MPB.pt (I)

23 Julho, 2007 at 8:47 am Deixe um comentário

Uma obra que reúne – em texto e em áudio (!) – ideias, pensamentos e histórias contadas de viva voz por nomes como Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Ivan Lins, Maria Rita, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Tom Zé, Lenine, Chico César, Edu Lobo, Vanessa da Mata, Egberto Gismonti e Ney Matogrosso, é, necessariamente, obrigatória!

Quando a esse facto se alia a qualidade e oportunidade da intervenção de um grande entrevistador/conversador como é Carlos Vaz Marques (lançando “deixas”, puxando pelo interlocutor, deixando-o “espraiar-se”, sem cercear as suas “divagações”, antes delas tirando partido para enriquecer a conversa), o que resulta é um áudio-livro – MPB.pt (com base em entrevistas do programa de rádio da TSF, “Pessoal e… Transmissível”) – que constitui um singular repertório de diálogos com alguns dos grandes protagonistas da Música Popular Brasileira.

Para “abrir o apetite”, começo por aqui recuperar alguns deliciosos excertos:

Hermeto Pascoal (8 de Outubro de 2005)

“O corpo da gente é o instrumento mais perfeito. Porque é ele justamente que toca todos os instrumentos. É ele que mexe com todos os instrumentos. Eu, no futuro, logo, logo, não vai demorar muito, vou fazer um CD e o nome vai ser o seguinte: Eu e Eu. […] Mais nada. Até bater com os pés no chão, eu não vou bater. Vou fazer tudo com o meu corpo. Vai ser muito louco. As mulheres não podem chegar. […] Tem lugar em que eu vou tocar nu. Eu não estou querendo emagrecer que é para usar a barriga. Como eu estou gordinho… Para ter som.”

Ivan Lins (21 de Março de 2005)

“No ano seguinte, eu estava dirigindo o meu pequeno carrinho na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, quando um disc jockey, na rádio, acabava de chegar dos Estados Unidos e gritava: novidade! Novidade! Olha, a Fitzgerald grava o nosso grande Ivan Lins. Botou e eu parei o carro. Quase engarrafei o tráfego porque eu literalmente parei de dirigir, no meio da rua, e fiquei ouvindo. Atrás de mim, aquela buzinada toda. Eu não quero saber de buzinada. Eu quero é ouvir a Ella Fitzgerald.”

Carlinhos Brown (26 de Maio de 2003)

“Foi numa festa. Eu, de repente, fui levado por uns amigos. Aquilo era na parte mais alta do bairro, uma parte de melhor poder aquisitivo. Eu tinha comprado uma roupa nova, que inclusive nem dava direito em mim. Comprei errado. Aí, eu entro no salão e começo a dançar com os amigos. O dono da festa é que não gostou. E disse: o que é que esses browns querem daqui? E eu disse: brown? Mas eu não sou brown. Aí, os meus amigos começaram a rir. Viram que eu não gostei da brincadeira… Disse: vou me embora, realmente; eu já não fui um convidado da festa, fui levado pelos meus amigos.”

Lenine (28 de Setembro de 2005)

“Até porque ele dizia o seguinte: até aos oito anos de idade a minha participação como pai é ínfima; a partir dos oito anos a minha presença vai-se fazer mais presente. A primeira coisa que ele fazia, quando nós fazíamos oito anos, era dizer: olha, existe mais do que uma conexão com o divino; até aos oito anos de idade vocês foram com sua mãe porque eu acredito que têm uma ligação uterina e não dá para competir com ela; a partir de agora vocês têm opção, vocês querem se conectar com o divino indo na missa com mamãe ou ficando em casa com papai ouvindo música?”

Ney Matogrosso (29 de Janeiro de 2003 / 22 de Setembro de 2004)

“Olha, eu na minha vida real, no meu quotidiano, não sinto a menor necessidade de chamar a atenção sobre a minha pessoa, de ser observado, que prestem atenção a mim. Não. Muito pelo contrário. Eu prefiro observar a ser observado.”

Tom Zé (3 de Maio de 2006)

“Foi por causa de Renato, um amigo meu, que eu me meti em música. Ele me dizia sempre coisas estratosféricas, coisas que não eram da lógica comum. Coisas, digamos, portuguesas. Gostam de fazer brincadeiras sobre os portugueses porque os portugueses não têm a lógica comum. É justamente por isso que é um povo curioso. Renato gostava de me dizer coisas portuguesas, coisas que não tinham lógica cartesiana. Foi por causa dele que eu fui começando a pensar um mundo não aristotélico. Aí, um dia, ele falou: Tom Zé, agora toco violão, não toco mais flauta. E aí tocou. Aquele contraponto da primeira espécie – em que a voz faz dó, si, dó, ré e o violão faz dó, si, lá, sol – me fisgou, me fez perder a noção de espaço, de tempo. Me jogou, realmente, num mundo de relatividade einsteiniana. Quando voltei ao planeta Terra, depois, o meu primeiro pensamento foi: eu quero tocar violão.”

Ainda subsistirá alguma dúvida de que se trata de um livro absolutamente imperdível?

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ARGENTINA CAMPEÃ MUNDIAL FUTEBOL SUB-20 MPB.pt (II) – TOM ZÉ (3 de Maio de 2006)

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