EÇA DE QUEIRÓS – A CIDADE E AS SERRAS (I)
23 Fevereiro, 2004 at 1:40 pm 1 comentário
“Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu donde fugiam anéis de um cabelo crespo, ressumava elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atrás das costas, calçadas de anta branca sustentava uma bengala grossa com castão de cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 reconheci o nariz afilado os fios do bigode corredios e sedosos.
– Oh, Jacinto!
– Oh, Zé Fernandes!
O abraço que nos enlaçou foi tão alvoraçado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos murmurávamos, comovidos, entrando a grade:
– Há sete anos!…
– Há sete anos!…
E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda entre as duas áleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e varrida que a lã de um tapete. No meio o vaso coríntico esperava Abril para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava, as duas magras deusas de pedra, do tempo de «D. Galeão», sustentavam as antigas lâmpadas de globos foscos, onde já silvava o gás.
Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado por Jacinto – apesar de o 202 ter somente dois andares, e ligados por uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Sr.ª D. Angelina! Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros.”
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Rui MCB | 23 Fevereiro, 2004 às 2:10 pm
Bem lembrado!
Agora fiquei com saudades do Eça (e a colecção está toda em casa dos meus pais…).