico, aproximado aos dialectos do centro de Itália.

A língua corsa é utilizada no conjunto da ilha francesa da Córsega, à excepção da cidade de Bonifácio, em que é falado um dialecto de origem genovesa. O dialecto da região de Gallura, no norte da Sardenha, é próximo dos falantes do sul da Córsega, devendo contudo o sardo propriamente dito ser considerado uma língua distinta.

Segundo diversas estimativas, o Corso será a primeira língua de cerca de 10 % da população total da ilha (cerca de 25 000 falantes); cerca de metade da população (ou seja, cerca de 125 000 pessoas) terão algum domínio sobre a língua, uma redução face aos cerca de 65 % estimado no início dos anos 80, com o acréscimo do predomínio do francês.

Até ao início do século XIX, o Corso e o italiano eram considerados como dois dialectos de uma mesma língua, sendo o Corso a língua falada e o italiano a língua escrita. A partir do segundo império, o Corso separou-se do italiano e tende a ser percebido – nomeadamente por via do desenvolvimento de uma literatura de expressão corsa – como uma língua autónoma.

O movimento cultural corso não procurou impor uma língua unificada na totalidade da ilha. Os linguistas corsos falam de “língua polinómica”; o seu ensino baseia-se em primeira análise em cada variedade local, só depois por via do conhecimento passivo do conjunto de falares da ilha. Assiste-se contudo, desde há alguns anos, pelos intelectuais, criadores e profissionais da comunicação, à emergência de um “corso elaborado” relativamente unificado.

De acordo com o sistema legal francês, o Corso não tem estatuto oficial, não obstante beneficiar de algum reconhecimento, na sequência de decreto governamental francês de 1974 que prevê o ensino da língua nas escolas, sancionando assim o uso opcional do corso.

Não obstante, o reforço do francês pode deixar antever que a uma geração bilingue poderá suceder-se uma geração monolinguística.

Realce, não obstante, para a pressão de várias associações de promoção da língua, no sentido da introdução do Corso no sistema educacional.

Artigos 1, 3, 4 e 5 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em corso:

“Articulu Prima
Nascenu tutti l’omi liberi è pari di dignità è di diritti. Pussedanu a raghjone è a cuscenza è li tocca ad agiscia trà elli di modu fraternu.

Articulu 3
Hà dirittu ogni persona à a vita, à a libertà è à a sicurezza.

Articulu 4
In la schjavitù o in la sirvitù ùn sarà tenutu nimu; sò pruibiti a schjavitù è u cumerciu di i schjavi in qualunqua forma.

Articulu 5
Un’ sarà turmentatu nimu, nè sottumessu à castichi o azzioni crudeli, inumani o vili.”

[2166]

25 Março, 2005 at 12:34 pm

EXPO 2005

Tem início hoje, no Japão, em Aichi – com a participação de 127 países -, a EXPO 2005 (primeira exposição mundial do século XXI, depois da EXPO 2000, de Hannover), que decorrerá até 25 de Setembro, tendo por tema “A Sabedoria da Natureza”.

Não obstante o Japão se tenha significativamente desenvolvido do ponto de vista económico e industrial, fê-lo sacrificando alguns valores humanos; é por isso que se esforça agora por viver em harmonia com o ecossistema global.

A EXPO 2005 servirá de laboratório global para toda a humanidade, onde os visitantes poderão coabitar com a natureza e redescobrir as maravilhas da vida.

Os temas abordados serão “A natureza, matriz inesgotável” (tratando dos problemas do ambiente e da população), “Qualidade de vida” (analisando os problemas de uma sociedade que vai envelhecendo e a criatividade das crianças) e “Valorização das eco-comunidades” (centrado sobre as novas fontes de energia e sobre a tecnologia de reciclagem).

[2165]

25 Março, 2005 at 8:23 am 1 comentário

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (XIV)

“E, segundo o que a mim e a todos pareceu esta gente não lhes falece outra cousa para ser toda cristã que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem mais entre eles devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de Vossa Alteza.

E para isso se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os baptizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé pelos dous degradados que aqui entre eles ficam, os quais ambos hoje também comungaram. Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse e puseram-lho darredor de si. Mas ao assentar não fazia memória de o muito estender para se cobrir. Assim, Senhor, que a inocência desta gente é tal, que a d’Adão não seria mais quanta em vergonha.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive, ensinando-lhes o que para a sua salvação pertence, se se converterão ou não. Acabado isto, fomos assim perante eles beijar a cruz e despedimo-nos e viemos comer. Creio, senhor, que com estes dous degradados que aqui ficam, ficam mais dous grumetes, que esta noute se sairam desta nau, no esquife, em terra fugidos os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus, fazemos daqui nossa partida.

Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha, que haverá nela bem vinte ou vinte cinco léguas por costa. Traz ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas e delas brancas e a terra, por cima, toda chã e cheia de grandes arvoredos.

De ponta a ponta é toda praia parma, muito chã e muito formosa; pelo sertão nos parecia muito grande, porque, a estender olhos, não podiamos ver senão a terra e arvoredos, que nos parecia mui longa terra. Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma cousa de metal, nem de ferro; nem lho vimos. A terra, porém, em si, é de muito bons ares, assim frios e temperados como os d’Entre Doiro e Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá.

Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. Mas o melhor fruito que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute bastaria, quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento de nossa santa fé.

E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta vossa terra vi. E, se a algum pouco alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha de vos tudo dizer mo fez assim pôr pelo miúdo.

E, pois que, Senhor, é certo que assim neste cargo que levo, como em outra qualquer cousa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de S. Tomé Jorge d’Osório meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da vossa ilha da Vera Cruz hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.”

Pêro Vaz de Caminha

[2164]

24 Março, 2005 at 6:06 pm

LÍNGUAS MINORITÁRIAS NA EUROPA (XIX)

O Bretão (em bretão Brezhoneg) é a única língua céltica presente no Continente Europeu. É considerada uma língua céltica insular ou “neo-céltica”, diferente do gaulês, apesar de algumas influências desta língua.

A população bretã descende principalmente de um misto de armoricanos e celtas de língua bretã provenientes da Grã-Bretanha no final do período Romano.

É falado na região da Bretanha, no noroeste de França, numa linha que vai de Paimpol a Vannes, sendo constituído por dois grupos principais de dialectos: o KLT (Cornualha, Léon, Trégor) e o vanetês (no Morbihan). O ensino e os media utilizam cada vez mais uma língua unificada.

Serão cerca de 240 000 os falantes de Bretão (20 % da população da região), principalmente entre os mais idosos. A maior parte dos residentes nas cidades de menos de 10 000 habitantes são pelo menos capazes de compreender a língua.

Não existe uma política específica relacionada com esta língua, falando-se de uma situação de tolerância de alguma forma hostil, que virá contribuindo para que se instale uma crise no uso do Bretão, língua pouco prestigiada. É permitido o ensino opcional, por vezes extra-curricularmente.

O Bretão tem o mesmo estatuto que outras línguas não oficiais em França (nos termos da Constituição de 1992, o Francês é a (única) língua da República Francesa). A França recusa-se a assinar tratados internacionais sobre os direitos das minorias autóctones e o uso de línguas maternas.

Artigos 1, 3, 4 e 5 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em Bretão:

“Mellad unan (1)
Dieub ha par en o dellezegezh hag o gwirioù eo ganet an holl dud. Poell ha skiant zo dezho ha dleout a reont bevañ an eil gant egile en ur spered a genvreudeuriezh.

Mellad tri (3)
Gwir a zo gant pep hini d’ar vuhez, d’ar frankiz, ha d’an diogelroez evitañ.

Mellad peuar (4)
Ne vo dalc’het den er sklaverezh nag er sujidigezh; berzet e vo kement stumm a sklaverezh hag a werzhañ-sklaved.

Mellad pemp (5)
Ne vo lakaet den da c’houzañv ar jahinerezh, na doareoù pe kastizoù kriz ha didruez.”

[2163]

24 Março, 2005 at 12:32 pm

JULES VERNE

Partiu há 100 anos, mas deixou-nos as suas obras e as suas ideias visionárias.

Jules Verne nasceu em Nantes a 8 de Fevereiro de 1828, sendo o criador de um género novo, o do romance científico de antecipação, tendo publicado, ao longo de uma vida de “extravagantes” viagens pela imaginação e pela fantasia, mais de 80 livros, traduzidos em mais de 112 idiomas, sendo o segundo autor com mais livros vendidos (depois de Karl Marx).

Anteviu diversos fenómenos e invenções que apenas muitos anos mais tarde se concretizariam, como a televisão, o cinema, a cibernética, o submarino.

De entre os seus livros, destacam-se: Viagem ao Centro da Terra (1864), Da Terra à Lua (1865), Os Filhos do Capitão Grant (1868), Vinte Mil Léguas Submarinas (1870), A Volta ao Mundo em 80 Dias (1872), A Ilha Misteriosa (1875), Miguel Strogoff (1876), Dois Anos de Férias (1888) e O Castelo dos Cárpatos (1892).

P. S. Evocando este centenário, o Público lança, a partir desta semana, uma excelente iniciativa: uma colecção das obras de Jules Verne.

[2162]

24 Março, 2005 at 8:16 am

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (XIII)

“Trouxemo-la dali com esses religiosos e sacerdotes diante, cantando, maneira de procissão. Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta; e, quando nos assim viram vir, alguns deles se foram meter debaixo dela a ajudar-nos.

Passámos o rio ao longo da praia e fo-mo-la pôr onde havia de ser, que será do rio obra de dous tiros de besta. Ali andando nisto, viriam bem cento cinquenta ou mais. Chantada a cruz com as armas e divisa de Vossa Alteza, que lhe primeiro pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos.

Ali estiveram connosco a ela obra de cinquenta ou sessenta deles, assentados todos em joelhos, assim como nós. E, quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram connosco e alçaram as mãos, estando assim até ser acabado. E então tornaram-se a assentar como nós. E, quando levantaram a Deus, que nos pusemos em joelhos, eles se puseram todos assim como nós estávamos, com as mãos levantadas e em tal maneira assossegados, que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

Estiveram assim connosco até acabada a comunhão. E, depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes e o capitão com alguns de nós outros. Alguns deles, por o sol ser grande, em nós estando comungando, alevantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinquenta ou cinquenta e cinco anos, ficou ali com aqueles que ficaram.

Aquele, em nós assim estando, ajuntava aqueles que ali ficaram e ainda chamava outros. Este, andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar e depois mostrou o dedo para o céu, como que lhes dizia alguma cousa de bem; e nós assim o tomámos. Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima e ficou na alva. E assim se subiu, junto com o altar, em uma cadeira e ali nos pregou do Evangelho e dos Apóstolos, cujo dia hoje é, tratando, em fim, da pregação deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.

Esses, que à pregação sempre estiveram, estavam, assim como nós, olhando para ele. E aquele, que digo, chamava alguns, que viessem para ali. Alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço, pela qual cousa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz e ali, a um e um lançava sua, atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha beijar e alevantar as mãos.

Vinham a isso muitos e lançaram-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinquenta. E isto acabado, era já bem uma hora depois do meio dia, viemos às naus comer, onde o capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquela mostrança para o altar e para o céu e um seu irmão com ele, ao qual fez muita honra, e deu-lhe uma camisa mourisca e ao outro uma camisa destoutras.”

[2161]

23 Março, 2005 at 6:15 pm

LÍNGUAS MINORITÁRIAS NA EUROPA (XVIII)

A língua basca (em basco Euskera) é a mais antiga falada na Europa, sendo um dos raros idiomas que não provêm do ramo indo-europeu.

O Basco compreende vários dialectos, sendo a região que fala o basco partilhada entre a Espanha (na Comunidade Autonómica Vasca – constituída pelas províncias de Araba, Vizcaya e Gipuzkoa, com uma população de cerca de 2 milhões de habitantes – e na região de Navarra) e o país basco francês (Departamento dos Pirinéus Atlânticos), sendo a língua falada por cerca de 80 000 pessoas em França e cerca de 600 000 pessoas em Espanha, onde a percentagem de jovens falantes tem vindo a aumentar graças às políticas linguísticas seguidas pelo governo autonómico (ou seja, um total de cerca de 25 % da população das regiões abrangidas pela língua).

Nos termos da Constituição espanhola de 1978 e do Estatuto da Comunidade Basca de 1979, o Basco é língua oficial da Comunidade, a par do Castelhano, língua oficial de Espanha. A lei de normalização do Euskera estatui que todos os cidadãos têm direito de aprender e utilizar ambas as línguas em qualquer situação.

O aspecto mais significativo do actual estatuto social da língua é a forma como o seu conhecimento tem crescido nas vertentes demográfica, geográfica e funcional. O crescimento do uso da língua é particularmente notório no segmento entre os 5 e os 14 anos, que cresceu aprendendo a língua na escola.

Em anos recentes, numerosas associações em França lançaram também iniciativas de promoção do basco – nomeadamente escolas bascas, cursos de basco para adultos, criação da Real Academia de Língua Basca (Euskalzaindia) e rádio basca – algumas delas mesmo com apoio da União Europeia.

A língua basca tem o estatuto de língua regional em França, o que é considerado como uma manifestação da rica diversidade cultural do país, sem que tal signifique contudo a adopção de significativas medidas de promoção da língua.

Na parte francesa, são publicados alguns jornais inteiramente escritos em basco, mas com tiragens reduzidas (menos de 10 000 exemplares).

Artigos 1, 3, 4 e 5 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em Basco:

“1. atala
Gizon-emakume guziak aske sortzen dira, duintasun eta eskubide berberak dituztela; eta ezaguera eta kontzientzia dutenez gero, elkarren artean senide bezala jokatu behar dute.

3. atala
Norbanako guziek dute bizitzeko, aske izateko eta segurtasunerako eskubidea.

4. atala
Inor ez da izango besteren esklabu edo uztarpeko; debekatua dago esklabutza eta esklabuen salerosketa oro.

5. atala
Ezin daiteke inor torturatu, ezta inori zigor edo tratu txar, anker eta lotsarazlerik eman ere.”

[2160]

23 Março, 2005 at 8:21 am

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (XII)

“Foi o capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água que, a nosso parecer, era esta mesma que vem ter à praia em que nós tomámos água. Ali ficámos um pedaço bebendo e folgando ao longo dela, entre esse arvoredo, que é tanto e tamanho e tão basto e de, tantas prumagens que lhe não pode homem dar conto. Há entre ele muitas palmas de que colhemos muitos e bons palmitos.

Quando saímos do batel, disse o capitão que seria bom irmos direitos à cruz, que estava encostada a uma árvore, junto com o rio, para se pôr de manhã, que é sexta-feira, e que nos puséssemos todos em joelhos e a beijássemos, para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim o fizemos.

E esses dez ou doze, que aí estavam, acenaram-lhes que fizessem assim e foram logo todos beijá-la. Parece-me gente de tal inocência que, se o homem entendesse e eles a nós, que seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece. E, portanto, se os degradados que aqui hão-de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, fazerem-se cristãos e crerem na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade e imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar.

E logo lhes Nosso Senhor deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens e ele, que nos por aqui trouxe, creio que não foi sem causa. E, portanto, Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar na santa fé católica, deve entender em sua salvação; e prazerá a Deus que, com pouco trabalho, será assim. Eles não lavram nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse inhame que aqui há muito e dessa semente e fruitos que a terra e as árvores de si lançam.

E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos. Enquanto ali, este dia, andaram, sempre ao som dum tamborim nosso dançaram e bailaram com os nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus. Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso em tal maneira que, se os homem todos quisera convidar, todos vieram.

Porém não trouxemos esta note às naus senão quatro ou cinco, a saber: o capitão-mor, dous, e Simão de Miranda, um, que trazia já por pajem, e Aires Gomes, outro, assim pajem. Os que o capitão trouxe era um deles um dos seus hóspedes que à primeira, quando aqui chegámos, lhe trouxeram, o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão os quais foram esta noute muito bem agasalhados assim de vianda como de cama de colchões e lençóis por os mais amansar.

E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de Maio, pela manhã, saímos em terra corri nossa bandeira e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz para ser melhor vista. E ali assinou o capitão onde fizessem a cova para a chantar, e, enquanto a ficaram fazendo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, abaixo do rio, onde ela estava.”

[2159]

22 Março, 2005 at 6:14 pm

LÍNGUAS MINORITÁRIAS NA EUROPA (XVII)

Lei temps modèrnes
Es après la guèrra de 14-18 que lo francés commença d’èstre parlat en Provença. Mai aqueu francés resta marcat per l’accent occitan (dich “accent dau miegjorn”), qu’es una caracteristica fòrta de nòstrei regions. La populacion èra d’aqueu temps majoritàriament bilinga. La literatura occitana contunha de se desvolopar ambé d’ecrivans coma Robèrt Lafònt e Pèire Pessamèssa, en Provença, Max Roqueta e Joan Bodon en Lengadòc, Bernat Manciet en Gasconha, Michèu Chapduèlh e Marcèla Delpastre en Lemosin, e ben d’autrei. D’una part, una grafia novèla, elaborada a partir de la lenga communa de l’Edat Mejana va permetre de melhorar la comprension entre lei dialèctes. D’autra part, leis autors occitans s’empararàn de totei lei subjècts dau monde modèrne, en parlant dei camps de trabalh en Alemanha, de la liberacion sexuala, de l’exòdi rurau, de la descolonisacion, mai tanben dau reculament de la lenga.

L’occitan uei : reculament, escòlas, Rap.
En efèc, despuei la fin deis annadas seissanta (un pauc pus d’ora en Provença), lei dròlles de parents parla-occitan aprenon pas mai la lenga de sei parents. Es la consequéncia d’un lòng trabalh de devalorisacion sociala de la lenga menat despuei lo sègle XIXen per leis institucions francesas, mai tanben la consequéncia de la diminucion de la populacion rurala (majoritàriament parla-occitan fins qu’a uei), que se vei cada còp mai coma una minoritat que se deu integrar au monde dei vilas, en oblidant fins qu’a sa lenga pròpria. La television regionala presenta ren qu’una oreta en occitan cada setmana (“Vaquí” en Provença, “Viure al Pais” en Lengadòc).

En reaccion se desvolopan d’escòlas bilingas (lei Calandretas), que jà mai de 1000 pichòts de 3 a 11 ans i son escolarisats. Leis enfants son l’enjòc principau per lo futur de nòstra lenga. Un setmanier (La Setmana) -entrepresa de pressa privada- n’es jà a sa tresena annada. Fau tanben citar una quantitat de revistas mensualas, coma Prouvenço d’Aro, Aquò d’Aquí, Occitans!, etc.

Enfin, un certan nombre de gropes musicaus se son emparats deis estiles recents coma lo Scat ò lo Raggamuffin (Massilia Sound System, Nux Vomica en Provença) per n’en faire au còp un instrument de valorisacion de la lenga e de pedagogia. Fau notar lo cas extremament interessant d’un estile de Rap tornamai inventat a partir dau mestissatge de musicas traditionalas occitana e brasilenca (The Fabulous Trobadors).

Per deman ?
Mai existisson encara fòrça resisténcias conscientas e inconscientas a l’utilisacion de l’occitan en Occitània. Lo futur de nòstra lenga depend donc de l’imatge positiva qu’aurà. Nos podètz ajudar a desvolopar aquesta imatge positiva en vos interessant sus plaça au Provençau, emai foguèsse en charrant d’aquò ai provençaus que rescontraretz. Per vos ajudar, vos prepausam un lexic toristic de basi.”

Artigo de Cristòu Stecòli et Matiàs Vandembòs

[2158]

22 Março, 2005 at 8:26 am

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (XI)

“Eu creio, Senhor, que não dei ainda aqui conta a Vossa Alteza da feição de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos e as setas compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá por- alguns, que creio que o capitão a Ela há-de enviar.

À quarta-feira não fomos em terra, porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. Eles acudiram à praia muitos, segundo das naus vimos, que seriam obra de trezentos, segundo Sancho de Tovar, que lá foi, disse.

Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degradado, a que o capitão ontem mandou que, em toda maneira, lá dormissem, volveram-sé já de noute, por eles não quererem que lá dormissem. E trouxeram papagaios verdes e outras aves pretas, quase como pegas, senão quanto tinham o bico branco e os rabos curtos.

E quando se Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam-se vir com ele alguns, mas ele não quis senão dous mancebos dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noute mui bem pensar e curar. E comeram toda vianda que lhes deram. E mandou-lhes fazer cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noute. E assim não foi mais esse dia que para escrever seja.

À quinta-feira, derradeiro d’Abril, comemos logo quase pela manhã e fomos em terra por, mais lenha e água. E, em querendo o capitão sair, desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dous hospedes. E, por ele não ter ainda comido, puseram-lhe toalhas e veio-lhe, vianda e comeu. Assentaram cada um dos hóspedes em sua cadeira e de tudo o que lhes deram comeram mui bem, especialmente lacão cozido, frio, e arroz. Não lhes deram, vinho, por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel e eles connosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta e, tanto que a tomou, meteu-a logo no beiço; e, porque se lhe não queria ter, deram-lhe uma pequena de cera vermelha e ele corregeu-lhe detrás seu adereço para se ter, e meteu-a no beiço assim revolta para cima. E vinha tão contente com ela, como se tivera uma grande jóia. E, tanto que saímos em terra foi-se logo com ela, que não apareceu aí mais.

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles e daí a pouco começaram de vir; e parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta. Traziam alguns deles arcos e setas e todos os deram por carapuças ou por qualquer cousa que lhes davam. Comiam connosco do que lhes dávamos e bebiam alguns dele vinho e outros o não podiam beber, mas parece-me que se lho avezarem que o beberão de boa vontade.

Andavam todos tão dispostos e tão bem feitos e galantes com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mui boas vontades, e levavam-na aos batéis. E andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nos andávamos entre eles.”

[2157]

21 Março, 2005 at 6:04 pm

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