"BLOGUES E LIVROS: CÚMPLICES OU RIVAIS?"

30 Junho, 2006 at 8:58 am 6 comentários

Sob o mote “Blogues e livros: cúmplices ou rivais?”, excelentemente apresentada e moderada pelo grande profissional que é Carlos Vaz Marques, realizou-se ontem na Casa Fernando Pessoa uma interessante sessão de debate, com a presença de Fernanda Câncio, Maria Antónia Oliveira, Eduardo Prado Coelho, Pedro Mexia e Vasco Santos.

Apresento de seguida algumas notas sobre os principais aspectos que pude reter de memória, num debate relativamente longo, principiando pouco depois das 21h30 e com termo já próximo da meia-noite.

A sessão teve início com a apresentação, por Vasco Santos (da editora Fenda), das suas recomendações literárias do mês de Junho, tendo havido oportunidade para referir a “McDonaldização” das livrarias, que reduzem a “vida útil” dos livros nos principais escaparates a escassas semanas. Seguiram-se as sugestões dos restantes participantes.

Ainda antes de entrar na “ordem do dia”, Maria Antónia Oliveira procedeu à pré-apresentação da biografia de Alexandre O’Neill, de sua autoria, que deverá ser lançada em Setembro, na “rentrée”, tendo inclusivamente lido as três páginas iniciais da obra, recuando a 1986 e à conjuntura à data do desaparecimento do poeta.

Sobre o debate propriamente dito, não obstante o seu interesse, seria provavelmente pouco plausível esperar que dele pudessem frutificar consensos, dadas as posições prévias assumidas por cada um dos participantes: quer Vasco Santos, quer Maria Antónia Oliveira pareceram não ter um conhecimento profundo da realidade; Fernanda Câncio já antecipara não imaginar a transposição para livro dos textos que publica no blogue; Pedro Mexia, um “blogger de referência”, editou já em livro uma selecção de textos publicados n’A Coluna Infame e no Dicionário do Diabo (“Fora do Mundo”); por fim, Eduardo Prado Coelho, com uma posição irredutível, de preservar a “pureza” do desconhecimento do fenómeno da blogosfera.

“Declaração de interesses”: é-me extremamente difícil, enquanto autor e leitor de blogues, compreender as posições que Eduardo Prado Coelho procurou defender. Basicamente, declarou não ser leitor de blogues, nem pretender vir a sê-lo, por uma razão simples: existem tantas alternativas disponíveis, que já nos tomam tanto tempo, que não haverá necessidade de estar a introduzir mais um elemento “estranho” nos seus hábitos de quotidiano (por exemplo, ver televisão entre as 20h e as 2 da manhã, ler o Expresso, Diário de Notícias e Público aos Sábados de manhã, …); o tempo disponível poderá ser aproveitado, com vantagem – defende o professor universitário, cronista e crítico literário –, nomeadamente com a leitura de obras de literatura.

Exposta amiúde a contradição pelo facto de, afirmando não ler blogues, parecer ter “opinião formada” sobre alguns deles, rechaçou tal asserção, alegando que o conhecimento que tem dos blogues deriva das citações publicadas no Diário de Notícias.

Com posições antagónicas e obviamente inconciliáveis em relação a Eduardo Prado Coelho, Pedro Mexia e Fernanda Câncio procuraram expor as “virtudes” da leitura de blogues.

Pedro Mexia começou por referir que a dicotomia blogues vs. jornais (ou “bloggers” vs. jornalistas) era uma falsa questão – pode colocar-se nos EUA, em que há “bloggers” que pretendem ser “alternativa” aos media tradicionais; em Portugal, não haverá nenhum blogue que se oriente pelos princípios éticos e deontológicos de um jornal… apesar de haver blogues sobre jornalismo e blogues de jornalistas.

O poeta e “blogger” perspectiva portanto os blogues mais como “cúmplices” dos livros, do que como “rivais”. Valoriza particularmente a possibilidade que vieram abrir da formação de comunidades de partilha de interesses e gostos literários, por exemplo, para além de terem dado a conhecer novos autores. Discorda claramente de Eduardo Prado Coelho, afirmando que na blogosfera se escreve bastante melhor que, em termos médios, nos jornais portugueses.

Sobre a transposição dos textos de blogues para livro, falou da dificuldade em “recontextualizar” o que, ao sair da plataforma técnica de edição de blogues (que beneficia dos “links”), fica algo descontextualizado ou “datado” pelo imediatismo dessa forma de escrita, muitas vezes reactiva a textos de outros “bloggers”.

Fernanda Câncio começou por explicar, a título de curiosidade, porque escrevia os seus textos no blogue em minúsculas (por uma questão prática, de rapidez, e por que não gosta do “uso abusivo” de maiúsculas).

Defendeu também que, não obstante o imediatismo e a instantaneidade da publicação, sem o período reflexivo que caracteriza outras formas de escrita, tal não significa necessariamente que a escrita não seja “pensada” (mesmo quando falamos, temos a capacidade de pensar e continuar, em paralelo, a articular ideias!…) e, sobretudo, reafirmou também a sua discordância com Eduardo Prado Coelho quanto à alegada falta de qualidade da escrita na blogosfera.

Pelo contrário, Pedro Mexia e Fernanda Câncio concordaram que os blogues possibilitam uma criatividade e tipo de expressão necessariamente ausente dos jornais, em particular a caracterizada pelos “posts” curtos, ou “aforismos”, na expressão de Pedro Mexia. Falar-se-ia também na “construção de uma personalidade própria” – que se pretenderia ver reconhecida como “positiva” – como uma motivação de alguns “bloggers”.

A dado momento, da audiência pareceu surgir a preocupação de os blogues serem a “porta de entrada” dos jovens para a leitura, o que poderia ser entendido como algo eventualmente nefasto; nesse momento, o debate chegou mesmo a perder “um pouco o pé”, quando se começou a amalgamar blogues, com a Internet em geral e… até com referência aos “videogames” (!). Fernanda Câncio esclareceria que não antevia haver efeitos prejudiciais (antes pelo contrário) decorrentes da leitura de blogues, como actividade complementar a qualquer outro tipo de leituras.

Sobre a possibilidade de publicação em livro, Fernanda Câncio afasta-a; o estilo de escrita adoptado é diverso da escrita literária, para além da dificuldade que decorre do facto de, muitas vezes, os textos se encontrarem “datados”, por se tratar da referida escrita “reactiva” ao que foi escrito por outros, ou relativamente a acontecimentos da actualidade.

Mais adiante, quando questionada sobre se Alexandre O’Neill poderia ser – caso vivesse nos dias de hoje – um “blogger”, Maria Antónia Oliveira referiu o “impedimento” de um biógrafo “transportar a vivência” do biografado para o futuro e, portanto, de o descontextualizar do período em que viveu.

Noutra intervenção da assistência, foi sublinhado o papel inovador dos blogues como uma forma inédita de expressão escrita, com a plataforma técnica a proporcionar o intercâmbio quase instantâneo de ideias. E de como alguns autores portugueses poderiam ter beneficiado das potencialidades da ferramenta, citando-se, por exemplo, Vergílio Ferreira.

A minha conclusão não pode ser outra senão a de dizer a todos os que possam estar na situação de “virgindade” que Eduardo Prado Coelho proclama em relação à blogosfera, que explorem este admirável mundo novo; a experiência de “chegar à blogosfera” pela primeira vez, nesse estado de “pureza”, é um momento singular, que, infelizmente, ninguém pode experimentar duas vezes.

P. S. Ver também notícia aqui.

Entry filed under: Blogosfera.

"LIVROS EM DESASSOSSEGO" MUNDIAL 2006 – "ANTEVISÃO"

6 comentários Add your own

  • 1. Partilhas  |  30 Junho, 2006 às 9:19 am

    Parabéns!
    Muitos muitos Parabéns!

    Ler-te… É como abrir o jornal… Só que aqui está tudo condensado… se “eles” soubessem, vinham conhecer-te…

    Responder
  • 2. João Norte  |  30 Junho, 2006 às 9:35 am

    Obrigado pelas informações e opiniões que nos deixa aqui.
    Não vou acrescentar muito ao que está dito, apdenas isto.
    Tenho um blogue há quase 3 anos, neste momento vou editar o primeiro livro “O Peso do Silêncio” blogues e livros são escritas diferentes que não colidem e muito menos retiram importâncio uns aos outros. Prado Coelho não conhece blogues.

    Edições Ecopy e Livraria 107

    têm o prazer de convidar V. Ex.ª para o lançamento do livro
    “ O peso do Silêncioâ€? de João Norte.
    Será apresentado pelos Dr.s Marina Ximenes
    e
    Carlos Carvalho.

    O lançamento realizar-se-á no dia 14 de Julho (sexta-feira) pelas 21 horas, no Café-Bar “ O Pópulosâ€?, no Parque D. Carlos I em Caldas da Rainha.

    Para mais informações ligar para – 262843462
    962560660

    Responder
  • 3. ThjeOldMan  |  30 Junho, 2006 às 9:48 am

    Muito bom texto.

    Já era tempo de alguém que se dar ao trabalho de relatar os acontecimentos num evento sobre blogues, em vez de se dedicar apenas a gabar a sua presença e/ou estatuto no meio.

    Responder
  • 4. Sabine  |  30 Junho, 2006 às 10:52 am

    Gostei muito do texto.
    Não acredito que EPC esteja em posição de “virgindade” em relação à blogosfera. Essa posição é apenas uma forma de auto-defesa.

    Responder
  • 5. Carlos a.a.  |  30 Junho, 2006 às 12:22 pm

    Assim, estimado Leonel Vicente, ainda vai reduzir as presenças na Casa Fernando Pessoa!
    Excelente reportagem!

    Responder
  • 6. Leonel Vicente  |  1 Julho, 2006 às 10:31 am

    Obrigado à Partilhas, ao João Norte, ao “Oldman”, à Sabine e ao Carlos pelas vossas palavras.

    Responder

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