2003 – ANO DOS "BLOGUES" (XV)

14 Dezembro, 2003 at 3:42 pm 1 comentário

Em 19 de Junho, Pacheco Pereira volta a tratar o tema “blogues” na sua coluna no “Público”:

«Seja como for, a comunicação na esfera pública ganhou com os blogues. Ainda não tem uma massa crítica estável, mas já tem uma massa crítica instável. É um mundo efervescente, com nascimentos e mortes todos os dias, com um mercado rude de influência e opinião, de relações de poder e guerras intestinas, digno da “mão invisível” de Adam Smith ou de Florença e Veneza dos bons tempos dos Medici e dos Pazzi. Às vezes espreme-se tudo num dia e fica pouca coisa, mas o que fica é bom e fica sempre alguma coisa. O mesmo se passa com o resto da comunicação social – também, quando se espreme, às vezes não fica quase nada. Por isso, os blogues somam».

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Espelho Meu, Espelho Meu

Eu sou suspeito porque também tenho um, mas a explosão dos blogues é um acontecimento importante na esfera pública portuguesa. É mais tarde do que noutros países, mas também não é assim tão tarde – a realidade dos blogues como forma alternativa de comunicação tornou-se conhecida para a opinião pública em geral durante a guerra do Iraque.

Um blogue é uma página pessoal na rede que se desdobra como um pergaminho antigo, organizada de modo cronológico da actualidade para trás.

O seu autor (ou autores porque há blogues colectivos) escreve ou coloca fotos, ou músicas, ou qualquer outro produto digitalizado, em entradas diárias que se vão sucedendo de cimo da página para baixo, mergulhando na invisibilidade as entradas mais antigas, ao sabor do cursor. As entradas ainda mais antigas acabam num arquivo, ou seja, fora da página activa. O “software” para fazer estas páginas, e o local para as instalar, é fornecido gratuitamente na sua versão mais simples por várias empresas, e não exige qualquer conhecimento especializado de informática. Quem tiver um computador ligado à rede e um processador de texto pode fazer um blogue em meia hora, sem gastar nada.

Os actuais autores de blogues não sabem a felicidade que têm de ter esse instrumento, porque eles são a realização de um sonho que parecia inatingível para gerações de estudantes com pretensões intelectuais do liceu e da universidade: ter uma revista literária, um jornal onde se pudesse escrever o que se quisesse. Gerações de jovens “litterati” tiveram essa vontade, alguns realizaram-na com enorme esforço. Era muito caro, os procedimentos para publicar burocráticos e onerosos, as tipografias a chumbo obrigavam a morosas revisões, primeiras provas, segundas provas, linóleos, gravuras, etc., etc. E, num país como Portugal, antes do 25 de Abril, era muitas vezes impossível devido à censura. Eu tive essa experiência e sei como é.

Depois e, num breve instante, deu-se uma revolução. As máquinas de escrever deram lugar aos computadores – imaginem o que era rever um texto e passá-lo “a limpo” -, os processadores de texto evoluíram para o “desktop publishing”. A rede realizou outro sonho também inimaginável – o da Enciclopédia Universal em hipertexto, ter o catálogo da biblioteca em linha e ter muitos dos livros em linha, ter o saber todo em linha – e, a crescente passagem do analógico ao digital, unificou num único fio electrónico texto, imagens, música. Depois, “publicar na rede” tem a mais absoluta das audiências potenciais, o mundo todo, e acabou com o problema das tiragens.

Os blogues são um passo neste processo, depois dos “newsgroups”, dos “chats”, dos boletins em linha e dos diários em linha. A fórmula do blogue, o seu arranjo cronológico, favorece determinado tipo de escrita intimista, mas as suas potencialidades permitem ir mais longe. Há hoje na blogosfera portuguesa de tudo: diários íntimos, diários falsos, diários exibicionistas, blogues obscenos, blogues satíricos, blogues de impressões quotidianas, blogues de futebol, blogues regionais, blogues científicos, blogues de bibliófilos, blogues escritos para serem lidos pelo namorado(a), blogues literários, blogues sobre poesia clássica, blogues sobre o latim, blogues de investigação para doutoramentos, blogues jornalísticos, blogues de estudantes que têm o exame amanhã, blogues de música, arquitectura, direito, economia, psiquiatria, há blogues do partido do dr. Monteiro, do Bloco de Esquerda, das juventudes do PS, monárquicos, reaccionários e esquerdistas, blogues dos amigos de Hayek, dos amigos de Keynes, dos amigos da boa vida sob o signo de Epicuro, etc., etc. Não citarei nenhum em particular, se forem ao Blogues em PT (http://blogsempt.blogspot.com/ ) terão a lista em bruto e no Blogo (http://blogo.no.sapo.pt/ ) uma lista já tratada por categorias.

A blogosfera, um neologismo aceitável porque transmite a ideia “atmosférica” e comunitária que os blogues ainda são, reflecte as correntes do resto do espaço público mais do que muitos dos autores de blogues pensam. Para além do carácter estético e literário de muitos textos, da utilidade dos blogues para o trabalho científico, do seu papel como “media” alternativos, eles aumentam a informação, e não são uma mera continuidade do “mundo exterior”, acrescentando dimensões novas.

Na blogosfera há muitos relatos de eventos que nunca chegam aos jornais ou que, quando chegam, são aqui vistos com outros pontos de vista alternativos. Nos últimos dias, pude acompanhar vários eventos, desde colóquios na Feira do Livro, a um concerto de Baremboim no Carnagie Hall, pelo olhar dos blogues. É o relato muitas vezes pessoalíssimo, subjectivo, interessado, demasiado próximo? É, mas e o dos jornalistas acaso é diferente? É verdade que é um mundo muito juvenil, demasiado lisboeta e às vezes “intelectualizado” no mau sentido, com má-língua de café, mas qual é o problema? Com isso pode-se bem, relativiza-se.

Há também possibilidades novas como a de um discurso crítico sobre a própria comunicação social que não tem qualquer paralelo nos órgãos de comunicação tradicionais. Não é apenas a televisão que é criticada, ou a rádio, mas a imprensa escrita. No último mês, encontra-se na blogosfera abundante material sobre a denúncia de várias operações de desinformação com base em declarações de Wolfowitz, ou na história dos roubos do Museu de Bagdad, ou no número de vítimas da guerra. A imprensa, rádio e televisão que participaram nessas desinformações, ou seja, fizeram mau jornalismo quando não “jornalismo” politizado, continuam impávidas e serenas a repetir as mesmas coisas. Só que já não podem alegar que não sabiam e manter a impunidade.

A imediaticidade do meio também permite uma crítica ou uma reflexão sobre os eventos muito rápida. No caso da conferência de imprensa e da entrevista à RTP de Fátima Felgueiras, vários blogues levantaram no mesmo dia todas as objecções que, uma semana depois, emergiram na comunicação tradicional como se fossem grandes novidades. É verdade que esta imediaticidade também se presta à asneira, mas aí os blogues em nada se distinguem da comunicação social tradicional. Mais: são melhores, porque como são muitos e diferenciados os pontos de vista, a correcção das asneiras é mais rápida.

Como em todos os momentos da história das tecnologias e como aconteceu desde o primeiro minuto com a Internet, florescem as utopias sobre os blogues. O tempo encarregar-se-á de lhes dar um papel e de mostrar o que mudaram e aquilo em que são uma continuidade ou um prolongamento dos “media” tradicionais. Há e haverá problemas éticos suscitados pela margem ténue entre a privacidade e a intimidade, tão propícia a ser ultrapassada pelo carácter intimista da escrita nos blogues, contrastando com a sua total exposição pública. Estes problemas não são distintos de outros já conhecidos pelo carácter de “aldeia global” da rede.

Seja como for, a comunicação na esfera pública ganhou com os blogues. Ainda não tem uma massa crítica estável, mas já tem uma massa crítica instável. É um mundo efervescente, com nascimentos e mortes todos os dias, com um mercado rude de influência e opinião, de relações de poder e guerras intestinas, digno da “mão invisível” de Adam Smith ou de Florença e Veneza dos bons tempos dos Medici e dos Pazzi. Às vezes espreme-se tudo num dia e fica pouca coisa, mas o que fica é bom e fica sempre alguma coisa. O mesmo se passa com o resto da comunicação social – também, quando se espreme, às vezes não fica quase nada. Por isso, os blogues somam.”

José Pacheco Pereira

“Público”, 19 de Junho 2003

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1º "POST" – DESBLOGUEADOR DE CONVERSA – 05.06.2003 1989 – QUEDA DO MURO

1 Comentário

  • 1. vmar  |  14 Dezembro, 2003 às 7:03 pm

    É domingo, mas não faltei à chamada.


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