Archive for 14 Março, 2005

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (VI)

“Enquanto estivemos à missa e à pregação, seriam na praia outra tanta gente pouco mais ou menos como os d’ontem, com seus arcos e setas, os quais andavam folgando e olhando-nos, e assentaram-se. E, despois d’acabada a missa, assentados nós à pregação, alevantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço.

E alguns deles se metiam em almadias, duas ou três, que aí tinham, as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra senão quanto podiam tomar pé. Acabada a pregação, moveu o capitão e todos para os batéis, com nossa bandeira alta; e embarcámos e fomos assim todos contra terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo Bartolomeu Dias em seu esquife, por mandado do capitão, diante, com um pau duma almadia, que lhes o mar levara, para lho dar, e nós todos, obra de tiro de pedra trás ele.

Como eles viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pusessem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra, e outros os não punham. Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não já que m’a mim parecesse que lhe tinham acatamento nem medo.

Este, que os assim andava afastando, trazia seu arco e setas e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos e espáduas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo; e os vazios com a barriga e estômago eram da sua própria cor. E a tintura era assim, vermelha que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias. E andava entre eles sem eles entenderem nada nele quanto a para lhe fazerem mal, senão quanto lhe davam cabaços d’água.

E acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao capitão e viemo-nos às naus a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem lhes dar mais opressão. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram. Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Foram alguns, em nós aí estando, buscar marisco e não no acharam.

E acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de bergões e d’amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E, tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por mandado do capitão-mor, com os quais se ele apartou e eu na companhia.

E perguntou assim a todos se nos parecia ser bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que agora nós podíamos saber, por irmos de nossa viagem.

E, entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. E nisto concluíram. E, tanto que a conclusão foi tomada, perguntou mais se seria bom tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza e deixar aqui por eles outros dous destes degradados.”

[2143]

14 Março, 2005 at 6:09 pm

LÍNGUAS MINORITÁRIAS NA EUROPA (XI)

O Catalão é principalmente falado na Catalunha, região no nordeste da Espanha, que constitui uma Comunidade Autonómica, aí sendo compreendido por cerca de 94 % da população (cerca de 5,5 milhões de pessoas) e falado por cerca de 4 milhões de pessoas (68 % da população). É também falado na Comunidade Valenciana e nas ilhas Baleares, para além do outro lado dos Pirinéus, já em território francês, alargando o número total de conhecedores do idioma a cerca de 7 milhões.

O domínio da língua tem aumentado rapidamente desde 1975 (apenas cerca de 81 % da população compreendia a língua no início dos anos 80), com particular realce para a população mais jovem (entre 10 e 19 anos).

O Catalão será mesmo a língua principal para cerca de 50 % das pessoas; face a 49 % para o Castelhano; de acordo com estudos, cerca de 54 % dos adultos utilizarão o Catalão em casa, 11 % falarão ambas as línguas e apenas 34 % utilizarão preferencialmente o Castelhano.

A língua teve origem cerca de 1130 (primeiro texto conhecido escrito em Catalão); da sua área original dos Pirinéus, o Catalão estendeu-se a sul, até Valência e as ilhas de Maiorca e Ibiza, assim como a cidade de Alghero na Sardenha italiana.

O reino da Catalunha e Aragão foi o embrião de uma monarquia constitucional desde o século XII. A “Generalitat de Catalunya” foi criada no século XIV. Desde a Idade Média, o Catalão era a língua de uso normal entre os reis de Aragão e Príncipes da Catalunha e os Reis de Maiorca e Valência. Com o casamento, em 1469, de Fernando de Aragão e de Isabel de Castela, os seus dois reinos uniram-se, passando a Catalunha a integrar a Espanha, altura em que o Catalão sofreu um declínio na vertente escrita, embora continuasse a gozar do estatuto de língua oficial.

Após a guerra da sucessão (1705-1715), a dinastia de Filipe V ocupou Barcelona, aboliu todas as instituições catalãs e impôs o Castelhano como única língua oficial, confinando o Catalão essencialmente ao uso oral.

Já no século XX, a proclamação da II República (em 1931) permitiria ao Catalão recuperar o seu estatuto de língua oficial, ao mesmo tempo que era restabelecida a Generalitat de Catalunya. Com Franco (entre 1939 e 1975), o processo de normalização do Catalão sofreu novo e longo compasso de espera.

Apenas com a introdução da democracia, a Catalunha foi constitucionalmente reconhecida como nação, reiniciando-se a normalização do uso do Catalão na administração pública.

A Constituição espanhola de 1978 tornou o Castelhano como língua oficial do Estado, enquanto que outras línguas têm também estatuto de língua oficial nas várias Comunidades Autonómicas, de acordo com os seus Estatutos Autonómicos; a saúde das várias línguas é considerada uma rica herança cultural que merece particular protecção e respeito.

O Catalão é hoje reconhecido pela União Europeia como língua oficial, tendo sido proposto que todos os textos da União deveriam ser também editados em Catalão.

Na Catalunha, a língua beneficia mesmo de uma discriminação positiva, uma vez que se impõe o seu conhecimento para acesso a determinados cargos de cariz público.

Links a consultar:
http://europa.eu.int/comm/education/policies/lang/languages/langmin/euromosaic/es51_en.html

[2142]

14 Março, 2005 at 8:22 am


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