MONGÓLIA – BERNARDO CARVALHO

12 Dezembro, 2003 at 1:55 pm 1 comentário

As estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos e estepes”; esta é uma frase de “Mongólia”, novo romance de Bernardo Carvalho, resultado de dois meses que o escritor brasileiro passou naquele país e de 5 000 quilómetros de viagem, com uma bolsa oferecida pela editora portuguesa “Livros Cotovia” e pela Fundação Oriente.

Num estilo que mistura o “suspense” dos policiais às narrativas de viagem, o autor cruza as histórias de três personagens: o narrador principal, ex-embaixador brasileiro na China, relatando, a partir dos diários que lhe foram entregues, a viagem feita por um diplomata (“O Ocidental”), na procura de “O Desaparecido”, um fotógrafo desaparecido nos Montes Altaj, na Mongólia.

A trama narrativa serve também de pretexto para descrever paisagens e mosteiros budistas, registando ainda aspectos da cultura de um povo distante, num país “diferente”, resultado de uma complexa combinação de nomadismo, budismo e comunismo, alternando tempestades de areia e de neve, desertos e estepes; ao mesmo tempo, vai “aguçando” a curiosidade do leitor que, apenas no final, pode compreender a relação que liga os três homens.

A repetição é a condição de sobrevivência. É essa também a cultura dos nómadas. Apesar da aparência de deslocamento e de uma vida em movimento, fazem sempre os mesmos percursos, voltam sempre aos mesmos lugares, repetem sempre os mesmos hábitos”.

A determinada altura, “O Ocidental” desespera: “Não sei o que estou a fazer aqui. Não faço a menor ideia de como poderei encontrar o rapaz. É como se estivesse a procurar no planeta errado”.

O autor procura explorar a ambiguidade na relação entre ficção e realidade, integrando no livro experiências pessoais da sua viagem, assim como amplas “dissertações” sobre a história e religião do país.

Um livro admirável!

P. S. Bernardo Carvalho nasceu em 1960 no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista, tendo sido editor do suplemento de ensaios “Folhetim” e correspondente, em Paris e em Nova York, da “Folha de S. Paulo”; destacam-se as seguintes obras: “Aberração”, “Onze”, “Os Bêbados e os Sonâmbulos”, “Teatro”, “As Iniciais”, “Medo de Sade” e “Nove Noites”.

P. S. 2 – É importante assinalar que cheguei até este livro (e até Bernardo Carvalho) “pela mão” do Carlos Vaz Marques e do seu excelente programa “Pessoal… e Transmissível“, numa magnífica entrevista ao autor Bernardo Carvalho – é impressionante a preparação que faz nas suas entrevistas, com um enorme “trabalho de casa”, que as transforma em “conversas intimistas”, possibilitando uma “libertação” total da parte do entrevistado. Este sim, é um verdadeiro “serviço público”, divulgando o que de melhor vai surgindo em Portugal e no Mundo! Vale a pena sintonizar a TSF, de Segunda a Sexta, ao fim da tarde, depois das notícias das 19 horas!

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SOLIDARIEDADE – VOLUNTARIADO – AJUDA HUMANITÁRIA 1º "POST" – ALMOCREVE DAS PETAS – 17.05.2003

1 Comentário

  • 1. AL  |  19 Abril, 2004 às 10:43 am

    É curioso, acabei agora de ler este livro e também o comprei graças à excelente entrevista do Carlos Vaz Marques… Sem dúvida, despertou de imediato a minha curiosidade!


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