Archive for 23 Julho, 2007

UNIÃO EUROPEIA – PROJECTO DE TRATADO REFORMADOR ONLINE

Encontra-se já disponível para consulta onlineProjecto de Tratado Reformador da União Europeia, na sua versão original, em francês.

Destaque para os artigos 9º – Instituições da União (pág. 10 a 16); 10º – Cooperações reforçadas (pág. 17 a 20); 33º – Procedimentos de revisão dos Tratados (pág. 34 a 36); 35º – Abandono voluntário da União (pág. 36); 269º – Recursos próprios da União (pág. 130 – prevendo a possibilidade de estabelecimento de novas categorias de fundos próprios, abrindo caminho a um eventual imposto europeu, subordinado à aprovação dos Estados-membros).

23 Julho, 2007 at 7:34 pm 1 comentário

MPB.pt (II) – TOM ZÉ (3 de Maio de 2006)

“A vida brasileira não me aceita porque eu sou da roça, no Brasil. A coisa da roça no Brasil é que tem a ver com a vida de vanguarda de Nova Iorque. […] É como eu digo naquela canção: «eu estou te explicando / pra te confundir / tou te confundindo / pra te esclarecer». […]

Naquele tempo, criança não era consumidor nem essa autoridade que manda nos pais, hoje. Criança era um investimento da família e, logo que podia, começava a trabalhar na família. Eu estava na loja, com dez anos, abrindo tecido, medindo a fazenda, cortando e vendendo. Aí, tomei contacto com uma coisa que eu não sabia que existia: a língua do povo da roça. A língua que Portugal incubou e deixou incrustada no nordeste durante quatro séculos e que aquele povo cultivava ainda. Aquele povo ficou miserável, analfabeto, desgraçado, mas aquele povo tinha um amor imenso à cultura de seus avós, à cultura moçárabe, e conservou essa cultura na língua. […]

O nordeste vive de três alimentos sem água, desidratados: a carne seca, a farinha de mandioca e o ritmo. Sendo que o ritmo é o que faz o nordestino ficar em pé. […]

Meu pai era um homem pobre. Era um marreteiro. Não sei como se chama aqui: que vende no meio da rua… […] Um vendedor ambulante pobre. Em 1925, ele tirou a sorte grande da lotaria federal. Eram cinco contos de réis. […] Bom, não é que mudou a minha vida: isso fez eu nascer. Se ele não tivesse cinco contos de réis para botar uma loja, ele não podia nem se aproximar da minha mãe, que era filha do coronel Pompílio Santana. Ele só pôde se casar com minha mãe porque passou a ter outra classe social, outra vida. Minha mãe era de uma família estabelecida, Rica, digamos assim. Não tem rico, lá no interior. Tinha remediado. Então, minha mãe era remediada. […]

Um dia, não sei como, chegou um pote que era uma herança de um parente remoto de meu pai. […] Meu pai falou uma coisa: quer saber, vou dividir esse negócio, porque não quero perturbação na minha vida; avisa todo o mundo para que dentro de trinta dias todos os parentes vão na casa de fulano de tal (ele não tinha casa) e eu vou distribuir a botija. […] Então, ele ficou com quatro libras esterlinas. Ia saindo de casa com elas na mão e aí o vendedor de bilhetes, que vinha de Feira de Santana, passou na hora e disse: não quer comprar aqui? Tem um número lindo: 0549. […]

Mas é a verdade. Uma coisa fantástica. Quando meu pai me contou isso, ele já estava para morrer. Eu falei: puta! Mas que história, meu pai. Comprar o bilhete da lotaria com o dinheiro da herança dividida. Caramba!”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

23 Julho, 2007 at 1:58 pm Deixe um comentário

MPB.pt (I)

Uma obra que reúne – em texto e em áudio (!) – ideias, pensamentos e histórias contadas de viva voz por nomes como Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Ivan Lins, Maria Rita, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Tom Zé, Lenine, Chico César, Edu Lobo, Vanessa da Mata, Egberto Gismonti e Ney Matogrosso, é, necessariamente, obrigatória!

Quando a esse facto se alia a qualidade e oportunidade da intervenção de um grande entrevistador/conversador como é Carlos Vaz Marques (lançando “deixas”, puxando pelo interlocutor, deixando-o “espraiar-se”, sem cercear as suas “divagações”, antes delas tirando partido para enriquecer a conversa), o que resulta é um áudio-livro – MPB.pt (com base em entrevistas do programa de rádio da TSF, “Pessoal e… Transmissível”) – que constitui um singular repertório de diálogos com alguns dos grandes protagonistas da Música Popular Brasileira.

Para “abrir o apetite”, começo por aqui recuperar alguns deliciosos excertos:

Hermeto Pascoal (8 de Outubro de 2005)

“O corpo da gente é o instrumento mais perfeito. Porque é ele justamente que toca todos os instrumentos. É ele que mexe com todos os instrumentos. Eu, no futuro, logo, logo, não vai demorar muito, vou fazer um CD e o nome vai ser o seguinte: Eu e Eu. […] Mais nada. Até bater com os pés no chão, eu não vou bater. Vou fazer tudo com o meu corpo. Vai ser muito louco. As mulheres não podem chegar. […] Tem lugar em que eu vou tocar nu. Eu não estou querendo emagrecer que é para usar a barriga. Como eu estou gordinho… Para ter som.”

Ivan Lins (21 de Março de 2005)

“No ano seguinte, eu estava dirigindo o meu pequeno carrinho na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, quando um disc jockey, na rádio, acabava de chegar dos Estados Unidos e gritava: novidade! Novidade! Olha, a Fitzgerald grava o nosso grande Ivan Lins. Botou e eu parei o carro. Quase engarrafei o tráfego porque eu literalmente parei de dirigir, no meio da rua, e fiquei ouvindo. Atrás de mim, aquela buzinada toda. Eu não quero saber de buzinada. Eu quero é ouvir a Ella Fitzgerald.”

Carlinhos Brown (26 de Maio de 2003)

“Foi numa festa. Eu, de repente, fui levado por uns amigos. Aquilo era na parte mais alta do bairro, uma parte de melhor poder aquisitivo. Eu tinha comprado uma roupa nova, que inclusive nem dava direito em mim. Comprei errado. Aí, eu entro no salão e começo a dançar com os amigos. O dono da festa é que não gostou. E disse: o que é que esses browns querem daqui? E eu disse: brown? Mas eu não sou brown. Aí, os meus amigos começaram a rir. Viram que eu não gostei da brincadeira… Disse: vou me embora, realmente; eu já não fui um convidado da festa, fui levado pelos meus amigos.”

Lenine (28 de Setembro de 2005)

“Até porque ele dizia o seguinte: até aos oito anos de idade a minha participação como pai é ínfima; a partir dos oito anos a minha presença vai-se fazer mais presente. A primeira coisa que ele fazia, quando nós fazíamos oito anos, era dizer: olha, existe mais do que uma conexão com o divino; até aos oito anos de idade vocês foram com sua mãe porque eu acredito que têm uma ligação uterina e não dá para competir com ela; a partir de agora vocês têm opção, vocês querem se conectar com o divino indo na missa com mamãe ou ficando em casa com papai ouvindo música?”

Ney Matogrosso (29 de Janeiro de 2003 / 22 de Setembro de 2004)

“Olha, eu na minha vida real, no meu quotidiano, não sinto a menor necessidade de chamar a atenção sobre a minha pessoa, de ser observado, que prestem atenção a mim. Não. Muito pelo contrário. Eu prefiro observar a ser observado.”

Tom Zé (3 de Maio de 2006)

“Foi por causa de Renato, um amigo meu, que eu me meti em música. Ele me dizia sempre coisas estratosféricas, coisas que não eram da lógica comum. Coisas, digamos, portuguesas. Gostam de fazer brincadeiras sobre os portugueses porque os portugueses não têm a lógica comum. É justamente por isso que é um povo curioso. Renato gostava de me dizer coisas portuguesas, coisas que não tinham lógica cartesiana. Foi por causa dele que eu fui começando a pensar um mundo não aristotélico. Aí, um dia, ele falou: Tom Zé, agora toco violão, não toco mais flauta. E aí tocou. Aquele contraponto da primeira espécie – em que a voz faz dó, si, dó, ré e o violão faz dó, si, lá, sol – me fisgou, me fez perder a noção de espaço, de tempo. Me jogou, realmente, num mundo de relatividade einsteiniana. Quando voltei ao planeta Terra, depois, o meu primeiro pensamento foi: eu quero tocar violão.”

Ainda subsistirá alguma dúvida de que se trata de um livro absolutamente imperdível?

23 Julho, 2007 at 8:47 am Deixe um comentário


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