2003 – ANO DOS "BLOGUES" (XVII)

16 Dezembro, 2003 at 6:14 pm 3 comentários

A blogosfera portuguesa “fervilhava”: o “Destaque” do “Público” de 23 de Junho apresentava alguns dos principais “blogues” (ver textos – numerados de 1 a 10 – em “entrada estendida” – via Blog Clipping).

A 24 de Junho, depois de Francisco Amaral (Íntima Fracção), também Carlos Vaz Marques, jornalista da TSF, lançava o seu “blogue”, “Outro, eu“.

No dia 26, a revista “Visão” publica também um artigo (de Gabriela Lourenço e Mário Rui Cardoso) que contribui activamente para a “explosão” da blogosfera nacional (ver amanhã o texto completo, também em “entrada estendida”):

«Bem-vindo à blogosfera: “Um espaço de liberdade total ou um exercício de narcisismo? Com sarcasmo, humor ou seriedade, os pensamentos de centenas de portugueses revelam-se na Internet. Uns mais mediáticos do que outros – todos os autores têm algo a dizer. Está na hora de actualizar os dicionários: a palavra blogue entrou no léxico nacional”.

Referia-se ainda a tónica da dicotomia política (“Esquerda”/”Direita”) que marcou a fase inicial da blogosfera, assinalando-se também a vertente humorística, com destaque particular para o “Blogue dos Marretas”.

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1

A Nova Ágora da Democracia, Ou Quando a Política Chega À blogosfera

No Brasil, a blogosfera conta com mais de três mil blogues. Em Portugal, existem perto de mil. Mas a erupção do fenómeno, nascido no ano passado, parece estar agora a revelar-se e ilustra-se com a apresentação diária de dezenas de blogues. Basta observar a lista disponível em blogsempt.blogspot.com, à qual já aderiram, entre outros, Francisco José Viegas (aviz.blogspot.com), Jorge Ferreira (22blog.com/jf2003/), Miguel Vale de Almeida (valedealmeida.blogspot.com) e Nelson de Matos (textosdecontracapa.blogspot.com). Para meados de Julho, e depois de José Pacheco Pereira (ver caixa), é a vez do deputado socialista José Magalhães entrar na blogosfera com um prolongamento do seu Ciberscópio, publicado no jornal “A Capital”.

Muitos dos blogues nacionais são meramente acessórios, adoptando registos diarísticos, que, aparentemente, só interessam a quem os produz. Outros, são tidos como uma espécie de serviço público: a eles afluem um elevado e diversificado número de leitores; neles se podem ler comentários, opiniões e textos de divulgação que abrangem desde a política à literatura, passando pela educação e ideias, até às artes e ao humor. Neste contexto, existem blogues temáticos, que cingem os seus escritos, por exemplo, ao jornalismo, e blogues que mesclam propostas. Entre estes últimos, encontram-se algumas das páginas mais interessantes da blogosfera. E é significativo que sejam vincadamente politizados.

No rol de blogues políticos – e aqui não se incluem aqueles que pecam pelo puro “exibicionismo político”, como foi aludido no Desejo Casar – a fronteira faz-se entre a direita conservadora e a esquerda distante do centro. Que edificaram um muro ideológico naquela que foi a fase mais politizada na blogosfera: durante a guerra no Iraque. Assunto que, além de ter incrementado uma clara clivagem de posições, desencadeou a discussão de muitos outros temas e acontecimentos políticos.

Em termos exclusivamente quantitativos, é longa a distância que separa a direita e a esquerda: os esquerdistas estão representados num reduzido número de blogues, enquanto a galáxia da direita não pára de aumentar, sendo até mais organizada (veja-se a criação da União dos Blogues Livres – organização interblogacional contra o perigo totalitário marxista na blogosfera, que congrega dezenas de blogues).

“A vida política é uma chatice”

A disparidade política, contudo, pode também ser desvalorizada e entendida como mais um elemento de uma “realidade mais complexa”. Pelo menos, é esta a posição de Pacheco Pereira (abrupto.blogspot.com), que, nas suas reflexões sobre blogues, escreveu o seguinte: “O que se passa em alguns blogues políticos é que existe uma forte tendência auto-proclamatória, de auto-classificação, que acompanha quase sempre uma maior pobreza analítica, a dificuldade de pensar a política como uma actividade complexa, que, em territórios como estes, só sobrevive se for associada a uma mais vasta perspectiva cultural e social. Quem chega assim tem a tentação de plantar a bandeira logo, marcar o território e escolher lado. Depois faz sempre batalhas de posição, e essas batalhas não nos ensinam nada”.

A resposta a esta e a outras considerações de Pacheco Pereira veio de O País Relativo (paisrelativo.blogspot.com) – “as juventudes do PS”, como o eurodeputado do PSD insinua na sua última crónica no PÚBLICO -, assinada por Rui Branco e Pedro Machado: “O melhor dos leitores de Bourdieu, Pacheco Pereira marca a agenda do que há e não há para discutir, (só) propõe temas de relevo e reserva para si certos tópicos apetecíveis. Esta tentativa para impor como legítima uma certa (a sua) visão das divisões e para apresentar como natural aquilo que resulta de uma (a sua) construção revela uma pulsão totalitária iniludível. O Abrupto quer transformar-se na rotunda dos Produtos Estrela da blogosfera e Pacheco no seu polícia sinaleiro”.

Independentemente das divergências, os blogues políticos continuam a enfileirar-se na dianteira dos blogues mais visitados. Os novos contornos do debate magnetizam a curiosidade da maioria dos visitantes e daí deriva uma profícua interactividade entre bloguistas e leitores. Seja através das caixas de comentários disponibilizadas por alguns blogues, seja através do envio de e-mails. E note-se que entre os blogues marcadamente políticos, são extremamente ténues as colagens partidárias, sendo até, em alguns casos, recusadas. Para João Pereira Coutinho, da desaparecida Coluna Infame (ver caixa), a gradual abertura de blogues por políticos explica-se assim: “A vida política é uma chatice, um tédio. São vidas tristes”. Na blogosfera, por enquanto, ainda não há rumores entediantes”.

Maria José Oliveira, “Público”, 23 de Junho 2003


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Um Fenómeno com Seis Anos

Quando Dave Winer fez aquele que é considerado o primeiro “post” de sempre num weblog, no já longínquo dia 1 de Abril de 1997, estava certamente longe de imaginar o fenómeno global que iria desencadear. Desde o início da World Wide Web que muitos cibernautas faziam as suas páginas na Internet e aí colocavam ligações para outras páginas que consideravam interessantes. No entanto, apesar desta ligação próxima, as primeiras páginas construídas na WWW não podem nem devem ser consideradas como sendo os primeiros exemplos de weblogs. A palavra weblog – como sinónimo de uma página ordenada cronologicamente, onde um autor coloca periodicamente as suas próprias ideias ou ligações para outras páginas que considera interessantes – só aparece pela primeira vez em Dezembro de 1997 pela mão de Jorn Barger.

No entanto foi preciso esperar dois anos para que as coisas tomassem um rumo nunca antes esperado. No dia 23 de Agosto de 1999 foi criado o Blogger.com, uma ferramenta gratuita para criação de weblogs, que revolucionou a edição de textos na Web. Em 3 de Setembro de 2000, a Pyra acrescentou a cereja em cima do bolo ao criar o Blogspot.com, um “site” que aloja gratuitamente milhares de weblogs, em troca de anúncios colocados no topo das páginas. O sucesso foi tal que, em pouco mais de dois meses (a 7 de Novembro de 2000), o Blogspot viu nascer o seu 10.000º blog.

Na passada semana, o Blogger anunciou que tem 1,5 milhões de utilizadores registados, ainda que muitos weblogs não tenham mais do que alguns “posts”, ou tenham sido abandonados há muito. Aliás, várias tentativas têm sido feitas ao longo dos anos para descobrir quantos weblogs estão activos no mundo inteiro. Uma das mais sérias tem algumas semanas e pode ser consultada no endereço http://www.idlewords.com/crawler/crawl_report.pl . Na altura em que o consultei para escrever este artigo, contavam-se 463.994 blogs, sendo o português actualmente a segunda língua mais falada na blogosfera, muito por culpa dos brasileiros.

Em Portugal, o fenómeno dos weblogs terá começado no início de 1999. Ao contrário do que podem fazer crer alguns artigos publicados em jornais e revistas nos últimos meses, os blogs sobre jornalismo ou política estão longe de ser a maioria ou de sequer terem iniciado a moda em Portugal. Há alguma discussão entre os cibernautas sobre o que é ou não um weblog mas, seja qual for a definição que adoptemos, entre os primeiros “sites” portugueses a aderir a este fenómeno estão certamente o Macacos Sem Galho, o Gildot.org, o Dee’s Life, o Altas Doses de Cafeína, o Nonio.com, o Velouria.org, o Sonhos Virtuais e o Hiperbock, todos criados ainda no século passado.

Mas não há dúvida nenhuma que 2003 marca a data da explosão dos weblogs em Portugal. Em Janeiro deste ano, Pedro Fonseca criava aquela que é a mais fiável lista de weblogs lusos, em http://blogsempt.blogspot.com . Tinha na altura cerca de 150 blogs indexados. Na última consulta que fiz tinha 690. E nem sequer vale a pena fixar este número porque, na sequência deste destaque do PÚBLICO e de outros artigos que durante esta semana serão publicados noutros órgãos de comunicação social, o número crescerá – como é costume acontecer sempre que os media falam de blogs -, e arriscava-me mesmo a dizer que ultrapassará os 1000 antes do final deste mês.

A este súbito interesse dos media pela blogosfera, e consequentemente dos seus leitores, não é alheio o facto de, nos últimos meses, algumas personagens mediáticas terem criado o seu próprio weblog. Depois dos blogs de política, à esquerda e à direita (que nasceram como cogumelos), foi o aparecimento do Abrupto – http://abrupto.blogspot.com – de José Pacheco Pereira que trouxe para a ribalta este fenómeno até então circunscrito a umas centenas de aderentes em Portugal. Goste-se ou não do que escreve o seu autor, não há dúvida que depois do nascimento do Abrupto se nota uma maior efervescência na blogosfera portuguesa, com weblogs a serem criados todos os dias, tornando impossível o seu acompanhamento mesmo pelos mais dedicados cibernautas.

Esta explosão trará inevitavelmente crises de crescimento. Haverá weblogs que não compreenderão o ambiente de crítica aberta que se vive na blogosfera, outros que não estarão preparados para persistir na exigente tarefa da escrita diária, outros ainda que se cansarão facilmente de escrever para leitores imaginários que nunca (ou quase nunca) aparecem – é bom nunca esquecermos que o acesso à Internet é ainda um privilégio de uma fatia muito estreita da população. Mas a pluralidade de vozes que esta explosão trouxe à Internet portuguesa só pode ser positiva, como é positiva a pluralidade de órgãos de comunicação social na esfera pública. Como acontece com outros sectores da sociedade, os mais bem escritos, mais interessantes, mais persistentes resistirão e ganharão cada vez mais credibilidade. Os outros desaparecerão sem deixar qualquer rasto. Será a selecção natural aplicada à blogosfera.

P.S. – Agora que o artigo terminou, talvez se tenha tentado a criar o seu próprio weblog, para ver como é. Sente-se ao computador, ligue-se à Internet, vá a http://www.blogger.com e inscreva-se. Em menos de cinco minutos, terá o seu próprio blog para escrever o que lhe apetecer. Seja bem-vinda/o”.

António Granado*, “Público”, 23 de Junho 2003

*Jornalista do PÚBLICO e “weblogger” desde Janeiro de 2001


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Os Blogues da Discórdia

Fazer uma selecção na blogosfera não é tarefa fácil. O PÚBLICO escolheu, de entre os blogues politizados, sete espaços onde os textos revelam maior consistência. E optou por manter a Coluna Infame, apesar do seu recente desaparecimento. O fecho deste blogue não lhe retira importância nem estanca os seus efeitos, pelo que é legítima a sua inclusão nesta mostra”.

Maria José Oliveira, “Público”, 23 de Junho 2003


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Pacheco Pereira “Perde Tempo” com Blogues
abrupto.blogspot.com

Quando Pacheco Pereira chegou à blogosfera, nos primeiros dias de Maio último, a incredulidade tomou conta dos bloguistas. O eurodeputado encontra uma explicação para o cepticismo: “Fiquei com a ideia que achavam pouco provável que alguém com fácil acesso aos outros meios de comunicação e com muito que fazer, não iria ‘perder tempo’ num blogue. Durante alguns dias prolongou-se uma discussão em torno da verdadeira identidade da abreviatura JPP. Até ao “post” de 7 de Maio, no qual o eurodeputado do PSD decidiu “tirar todas as dúvidas”: em jeito de pré-publicação, transcreveu o primeiro parágrafo do texto que havia escrito para o PÚBLICO e que seria publicado no dia seguinte. As reacções efusivas não se fizeram esperar.

No excerto do soneto de Sá de Miranda, que serve como cartão de apresentação do Abrupto -“m’espanto às vezes, outras m’avergonho” – e nos “posts” debutantes do blogue, Pacheco Pereira levantou o véu sobre as suas propostas de reflexão. Que vão desde tertúlias literárias virtuais, passando por comentários sobre a actualidade nacional e internacional, até a mini-análises do fenómeno bloguístico. Desenganem-se, pois, aqueles que julgam ali encontrar textos testamentários exclusivamente sobre política. Denunciando que, “nos últimos 20 anos”, chegou a utilizar o pseudónimo de Abrupto para discorrer sobre arte, literatura e cinema em “vários obscuros jornais e revistas”, Pacheco Pereira afirma: “Existe uma ideia muito reducionista do que é a actividade política e do que são os políticos”. E interroga: “Porque razão é que de mim se espera que eu fale apenas de política?”.

Pacheco Pereira foi o primeiro político a entrar na blogosfera. Para já, o vice-presidente do Parlamento Europeu parece retirar satisfação da “verdadeira dialéctica” com o exterior. E não esconde um certo orgulho: “Não me queixo da resposta de quem me lê. O Abrupto teve já cerca de 25 mil ‘pageviews’ em duas semanas”. É obra.

Além do Abrupto, que é actualizado quase diariamente (as pausas acontecem por obrigação das constantes viagens), Pacheco Pereira abriu recentemente o Estudos sobre o Comunismo, blogue homónimo de uma publicação editada entre 1983 e 1985. A ideia de ressuscitar a revista, dedicada ao estudo científico do comunismo, em formato “on line” era já um “projecto antigo”. “Arranquei com o blogue como instrumento de trabalho regular, em contacto com outros investigadores”, conta, acrescentando, porém, que a versão virtual serve apenas como “instrumento activo de investigação e registo bibliográfico”. A intenção é, afirma, “agrupar num sítio mais estável os produtos finais”. O Abrupto, esse, vai de vento em popa, ascendendo à galeria dos blogues mais visitados. Apesar da larga afluência de leitores, Pacheco Pereira diz que o Abrupto “é um entre 500″”.

“Público”, 23 de Junho 2003


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Blogue Familiar
blogue-de-esquerda.blospot.com

Nasceu no primeiro dia do ano. E seis meses depois, o “Blogue” de Esquerda (BdE) recebe já cerca de 400 visitas diárias, numa impressionante contabilidade somente partilhada com a Coluna Infame (entretanto dissolvida), o Abrupto e o Blogue dos Marretas. O seu “cartão de visita” refere que ali se escreve sobre “Política, Cultura, Ideias, Opiniões, Manifestos e Etc.” – e neste “etc” cabem por vezes trechos sentimentais. Adiante.

Os irmãos José Mário Silva, 31 anos, jornalista e poeta, e Manuel Silva, 26 anos, doutorando em Ciências Musicais, em Paris, são os autores do BdE, que conta também com as colaborações regulares de Daniel Oliveira, Sandra Augusto França, Filipe Moura e Fernando Venâncio. Perante a corruptela da sua denominação, há uma questão que se impõe: qual a relação do “Blog” de Esquerda com o Bloco de Esquerda? José Mário esclarece: “Existe uma proximidade ideológica, mas fizemos questão de não ter qualquer ligação ao Bloco. Até porque em muitos aspectos não estamos de acordo com as linhas do BE. É preciso separar as águas”, diz. E acrescenta: “Isto é um espaço de liberdade a sério”. Um espaço que, segundo o “post” inaugural, aspira a tornar-se num “fórum aberto a todos os que se sentem à esquerda das esquerdas convencionais”.

A intenção estendeu-se igualmente à direita e, na verdade, outra coisa não seria possível, já que o mapa político da “blogosfera” tem vindo a ser dominado pelos conservadores (e demais variações). Facto para o qual José Mário Silva não encontra muitas explicações. Tem, no entanto, uma certeza: “Na ‘blogosfera’ não existem diferenças sociais, culturais ou geográficas. Não se trata de um reflexo da sociedade, mas se pegarmos em 20 ou 30 blogues é possível traçar um perfil”. Entre outras disparidades que podem ser nomeadas, aquela que adquire um cariz mais estimulante é a que envolve o debate político. Basta espiar as reacções dos bloguistas – por vezes, um “post” leva a outro e a outro e a outro – e o elevado índice de comentários suscitados pelas questões políticas e partidárias.

Há muito que José Mário se faz acompanhar de um caderninho, daqueles onde se vai anotando frases e pensamentos soltos. Agora, as folhas brancas servem também para esboçar os “posts” diários do BdE. José Mário admite: “Isto é viciante”. E isso traduz-se numa das primeiras impressões que revela – “Tenho a sensação que faço isto há dois anos””.

“Público”, 23 de Junho 2003


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Primus Inter Pares
colunainfame.blogspot.com

A denúncia da tortura e a tradução da crueldade da Inquisição no século XVII singularizaram “A história da coluna infame”, livro seminal de Alessandro Manzoni, romancista, poeta e político do século XIX. Entende-se, pois, como reveladora a escolha do título do blogue de Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Pereira Coutinho: em várias dimensões, a Coluna Infame foi pioneira e ímpar, tendo mesmo involuntariamente contribuído para experiências miméticas.

Com um número de visitas que ascendia a meio milhar por dia, o blogue depressa se converteu numa referência incontornável, sustentada pela qualidade dos seus textos. Gravitando em torno das artes, da política ou da literatura, a Coluna Infame, posicionada na direita conservadora, revelou escritos pertinentes, críticos e desafiantes, ao mesmo tempo que, porventura sem esse propósito, ganhou funções didácticas.

Os três autores acabaram por transformar a relação do leitor com o blogue numa discussão contínua que manteve desperto o espírito crítico e o “prazer intelectual”, aludido por Mexia, era notório. Sem uma obediência estrita à actualidade, a Coluna Infame permitiu “ressuscitar um certo tipo de escrita” baseado na “precisão e concisão”, explicou Pedro Lomba, admitindo que espera “daqui a uns anos saltar para um jornal”.

Apesar de as questões políticas não terem sido dominantes, foram elas que provocaram as maiores controvérsias com outros bloguistas. “Sou defensor de uma certa agressividade”, apontou Mexia. Não poucas vezes, João Pereira Coutinho foi acusado de assumir posições extremistas ou de ser demasiado truculento e agressivo. “Esses comentários provêem de uma certa ignorância histórica. Os 48 anos de ditadura retiraram a política das ruas”, argumentou, sublinhando que continua a estranhar-se a “frontalidade”. “Se lessem a prosa jornalística da I República, viam que eu não passo de um menino de coro”, acrescentou.

A Coluna Infame acabou no passado dia 10. Um desentendimento interno e uma consequente cisão resultou no fecho do blogue. Mas há novidades: Pedro Mexia já regressou, a solo, com o dicionariodiabo.blogspot.com; Pedro Lomba, também a solo, confirmou já o seu retorno; e João Pereira Coutinho prepara-se para abrir um “site” pessoal com várias componentes, entre elas um blogue, um arquivo de textos seus publicados nos últimos sete anos e “links” para várias publicações”.

“Público”, 23 de Junho 2003


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Agência de Notícias da Blogosfera
cruzescanhoto.blogspot.com

«O Cruzes Canhoto! é um daqueles blogues que deixam o leitor a balançar entre a estupefacção e a pergunta “mas estes tipos não fazem mais nada?”. Explique-se: a escrita diária de “posts” é não só pautada por um impressionante acompanhamento da actualidade (nacional e internacional), como também se faz acompanhar por um ou mais “links” que remetem para as mais variadas moradas da Net e poupam trabalho ao visitante.

A mega-produção do Cruzes é assegurada por apenas duas pessoas – Nuno Guerreiro (assina N), 30 anos, bibliotecário, e Jorge Palinhos (J), 25 anos, coordenador editorial – e tem a sua base no Porto, embora os dois bloguistas sejam naturais de Lisboa e Leiria, respectivamente. O trabalho de ambos explica a assiduidade dos “posts” e a remissão para informações veiculadas por órgãos de comunicação nacionais e internacionais: “Estamos junto de terminais e por isso é mais fácil fazer um trabalho de ‘posts’ intermitente”, conta Nuno Guerreiro.

Criado em Fevereiro deste ano, o Cruzes foi concebido devido àquilo que Guerreiro chama um “desequilíbrio de forças ideológico” na blogosfera. Tendencialmente de direita, acrescenta. Tal como a sua própria denominação sugere, o blogue assume uma posição política de esquerda, embora o faça “sem cartilhas”, ressalva. “Existem muitas clivagens nos blogues de esquerda. Parece que estão a pegar numa cartilha”, diz. Mas nota, porém, que a “novidade” da generalidade do diálogo político na blogosfera é precisamente o seu “descomprometimento”.

O cariz marcadamente informativo do Cruzes Canhoto não se reduz, contudo, à actividade política. A partir de uma base de dados ancorada em jornais, televisões e publicações internacionais, o blogue serve também como meio de divulgação dos mais diversos assuntos. “Impenitentemente impertinente, inclinado sobre a política, a sociedade e a cultura”, pode ler-se, em jeito de sub-título.

Os dois autores criaram ainda uma pequena “janela” com as “últimas notícias” e uma longa lista de links para outros blogues portugueses e estrangeiros, dividida em vários módulos de apresentação: “Pacto de Canhotos”, “Aliança de Fachos”, “Blogues Desalinhados”, “Mecoblogues”, Biblogues” ou “Irmãos e Amigos””.

“Público”, 23 de Junho de 2003


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Animal, Statler e Waldorf
marretas.blogspot.com

O contador marcou 10 mil visitas no dia 13 de Maio. A celebração fez-se com um comentário, intitulado “Os três marretinhas de Fátima”, que terminava assim: “O mundo está mesmo perdido”. Actualmente, o Blogue dos Marretas ultrapassou já a fasquia das 20 mil visitas e cerca de três meses volvidos sobre o seu aparecimento, não se pode apontar falta de entusiasmo ao trio de autores, baptizados com os nomes de Animal, Statler e Waldorf.

A escolha da designação do blog e dos pseudónimos surgiu defronte de um “Happy Meal” da Macdonald’s – a embalagem oferecia bonecos dos Marretas em borracha. Pelo menos, é esta a versão contada por um dos seus criadores. Sob a “máscara” das personagens da série televisiva (e com o mesmo cariz desconcertante) encontram-se Jorge Bacelar (Animal), 43 anos, Nuno Jerónimo (Statler), 31, e João Canavilhas (Waldorf), 37, amigos de longa data e professores na Universidade da Beira Interior, na Covilhã.

No Blogue dos Marretas, o terreno ideológico ostenta uma fronteira: dois de direita (Statler e Waldorf) e um “infiltrado” de esquerda (Animal). “Criámos facções: os velhotes são à direita e eu sou assumidamente de esquerda”, conta Jorge Bacelar. Resultado: “Já dizemos que somos serviço público”.

Pese embora as divergências, que tiveram especial relevância no período da guerra no Iraque, os Marretas preservam uma cumplicidade que se nota sobretudo no tom humorístico dos “posts”. “No início pensámos em discutir com seriedade. Até descobrirmos que nos achavam graça”, diz Nuno Jerónimo. Seja sobre política, cidadania, educação ou cultura, os autores raramente escrevem sem pertinência. “Tentamos dar aos comentários um tom jocoso, provocatório e talvez as pessoas apreciem o nosso sentido de humor”, afirma Bacelar.

A abordagem da actualidade política, reincidente neste blogue, promove uma elevada interactividade com os leitores e devolve aos seus criadores um efectivo debate de ideias: “Aqui na Covilhã a realidade é completamente diferente daquela que existe em Lisboa ou no Porto. Do ponto de vista pessoal, alargou o leque de pessoas com quem me confronto”, explica Nuno Jerónimo.

Da experimentação ao vício foi um pequeno instante. O Blogue dos Marretas prima por uma actualização diária quase pontual – os visitantes assíduos depressa aprendem os horários de trabalho bloguístico de cada um dos autores – e adivinha-se que continuará assim ainda por muito tempo. Jorge Bacelar justifica: “Somos bonecos de peluche, se nos cansarmos deste brinquedo vamos brincar para outro lado. Mas neste momento é difícil, pois sentimo-nos muito bem””.

“Público”, 23 de Junho 2003


9

A Esquerda Relativa
paisrelativo.blogspot.com

Resgata o título de um poema de Alexandre O’Neill, “O País Relativo”, e nele embarcam Filipe Nunes, Mariana Vieira da Silva, Mark Kirkby, Miguel Cabrita, Pedro Adão e Silva, Pedro Machado, Rui Branco, Sílvia Sousa, Tiago Tibúrcio, Domingos Farinho e Luís Filipe Borges (este último saiu entretanto e já fundou o blogue Desejo Casar).

Poder-se-ia repescar a frase de Manuel Alegre – “não somos independentes na esquerda” – para apresentar o País Relativo. Entre os seus criadores, amigos de longa data, encontram-se militantes do PS (um deles dirigente nacional e um outro chefe de gabinete de Ferro Rodrigues), mas não se julgue que a actividade ou o discurso partidário ensombram este blogue, nascido em finais de Fevereiro. Apesar das infundadas reivindicações de textos de índole político-partidária, lançadas por muitos leitores, os bloguistas estendem a sua escrita a temas tão diversos como o cinema, as viagens, a literatura ou a música. “As pessoas não podem comparar o País Relativo à Acção Socialista: não é nem nunca será”, diz Rui Branco, historiador a viver em Florença. Como se pode ler no “post” inaugural do blogue, a “trespassante lucidez e actualidade” do poema de O’Neill, que descreveu um Portugal sorumbático e fragilizado, são motivos para a exposição de ideias e para o arranque de debates interactivos. Embora Mariana Vieira da Silva admita que “gostava que existisse na blogosfera um maior equilíbrio entre a direita e a esquerda”, não é por essa razão que as discussões esmorecem.

Rui Branco explica que o modelo bloguístico revisita um método de debate do século XIX: “Os parlamentares eram muito mais cultos do que actualmente e tinham uma forma de discutir, com grande vivacidade, que está a regressar agora nos blogues”. Sublinhando a “saudável convivência” e a “crítica irónica” que agora ressurge, o historiador aponta ainda que, em alguns casos, o diálogo é “uma lição de Estado”. E remata: “É uma espécie de blogues dos fillhos da madrugada e isso revela um espírito diferente. Desde logo porque não somos info-excluídos””.

“Público”, 23 de Junho 2003


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É Um Blogue Português com Certeza
noquintodosimperios.blogspot.com

Quem é de esquerda tem “mais facilidade” em escrever na imprensa escrita. Logo, os de direita utilizam os blogues porque “não têm acesso” a outros espaços de publicação. Quem o diz é Diogo Henriques, um dos autores do blogue No Quinto dos Impérios, que, embora tenha nascido há pouco mais de um mês, é já um dos sítios mais visitados da blogosfera. Paradigma da aldeia global (à escala europeia, refira-se), o blogue é mantido por mais quatro dinamizadores (além de Diogo Henriques, de Lisboa), espalhados em diferentes geografias. A saber: Fernando Albino, em Londres, João Vacas e Miguel Borges de Freitas, ambos em Bruxelas, e Francisco Mendes da Silva, que vive entre Coimbra e Viseu.

Para além de refrear o distanciamento físico, o blogue ilustra igualmente as ideias políticas dos cinco amigos, todos eles filiados no PP. Mas a participação política activa não condiciona, assegura Diogo Henriques, a profusão e o conteúdo dos “posts”. “O debate político é mais rápido, mais descomprometido e não segue uma disciplina partidária”, afirma.

Com um título inspirado no padre António Vieira (não em Fernando Pessoa), o blogue apresenta-se como “liberal e conservador”, recolhendo ainda estes epítetos duas correntes: “Tradicionalista ou democrata-cristão”. E ressalvam que as empatias variam “consoante os dias e as assinaturas”. Escrevem que não são “saudosistas” – têm, antes, saudades “da nossa horta à beira-mar plantada” – e saúdam os leitores “como o lindo azulejo de uma casa portuguesa: seja bem vindo quem vier por bem”.

Apesar da militância activa dos bloguistas – que se revela, muitas vezes, em referências “irónicas” à Nova Democracia, de Manuel Monteiro -, o No Quinto dos Impérios é um lugar abrangente, onde se prodigaliza a “partilha de experiências e de heróis”, declara Diogo Henriques, acrescentando que o diálogo estende-se muitas vezes a afinidades culturais. E o cruzamento de opiniões faz-se segundo um estilo de escrita “que estava muito perdido”, sustentado em “bases diferentes” e propício a “discussões estimulantes””.

“Público”, 23 de Junho 2003

 

 

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1º "POST" – AVIZ – 16.06.2003 1990/91 – GUERRA DO GOLFO

3 comentários

  • 1. Primeiro Ministro  |  16 Dezembro, 2003 às 7:01 pm

    E no meio disto tudo o blog mais importante acabou por ser o chatíssimo JPP! (pipisáparte)

  • 2. Primeiro Ministro  |  16 Dezembro, 2003 às 7:01 pm

    E no meio disto tudo o blog mais importante acabou por ser o chatíssimo JPP! (pipisáparte)

  • 3. vmar  |  16 Dezembro, 2003 às 7:32 pm

    Estou a gostar muito.


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