EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – DO LADO DE SWANN (III)

31 Dezembro, 2003 at 8:45 am

“De entre todos os modos de produção do amor, de entre todos os agentes de disseminação do mal sagrado, efectivamente este grande sopro de agitação que por vezes passa sobre nós é um dos mais eficazes. Então está a sorte lançada, o ser com que nos recreamos em determinado momento é o que iremos amar. E nem sequer é preciso que nos tenha agradado até então mais ou tanto como outros. O que é necessário é que o nosso gosto por ele se torne exclusivo. E essa condição é realizada quando – nesse momento em que ele nos fez falta – a busca dos prazeres que o seu encanto nos dava foi bruscamente substituída em nós por uma necessidade ansiosa, que tem por objecto aquele mesmo ser, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam impossível de satisfazer e difícil de curar – a necessidade insensata e dolorosa de o possuir.

Só ia a casa dela à noite, e nada sabia de como ela ocupava o seu tempo durante o dia, nem do seu passado, a tal ponto que lhe faltava até aquela pequena informação inicial que, permitindo-nos imaginar o que não sabemos, nos dá vontade de o conhecer. Por isso, não se interrogava acerca daquilo que ela faria, nem do que teria sido a sua vida. Sorria apenas às vezes ao pensar que alguns anos antes, quando não a conhecia, lhe haviam falado de uma mulher, que, se bem se recordava, devia ser por certo ela, como de uma cortesã, de uma mulher tida por conta, uma daquelas mulheres a quem atribuía ainda, porque pouco vivera em contacto com elas, o carácter integral e essencialmente perverso, de que por longo tempo as dotou a imaginação de certos romancistas. Dizia de si para si que muitas vezes há apenas que seguir no sentido contrário ao das reputações que o mundo cria para avaliar exactamente uma pessoa, quando a um carácter assim contrapunha Odette, boa, ingénua, inflamada de ideal, quase tão incapaz de não dizer a verdade que, tendo-lhe pedido um dia, para que ele pudesse jantar a sós com ela, que escrevesse aos Verdurin a dizer que estava doente, no dia seguinte a vira diante da senhora Verdurin, que lhe perguntava se estava melhor, corar, balbuciar e reflectir na cara, sem querer, o desgosto, o suplício que lhe era mentir, e, enquanto multiplicava na resposta os pormenores inventados da sua pretensa indisposição da véspera, parecer pedir perdão com os seus olhares suplicantes e a sua voz desolada pela falsidade das suas palavras.”

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UNIÃO EUROPEIA – 1999 1º "POST" – JPCOUTINHO.COM – DIÁRIOS – 30.10.2003


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