EÇA DE QUEIRÓS – A CIDADE E AS SERRAS (III)
25 Fevereiro, 2004 at 12:41 pm 1 comentário
“Depois, em frente ao Arco do Triunfo, moveu a cabeça, murmurou:
– É muito grave, deixar a Europa!
Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo que se enublara, deixámos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletós, de impermeáveis, de travesseiras, de águas minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas: e mais atrás um ónibus rangia sob a carga de vinte e três malas. Na estação, Jacinto ainda comprou todos os jornais, todas as ilustrações, horários, mais livros, e um saca-rolhas de forma complicada e hostil. Guiados pelo chefe do tráfico, pelo secretário da Companhia, ocupámos copiosamente o nosso salão. Eu pus o meu boné de seda, calcei as minhas chinelas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fulgiu num derradeiro clarão de janelas. Para o sorver, Jacinto ainda se arremessou à portinhola. Mas rolávamos já na treva da província. O meu príncipe então recaiu nas almofadas:
– Que aventura, Zé Fernandes!
Até Chartres, em silêncio, folheámos as ilustrações. Em Orleães, o guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aqueles catorze meses de civilização, adormeci . e só acordei em Bordéus quando O Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fora, uma chuva miudinha pingava molemente de um espesso céu de algodão sujo. Jacinto não se deitara, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençóis. E, metido num roupão de flanela branco, com a face arrepiada e estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
– Este horror!… E agora com chuva!
Em Biarritz, ambos observámos com uma certeza indolente:
– É Biarritz.
…
Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fácil, os abrolhos da incivilização, Jacinto suspirou com desalento:
– Agora adeus, começa a Espanha!….
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1.
Martin Pawley | 26 Fevereiro, 2004 às 1:13 am
Gosto moito de “A cidade e as serras”, pero máis aínda gosto de “Civilização”, o conto que vén sendo o embrión do romance. A prosa de Eça é irrepetível; a súa combinación de beleza, precisión, ironía e humanidade é verdadeiramente única.