2003 – ANO DOS "BLOGUES" (VIII)

7 Dezembro, 2003 at 6:33 pm 1 comentário

A Revista “Meios”, no seu número referente ao mês de Maio, edita um texto sob o tema: “Blogs”: o outro lado da Internet (ver o texto completo também aqui, em “entrada estendida”).

A 4 de Maio de 2003, são editados no “Público” novos artigos sobre o fenómeno dos “weblogs”, de Pedro Miguel Madeira.

No dia 6 de Maio, inicia-se o “blogue” mais mediático da “blogosfera”, o Abrupto, de Pacheco Pereira – que, para que não restassem dúvidas sobre a autoria, anunciou no dia seguinte o tema do texto que iria apresentar no “Público” a 8 de Maio.

A 7 de Maio, Carlos Pinto Coelho fala sobre os “blogues” no “Acontece” (na RTP2).

Também a 8 de Maio, nasce “O Meu Pipi“, talvez o mais famoso “blogue” português – “Blog a pisar o risco do mau gosto, mas sem o ultrapassar. Palavrões não, caralho”. Começava assim: “Tenho dois sonhos: um é instituir a paz no mundo, fazendo com que por meu intermédio os dirigentes de todos os países dêem as mãos e comecem a construir juntos um mundo melhor. O outro é dar uma foda relatada por Gabriel Alves. No primeiro não faço muita questão, mas este gostava mesmo de levar a cabo”. Estava dado o mote.

“O Meu Pipi” viria a afirmar-se com inúmeros textos (“não reproduzíveis”), tendo sempre presentes os ingredientes do sexo, humor, a par de uma vasta gama de palavrões (desde os mais “vulgares” até recuperações de “calão” há muito caído no esquecimento), sendo escrito num português de qualidade, inclusivamente com diversas referências literárias.

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“Blogs”: o outro lado da Internet

A recente aquisição da Pyra Labs, a criadora do site http://www.blogger.com, por parte da empresa Google, sugere fortemente que o blog não é apenas um fenómeno passageiro. Alguns blogs pessoais têm mais visitantes por dia do que páginas de multinacionais. Começa-se a discutir as potencialidade do blog como concorrente da imprensa escrita, sendo que também possui uma das armas mais fortes da rádio, a imediatez.

Mas, afinal, o que é um blog? O blog – ou web log – é um diário publicado na Internet. É uma lista de entradas organizada por ordem cronológica, com a entrada mais recente geralmente no topo. Dizer que é um diário não implica necessariamente que contenha um relato da vida privada de quem o escreve. É um pouco mais como o diário de bordo do capitão de um navio, que descreve todos os dias as aventuras e desventuras da navegação.

O blog é o diário de bordo de quem navega na Internet. Foi assim que começou, pelo menos, há apenas meia dúzia de anos. Alguém encontrava um site obscuro sobre filosofia asiática, e anotava no blog as suas impressões. Talvez pudessem vir a ser úteis a alguém que por aí andasse à deriva. Outras pessoas contavam o que acontecia no seu bairro. Alguns destes textos continham informação que não tinha sido publicada em nenhum órgão de informação tradicional . talvez não tivessem passado o filtro do editor, ou talvez nenhum jornalista tivesse sequer sabido que aquilo aconteceu. Alguma dessa informação poderia ser suficientemente interessante para ser chamada de notícia. Qualquer pessoa pode ter um blog na Internet. Existem várias empresas a oferecer espaço para a página, de graça. E qualquer um pode escrever notícias no seu blog. Viremos a ter uma população inteira de jornalistas? Estaremos perante uma nova forma de jornalismo?

Notícias alternativas

Os blogs publicam notícias, e blogs de especialistas na área da informática, economia ou física nuclear começam a ser consultados com regularidade como fontes de informação alternativas aos media tradicionais. Através do blog, começou a ser possível saber o que não tinha sido noticiado nos jornais, ou sabê-lo antes do jornal sair, com um nível de profundidade impossível na rádio. Nos Estados Unidos, um sindicato decide organizar uma greve. Dez minutos depois de o comentário ser publicado no blog, às três da manhã em Londres, um grupo de discussão on-line que incluía intervenientes portugueses, americanos e franceses elaborava cenários de evolução da situação e planeava soluções. Duas horas depois, a greve é cancelada. Mais algumas horas passam antes de os jornais publicarem a notícia – algumas horas tarde de mais para quem quisesse mudar o curso dos acontecimentos. A televisão, só à noite, se nessa altura ainda houver algo que valha a pena ser contado.

Através do blog, vislumbramos uma revolução dos media. Um jornalismo descentralizado, flexível, imediato, isento de pressões políticas e económicas, uma voz para cada cidadão num espaço público global, em toda a plenitude democrática que só as novas tecnologias podem oferecer. Bom demais para ser verdade?

Richard Smith, investigador e especialista em Comunicação da universidade Simon Fraser, no Canadá, mostra-se optimista, mas com reservas: “Claro que nem tudo o que aparece nos blogs pode ser considerado jornalismo, a menos que adoptemos um conceito muito diluído do que é o jornalismo. Dito isto, creio que é válido afirmar que o conteúdo de alguns pode ser sem dúvida descrito como jornalismo. Alguns blogs são até escritos por jornalistas profissionais, embora uma certa percentagem use pseudónimos, por uma variedade de razões”.

A questão é que nem tudo o que é notícia pode ser considerado jornalismo, e nem tudo o que um jornalista profissional escreve é jornalismo. Claro que o jornalismo tradicional tem limitações e problemas. Claro que o gate-keeping pode aproximar-se da censura, e que uma opinião de esquerda dificilmente será publicada num jornal de direita. No entanto, o facto de um jornalista profissional estar condicionado por regras deontológicas não deve ser considerado uma prisão, mas uma garantia de qualidade.

Poderemos desistir de todas as regras e ter ainda jornalismo? A liberdade de expressão é um dos pontos centrais da democracia, mas a liberdade completa de expressão individual levaria à anarquia, não à democracia. Escrever sob pseudónimo é uma garantia de liberdade total, mas poderá haver jornalismo sem que o escritor tome responsabilidade pelo que é dito? A existência de tribunais não garante que haja justiça, e sem dúvida que muitos culpados são absolvidos, e inocentes castigados em nome da lei . mas, ainda assim, geralmente considera-se que estes erros são um mal menor, porque a alternativa não é aceitável. A alternativa é confiar nos homens, em vez de confiar nas leis. Só a responsabilização, associada à possibilidade de punição legal, torna possível a democracia, e a liberdade do indivíduo num contexto social (a liberdade individual tem que estar limitada pelo respeito dos direitos dos outros).

Autoridade, conhecimento e responsabilidade

Oscar Wilde disse que não faz sentido termos uma arte cingida à obediência das regras da moral. Se o jornalismo fosse uma arte, faria sentido exigir uma liberdade absoluta para o jornalista a todo o custo. Mas a arte, se pode ser um componente do jornalismo, não será seguramente a sua essência. O jornalismo do blog é fundamentalmente um jornalismo de opinião. As opiniões podem ser jornalismo, mas apenas quando analisam factos de forma útil, ou os predizem com bases razoáveis de probabilidade. Uma liberdade total, uma total ausência de responsabilização, implica uma liberdade de ignorar os factos, e uma opinião expressa sem respeito pelos factos, ou até com respeito pelos factos mas sem a possibilidade de dar uma garantia desse respeito ao leitor, não é mais do que um rumor.

Quantos de nós é que têm o tempo e a vocação para investigar um rumor? Se um desconhecido me abordar na rua e me sugerir que tome um certo medicamento, porque isso melhoraria a minha saúde, ele não me está a fornecer qualquer informação, mesmo que isso seja verdade, enquanto não se identificar como médico. O argumento de autoridade funciona porque a autoridade está baseada não só num conhecimento de especialista mas também na responsabilidade. Acredito no médico não só porque ele sabe que medicamentos devem ser tomados, mas também porque o médico poderia sofrer consequências legais no caso de receitar um medicamento errado. Quando o autor de um blog escreve sob pseudónimo, perde a credibilidade ao prescindir da identidade.

O futuro do blog não é tão negro assim. O autor de um blog pode obter autoridade através da referência a fontes, que se forem links poderão ser verificadas imediatamente. Alguns destes links poderão ser fontes absolutamente fidedignas. Quem assina o blog pode usar a sua verdadeira identidade (embora isto só seja relevante se houver uma forma fácil de a comprovar).

Os blogs podem ser a única via para algumas verdades, se puderem evitar ser compilações de rumores. Embora eu prefira confiar em leis do que nos homens, um homem ou grupo de homens poderão provar que merecem essa confiança, mesmo sem leis que os limitem e controlem. Seja como for, o blog já encontrou a sua função, mesmo que se limitasse a ser uma fonte de rumores a usar por jornalistas, porque uma notícia começa com frequência num rumor.

Na opinião de Richard Smith, “alguns jornalistas irão procurar ideias nos blogs, e o estilo de escrita poderá influenciar o actual estilo jornalístico. Não creio que irão substituir os media tradicionais, mas creio que para alguns tipos de informação (e opinião), os leitores irão optar por um blog que conhecem e em que confiam. Tal como os vários media, ao surgirem, não substituíram os media anteriores, também os blogs irão ocupar o seu próprio espaço dentro do ambiente existente. Podemos ver a situação como uma ecologia mediática em que os blogs preenchem um nicho”.

É fácil cedermos à tentação de classificar, mas é ainda demasiado cedo para decidirmos o futuro do blog. Poderá, um dia, ser regulamentado. Talvez deva sê-lo, mas só até certo ponto. Um blog sem regras não é jornalismo, e um blog com as mesmas regras do jornalismo seria a tecnologia sem a filosofia, não já um blog em toda a sua arrogância intelectual, e até artística. Algo se teria perdido. Acredito que não seja preciso ter uma liberdade completa do indivíduo para se poder ter arte e jornalismo em simultâneo – creio que a democracia basta.”

Revista “Meios”, Maio 2003

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1º "POST" – BOMBA INTELIGENTE – 02.04.2003 1984 – IRA

1 Comentário

  • 1. vmar  |  7 Dezembro, 2003 às 7:23 pm

    Apesar do fim-de-semana prolongado, cá estou.


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