DIÁRIO – XII – MIGUEL TORGA (I)

6 Outubro, 2003 at 8:41 am

De Miguel Torga, escreveu José Saramago: “Algumas vezes, nestes últimos tempos, os nossos nomes apareceram juntos, e sempre que tal sucedia não podia evitar o pensamento de que o meu lugar não era ali… Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha, o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum (…)”.

Durante esta semana, como “Livro do Mês”, apresentarei extractos da obra de Miguel Torga, “Diário – XII”, que me pareceu bastante indicada para apresentação neste suporte dos “blogues”, em que a componente “diarística” é tão característica.

“Luanda, 18 de Maio de 1973 – Revolvo-me insofrido na cama escaldante, a registar, ainda atordoado, as primeiras impressões de um cometimento a que eu próprio não consigo encontrar clara motivação.

O sentimento obscuro de que não podia ser protelado por mais tempo um encontro há largos anos apetecido e a crepuscular premonição de um adeus eterno talvez não sejam descabidos na crónica desta aventura que de tão longe me trouxe e tantas resistências me obrigou a vencer. Fisiológicas até. Mas venci-as, e aqui estou ao cabo de oito horas de pavor e deslumbramento que tiveram fim numa espécie de baque da alma. Angola!

Não foi certamente a mesma emoção que sentiu um mareante de quinhentos ao pisar estas paragens, mas quase. Dentro de mim ressoavam mil alvoroços, a par de cavos sussurros menos solares. Apenas o avião descolou, uma bisarma que parecia um comboio aéreo, depois de dar voltas na cadeira como os cães na palha do ninho fresco, tentei ler, ouvir música, ver cinema e, finalmente, imitar os restantes passageiros e dormir. Qual o quê!

Não se distrai facilmente o espírito empenhado numa descoberta tão medularmente necessitada, e muito menos o instinto de conservação vigilante.

Quando o monstro mecânico, numa leveza de pena, tocou o rectângulo negro que traços de luz balizavam, até me envergonhei do romantismo pretérito do meu terror. Saí então daquele espaço reservado e condicionado, onde nem o medo natural era legítimo, e respirei o ar livre das contingências. Um ar quente, húmido, pesado, pegajoso, que se me colou instantaneamente ao corpo como um grude invisível e me trouxe à pele a lembrança esquecida do Brasil. O bafo escaldante de uma terra onde sei que estou, de que já vi sinais concretos, e que só através desta respiração morna e pastosa me parece real.”

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