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Diário do Booker

Este é o relato de uma missão impossível.

Uns dias depois de ser conhecida a shortlist do Man Booker Prize 2008, encomendei pela Amazon os seis livros finalistas. Objectivo: ler tudo antes da decisão do júri, a 14 de Outubro. Devorar os seis romances de enfiada e ir dizendo o que penso de cada um deles. Os entusiasmos, as desilusões, os pontos fortes e fracos de cada livro, os avanços e recuos das tramas narrativas, alguns excertos e, no fim, seis críticas que justificarão o meu veredicto, a minha escolha – coincidente ou não (veremos) com a do júri presidido por Michael Portillo.

Enfim, a ideia é fazer uma espécie de diário de leitura. Este diário de leitura.

José Mário Silva (Bibliotecário de Babel)

29 Setembro, 2008 at 8:55 am Deixe um comentário

"Rio das Flores" (V)

Concluindo como iniciei, “Rio das Flores” é uma obra ambiciosa, o que, associado à intensa promoção comercial de que beneficia, contribui para o elevar da fasquia a um nível porventura excessivamente elevado e eventualmente desfasado da ideia e objectivo que presidiu à sua escrita.

Trata-se de uma realização com amplos méritos, com inegável valor acrescentado – numa área e sob uma perspectiva ainda pouco exploradas -, que, como o próprio autor enfatiza, não é um livro de história, mas sim um romance histórico.

Num balanço final, a componente romance (e de “saga familiar”) acaba, na minha leitura (repetindo-me, também à luz da referida promoção de que tem sido alvo, tendo presentes as expectativas suscitadas), por ocupar uma parte algo excessiva da obra – muito centrada sobre a figura do protagonista e suas andanças – a que acresce um final desprovido de surpresa.

Sendo vasto o trabalho de contextualização histórica, peca ainda assim por visar vários cenários geo-políticos: se é brilhante a descrição de episódios da Guerra Civil de Espanha e pormenorizada a caracterização sócio-cultural do Brasil – e não obstante a sucessão de factos históricos que são relatados – esperar-se-ia mais (e maior relevância na trama) do enquadramento político de Portugal no período abarcado pelo livro, de 1915 a 1945, uma fase crucial que condicionaria decisivamente a história do século XX português.

Em última análise, é ao autor do livro que cabe a prerrogativa de seleccionar qual a mensagem que pretende transmitir; no caso, tendo como “pano de fundo” a envolvente histórica, terá entendido privilegiar a estória de vida do protagonista e seus mais próximos.

23 Novembro, 2007 at 8:10 am Deixe um comentário

"Rio das Flores" (IV)

Em busca de uma sempre difícil objectividade – não obstante acabar por tomar partido, de forma inequívoca, por uma das partes – o autor exponencia a dissensão política entre os irmãos, dando voz à perspectiva de Pedro, em diálogo de ruptura com Diogo:

«Tu gostas de Valmonte, mas não gostas da ideia de teres que defender a tua terra contra os teus inimigos. Gostas muito de brincar aos liberais e aos democratas, de ser muito compreensivo com os trabalhadores da herdade, mas, bem no fundo de ti, não gostas da ideia de que um dia eles não se contentem com isso e te queiram roubar a terra. Fazes muito gáudio em ser contra o Salazar e o Estado Novo, mas não gostarias de viver numa anarquia onde cada um não soubesse qual é o seu lugar e o teu não fosse o de uma vida confortável e despreocupada, com as mordomias correspondentes ao teu berço e à tua condição social e económica. Gostas muito do teu casamento e da tua família, mas desde que te dêem espaço para passares temporadas só para ti em Lisboa ou, melhor ainda, no Rio de Janeiro, a desempenhar o papel de que tu mais gostas: o de intelectual antifascista, culto e livre, moderno e cosmopolita, capaz de desembarcar de zeppelin e de ler jornais em quatro línguas. Mas o teu mundo só se aguenta, Diogo, porque há outros que pegam em armas e sujam as mãos e as consciências para defenderem o essencial dele. […] Eu, ao menos, lutei por aquilo em que acredito. Mas não te vi, nem do meu lado, nem ao menos do outro, Diogo! […] Podes crer que o teu papel foi bem mais fácil que o meu!».

Fatalmente atraído – como que por um qualquer estranho magnetismo – para o Brasil, onde as terras, com abundância de água, tinham um preço muito inferior ao praticado em Portugal, e os trabalhadores auferiam salários largas vezes inferiores, Diogo depara-se com o “lugar mais bonito que alguma vez vira à face da terra”, a Fazenda Águas Claras, junto ao Rio das Flores, nomes proféticos, correspondendo ao que, sem o saber de forma consciente, buscava. A 10 de Novembro de 1937, tornava-se dono de uma fazenda no Brasil…

Algum tempo depois, a pretexto da declaração de guerra – a 3 de Setembro de 1939 -, proclamada pela Inglaterra contra a Alemanha nazi, Diogo via-se retido no Brasil, sem poder viajar de forma segura para a Europa.

E assim se iria deixando ficar; ao mesmo tempo que criava e reforçava os laços à sua nova terra, mais se afastava de Portugal… e da família, com quem a troca de correspondência ia sendo cada vez mais espaçada.

22 Novembro, 2007 at 8:43 am 1 comentário

"Rio das Flores" (III)

O romance compreende ainda outras passagens de bom nível, como, por exemplo, a propósito da ascensão política de Salazar («Era um típico beirão, baixinho, desconfiado, sorrateiro, de voz melíflua, quase feminina, e falsa modéstia, que exibia aos quatro ventos»), que o autor sintetiza assim: «Sem “aspirar a tanto”, ficaria lá quarenta anos e, apesar das “limitações de ordem moral” que a sua natureza lhe impunha, mandou perseguir, prender e exilar e fechou os olhos a que a sua polícia política torturasse e até, em situações extremas, matasse os que se lhe opuseram. Sempre, sempre sustentado pelas Forças Armadas, cortejado pelos monárquicos e abençoado pela Santa Madre Igreja».

Síntese que retoma, mais adiante, a propósito do regime político que adoptaria o nome oficial de Estado Novo, criando o partido único, a União Nacional, no qual Pedro (o irmão de Diogo Ribera Flores) seria um dos primeiros a inscrever-se, logo aquando da sua chegada a Estremoz, em 1932, começando desde então a organizar reuniões “conspirativas” a propósito da situação política em Espanha, com o advento da República… que viriam a culminar num afastamento entre os dois irmãos, o qual contribuiria também para o novo rumo que Diogo seguiria na sua vida, a caminho do Brasil, assim se esquivando ao Portugal de Salazar.

A pretexto da necessidade do acompanhamento e orientação, por parte de Diogo (uma “vedeta”, chegado de balão, na sua viagem inaugural), dos seus negócios no Brasil, o autor apresenta-nos um painel descritivo da atmosfera que se vivia então no país irmão de além-Atlântico, caracterizando com detalhe o hotel em que começara por se alojar, os restaurantes, cafés e confeitarias onde se cruzavam políticos, intelectuais, viajantes, homens de negócios, espiões e jornalistas – assim aproveitando também para introduzir o contexto sócio-político brasileiro da época.

Surpreendido com a notícia de que o irmão Pedro se alistara nas hostes nacionalistas na Guerra Civil de Espanha, Diogo vê-se compelido a um interregno na sua estadia brasileira, e a regressar à herdade de Valmonte. Baixando a cortina sobre o cenário brasileiro, de imediato se abre uma outra a propósito da guerra espanhola, numa das secções mais conseguidas da obra, numa descrição de grande realismo e crueza, explorada ao longo de cerca de 50 páginas, com sequelas que perdurariam até final da narrativa.

21 Novembro, 2007 at 5:02 pm Deixe um comentário

"Rio das Flores" (II)

Num prometedor arranque, Miguel Sousa Tavares proporciona-nos páginas de elevado padrão, como as que nos introduzem o protagonista – Diogo Ascêncio Cortes Ribera Flores, nascido em 1900, filho de Manuel Custódio e neto de uma sevilhana – que começamos por encontrar em Sevilha, na sua iniciação à vida adulta, como intróito à Feira tauromáquica (“Partira com o pai para Sevilha com quinze anos e três meses de idade e regressara, treze dias depois, feito um homem“).

É com brilhantismo que nos é descrito o duelo na arena da Real Maestranza, naquele 30 de Setembro de 1915, entre duas figuras maiores do toureio a pé, José Gómez Ortega (conhecido por Joselito “El Gallo” ou “Gallito”) e Juan Belmonte, cujas admiráveis actuações conseguimos visualizar tal a imagética da escrita, consagrando os respectivos “domínio natural” e temple.

Tal como a força da imagem que decorre de trecho de um diálogo entre Diogo e o seu irmão mais novo Pedro – cujo pensamento político se situa nos antípodas, alinhado com o Estado Novo e a União Nacional, com passagem pela Guerra Civil de Espanha, ao lado dos Nacionalistas / Falangistas, combatendo os Republicanos -, quando confidencia: “Tenho medo de uma coisa que tu não temes: que, depois de conhecer a liberdade, de ter viajado e vivido em países livres, não me volte a habituar a viver de outra maneira. Tenho medo que a liberdade se torne um vício, enquanto que agora é apenas uma saudade“.

Ou, ainda, a descrição da viagem inaugural – a 1 de Abril de 1936 – do imponente Hindenburg, o dirigível que, a partir da Alemanha, conduz o protagonista à descoberta do fascínio do Brasil, com chegada à cidade maravilhosa do Rio de Janeiro – e, paralelamente, a uma viragem de 180º na sua vida.

E, também, noutro plano, a história de Luís Carlos Prestes, e suas iniciativas na luta contra o regime de Getúlio Vargas no Brasil.

20 Novembro, 2007 at 8:58 am Deixe um comentário

"Rio das Flores" (I)

Como ponto prévio às breves notas que aqui apresentarei a propósito de “Rio das Flores”, do forçoso cotejo deste livro com o mais recente romance de José Rodrigues dos Santos, é mister assinalar que se trata de obras cuja escrita se situa em patamares bastante diferentes, com evidente vantagem para a de Miguel Sousa Tavares.

Que – na sequência do êxito alcançado com “Equador” – procurava, com este novo livro, a consolidação e afirmação como romancista, permitindo-se passagens algo pretensiosas, de que recupero alguns trechos a título de exemplo:

«A mãe ficara na quinta, a vê-los partir da entrada da casa, às primeiras horas da manhã daquela quinta-feira do final de Setembro, ainda o sol mal dispersara a névoa suspensa sobre a charca em frente ao terreiro da casa, onde o primeiro restolhar das asas dos patos afastava os gritos nocturnos das corujas e das rãs.» (página 14)

«Uma mão invisível, vinda das montanhas por trás da cidade, tinha pegado nele como um náufrago à deriva e tinha-o feito seu refém, cativo para sempre da luz que magoava, do calor que entorpecia, da humidade que o prostrava de exaustão feliz.» (página 325)

«[…] voara sobre os mares e oceanos numa viagem onde o sonho e a ousadia da ciência se fundiam num impensável desafio aos deuses, desembarcara num país impossível, fora de todas as classificações e experiências, onde descobrira, com uma lucidez quase cruel, que a fronteira entre o juízo e a perdição é uma linha demasiado ténue» (página 462).

A vasta promoção comercial deste romance contribuiu – ainda com maior intensidade – para elevar as expectativas a níveis absolutamente inusuais em Portugal.

Dito isto, concluída a leitura do derradeiro capítulo do livro, o inevitável sentimento é de decepção. À medida que as páginas e capítulos se vão sucedendo, com variadas mutações de cenário – desde o Alentejo (Herdade de Valmonte, próximo de Estremoz) ao Brasil, passando por Lisboa, Espanha e, inclusivamente, pela Alemanha – ficamos sempre à espera de mais…

Em particular, no que respeita à contextualização histórica do romance – abarcando um período decisivo da história de Portugal, da Europa e do Mundo, desde o início do século XX (1915) até cerca de 1945 -, Miguel Sousa Tavares, visando construir uma obra de “grande fôlego”, acabaria, em minha opinião, por ser vítima dessa desmedida ambição; ter-se-á alongando excessivamente na acção romanesca, o que acabaria por lhe retirar margem para uma mais profunda caracterização dos diversos espaços geo-políticos que pretendia abordar (os períodos de ditadura em Portugal, Espanha, Alemanha e Brasil).

E, não obstante, tudo começara de uma forma absolutamente cativante, na Real Maestranza de Sevilha

19 Novembro, 2007 at 12:44 pm 1 comentário

"O Sétimo Selo" (V)

Com o reencontro com Filipe (que se especializara entretanto na área da Energia, em particular do Petróleo), Tomás é informado sobre o falhanço do Protocolo de Quioto – em que a maior parte dos países desenvolvidos assumira o compromisso de, até 2012, reduzir as emissões globais de dióxido de carbono para valores inferiores aos de 1990… nunca ratificado pelos EUA.

Tomando também conhecimento das previsões alarmistas de que o cruzar de uma determinada temperatura crítica poderá vir a desencadear fenómenos descontrolados, perdida a capacidade de auto-regulação da Terra.

Sendo ainda alertado para o efeito – que ignorava – do metano (presente por baixo do gelo da tundra da Sibéria) sobre o aquecimento global… chegando ao extremo de se falar mesmo de “extinção em massa”!

Concluindo com a estranha descontracção (apatia ou autismo?!) pública face ao aquecimento global, em contraponto ao pânico manifestado pelos peritos, Filipe colocaria a interrogação:

“Quando os cientistas do painel da ONU vieram a público e confirmaram que, nas próximas décadas, as tempestades vão ficar mais violentas, o deserto irá alastrar para mais de metade do planeta e o nível do mar vai subir uma dezena de metros ou mais, o que seria normal acontecer? Acho que a CNN teria de interromper a emissão com grande espalhafato, milhões de pessoas deveriam ter saído às ruas em terror a exigir mudanças imediatas na política energética, os dirigentes políticos teriam de vir à televisão anunciar medidas de emergência para enfrentar esta catástrofe”.

As aventuras romanescas prosseguiriam, ainda com passagem pela Austrália, desde Sydney ao Uluru… mas – à parte algumas curiosidades adicionais a propósito da exploração do petróleo (e as referências bibliográficas de apoio) – isso já pouco virá acrescentar de realmente útil a este livro.

9 Novembro, 2007 at 1:51 pm Deixe um comentário

"O Sétimo Selo" (IV)

E será Nadia a colocar Tomás a par das recentes evoluções climatológicas na Sibéria – com um aumento da temperatura média de 5 graus nos últimos 30 anos – com locais em que o gelo da tundra começa a derreter, surgindo a terra a descoberto, um fenómeno que não ocorria há milénios, permitindo especular sobre a possibilidade de deixar de haver gelo permanente no Pólo Norte antes de 2030.

Sublinhando a constatação de que – desde que em 1850 se iniciaram os registos de temperaturas – 11 dos 12 anos mais quentes ocorreram desde 1995!

Um aquecimento entre 1 e 6 graus, previsto para o século XXI (pelo Painel intergovernamental de cientistas criado pela ONU) – desencadeado pelo efeito de estufa provocado pelo dióxido de carbono libertado para a atmosfera, decorrente da queima de combustíveis fósseis -, resultando num Verão permanente por toda a parte, com “secas cada vez mais graves, tempestades crescentemente violentas, incêndios florestais generalizados“… culminando inclusivamente no alastrar de doenças tropicais.

Tendência que conduz inevitavelmente à subida do nível do mar, com consequências igualmente desastrosas; a somar aos 17 centímetros de subida já verificada desde o início do século XX, bastarão mais cerca de 50 centímetros para que toda a Polinésia fique submersa… assim como parte do litoral português. Uma estimativa de subida que pode exceder os 4 metros, atingindo os 7 metros, faria com que muitas ilhas e parte da costa de todos os continentes ficassem também abaixo do nível da água. Mas com o alerta de que essa estimativa poderá vir ainda a ser largamente excedida pela realidade.

Situações agravadas com a crescente industrialização da China e da Índia, com um modelo de desenvolvimento igualmente assente nos combustíveis fósseis.

Um verdadeiro Apocalipse em perspectiva, para o qual urge – de uma vez por todas – tomar consciência!

9 Novembro, 2007 at 8:37 am Deixe um comentário

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