2003 – ANO DOS "BLOGUES" (XX)

19 Dezembro, 2003 at 6:12 pm 1 comentário

Tivera entretanto início (já em Maio) um dos “blogues” mais discutidos e famosos da “blogosfera”, “O Meu Pipi“, de autor anónimo – especulou-se sobre a identidade do autor, tendo sido “lançados” nomeadamente os nomes de Vasco Graça Moura, Miguel Esteves Cardoso, Rui Zink, Eduardo Prado Coelho, assim como a hipótese de se tratar de um “blogue” de autoria colectiva; o “suspeito” mais recente é Ricardo Araújo Pereira (autor pertencente às Produções Fictícias, também co-autor do Gato Fedorento) -, subsistindo contudo uma “aura de mistério”.

No “Expresso” de 28 de Junho, Paulo Querido apresentava uma entrevista ao autor de “O Meu Pipi”. – pode ver o texto completo em “entrada estendida” (via Blog Clipping).

E, a propósito dos boatos que davam Vasco Graça Moura como o autor de “O Meu Pipi”, este faz publicar no Abrupto, a 30 de Junho, as seguintes “décimas de refutação”:

décimas de refutação

já num blogue o meu pipi?
de um pipi, que caso estranho…
eu vou ali e já venho:
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.

é forçoso que eu desminta
com vigor essa atoarda:
por muito usar a espingarda
e por gastar muita tinta,
não se espere que consinta
na falsidade que li
e me ofende o pedigree:
garanto que não fui eu
o brejeiro que meteu
já num blogue o meu pipi.

[797]

“”O Pipi é o camionista que há dentro de cada um de nós”

No universo de perto de um milhar de blogs escritos por portugueses, há um que se destaca. Intitula-se O Meu Pipi e contém textos com tanto de palavrões e ideias menos elegantes como de humor de fino recorte. Num mês apenas tornou-se numa referência transversal da blogosfera nacional, sendo mencionado tanto nos blogs mais “sérios”, da política aos temas sociais, como nos blogs marcadamente pessoais. Entrou já nos hábitos de leitura de muitos internautas, que começam o dia por ler os jornais do costume – e O Meu Pipi, cujos textos discutem depois ao almoço, rivalizando com as temáticas do futebol e da actual confusão nacional entre política e tribunais. O fenómeno é de tal ordem que atraiu o interesse de editores dispostos a passar a livro as entradas diárias publicadas em http://www.omeupipi.blogspot.com. Depois do contacto por correio electrónico o EXPRESSO entrevistou, pessoalmente, o autor do blog. Cuja identidade – a pedido do próprio – permanece oculta.

EXPRESSO: Que razões o levaram a criar este blog?

PIPI: Contar coisas. O Meu Pipi é uma faceta minha. Que um gajo tem dificuldade em exibir socialmente. Não é uma faceta que faça sucesso no salão. Mas está cá dentro. Suponho que há uma consciência javarda, comum ao sexo masculino. Todos nós temos dentro de nós um camionista, um mecânico, o gajo que cola na parede do escritório o calendário de gajas nuas. Embora não se possa mostrar na vida social, este nosso lado está presente: Apesar de não os podermos revelar, quantas vezes temos estes pensamentos, sobre estas teorias, e quando está a foder fez – ou faria – isto e aquilo, e não fica orgulhoso ou se sorri…

Mas pode dizer em certos círculos de amigos, à mesa do café… porquê num blog, um sítio público onde pode ser lido por qualquer pessoa?

Mesmo com os amigos não se pode dizer tudo. “Pá, ó Pipi, que é que é essa merda que tás a dizer para aí? És um gajo doente!”. O que nos leva à parte saudável do blog, que é poder canalizar essa faceta e até levá-la ao extremo: na Internet não temos constrangimentos nenhuns, é só mandar a merda cá para fora. Evidentemente, depois há uma componente humorística e outra de tentar chocar o leitor, de vez em quando, de uma forma galhofeira. Como quando escrevi sobre a punheta de mamas: os nossos amigos são capazes de nos contar de um broche ou de uma foda que deram, mas nunca ouvimos um amigo – e muito menos o nosso pai – dizer-nos, “que bela punheta de mamas fulana me fez”. É algo que está no imaginário mas nunca se fala.

Falou aí no humor e na provocação. Percebe-se rapidamente que O Meu Pipi tem um bom nível de escrita, até de erudição, com um Português correcto – sendo aliás isso que o distingue de outros blogs do género e, talvez, a razão de ter sucesso e os outros não. Que treino, que formação, tem o autor?

Tenho formação específica na arte de bem escrever – e sobretudo javardice, está bem! (risos). Não, a verdade é que disponho de uma ferramenta informática nova, de que poucos ouviram falar, que é um corrector ortográfico de javardice, o Filip4: quando escrevo “piça” ele apresenta as alternativas “nabo”, “marsápio” e “madeiro” (risos) Agora a sério: o Pipi frequenta o curso de Comunicação Social e escreve relativamente bem porque tenta ignorar o que os professores lhe transmitem nas aulas… o que é fácil, porque ele só as frequenta por causa das gajas. Sobretudo no Verão!

Isso explica aquela entrada sobre os perigos das gajas boas? (em www.omeupipi.blogspot.com/2003_05_25_omeupipi_archive.html)

Sim. Tudo o que escrevo tem um fundo de verdade. Não me lembro se ocorreu numa aula, mas é verdade que, quando estou na cama e tal, e preciso de retardar o meu orgasmo, tenho esse truque de começar a pensar: “ora bem, Moreira na baliza, Quarteto defensivo com Miguel, Argel, Hélder e Ricardo Rocha…” Ou penso na Manuela Ferreira Leite, ou assim. E não sou o único homem que recorre a esse expediente. Mas quero voltar um pouco atrás na conversa. Há uma vertente interessante na autoria do blog. Para aproveitar o potencial humorístico de um texto é necessário que este seja bem escrito. Palavrões à balda, qualquer um diz na taberna. Tomemos como exemplo a entrada da leitaça: é um ensaio, pá! Distingue as origens, os usos e a pragmática. Aplicar um discurso tipo ensaístico a uma coisa como a leitaça, ou a punheta, é um recurso humorístico. Eu podia usar o mesmo discurso, a mesma chapa, a outro assunto, como o futebol. E os leitores aí não se chocariam nem ririam. Agora, um leitor lê esse comentário da leitaça e não pode deixar de pensar: “houve um maduro que perdeu tempo da sua vida a filosofar sobre a leitaça e a escrever sobre tal temática um texto com cabeça, tronco e membros!”

Confirma-se portanto o que já corria, que o autor de O Meu Pipi é estudante universitário… Só se enganaram na faculdade…

Certo… Já que tenho de falar sobre o Pipi, aqui vai: é um gajo que lê, lê bastante, lê tudo, livros e revistas. Leu o Luiz Pacheco. Leu o Sade, porém ficou desiludido: não percebe porque é que o Marquês estava a ir tão bem e depois cortou-se.

O que anda a ler agora?

Os livros da Margarida Rebelo Pinto mas é por causa da fotografia da contra-capa (risos). De resto, foi à Feira do Livro – para ver as gajas (risos). Bem, mas atenção, o Pipi lê e gosta, mas acha que indicar livros aos outros é muito roto…

Já se percebeu que quando partiu para o O Meu Pipi foi pela descarga que o blog permite. Mas tinha outro objectivo, pensou alguma vez no sucesso que o blog veio a ter?

Para ser sincero, esperava mais. Fiquei um bocado desiludido, só agora, passados quase dois meses [a primeira entrada do blog é de 8 de Maio, n.d.r], é que surgem os convites, a primeira entrevista no EXPRESSO… Agora a sério: pensava que as pessoas se iriam indignar e protestar, mas nunca que fosse o sucesso relativo que é neste momento. Esta entrevista e outros pedidos, mais uma proposta que recebi para editar um livro… O projecto foi muito além das expectativas. É uma surpresa. Mesmo sabendo-se, e eu sei, que a Internet é um ímane de porcaria, de javardice, de sexo e pornografia…

…a escrita do Pipi pode ser considerada pornográfica?

Claro. E mesmo por isso, o que mais me impressiona é que na rede há uma escolha imensa de filmes, fotografias, textos – o que uma pessoa quiser, enquanto O Meu Pipi são letras, texto: como é que pode concorrer, em termos da atenção do público, com esses sites?

E já tinha concorrência propriamente dita, blogs com linguagem de “mau gosto” ou de temática semelhante. Mas tornou-se maior que todos eles.

Bem, no princípio recorri a um artifício para ganhar alguma visibilidade: os insultos. Meti-me com os autores do Complot, que afirmei serem todos uns rotos, eles ficaram indignadíssimos. Meti-me com a Coluna Infame, com o Cruzes Canhoto, o Gato Fedorento… Nesse tempo o blog até podia ter ido por um sentido diferente. Mas era estúpido: passado um tempo eles deixavam de me ligar e o blog cairia no esquecimento. Foi giro para espicaçar, no entanto o objectivo do blog não era o insulto. Acabei por colocar uma entrada a pôr ponto final nisso, dizendo que tinha chamado paneleiros a toda a gente mas que considerava que qualquer um que fizesse um blog – eu incluído – era roto. Serviu para apaziguar e voltar ao trilho inicial. Mas na verdade nem sequer nutro especial interesse pelos blogs de palavrões gratuitos.

Mas é aí que O Meu Pipi marca uma diferença: nos seus textos o palavrão não é gratuito, ou pelo menos não surge como tal ao leitor. As suas entradas possuem, além da língua portuguesa sem erros, um substrato que os outros não apresentam. Só encontro esta explicação para o sucesso – sobretudo o sucesso entre a blogosfera portuguesa do presente, mediática, que é constituída pelos blogs políticos. Até esses mencionam e elogiam O Meu Pipi. Tornou-se numa referência, da extinta Coluna Infame ao site do Miguel Esteves Cardoso, passando pelo Blog de Esquerda.

Exactamente. A menção do Miguel Esteves Cardoso (MEC) foi uma surpresa. O Pipi tem uma admiração pelo MEC, na minha, perdão, na opinião do Pipi não há actualmente nenhum escritor de humor em Portugal ao nível dele. Desde logo, por a certa altura terem confundido o Pipi com o MEC. Pessoas como o José Mário Silva e o Pedro Mexia [dois dos jornalistas blogueiros mais conhecidos, n.d.r.] chegaram a acreditar nisso. É lisonjeiro, claro. Mas é bizarro. Depois, o próprio MEC classificou O Meu Pipi de “genial”, na página dele [www.pastilhas.com, n.d.r.]. E finalmente, colocou um comentário n’O Meu Pipi a confirmar que não era ele. Quanto a ter-se tornado numa referência… não esperava, claro. Esperava, sim, passado um mês começar a perder leitores e menções. Já lá vão quase dois meses… E continuo a ter ideias parvas para manter o projecto por mais tempo.

Algumas são impublicáveis?

Bem, algumas… Se voltasse atrás, não escreveria algumas. Uma história que escrevi a propósito do miúdo iraquiano que ficou sem braços, hoje provavelmente não a publicaria.

Mas esse texto fugia ao tom marialva, machista até, que caracteriza O Meu Pipi e o torna fresco, uma novidade num mundo dominado pelo politicamente correcto.

Quando diz “marialva”, no sentido do machismo, da separação entre homens e mulheres talvez. Mas a palavra está associada ao forcado ribatejano e conheço muitos que são cretinos e uns ciumentos, que casam com a mulher mais feia com medo de serem encornados.

Voltando ao sucesso do blog: como reage? Aumenta a responsabilidade? Faz pensar duas vezes antes de editar de novo?

(Pensativo) Isto acastelou-se de uma maneira… É a tal coisa: tenho insistido na surpresa e é isso que continuarei a tentar fazer. O Pipi continua humilde (risos). É surpreendente ser tão referenciado na blogosfera e tão lido na Internet. Isto é só um blog! É como uma conversa de balneário, onde estão gajos nús de gravata – a gravata representa o facto de ser bem escrito – a conversar sobre gajas. Tem graça, nunca tinha feito esta associação de ideias, mas é bem fiel: eu joguei râguebi em Coimbra e nos balneários tínhamos conversas até mais javardas que O Meu Pipi. Quanto à responsabilidade, quero espetar a agulha no balão de ar: pensar em elevar o nível, ora o nível é a parvoíce! A verdade é que tenho ciúmes do Pipi: tenho outro blog, farto-me de publicar lá textos que acho muito bons e não tenho o mesmo tipo de reconhecimento. Aliás, é nele que publico os meus textos mais elaborados – o que contribui até para não sentir pressão nenhuma quanto a’O Meu Pipi. Se este correr mal, corre.

O que sente então ao escrever para O Meu Pipi?

É uma mistura de alívio com alegria. Há uma volúpia, até, em teorizar sobre caralhadas! Quando escrevo um texto para o outro blog tenho cuidado, releio, dou-lhe importância, enquanto para O Meu Pipi é diferente: em geral parto de uma ideia prévia, mas aquilo vai saindo, umas teorias atrás das outras! E há teorias que, se um gajo for a ler bem, não fazem sentido nenhum mas quando as pessoas estão a ler dizem, “isto faz sentido”. É uma questão de forma, os textos têm uma coerência interna, funcional, embora descrevam ideias absurdas ou mesmo disparates completos – como aquela da diferença entre o rabo de um homem e o de uma mulher. Agora, atenção: eu cuido os textos do Pipi, tento não repetir termos, rebusco sinónimos, se aqui não fica bem “nabo” troco por “madeiro”, ou outro termo…

Os leitores esperam isso?

Claro! O factor novidade fá-los voltar.

E agora? Que vai acontecer a’O Meu Pipi?

“Pipi: the movie”, “Pipi: o talk-show” (risos). Quero continuar a levar a alegria a milhares de portugueses e brasileiros. E quero outra coisa: quero manter o mistério sobre a identidade do Pipi. Aliás, um amigo teve uma excelente ideia quando lhe contei que fora convidado a publicar um livro: colocar um apresentador de televisão a ler passagens do livro no lançamento, alguém como o Rui Unas e o autor, claro, não dava a cara – mas eu estaria lá ao lado de outros convidados. O Pipi faz suas as palavras de José Saramago: “tudo o que há-de ser meu, às mãos me há-de vir ter”.”

(Versão sem cortes da entrevista publicada no Expresso, revista Única, Sábado, 28 de Junho de 2003)

Texto de Paulo Querido

[797]

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1º "POST" – SOCIO(B)LOGUE – 20.06.2003 1992 – TRATADO DE MAASTRICHT

1 Comentário

  • 1. vmar  |  19 Dezembro, 2003 às 6:31 pm

    Já li, a entrevista ao Pipi inclusivé.


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