ANGOLA
Após 40 anos de guerra, os angolanos parecem ainda interrogar-se: “O que fazer com esta paz?”.
Se é verdade que tinha ficado com essa ideia (na minha primeira visita ao país, há cerca de três anos e meio) de que as pessoas ansiavam pela paz, parecem, passado este período de transição, não terem ainda terminado a busca de algo novo e diferente: uma coisa tão simples como uma vida “normal” (independentemente das diferenças que subsistirão face ao padrão europeu).
O aparelho produtivo do país, praticamente destruído por completo, terá ainda um longo caminho pela frente até à sua normalização. À parte a exploração petrolífera (responsável por cerca de 60 % da produção do país), praticamente tudo é importado.
Em Luanda, os problemas sociais – inerentes a uma cidade que alberga 6 milhões de habitantes, grande parte deles “migrantes internos”, em fuga da guerra – continuam a ser bem visíveis: para além de um trânsito absolutamente caótico, abundam os edifícios degradados, a falta de limpeza nas ruas, os bairros de lata.
Andar sozinho na rua continua a ser uma aventura para gente destemida (de que fui repetidamente “desincentivado”). De forma diversa do que senti na Guiné, ou até em Moçambique, fiquei com a sensação de que os portugueses não serão ainda “muito bem vindos”, sendo inquestionável que subsiste o racismo, porventura agora também de sentido inverso ao de outros tempos.
O custo de vida é exorbitante; é extraordinária a especulação dos preços, nomeadamente a nível de alimentação em restaurantes, em que uma refeição facilmente pode atingir cerca de 50 dólares.
Todos os custos de produção são extremamente encarecidos, quer seja por via de mão-de-obra expatriada (visto a absoluta escassez de formação do pessoal local – por exemplo, para trabalhar na construção, chegam a ser contratados emigrantes de S. Tomé!), dos elevados custos de transporte das importações e pelas significativas taxas alfandegárias.
Em consequência de uma actividade económica ainda numa fase muito incipiente de retoma (com os pagamentos praticamente suspensos), o emprego escasseia, a generalidade da população vagueia pelas ruas, vendendo “de tudo”, numa interminável fila indiana, enquanto muitos outros procuram meramente a subsistência.
Depois, há a outra face da moeda: as enormes riquezas do país por explorar, toda uma organização produtiva que é necessário montar, as potencialidades até turísticas, desde logo na “ilha”, com uma vista magnífica sobre a baía de Luanda, passando pelo Mussulo (local preferencial para férias) e, de forma mais generalizada, as diversas províncias de Angola.
Um país com um enorme potencial, onde (quase) tudo está por fazer ainda…
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