Posts filed under ‘Livro do mês’

"O Sétimo Selo" (I)

A obra literária de José Rodrigues dos Santos apresenta uma característica transversal a todos os seus livros: desde os ensaios “Crónicas de Guerra” (2 volumes, “Da Crimeia a Dachau” e “De Saigão a Bagdade”), passando pelos romances, como “A Filha do Capitão” (tendo por temática a I Guerra Mundial), “O Codex 632” (elaborando sobre as origens de Cristóvão Colombo) ou “A Fórmula de Deus” (recorrendo a complexos conceitos de Física e Cosmologia, mesclando ciência com uma dimensão espiritual), a componente “didáctico-pedagógica” não deixa nunca de estar presente. Com todas estas obras, sempre aprendemos algo.

Necessariamente, assim teria de acontecer também com “O Sétimo Selo”, que – lamento, pela consideração e respeito que me merece o autor – me vejo compelido a qualificar como um romance falhado, que poderia – com vantagem para todos, leitores e autor (não obstante o inevitável prejuízo da vertente comercial) – ter resultado em novo ensaio em potencial, cujo conteúdo e mensagem só teria a ganhar em credibilidade caso fosse essa a forma adoptada.

Mais do que em qualquer dos seus anteriores romances, ressalta em “O Sétimo Selo” a escrita “ao correr da pena”, de um jacto, procurando explorar o “filão Dan Brown” (revelando-se inevitável a associação do prólogo com o início de “A Conspiração”), com o eterno herói Tomás de Noronha (perito em criptanálise e línguas antigas – ficamos sem perceber exactamente qual o fundamento do seu recrutamento para esta missão, tão frágil se revela o argumento da charada do “número da besta”, o mítico 666) envolvido em novas e rocambolescas aventuras, vivendo uma espécie de romance (?) – aqui, perfeitamente “colado com cuspo” – com uma sempre remodelada (e algo inverosímil) co-protagonista.

Não obstante as cerca de 500 páginas deste livro, a sensação que perdura é a de um apressado corropio, desde Coimbra à Austrália, passando pela Antárctida, Viena e Sibéria.

Pretendendo embrulhar a vital mensagem do aquecimento global e dos efeitos da exploração e consumo de petróleo como força motriz do desenvolvimento económico da nossa civilização numa obra de cariz romanesco, acabam por ressaltar, tendo de ser sublinhadas, as suas inconsistências ou incongruências, de que são mais cabais exemplos a (em minha opinião) infeliz forma como é introduzida na trama a questão geriátrica (com o protagonista, a assumir a perfídia de, traiçoeiramente, internar a mãe num lar de idosos), para além da também falida pressuposta relação romântica do protagonista.

7 Novembro, 2007 at 1:34 pm 4 comentários

Crítica literária

Num país de 10 milhões de treinadores de bancada, campeões do achismo, evoluímos agora, na senda de uma trajectória darwinista, assumindo novas funções como críticos literários.

Fosse eu escritor – em particular, partilhando esse mais ou menos novel estatuto com o de figura mediática – confesso que seria porventura capaz de me sentir algo intimidado com as facas aguçadas dessa mole de novos especialistas, prontas a escrutinar (talvez a palavra mais apropriada fosse dissecar) a qualidade dos textos destes novos escribas… que – pasme-se – chegam inclusivamente ao extremo de elaborar (falo da nova classe de críticos) sobre obras que declaram não ter lido, nem ter intenção de ler (exclamação!).

Vem este arrazoado a propósito – inevitavelmente – das recentes publicações da autoria de José Rodrigues dos Santos e Miguel Sousa Tavares.

Para termos uma ideia do ponto a que chegámos, do actual estado da arte, haverá memória de um autor escrever – preto no branco, sem papas na língua – no próprio livro que acaba de lançar: “Aos leitores garanto a seriedade do relato histórico, aos caçadores de erros a inutilidade final do seu esforço”?

Por mim, aqui manifesto igualmente o atrevimento de me vir arrogar o direito a integrar também esse regimento de novos críticos.

Porque se trata de obras que me despertam interesse; que, necessariamente, terão méritos, virtudes e defeitos; cujo mediatismo autoral e natureza comercial (e respectivas campanhas de marketing associadas, que fatalmente delas farão autênticos best-sellers) não lhes conferirá, à partida, nem um selo de garantia de qualidade, nem um carimbo prévio de reprovação.

Porque as li.

A seguir (ainda hoje), começando por “O Sétimo Selo”.

7 Novembro, 2007 at 8:46 am Deixe um comentário

10 (+ 2) LIVROS

Correspondendo ao desafio do Mário Pires (Retorta), alguns (“10 + 2”) dos livros “que mudaram a minha vida”:

Miguel Strogoff, de Jules Verne (o primeiro livro que comprei com o “meu dinheiro” – por 45$00! -, em 1976, que, naturalmente, conservo ainda hoje)

O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos (uma inesquecível história de ternura e amizade)

Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado (que li pela primeira vez aos 11 anos; adquirido com um “cheque-brinde” de Natal que deveria ser normalmente destinado a comprar “brinquedos”)

A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós (livro com o qual comecei a “aprender a escrever” em português)

O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco (porque os Templários teriam “inevitavelmente” de fazer parte da minha vida – é como um deles que fui caracterizado pelo histórico Francisco Zambujal na caricatura do livro de curso…)

Mr. Vertigo, de Paul Auster (uma das “portas de entrada” para o meu autor preferido, que levaria a que, uma a uma, acabasse por adquirir quase todas as suas obras)

Equador, de Miguel Sousa Tavares (“responsável” pela criação deste blogue, acabando por dar origem – de facto, mesmo que por via indirecta – a “mudanças na minha vida”)

Terra Sonâmbula, de Mia Couto (um autor admirável, que vem abrindo “novos horizontes” à língua portuguesa)

Meia-Noite ou o Princípio do Mundo, de Richard Zimler (outro dos meus autores favoritos…)

O Clube Dumas, de Arturo Pérez Reverte (uma escolha por “motivos pessoais”, passe a redundância… um livro lido “em trânsito”, entre Alfas e Inter-Cidades)

O Afinador de Pianos, de Daniel Mason (idem)

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (uma obra de tal forma empolgante, com uma singular técnica narrativa, prendendo o leitor da primeira à última página… que a li numa versão em francês, comprada em Barcelona, cidade que constitui o cenário principal da trama do livro!)

Cap, Catarina, Maria Árvore, Partilhas e Zé (ex-Eufigénio), se vos der prazer e se vos divertir, podem “pegar na corrente”…

13 Setembro, 2007 at 8:40 am 8 comentários

MPB.pt (VI) – CAETANO VELOSO (1 de Agosto de 2006)

“Eu gostava das notícias que chegavam da Suécia por causa da liberdade sexual e da experiência da social-democracia, que eu achava superior àquele negócio do comunismo da União Soviética. Meus amigos comunistas ficavam contra, porque diziam que aquilo era uma contrafacção burguesa para impedir o avanço da revolução. Eu sempre fui desconfiado desse pessoal. […]

Porque é uma língua muito pouco conhecida, cuja literatura é muito pouco conhecida fora do âmbito da própria língua portuguesa. Cuja vida cultural é pouco conhecida fora desse âmbito. Por isso é um gueto. É fechada. A vida da língua portuguesa é fechada ao mundo de língua portuguesa. Não é como o inglês ou o espanhol. Não é tão fechada quanto o esloveno, porque o esloveno é falado por um grupo pequeníssimo de pessoas, apenas na Eslovénia. O português é falado em Portugal, um país pequeno mas que fez grandes viagens. Ao fazê-las, levou a língua daqui, dessa ponta da Península Ibérica para várias partes do mundo. Uma delas é o imenso Brasil. […]

Eu não costumo ouvir os meus discos. Nem antigos, nem novos. Eu não gosto muito de me ouvir, não. Eu gosto de cantar, mas não gosto de me ouvir. Sempre acho que não saiu bem, que as gravações não são boas. Eu podia ter feito discos muito melhores. Podia ter feito, realmente, discos bons. […]

Eu me reconheço muito mais nas minhas fotos de antigamente do que nas de hoje. Nas de hoje eu passo o olho rápido. Não gosto nem de ver. Eu gostava quando eu era jovem. Ainda gosto. Acho bonito, sexy, atraente, interessante. Tudo. […]

Tenho a impressão de que todo o mundo – acho que Sartre dizia isso – quando pensa em si mesmo, como alguém, é um jovem adulto. Entendeu? Ninguém pensa em si mesmo como um bebé, que foi, ou como um velhinho, que vai ficando. Ninguém. Não é a pessoa.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

27 Julho, 2007 at 8:35 am Deixe um comentário

MPB.pt (V) – MILTON NASCIMENTO (8 de Maio de 2005)

“Bom, não era usual uma família branca pegar um menino negro para criar. Mas pegavam menina. Para ser criada. Eles davam instrução até um certo ano de escola e depois a menina ficava sendo empregada. […]

Eu sendo homem, na cidade ninguém entendeu nada. Porque é que eles tinham me adoptado? Só que na nossa casa nunca teve distinção de nada. Nem de cor. Nós somos três filhos adoptivos. Minha mãe não podia ter filho porque no primeiro que ela teve houve um erro médico que matou a criança e quase matou ela. Aí, ela adoptou três e, de repente, ficou grávida da mais nova. […]

Essa família é a coisa mais linda que Deus me deu. Acho que estou aqui, hoje, por causa deles. […]

Lá, em Três Pontas, em Minas, onde fui criado, tinha preconceito. Não na minha família, mas nos habitantes. […]

Agora, uma coisa mais incrível é que tinha mais preconceito de negro contra negro. Contra mim. Porque eu andava bem vestido, estudava. […]

Sei que meu pai brigou com muita gente por minha causa e minha mãe sofreu muito por minha causa. O pessoal falava: para quê adoptar um crioulinho que mais tarde, quando precisarem dele, não vai querer nem saber de vocês; quando ele crescer vai pegar o rumo e esquecer de vocês. Isso é uma coisa que jogavam na minha mãe. Não foi legal.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

26 Julho, 2007 at 8:33 am 2 comentários

MPB.pt (IV) – MARIA BETHÂNIA (7 de Janeiro de 2002)

“No meu caso, humildemente, utilizo a minha voz para cantar para o meu povo. Para viajar com a história do meu povo, da minha região, fora da minha região. Do meu Brasil. Sou uma cantora popular, esse é o grande orgulho que eu tenho. Mas não sou dona dessa voz. Ela mora em mim. Foi Deus que botou ela aqui e ela mora em mim. Obviamente que, fora de todo o prazer, de todo o delírio, tem também o compromisso, a seriedade de cuidar. Aprender a respirar, a não magoá-la. Cuidar dela como se cuida de um bebé. […]

Caetano fala uma coisa assim: de perto ninguém é muito fácil, ninguém é muito normal. Eu não tenho carácter difícil, sou muito simples. Gosto muito da simplicidade. O que eu detesto é mentira. Enganar as pessoas, para mim, é a pior coisa. […]

Quando nós reunimos no meu camarim, quinze minutos antes de ir para o palco, não precisa rezar uma ave-maria. Nada disso. Nós damos as mãos, fechamos os olhos, nos concentramos e nos desejamos mutuamente força, energia, boa vibração. Normalmente falo. Faço uma pequena prelecção para eles se lembrarem do ofício. Para agradecerem o ofício que têm. Para poderem se expressar com a música, essa coisa sagrada, abstracta, mágica. A música é que rege o mundo. Um dia o maestro pode falar uma coisa, eu posso dizer uma frase do Nietzsche, um verso da Sofia de Mello Breyner. Depende. […]

Quando eu gravei o Roberto Carlos com o Erasmo também me disseram que era uma obra mais popular. Olha, é um privilégio. São dos compositores do Brasil que mais tocam o coração dos brasileiros. Isso me interessa. Sou uma cantora popular. Quero chegar nesse coração. Me comovo. Sou um coração que palpita com as canções dele. Faço parte desse povo. Os críticos é que ficaram magoados. Sentiram-se ultrajados. Sentiram-se desrespeitados. Um artista que eles vivem dizendo que é do bem, como é que grava um cara que eles não gostam? Gravo porque eu sou livre.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

25 Julho, 2007 at 8:34 am Deixe um comentário

MPB.pt (III) – CHICO BUARQUE (2 de Junho de 2006)

“Não sou uma unanimidade. Eu sou apreciado por muitos brasileiros e detestado por outros. Devo dar constantemente motivos para isso. De cada vez que eu estou a trabalhar, a lançar um disco, a lançar um livro, ganho simpatias e antipatias: amizades desconhecidas, para mim, e inimizades que não sei muito bem de onde vêm. Isso é natural. Um artista não pode pensar em agradar a todos. Principalmente estando em actividade, estando vivo. Depois que morre fica um pouco mais próximo disse que se chamou de unanimidade, que é o cemitério… A unanimidade é o cemitério dos artistas. Essa frase, de qualquer forma, não é generosa. Pelo contrário. Se alguém diz: «aquele sujeito é uma unanimidade», é o primeiro passo para alguém levantar a mão e dizer: «é o cacete! Eu acho ele uma porcaria». Enfim, é óbvio que não existe isso, nem poderia existir. […]

Olha, sinceramente, eu não vivo preocupado com isso, com o facto de ser ou não ser famoso. Eu gosto de viver para trabalhar. Trabalho para fazer as coisas que eu necessito fazer, que eu amo fazer: as músicas, canções. Enquanto estou a fazer essas músicas, me sinto vivo e actuante. Depois que elas estão feitas, é claro que você gosta de ser apreciado. Quando lança um disco ou um romance – o que seja – ganha admiradores e detractores. Você gosta que a sua música seja apreciada. Agora, não pode ficar pensando nisso quando cria – pensando a quem é que você vai agradar – nem depois que cria – ficar pensando: a quem é que eu agradei? Isso só serve para inchar a pessoa. Você não cria mais nada, fica satisfeito consigo próprio. Isso é uma bobagem. O artista tem que pensar em criar, sempre. […]

Há, sem dúvida, menos interesse do que havia pela música mesmo, pela cultura. As pessoas se preocupam menos com isso hoje do que há trinta anos atrás. Mas eu também não sou saudosista. Não sou de ficar reclamando disto e daquilo, não. Às vezes, fico lamentando que um garoto de vinte anos tenha hoje menos interesse em ler Dostoievski do que tinha a minha geração. Eu não era um garoto esquisito, um garoto estranho. Eu convivia com as pessoas da minha idade e gostava disto e daquilo. É uma pena que hoje eles não conheçam, porque isso faria bem a eles. […]

Gosto do mundo em que vivo. Eu vivo a dizer: isto aqui está pior e não sei o quê mas eu quero o mundo como ele é. Se eu pudesse alterar, modificar alguma coisa, eu o faria. Não posso. Eu posso dizer: isso está pior do que estava antes e tal, mas eu gosto da vida e quero viver. Cada vez mais. Não sinto que a idade me pese. Não sinto, na verdade, a idade que eu tenho. Aliás, acho uma injustiça ter sessenta e dois anos. Acho isso uma safadeza.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

24 Julho, 2007 at 8:39 am Deixe um comentário

MPB.pt (II) – TOM ZÉ (3 de Maio de 2006)

“A vida brasileira não me aceita porque eu sou da roça, no Brasil. A coisa da roça no Brasil é que tem a ver com a vida de vanguarda de Nova Iorque. […] É como eu digo naquela canção: «eu estou te explicando / pra te confundir / tou te confundindo / pra te esclarecer». […]

Naquele tempo, criança não era consumidor nem essa autoridade que manda nos pais, hoje. Criança era um investimento da família e, logo que podia, começava a trabalhar na família. Eu estava na loja, com dez anos, abrindo tecido, medindo a fazenda, cortando e vendendo. Aí, tomei contacto com uma coisa que eu não sabia que existia: a língua do povo da roça. A língua que Portugal incubou e deixou incrustada no nordeste durante quatro séculos e que aquele povo cultivava ainda. Aquele povo ficou miserável, analfabeto, desgraçado, mas aquele povo tinha um amor imenso à cultura de seus avós, à cultura moçárabe, e conservou essa cultura na língua. […]

O nordeste vive de três alimentos sem água, desidratados: a carne seca, a farinha de mandioca e o ritmo. Sendo que o ritmo é o que faz o nordestino ficar em pé. […]

Meu pai era um homem pobre. Era um marreteiro. Não sei como se chama aqui: que vende no meio da rua… […] Um vendedor ambulante pobre. Em 1925, ele tirou a sorte grande da lotaria federal. Eram cinco contos de réis. […] Bom, não é que mudou a minha vida: isso fez eu nascer. Se ele não tivesse cinco contos de réis para botar uma loja, ele não podia nem se aproximar da minha mãe, que era filha do coronel Pompílio Santana. Ele só pôde se casar com minha mãe porque passou a ter outra classe social, outra vida. Minha mãe era de uma família estabelecida, Rica, digamos assim. Não tem rico, lá no interior. Tinha remediado. Então, minha mãe era remediada. […]

Um dia, não sei como, chegou um pote que era uma herança de um parente remoto de meu pai. […] Meu pai falou uma coisa: quer saber, vou dividir esse negócio, porque não quero perturbação na minha vida; avisa todo o mundo para que dentro de trinta dias todos os parentes vão na casa de fulano de tal (ele não tinha casa) e eu vou distribuir a botija. […] Então, ele ficou com quatro libras esterlinas. Ia saindo de casa com elas na mão e aí o vendedor de bilhetes, que vinha de Feira de Santana, passou na hora e disse: não quer comprar aqui? Tem um número lindo: 0549. […]

Mas é a verdade. Uma coisa fantástica. Quando meu pai me contou isso, ele já estava para morrer. Eu falei: puta! Mas que história, meu pai. Comprar o bilhete da lotaria com o dinheiro da herança dividida. Caramba!”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

23 Julho, 2007 at 1:58 pm Deixe um comentário

MPB.pt (I)

Uma obra que reúne – em texto e em áudio (!) – ideias, pensamentos e histórias contadas de viva voz por nomes como Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Ivan Lins, Maria Rita, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Tom Zé, Lenine, Chico César, Edu Lobo, Vanessa da Mata, Egberto Gismonti e Ney Matogrosso, é, necessariamente, obrigatória!

Quando a esse facto se alia a qualidade e oportunidade da intervenção de um grande entrevistador/conversador como é Carlos Vaz Marques (lançando “deixas”, puxando pelo interlocutor, deixando-o “espraiar-se”, sem cercear as suas “divagações”, antes delas tirando partido para enriquecer a conversa), o que resulta é um áudio-livro – MPB.pt (com base em entrevistas do programa de rádio da TSF, “Pessoal e… Transmissível”) – que constitui um singular repertório de diálogos com alguns dos grandes protagonistas da Música Popular Brasileira.

Para “abrir o apetite”, começo por aqui recuperar alguns deliciosos excertos:

Hermeto Pascoal (8 de Outubro de 2005)

“O corpo da gente é o instrumento mais perfeito. Porque é ele justamente que toca todos os instrumentos. É ele que mexe com todos os instrumentos. Eu, no futuro, logo, logo, não vai demorar muito, vou fazer um CD e o nome vai ser o seguinte: Eu e Eu. […] Mais nada. Até bater com os pés no chão, eu não vou bater. Vou fazer tudo com o meu corpo. Vai ser muito louco. As mulheres não podem chegar. […] Tem lugar em que eu vou tocar nu. Eu não estou querendo emagrecer que é para usar a barriga. Como eu estou gordinho… Para ter som.”

Ivan Lins (21 de Março de 2005)

“No ano seguinte, eu estava dirigindo o meu pequeno carrinho na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, quando um disc jockey, na rádio, acabava de chegar dos Estados Unidos e gritava: novidade! Novidade! Olha, a Fitzgerald grava o nosso grande Ivan Lins. Botou e eu parei o carro. Quase engarrafei o tráfego porque eu literalmente parei de dirigir, no meio da rua, e fiquei ouvindo. Atrás de mim, aquela buzinada toda. Eu não quero saber de buzinada. Eu quero é ouvir a Ella Fitzgerald.”

Carlinhos Brown (26 de Maio de 2003)

“Foi numa festa. Eu, de repente, fui levado por uns amigos. Aquilo era na parte mais alta do bairro, uma parte de melhor poder aquisitivo. Eu tinha comprado uma roupa nova, que inclusive nem dava direito em mim. Comprei errado. Aí, eu entro no salão e começo a dançar com os amigos. O dono da festa é que não gostou. E disse: o que é que esses browns querem daqui? E eu disse: brown? Mas eu não sou brown. Aí, os meus amigos começaram a rir. Viram que eu não gostei da brincadeira… Disse: vou me embora, realmente; eu já não fui um convidado da festa, fui levado pelos meus amigos.”

Lenine (28 de Setembro de 2005)

“Até porque ele dizia o seguinte: até aos oito anos de idade a minha participação como pai é ínfima; a partir dos oito anos a minha presença vai-se fazer mais presente. A primeira coisa que ele fazia, quando nós fazíamos oito anos, era dizer: olha, existe mais do que uma conexão com o divino; até aos oito anos de idade vocês foram com sua mãe porque eu acredito que têm uma ligação uterina e não dá para competir com ela; a partir de agora vocês têm opção, vocês querem se conectar com o divino indo na missa com mamãe ou ficando em casa com papai ouvindo música?”

Ney Matogrosso (29 de Janeiro de 2003 / 22 de Setembro de 2004)

“Olha, eu na minha vida real, no meu quotidiano, não sinto a menor necessidade de chamar a atenção sobre a minha pessoa, de ser observado, que prestem atenção a mim. Não. Muito pelo contrário. Eu prefiro observar a ser observado.”

Tom Zé (3 de Maio de 2006)

“Foi por causa de Renato, um amigo meu, que eu me meti em música. Ele me dizia sempre coisas estratosféricas, coisas que não eram da lógica comum. Coisas, digamos, portuguesas. Gostam de fazer brincadeiras sobre os portugueses porque os portugueses não têm a lógica comum. É justamente por isso que é um povo curioso. Renato gostava de me dizer coisas portuguesas, coisas que não tinham lógica cartesiana. Foi por causa dele que eu fui começando a pensar um mundo não aristotélico. Aí, um dia, ele falou: Tom Zé, agora toco violão, não toco mais flauta. E aí tocou. Aquele contraponto da primeira espécie – em que a voz faz dó, si, dó, ré e o violão faz dó, si, lá, sol – me fisgou, me fez perder a noção de espaço, de tempo. Me jogou, realmente, num mundo de relatividade einsteiniana. Quando voltei ao planeta Terra, depois, o meu primeiro pensamento foi: eu quero tocar violão.”

Ainda subsistirá alguma dúvida de que se trata de um livro absolutamente imperdível?

23 Julho, 2007 at 8:47 am Deixe um comentário

O CODEX ARQUIMEDES (V)

O Stomachion

Trata-se de uma espécie de puzzle – conhecido como a “Caixa de Arquimedes” –, em que 14 peças (polígonos de 3, 4 ou 5 lados) formam um quadrado, no que foi durante séculos entendido como um mero jogo. Mas revelar-se-ia bem mais que isso…

Arquimedes estudara as medidas das várias peças, investigando os seus ângulos, para descobrir como poderiam ser unidas (formando uma linha recta, isto é, unidas a 180 graus).

O Stomachion era afinal uma forma de estudar as diferentes maneiras como as figuras podiam ser combinadas, fundando a combinatória (associada à teoria das probabilidades – que apenas no século XVII viria a ser desenvolvida na Europa), o que se traduziria – em Dezembro de 2003 – numa extraordinária revelação para a ciência, propiciada pelo Palimpsesto Arquimedes!

Quantas maneiras poderia haver?

Os matemáticos encarregues de estudar a questão começariam por chegar à conclusão que, inevitavelmente – para que fosse possível respeitar a forma global do quadrado –, as duas peças mais à esquerda não poderiam ser separadas, pelo que se poderiam considerar como se de apenas uma peça se tratasse.

O mesmo raciocínio se aplica a outros 2 pares de peças, reduzindo-se assim o “quebra-cabeças” a apenas 11 peças “efectivas”, em lugar das 14.

Um cientista informático viria a descobrir uma forma de definir o problema em termos de algoritmos informáticos, “descrevendo” ao computador como formar o quadrado, com um programa que simulava todas as combinações possíveis de peças, de forma a verificar as que teriam correspondência, permitindo assim efectuar a contagem das possibilidades correctas. A sua solução seria também validada por outros cientistas e investigadores, com base em fórmulas matemáticas – não obstante não ser possível demonstrar que Arquimedes tivesse efectivamente concluído este cálculo.

Decorrendo de 24 “famílias” básicas de agrupamentos, foram identificadas 536 “soluções básicas”, cada uma das quais podendo gerar 32 “rotações”: 536 x 32 = 17 152!

Concluía-se assim que há 17 152 modos diferentes de combinar as 14 peças, formando o quadrado Stomachion!

20 Julho, 2007 at 8:31 am Deixe um comentário

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