EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – DO LADO DE SWANN (IV)

1 Janeiro, 2004 at 1:00 pm

“Mas de repente foi como se ela tivesse entrado, e esta aparição constituiu para ele um sofrimento de tal modo dilacerante que teve de levar a mão ao coração. É que o violino subira a notas altas, onde permanecia como que à espera, uma espera que se prolongava com ele a mantê-las, na exaltação em que estava de avistar já o objecto da sua espera que se aproximava, e com um esforço desesperado para tentar durar até à sua chegada, para o receber antes de expirar, para lhe conservar ainda por um momento, com todas as suas últimas forças, o caminho aberto para ele poder passar, como se aguenta uma porta que, se não fosse isso, cairia. E antes de Swann ter tempo de compreender e pensar: «É a pequena frase da sonata de Vinteuil, é preciso não ouvir!», todas as suas recordações do tempo em que Odette estava apaixonada por ele e que até ali ele conseguira guardar invisíveis nas profundidades do seu ser, enganadas por aquele brusco raio do tempo de amor que julgaram regressado, tinham despertado e, em voo rápido, de novo haviam subido a cantar-lhe perdidamente, sem piedade pelo seu presente infortúnio, os esquecidos estribilhos da felicidade.

Em lugar das expressões abstractas «tempo em que eu era feliz», «tempo em que eu era amado», que muitas vezes até então pronunciara, e sem excessivo sofrimento, porque a sua inteligência lá tinha encerrado apenas supostos extractos do passado que dele nada conservavam, deparou com tudo o que fixara para sempre a específica e volátil essência daquela felicidade perdida; reviu tudo, as pétalas nevadas e frisadas do crisântemo que ela lhe atirara para a carruagem, que apertara contra os lábios; o timbre em relevo da Maison Dorée na carta onde lera: «Treme-me tanto a mão ao escrever-lhe»; a aproximação entre as suas sobrancelhas quando lhe dissera com um ar suplicante: «Não vai demorar muito a dar-me sinal de si?»; sentiu o cheiro do ferro de frisar com que punha em pé o seu cabelo «em escova» enquanto o Loredanol ia à procura da pequena operária; as chuvas de temporal que caíram tantas vezes nessa Primavera, o regresso glacial na sua vitória, ao luar, todas as malhas de hábitos mensais, de impressões de estação, de reacções cutâneas, que haviam estendido sobre uma série de semanas uma rede uniforme em que de novo o seu corpo estava apanhado. Naquele momento, satisfazia uma curiosidade voluptuosa conhecendo os prazeres das pessoas pelo amor.”

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