Archive for Fevereiro, 2004

EÇA DE QUEIRÓS – A CIDADE E AS SERRAS (V)

“Muitas vezes, Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a cidade!

Mas depois conveio esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear com conforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da civilização. Mas quando ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da cidade, do 202 e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!», murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto; ele sacudia logo Paris, encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março garantiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem feita, viúva que sentia as necessidades do meu coração, partira com o irmão para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu. Parti eu para Paris.

Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202 – decerto por eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E, oh, surpresa!, eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento e depois de me encarar, grita:

– Eh, Fernandes!

Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202.”

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27 Fevereiro, 2004 at 1:57 pm

“BLOGOSFERA DOCE vs. GLÓRIA FÁCIL”

Sem querer entrar em “polémica” com o Glória Fácil (que, como diz o Filipe Moura no Blogue de Esquerda, também “faz parte da minha vida”, uma vez que o visito todos os dias…), achei “pouco simpático” o “post” do João Pedro Henriques que fala da blogosfera “doce”, particularmente quando refere:

“1. Só quem se leva demasiado a sério anuncia o fim do seu blog” (e, nos últimos dias, fizeram-no o Pedro Lomba e o Carlos Vaz Marques) e

“2. Só quem se leva demasiado a sério nos anuncia que isso não está para acontecer” (como o fez recentemente Pacheco Pereira).

Acho que se criou (implicitamente) como que uma “responsabilidade” (diria “ética”) perante os leitores, de lhes comunicar, nomeadamente essa intenção de acabar com o “blogue”.

…Pelo que não concordo nada que isso seja “levar-se demasiado a sério”.

Por outro lado, concordo plenamente que as discussões (ou debates) devem ser mantidos “civilizadamente” e, de facto, que haverá questões que não serão para discutir na blogosfera (até porque “discutir” por escrito é algo limitativo – falta a “entoação de voz”, as expressões faciais, os gestos…).

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27 Fevereiro, 2004 at 12:36 pm 1 comentário

BD – A NONA ARTE

A Banda Desenhada é também tema de “blogue”: BDNews, uma excelente página.

A propósito de “BD”, o imperdível Calvin & Hobbes pode visitar-se aqui.

P. S. Novo agradecimento, a “O Souselense” (uma ideia interessante, a dos “blogues” de índole “regional”, falando de assuntos de interesse para a respectiva comunidade).

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27 Fevereiro, 2004 at 8:00 am 1 comentário

BENFICA – CENTENÁRIO (XXVI)

1912

O atleta benfiquista Francisco Lázaro, um dos melhores maratonistas da época, morre ao correr a Maratona dos Jogos Olímpicos.

O Benfica realiza o primeiro jogo de futebol no estrangeiro, vencendo na Galiza o Deportivo da Corunha por 1-0. Conquista o título de campeão de Lisboa pela 2ª vez.

1913

O Benfica passa a disputar os seus jogos de futebol em Sete Rios (Estrada de Palhavã).

Conquista a vitória no Campeonato regional de Lisboa (3ª), tendo ganho ao Sporting por 4-1.

Em jogo particular, o Benfica vence o histórico Real Madrid por 7-0, no último jogo de uma digressão dos espanhóis, que tinham já defrontado antes o Internacional e o Sporting.

Introduz a prática da modalidade de Ginástica.

1914

O Benfica vence os Campeonatos Regionais de Lisboa em futebol em todas as (4) categorias (4º título na 1ª categoria, sagrando-se tri-campeão).

Nos terrenos existentes nas traseiras da sede, na Av. Gomes Pereira, o Benfica passa a dispor de um rinque de patinagem, nascendo assim a prática do Hóquei em Patins.

Ao comemorar o seu 10º aniversário, o Benfica dispõe de cerca de 600 sócios.

1915

É inaugurado um “court” de Ténis, na Quinta Nova.

No futebol, é vice-campeão, atrás do Sporting, que conquista o seu primeiro título de campeão de Lisboa.

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26 Fevereiro, 2004 at 6:57 pm

EÇA DE QUEIRÓS – A CIDADE E AS SERRAS (IV)

“Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu príncipe lentamente passava para o desejo da acção. E de uma acção directa e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.

Depois de tanto comentar, o meu príncipe, evidentemente, aspirava a criar.

Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel Hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:

– É curioso… Nunca plantei uma árvore!

– Pois é um dos três grandes actos sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem. Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!

– Sim. Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.

E como o Manuel descia da escada, o meu príncipe, que nunca acreditara inteiramente – pobre homem! – no meu saber agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela autoridade:

– Ó Manuel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?

Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através de um lento riso, entre respeitoso e divertido:

– Semear, patrão? Agora é antes colher. Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.”

[1032]

26 Fevereiro, 2004 at 1:53 pm

"MORAL DA HISTÓRIA"

Aos oito anos, era grande o entusiasmo com que Joana descobria o admirável mundo dos livros. Aprendera a ler ainda antes dos cinco (sozinha, como o Zezé d’O Meu Pé de Laranja Lima); não se sentia tão forte nas contas (principalmente nas de dividir, que a obrigavam a algumas piruetas, numa ainda complexa ginástica mental).

Foi com enorme excitação que recebeu a notícia de um “Concurso Literário” promovido pela escola; naquele dia, leu, pelo menos dez vezes, o cartaz afixado no átrio: “Concurso Literário / Participa com a tua história / 3 Prémios – Magníficos livros”.

A sua mente fervilhava de ideias, que tinha dificuldade em ordenar. Escreveu sem parar, muito para além da hora de dormir.

A história era auto-biográfica: falava da vida muito ocupada dos pais; de como a mãe, depois de um extenuante dia de trabalho, tinha ainda, sempre, tantas coisas para fazer em casa (não é que o pai não tentasse colaborar, mas…); do dia em que decidira, juntamente com o irmão, ajudar nas tarefas domésticas; o resultado tinha sido desastroso, mas a história terminava com uma moral: não fazem também os adultos, todos os dias, disparates muito mais graves do que deixar queimar o jantar?

(Texto preparado para o “1º Concurso de Literatura para Blogs” promovido pelo Luís Ene, no Ene Coisas).

P. S. Mais um agradecimento, ao Tribulandia.

[1031]

26 Fevereiro, 2004 at 8:22 am

BENFICA – CENTENÁRIO (XXV)

1916

O Benfica vence novamente, nas 4 categorias, os Campeonatos Regionais de Lisboa em futebol (5ª vitória na categoria principal).

Efectua o primeiro jogo de Pólo Aquático, participando também na primeira prova de Natação.

Passa a ter Sede na Av. Gomes Pereira e a dispor de um campo de futebol, na Quinta de Marrocos.

1917

Nos terrenos existentes nas traseiras da sede, na Av. Gomes Pereira, o Benfica inaugurou um campo de futebol, depois também utilizado nos jogos de Râguebi e de Hóquei em Campo.

Realiza-se o primeiro jogo de Hóquei em Patins.

É novamente Campeão de Lisboa (6º título).

1918

O Benfica vence o Campeonato de Futebol de Lisboa, batendo o Sporting e o Império, sagrando-se campeão pela 7ª vez em 12 campeonatos.

1919

O Benfica inaugura diversas filiais em Portugal e nas colónias portuguesas em África.

Vence os primeiros títulos de Luta Greco-Romana, através do futebolista Cândido de Oliveira.

É novamente vice-campeão de Lisboa, atrás do Sporting, que conquista o seu 2º campeonato.

[1030]

25 Fevereiro, 2004 at 8:08 pm

ACTUALIDADE

Nos últimos dias tem havido alguns acontecimentos de que podíamos falar…

Mas, infelizmente, pouco de positivo haveria a dizer:

– Da libertação e imediata “recaptura” de Vale e Azevedo;

– Da “excelente performance” alcançada em relação ao défice orçamental (com honras de comunicação solene) – talvez explicando como se chegou aos famosos 2,8 %…

– Da “novela” acerca da entrevista de Santana Lopes ao Expresso;

– Do Dr. Luís Villas-Boas e das suas ideias sobre a adopção em casais homossexuais;

– Da Dra. Mariana Cascais e da sua concepção de educação sexual;

– Da “não-posição” do principal partido do Governo sobre o aborto;

– Do conflito israelo-palestiniano;

– …

Há muito tempo atrás, contaram-me uma história cuja moral era: antes de falar sobre uma coisa, deveria ser ponderado (i) se o que vamos dizer é verídico; (ii) se é relevante e (iii) se é “benevolente” (no sentido contrário ao de “mal-dizente”).

Assim sendo, passemos à frente… Outras oportunidades virão.

P. S. Espero que o Carlos Vaz Marques possa “voltar atrás” na sua decisão de terminar o Outro, Eu. Tenho a certeza que, como eu, muitos leitores gostariam de poder continuar a “visitá-lo” regularmente.

[1029]

25 Fevereiro, 2004 at 1:50 pm 2 comentários

EÇA DE QUEIRÓS – A CIDADE E AS SERRAS (III)

“Depois, em frente ao Arco do Triunfo, moveu a cabeça, murmurou:

– É muito grave, deixar a Europa!

Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo que se enublara, deixámos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletós, de impermeáveis, de travesseiras, de águas minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas: e mais atrás um ónibus rangia sob a carga de vinte e três malas. Na estação, Jacinto ainda comprou todos os jornais, todas as ilustrações, horários, mais livros, e um saca-rolhas de forma complicada e hostil. Guiados pelo chefe do tráfico, pelo secretário da Companhia, ocupámos copiosamente o nosso salão. Eu pus o meu boné de seda, calcei as minhas chinelas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fulgiu num derradeiro clarão de janelas. Para o sorver, Jacinto ainda se arremessou à portinhola. Mas rolávamos já na treva da província. O meu príncipe então recaiu nas almofadas:

– Que aventura, Zé Fernandes!

Até Chartres, em silêncio, folheámos as ilustrações. Em Orleães, o guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aqueles catorze meses de civilização, adormeci . e só acordei em Bordéus quando O Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fora, uma chuva miudinha pingava molemente de um espesso céu de algodão sujo. Jacinto não se deitara, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençóis. E, metido num roupão de flanela branco, com a face arrepiada e estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:

– Este horror!… E agora com chuva!

Em Biarritz, ambos observámos com uma certeza indolente:

– É Biarritz.

Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fácil, os abrolhos da incivilização, Jacinto suspirou com desalento:

– Agora adeus, começa a Espanha!….

[1028]

25 Fevereiro, 2004 at 12:41 pm 1 comentário

[1000]

Esta “entrada” é numerada com o nº 1 000, o que dá pretexto a um pequeno balanço, praticamente ao fim de 8 meses de “blogue”; em média, foram cerca de 125 “entradas”por mês; quatro por dia.

Foi já entretanto ultrapassado o número de 15 000 visitantes; mais de 35 000 visitas! Numa altura em que a “blogosfera” portuguesa parece atravessar a sua primeira “crise de crescimento”, o número de visitantes tem vindo a ser gradualmente “consolidado”, com a seguinte evolução mensal, desde Julho a Janeiro: 956 / 1 558 / 1 822 / 2 112 / 1 681 / 2 397 / 3 089.

Serão números modestos, correspondendo, não obstante, a uma média diária de visitantes que subiu dos 30 em Julho; aos 50 em Agosto; 60 em Setembro; 70 em Outubro; 80 em Dezembro e, com carácter excepcional, cerca de 100 em Janeiro. Já aqui o escrevi, e repito, números que nunca imaginei alcançar.
Um grande obrigado a todos!

Porém, mais importante do que a “frieza” dos números (que não deixam, obviamente, de ter um significado), é o prazer de ter conhecido um alargado conjunto de “amigos virtuais”, já aqui, por mais de uma vez, referidos, mas a quem tenho de agradecer, uma vez mais, pelo incentivo em que se têm constituído – numa altura em que o tempo escasseia, com o inevitável abaixamento do ritmo e eventual “interesse” do “Memória Virtual”, tendência que espero poder reverter daqui a algum tempo (o primeiro trimestre do ano é particularmente exigente em termos profissionais) .

Aceitando correr o risco de me “esquecer” de alguns desses amigos, gostaria de, por extensão dos que indico de seguida, a todos dizer um .Bem hajam!.; tem sido um grande prazer visitá-los (e receber as vossas visitas) e convosco “dialogar” diariamente: obrigado Catarina, Rui, Martin, César, Mário, Innersmile, Cláudia, João, ANS, Nuno e João (por onde andas?… fazes-nos falta!).

A finalizar, o meu agradecimento também pela simpatia que sempre tenho recebido da parte de alguns profissionais dessa nobre arte que é a .comunicação. (alguns deles que me prestigiam também com as suas habituais visitas) e que rapidamente souberam compreender a importância deste .fenómeno. da blogosgera: António Granado, Carla Hilário de Almeida, Carlos Vaz Marques, Fernando Alves, João Morgado Fernandes, João Paulo Meneses, Luís Ene, Paula Moura Pinheiro, Paulo Gorjão, Paulo Querido e Pedro Fonseca.

[1000]

[1027]

25 Fevereiro, 2004 at 8:40 am 5 comentários

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