MPB.pt (II) – TOM ZÉ (3 de Maio de 2006)

23 Julho, 2007 at 1:58 pm Deixe um comentário

“A vida brasileira não me aceita porque eu sou da roça, no Brasil. A coisa da roça no Brasil é que tem a ver com a vida de vanguarda de Nova Iorque. […] É como eu digo naquela canção: «eu estou te explicando / pra te confundir / tou te confundindo / pra te esclarecer». […]

Naquele tempo, criança não era consumidor nem essa autoridade que manda nos pais, hoje. Criança era um investimento da família e, logo que podia, começava a trabalhar na família. Eu estava na loja, com dez anos, abrindo tecido, medindo a fazenda, cortando e vendendo. Aí, tomei contacto com uma coisa que eu não sabia que existia: a língua do povo da roça. A língua que Portugal incubou e deixou incrustada no nordeste durante quatro séculos e que aquele povo cultivava ainda. Aquele povo ficou miserável, analfabeto, desgraçado, mas aquele povo tinha um amor imenso à cultura de seus avós, à cultura moçárabe, e conservou essa cultura na língua. […]

O nordeste vive de três alimentos sem água, desidratados: a carne seca, a farinha de mandioca e o ritmo. Sendo que o ritmo é o que faz o nordestino ficar em pé. […]

Meu pai era um homem pobre. Era um marreteiro. Não sei como se chama aqui: que vende no meio da rua… […] Um vendedor ambulante pobre. Em 1925, ele tirou a sorte grande da lotaria federal. Eram cinco contos de réis. […] Bom, não é que mudou a minha vida: isso fez eu nascer. Se ele não tivesse cinco contos de réis para botar uma loja, ele não podia nem se aproximar da minha mãe, que era filha do coronel Pompílio Santana. Ele só pôde se casar com minha mãe porque passou a ter outra classe social, outra vida. Minha mãe era de uma família estabelecida, Rica, digamos assim. Não tem rico, lá no interior. Tinha remediado. Então, minha mãe era remediada. […]

Um dia, não sei como, chegou um pote que era uma herança de um parente remoto de meu pai. […] Meu pai falou uma coisa: quer saber, vou dividir esse negócio, porque não quero perturbação na minha vida; avisa todo o mundo para que dentro de trinta dias todos os parentes vão na casa de fulano de tal (ele não tinha casa) e eu vou distribuir a botija. […] Então, ele ficou com quatro libras esterlinas. Ia saindo de casa com elas na mão e aí o vendedor de bilhetes, que vinha de Feira de Santana, passou na hora e disse: não quer comprar aqui? Tem um número lindo: 0549. […]

Mas é a verdade. Uma coisa fantástica. Quando meu pai me contou isso, ele já estava para morrer. Eu falei: puta! Mas que história, meu pai. Comprar o bilhete da lotaria com o dinheiro da herança dividida. Caramba!”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

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