GOA OU O GUARDIÃO DA AURORA (II)
10 Outubro, 2005 at 12:38 pm Deixe um comentário
“O que é a memória?” A história, narrada na primeira pessoa, começa com o protagonista relembrando o dia da sua prisão em 1591, assim iniciando um flashback pela sua vida e da sua família de judeus na Índia Portuguesa do século XVI.
Trata-se de uma narrativa, que não obstante a sua aparente simplicidade, se revela a tal ponto enleante, que torna difícil ao leitor escapar à trama que o aprisiona à leitura.
Tiago é um judeu português nascido na Índia no início de 1573, mistura de indiano e europeu (que os seus olhos azuis não permitiam ocultar), que conserva como primeiras memórias a recordação do desaparecimento da mãe, apesar de parecer ter sido entretanto capaz de, por um instante, atravessar a ponte da morte para a vida, era então uma criança de quatro anos e meio.
Do seu núcleo central de “companheiros de jornada” faziam parte:
– o pai Berequias (provindo de Constantinopla, cuja família já antes, em 1507, se vira obrigada a fugir de Portugal, porque o Rei D. Manuel e outros altos responsáveis não a deixara viver livremente como judeus);
– a misteriosa, irada, irascível e obstinada irmã Sofia, com os seus mesclados traços europeus e indianos, fechada sobre si própria e o seu pequeno mundo;
– a doce amada, a hindu Tejal, cuja recordação lhe dava forças para suportar o cativeiro;
– o tio Isaac (irmão do pai), judeu converso; e
– a sua esposa, a cristã (ex-) aristocrata e por vezes crua tia Maria (ambos vivendo em Goa);
– o “pequeno mouro” Wadi, o primo muçulmano adoptado, ao mesmo tempo que era rebaptizado como Francisco Xavier (em homenagem ao missionário jesuíta que convertera dezenas milhares de hindus de Goa);
– a cozinheira hindu Nupi, que, com a repetida expressão «Os guardiães da aurora conhecem a noite melhor que ninguém», lembrava que a esperança faz sentir mais profundamente as épocas de escuridão e que é necessário que nos protejamos uns aos outros;
– a par da memória do trisavô Berequias Zarco, cabalista de Lisboa que, em 1497, fora forçadamente convertido ao cristianismo, consubstanciada por via de um manuscrito por ele escrito, descrevendo o massacre de 1506 em Lisboa, no qual 2 000 judeus convertidos foram assassinados e queimados em público.
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