A PROPÓSITO DE "A PAIXÃO DE CRISTO"

11 Março, 2004 at 6:10 pm

Estreia hoje (Quinta, 11 de Março), o último filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”, que tanta polémica tem provocado.

A ler, a propósito, o texto de António Sérgio Pessoa no Público (ver em “entrada estendida”) e, talvez, o mais longo texto da “história da blogosfera portuguesa”, de Nuno Guerreiro, na Rua da Judiaria.

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A Propósito de “A Paixão de Cristo”
Por ANTÓNIO SÉRGIO PESSOA
Quinta-feira, 11 de Março de 2004

Tem-se afirmado que o filme de Mel Gibson sobre as últimas horas de Jesus considera “os judeus”, em geral, como responsáveis pela sua condenação, o que derivaria de uma interpretação literal dos evangelhos feita pelo realizador.

Trata-se de matéria que, evidentemente, pouco ou nada tem a ver com a religião e muito tem a ver com História. É uma generalização que revela pouco conhecimento do quadro político-religioso de então, onde de forma alguma era legítimo acoplar-se aos “judeus”, extremamente divididos entre si, a responsabilidade fosse do que fosse e muito menos do facto específico da condenação de Jesus, que sempre se considerou como judeu.

Para conhecimento do Jesus histórico, estamos praticamente limitados aos quatro evangelhos canónicos (S. Marcos, S. Mateus, S. Lucas, S. João), que foram escritos décadas depois dos acontecimentos que relatam, em locais longínquos da Palestina e com objectivos de apologia e missionação de vários povos com diversas culturas, mas todos num quadro de submissão ao Império Romano.

Existem por outro lado imensas contradições entre as descrições destes evangelhos, diversas inverosimilhanças e incorrecções de natureza histórica. Uma interpretação literal dos seus textos, no sentido do que foi feito no filme, é, no mínimo, deformadora da verdade.

Como é sabido, após a Paixão, os discípulos e familiares de Jesus fixaram-se em Jerusalém, constituindo a denominada Igreja de Jerusalém, também conhecida como dos nazarenos, de que Jesus terá sido o seu chefe, o que consta no “titulus” mandado colocar na cruz por Pilatos. Era um grupo de fiéis cumpridores da Torah e de frequência assídua do Templo. Acreditavam no advento próximo do Reino de Deus, isto é, do fim do mundo, que seria seguido do Juízo Final, em corpo físico, de toda a humanidade, viva ou morta.

Na época, estes grupos tinham uma natureza religiosa, mas também política. Havia então diversos, de que para a História ficaram como mais importantes os saduceus, uma aristocracia colaboracionista com os romanos que dominava as actividades no Templo de Jerusalém, os fariseus, que eram laicos “estudiosos da Lei”, e os essénios, uma espécie de radicais na interpretação da Torah, que viviam em comunidades principalmente de homens e que alguns apontam como os autores dos Manuscritos do Mar Morto.

Pelos evangelhos, pode-se deduzir que o ministério de Jesus se dedicava exclusivamente aos judeus, sendo condição apriorística para a salvação o ser-se judeu (circuncidado e cumpridor das regras da Torah). Depois era necessário o arrependimento dos pecados, um baptismo, abandonar todos os interesses “do mundo” e seguir Cristo.

Uns anos após a Paixão, Saul de Tarso, um judeu com cidadania romana (um privilégio raro na altura), após um período de perseguição aos nazarenos, ao serviço dos saduceus, tem uma visão na estrada para Damasco e converte-se no mais importante missionário de Jesus Cristo junto aos “gentios”, procurando por várias vezes junto da Igreja de Jerusalém uma sua certificação para tal.

Até aos anos 60 d.C., o fosso entre a Igreja de Jerusalém e o referido Saul, que então havia mudado de nome para Paulo, não parou de crescer, com frequentes conflitos entre este e os “judeus” das várias cidades da diáspora onde pregava. Se bem que a separação em concreto (entre “os da Lei e os da Fé”) se deva ter dado já na década de 60, para os romanos, todos eram igualmente “judeus”, pelo menos até fins do século I.

Após a morte de Herodes (4 a.C.), na Palestina, grupos de zelotas e sicários (de que, pelo menos, havia um nos “doze” de Jesus) criavam um estado de terror, por assaltos e assassinatos, lutando por uma independência do poder romano e dos reis locais seus fantoches (Herodes Antipas, por exemplo, rei da Galileia nomeado na Paixão e na decapitação de João Baptista). A sua brutalidade passou pela ocupação de Jerusalém, onde passaram a fio de espada tudo quanto pensassem que era colaborador e culminou com a chamada Primeira Guerra Judaica, durante a qual os romanos, chefiados por Tito, arrasaram Jerusalém e o Templo, o símbolo por excelência do judaísmo pré-rabínico. Daí adveio, a partir de 70 d.C., uma atitude hostil de todo o império relativamente aos judeus, tidos por povo cruel de sediciosos fanáticos, em que milhares foram crucificados e centenas de milhares reduzidos à escravatura.

É neste contexto, de conflito interno na diáspora e de má-querença no império, que são escritos os evangelhos e demais textos neotestamentários. Havia que demarcar o Cristo e os “cristãos” dos “judeus”, se possível aligeirando a responsabilidade de Pilatos (paradigma do poder romano) na morte do Cristo e fazendo “os judeus” carregarem com esse fardo. Tal intuito é nítido em todos os evangelhos, mas é manifestamente injusto quando se extrapola das presumíveis atitudes de um pequeno grupo, relacionável com os saduceus, para todos os judeus.

Era compreensível que os saduceus quisessem matar Jesus, que, além de procurar abolir a prática religiosa fundada nos sacrifícios no Templo, que controlavam, constituía um foco de agitação e um pretexto de congregação dos judeus mais exaltados no seu fervor religioso e patriótico através da mística do “fim do mundo iminente” e da sua propaganda como messias, o que, do seu ponto de vista, apenas conduziria a destruição, guerra e sofrimento para o seu povo: “Virão os romanos e destruirnosão o Templo e a Nação” (…) “Que morra um só homem e não pereça a Nação inteira” (Jo, 11, 4850). A História deu-lhes razão, mais tarde…

Não terá sido difícil “convencerem” Pilatos dos perigos de sedição que Jesus constituía, especialmente após a entrada triunfal em Jerusalém, em plena época das enchentes da Páscoa. Pilatos não deve ter tido qualquer dúvida na condenação, comprovada pelo “titulus” explicativo que fez colocar na cruz (I.N.R.I.): o nome – Jesus – e depois as razões: nazareno e rei dos judeus.

Livravase assim de um perigo, satisfazia os poderosos locais e defendia os interesses de Roma. Sem grandes (ou pequenas) manifestações populares contra. Para eles, o “galileu” era, de facto, um alucinado religioso, um fanático, iludido na sua fé de que teria o apoio do seu deus para derrotar Roma, a poderosa, a protegida pelos verdadeiros deuses. Justiça tinha sido feita e a “pax romana” mantida.

Referem os evangelhos a reticência de Pilatos em condenar Jesus e a insistência dos alegados “judeus” em o matar. Mas a História descreve Pilatos como um homem cruel, cúpido e sem escrúpulos, que por muito menos do que Jesus era acusado havia mandado crucificar e matar milhares de pessoas. A insistência de Pilatos, apesar da confissão reiterada de Jesus de ser ou pretender ser reimessias de Israel, em considerá-lo inocente do crime por que o haveria de condenar coloca o procurador romano ou como inconsequente mental ou numa situação de nítida fragilidade face aos saduceus, o que não tem qualquer verosimilhança histórica.

Há também notória inverosimilhança nas palavras postas na boca dos “judeus” presentes no “átrio”, uma ou duas centenas no máximo, como sendo de todos os “judeus”, bem como na ênfase com que exigem a morte de Jesus. Há ainda deturpação na descrição dos procedimentos judiciários então estabelecidos de forma a inculpar os judeus na morte de Jesus. Os evangelistas terão querido “lavar” a imagem dos romanos, em cujo império viviam, à custa da dos judeus, seus adversários na missionação dos gentios e com quem não convinha “misturar” o seu salvador, Jesus.

Jesus foi condenado a uma pena romana pelo crime político de insurreição contra o poder romano, à luz do direito romano e os judeus apenas intervieram na medida em que um poderoso partido judeu o denunciou ao poder romano naquilo que pensavam ser os seus intuitos políticos de tomada do poder nessa Páscoa. É tudo o que a História pode concluir.

Razões conjunturais de conveniência dos evangelistas criaram assim a ideia, nos cristãos, de que os judeus, como nação, tinham sido os assassinos de “Deus”, o pior dos crimes para um religioso estreme. A Igreja não parou, até ao século XX, de explorar e incentivar esta ideia.

Hoje, a própria Igreja reconhece o erro do anti-sionismo por razões religiosas, mas, apesar do Vaticano II e das conhecidas posições sobre o assunto do actual Papa, persistem manifestações de fundamentalismo cristão.

Estudioso de Cristologia

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