Archive for 1 Maio, 2005

À CONVERSA COM PAUL AUSTER (IV)

Começou por referir que vivemos num mundo global (“Ainda ontem estava em Nova Iorque; agora, poucas horas depois, aqui estou em Lisboa”), em que, naturalmente – e não obstante o predomínio do inglês como língua “comum” a nível internacional –, são necessárias traduções… e, portanto, tradutores.

Más traduções podem “matar uma obra”; inversamente, algumas (boas) traduções dão nova alma ou mesmo nova vida ao livro; podem chegar inclusivamente ao ponto de ser melhores que o original!…

É impossível replicar a 100 % um livro; cada língua é diferente, tem as suas especificidades próprias, os seus pontos de riqueza.

Daria mesmo o exemplo de uma obra de Dostoiewsky (“Crime e Castigo”) que leu quando tinha cerca de 15 anos, naturalmente não em russo, mas em inglês, numa tradução feita um século após a escrita do livro e que, não obstante poder não traduzir eventualmente de forma fiel o original, lhe proporcionou tal prazer na leitura que contribuiu decisivamente para o seu gosto pela escrita.

Rematou dizendo que “um livro não são só palavras, mas, principalmente, as emoções que pode transmitir”.

Questionado a propósito da Trilogia de Nova Iorque, confidenciaria que demorou cerca de 15 anos a escrever esta obra (entre 1970 e 1985), tendo começado a sua escrita numa época em que Nova Iorque era uma cidade verdadeiramente caótica.

Abrindo o coração à audiência, referiria o momento mais emocionante da sua vida como escritor quando, em 1992, encontrou um Bósnio, durante o cerco de Sarajevo, na guerra de secessão jugoslava, que se fazia acompanhar do livro.

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1 Maio, 2005 at 12:55 pm 2 comentários

À CONVERSA COM PAUL AUSTER (III)

A questão seguinte remeteu para um paradigma das obras de Auster: em todos os seus livros, em determinado momento da história, seja no início, a meio ou no final, os personagens acabam por “perder tudo”; até que ponto considera que a sorte é importante ou pode mesmo ser determinante na vida das pessoas.

Auster sintetizou dizendo que os seus livros mais não são do que uma metáfora do que todas as pessoas passam na vida: momentos bons; momentos menos bons, de perda, até desespero. As suas histórias são sobre a vida (“that’s what this is all about”)…

Foi de seguida questionado sobre se utiliza, na sua escrita, como método, uma técnica similar à da escrita de peças de teatro.

Refutaria, afirmando que já escreveu argumentos para cinema, mas nunca para teatro e que os romances têm uma técnica distinta.

A propósito: porque escreve tão frequentemente sobre a “escrita”?

Diz Auster: “É um tema! Também faz parte do mundo”… e, com algum humor e ironia, “o que conheço melhor” (aquele de que estará mais à vontade para falar). Aprecia-o a tal ponto, que o potenciou em “A Noite do Oráculo”, contando histórias dentro de histórias, dentro de histórias…

Retomando de alguma forma o tema inicial da oralidade da escrita, foi então questionado sobre a eventual perda que decorrerá para a escrita da necessidade de tradução.

Mais uma vez apreciando a questão, o escritor faria aqui talvez a maior “dissertação” da noite…

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1 Maio, 2005 at 9:55 am

À CONVERSA COM PAUL AUSTER (II)

E, na sequência da parte inicial do encontro com o escritor, a propósito da leitura em voz alta, a primeira pergunta, abrindo da melhor forma a conversa, seria mesmo sobre a importância que a sonoridade da leitura terá sobre a forma de escrita; até que ponto, esse “teste” será importante para a fixação definitiva do texto.

Auster, visivelmente satisfeito com esta pergunta inicial, respondeu que tinha a sorte de ser casado com uma escritora (Siri Hustvedt) e confirmou a importância da sonoridade da leitura. Afirmou proceder regularmente, a cada 30 ou 40 páginas escritas, à leitura oral, para a mulher, de excertos das suas obras, de que resultariam revisões ao texto, na procura de lhe dar a melhor forma, não só escrita, mas também em termos de oralidade.

Ainda a propósito de ser casado com uma escritora, a pergunta seguinte foi a de se a personagem do seu livro seria uma continuação de uma personagem de uma obra da esposa.

Responderia taxativamente que não; os livros que escreve são, naturalmente, independentes dos escritos por Siri Hustvedt!…

Seguiu-se a referência à técnica peculiar de Auster, em cujas obras o protagonista vai contando a sua história e introduzindo outras histórias. Culminando em “A Noite do Oráculo”, em que, para além da história dentro da história, terá sentido a necessidade de recorrer a extensas notas de rodapé.

O escritor afirma não pensar que se trate de um novo estilo, a desenvolver, mas sim de uma consequência natural de esta sua última obra compreender várias histórias paralelas que vão nascendo e que se vão entrecruzando dentro do enredo principal.

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1 Maio, 2005 at 12:10 am 4 comentários


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