Archive for 8 Dezembro, 2008

Blogosfera em 2008 (VIII)

Um país de blogues
22.03.2008, Luís Miguel Queirós

Há meia-dúzia de anos, poucos sabiam o que era um blogue. Hoje haverá quase 200 mil em Portugal. A blogosfera já nos “deu” a erudição sexual de O Meu Pipi, o humor dos Gato Fedorento, as crónicas de Pedro Mexia ou os comentários de Rui Tavares. E sem ela talvez não tivéssemos visto, há dias, cem mil professores na rua.

Em Outubro de 2002, quando Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Pereira Coutinho lançaram o blogue Coluna Infame, calcula-se que os blogues portugueses não excedessem umas escassas centenas. Ninguém sabe ao certo quantos existem hoje, mas Mexia diz que “já se fala em 200 mil”. E um estudo internacional recente indica que Portugal é, de facto, em termos relativos, um dos países onde mais gente escreve em blogues e os lê. Segundo uma sondagem da Nielsen, mais de vinte por cento dos cibernautas portugueses visitam blogues diariamente, o que representa o dobro da média europeia.

Números que parecem apontar para um país com uma opinião pública numerosa, interessada e interveniente. Se não houvesse razões mais óbvias para suspeitar de que não será bem assim, o próprio estudo da Nielsen forneceria motivos de reserva suficientes, já que conclui que os países europeus com mais baixos índices de escrita e leitura de blogues são os escandinavos, ao passo que aqueles em que a blogosfera se mostra mais dinâmica são, além de Portugal, a Grécia e a Itália.

Criar um blogue é fácil e gratuito. Até há pouco tempo, quem quisesse criar uma página pessoal na internet, tinha de dominar a linguagem de programação “html” (HyperText Markup Language), que sempre exige alguns conhecimentos técnicos, e ainda de pagar o alojamento do seu site. Mesmo com os blogues, começou por ser assim, o que explica que muitos dos pioneiros da blogosfera mundial fossem informáticos. Agora, qualquer pessoa minimamente familiarizada com computadores pode abrir e alimentar um blogue, e ainda por cima sem pagar nada por isso.

Estes são argumentos que seguramente ajudam a justificar o insólito sucesso da blogosfera portuguesa, e também a sua extrema variedade, já que, para cada Abrupto (o blogue de Pacheco Pereira) ou Causa Nossa (onde escrevem, entre outros, Vital Moreira e Ana Gomes), há umas centenas de blogues que nunca chegam aos media tradicionais e que, na expressão de Pedro Mexia, “o radar não acusa”. O co-fundador da Coluna Infame divide-as em duas categorias principais: “páginas de adolescentes sem interesse nenhum”, e aquilo a que chama “a blogosfera javardola”. Uma designação eventualmente aplicável a blogues como o popular Gaijas da TV – estava ontem dois lugares acima do Abrupto no Blogómetro, um ranking de popularidade gerido pelo portal “weblog.com.pt” -, para não citar outros blogues com nomes e conteúdos ainda mais sugestivos.

A inflação da blogosfera será, paradoxalmente, resultante de um certo subdesenvolvimento? Ivan Nunes, que manteve o blogue A Praia e colabora hoje no Cinco Dias, não exclui que seja assim, mas interessa-lhe mais realçar que se traduz num “mecanismo de desenvolvimento”. E não lhe parece muito relevante saber se os portugueses criam muitos blogues por serem “pobrezinhos, solitários ou conservadores”. Pacheco Pereira sublinha que “muitos blogues são muito maus, como não podia deixar de ser, porque reflectem o mundo cá fora que também não é brilhante”, mas acredita que “o facto de haver milhares de pessoas em Portugal a ler e escrever blogues é um avanço no espaço público”. Rui Tavares, que se revelou no desaparecido blogue colectivo Barnabé, não tem dúvidas de que a dimensão da blogosfera é positiva, e acha que o próprio discurso sobre o atraso português deve ser escrutinado, já que tem dúvidas de que se possa falar de um “atraso cultural”. O que “talvez haja”, diz, “é um atraso académico”.

Para este colunista do PÚBLICO, a suposta “imobilidade” da sociedade portuguesa, e a sua alegada “mediocridade generalizada”, são mitos que vêm do regime anterior, e que foram perpetuados pela geração que ascendeu ao poder após o 25 de Abril. Este retrato do país, considera, “não é um diagnóstico, é uma estratégia de defesa”. Na sua opinião, a blogosfera apenas “revelou algo que já tinha condições para existir: um debate mais amplo e diverso, com mais qualidade e mais conhecimento, inclusive técnico e científico”. A crescente presença de cientistas na blogosfera parece-lhe ser um sinal particularmente positivo: “Hoje, quando um tipo diz um disparate em biologia ou física, caem-lhe logo em cima”.

Um dos mitos sobre a blogosfera é o de que esta só adquire a visibilidade que os jornais e a televisão lhe dão, e não teria grande influência real e directa na sociedade. A manifestação de cem mil porfessores em Lisboa, em grande medida organizada através de blogues, como, por exemplo, o Sala de Professores, parece desmentir este juízo.

Uma marca genética

Outro dos efeitos já observáveis da blogosfera foi a renovação do espectro de colunistas e cronistas nos jornais, com nomes como os de Rui Tavares, Pedro Mexia, Pedro Lomba, Ricardo Araújo Pereira ou, mais recentemente, João Miranda, do blogue Blasfémias, entre outros. Todos eles tinham já uma reputação firmada nos respectivos blogues quando chegaram aos jornais ou à televisão. Para Ivan Nunes, uma das coisas mais gratificantes desses primórdios da blogosfera nacional foi justamente a oportunidade de “descobrir gente da [sua] geração que praticamente não escrevia em lado nenhum”.

Rui Tavares acha que esse boom inicial de blogues empenhados no comentário político se deveu, em parte, “à asfixia dos canais de opinião”, com o pouco espaço disponível nos jornais dominado por um conjunto de comentadores muito próximos em termos geracionais, e quase sempre oriundos dos partidos políticos. “Muita gente”, acredita, “começou a escrever na blogosfera porque não se sentia representada em nada do que lia”.

Não sendo óbvio que a opinião publicada nos jornais por esses anos de 2002 e 2003 fosse maioritariamente de esquerda, não deixa de ser curioso que, desde o início e até hoje, a blogosfera mais marcadamente política tenha revelado “uma nítida sobre-representação da direita”, para usar uma expressão de Ivan Nunes, que crê que essa tendência ainda hoje se mantém. Pedro Mexia subscreve o diagnóstico, e julga que, na origem, o fenómeno está ligado ao atentado às Torres Gémeas, em 2001. “Entre a queda do Muro de Berlim e o 11 de Setembro, não se sabia muito bem o que eram a esquerda e a direita”, diz, mas “após o 11 de Setembro, houve uma repolitização evidente, para a qual a posterior guerra do Iraque também contribuiu”.

Mexia, que mantém hoje blogue Estado Civil, chama também a atenção para o facto de partidos com pequena representação parlamentar, como o CDS ou o Bloco de Esquerda, estarem provavelmente mais representados na blogosfera do que o PS ou o PSD. E considera “um mistério” o aparente “desinteresse” do PCP: “Um blogue com gente nova do PC, não conheço nenhum”.

Embora os mais antigos blogues portugueses datem ainda do final do século passado, foram espaços como a Coluna Infame, a partir do final de 2002, e o pouco posterior Blog de Esquerda, lançado por José Mário Silva e Manuel Deniz Silva, que vieram dar alguma visibilidade à blogosfera. Quando João Pereira Coutinho respondeu torto a um post de Daniel Oliveira, colocado no Blog de Esquerda, e Mexia e Lomba, achando que o seu companheiro tinha passado das marcas, decidiram acabar com o projecto comum, no dia 10 de Junho de 2002, a blogosfera já era algo suficientemente relevante para que José Manuel Fernandes celebrasse o requiem da Coluna Infame no editorial do PÚBLICO. Uma visibilidade que também ficava muito a dever-se ao facto de, cerca de um mês antes, Pacheco Pereira se ter tornado a primeira figura conhecida do grande público a lançar o seu próprio blogue, o Abrupto.

Apesar de existirem blogues sobre tudo e mais alguma coisa – do futebol à religião, da pornografia ao wrestling, do humor à mobilidade sustentada -, a visibilidade que o debate político e ideológico assumiu nos primórdios da blogosfera portuguesa é uma marca genética que ainda hoje se faz sentir. Quando se comenta a blogosfera, é quase sempre nessa blogosfera restrita – a do debate político e da discussão cultural – que se está pensar. De resto, política, cultura e humor andaram muitas vezes interligados nos mesmo blogues, como aconteceu e acontece, por exemplo, nos de Pedro Mexia.

Chegaram os Pinkerton

O crescimento exponencial da blogosfera foi-a transformando, também, de uma pequena cidade onde todos se conhecem e se cruzam na rua, numa grande metrópole, um pouco menos “cozy”, para adoptar um termo usado por Pacheco Pereira num texto que suscitou muitos comentários. Já em 2004, este escrevia que “os amigos e conhecidos foram sucessivamente sendo substituídos por estranhos, os círculos de influência, que eram também de troca de reconhecimento, foram-se desagregando, e isso torna os blogues um meio mais duro, menos satisfatório em termos psicológicos”. E concluía o autor que “a blogosfera é agora mais hostil do que cozy.”.

Pedro Mexia concorda que “as pessoas eram poucas e conheciam-se mais”, mas acha que “o ambiente nunca foi cozy”, lembrando, com manifesto conhecimento de causa, que até os co-autores de um mesmo blogue se zangavam.

Ivan Nunes pensa que, nesses anos de formação da blogosfera, era possível, de facto, falar-se de uma “comunidade” em sentido mais restrito. “Criaram-se laços de amizade entre pessoas de orientação ideológica diferente”, diz, acrescentando: “Sinto que pertenci a essa comunidade, embora outros a ela tenham pertencido de muito mais pleno direito do que eu”. Não é por acaso que conjuga o verbo “pertencer” no passado, tendo em conta que continua activo na blogosfera, no Cinco Dias e no ex-Ivan Nunes. No entanto, até admite que hoje possa continuar a falar-se de “comunidade”, mas restringida a um grupo de blogues “que se opõem e se citam reciprocamente”. Está a pensar em “blogues políticos, que percebem que lhes é útil polemizar para suscitar audiências”. Como exemplos, adianta o 31 da Armada, o Blasfémias, o Insurgente, o 5 Dias (onde ele próprio colabora), o Ladrões de Bicicletas ou o Arrastão.

Rui Tavares é o menos nostálgico desses tempos – muito próximos de nós, mas já um tanto míticos – em que a blogosfera seria uma espécie de reunião familiar alargada, à qual se admitia com gosto o primo que votava no partido errado ou gostava de livros e filmes duvidosos. O historiador e colunista do PÚBLICO acha que a blogosfera nunca foi especialmente acolhedora – “o Pacheco Pereira gostava era que ela fosse cozy para ele” – e acha que assim é que está bem. “Se fosse uma espécie de clube britânico, não tinha graça nenhuma”, diz Tavares, que acha que aos blogues só não devem permitir-se “as calúnias e a falta de sentido de humor”.

Pacheco Pereira recorre a analogias com o velho faroeste americano para caracterizar a blogosfera portuguesa e o modo como esta foi evoluindo. Acha que, entre os blogues com maior expressão, “existem várias tribos, e uma comunidade geral, uma “nação índia”, com regras de sociabilidade mais ou menos comuns”. Mas crê que se “passou de um ambiente “comunitário” primitivo para uma “luta de classes” agressiva, em grande parte”, argumenta, “porque a blogosfera é um campo de recrutamento dos media tradicionais e os bens são escassos na opinião”. E acrescenta que “já há tentativas de ganhar dinheiro, criando redes de blogues que se citam artificialmente uns aos outros para depois serem vendidas a algum operador que se pretenda instalar na blogosfera”. Recuperando a metáfora inicial, resume: “Continua o far west, mas já chegaram as companhias ferroviárias e os Pinkerton”. A recente transferência de muitos dos blogues mais conhecidos para a plataforma fornecida pelo Sapo, alguns deles a convite do próprio portal, parece dar-lhe razão.

Ao contrário de Ivan Nunes ou Mexia, Pacheco Pereira nunca se sentiu parte da comunidade bloguística. “O Abrupto dirige-se em primeiro lugar para fora da blogosfera”, diz, “e é daí que vem a maioria dos seus leitores e, penso, a razão do seu sucesso consistente desde 2003”. Algo que, afirma, “irrita muita gente, mas é indesmentível nos números”.

Casanova e maradona

Os “números” são uma coisa que preocupa todos os bloggers, incluindo, garante Mexia, os que dizem que não lhes ligam nenhuma. Há diversas instituições que fornecem estatísticas relativas à blogosfera, recorrendo aos mais variados métodos e critérios. A popularidade dos blogues pode ser medida pelo número de vezes que alguém a ele acedeu, ou pelo número de páginas visitadas, ou pelo tempo médio que dura cada visita, ou ainda pela quantidade de links para um determinado blogue. Este último processo, utilizado pelo Technorati – que, já em 2007, afirmava rastrear mais de 112 milhões de blogues – propõe-se avaliar não tanto a popularidade, mas aquilo a que esta empresa chama a “autoridade” de um blogue. Isto dito em linguagem simples. O blogue Pastoral Portuguesa, cujo autor assina Rogério Casanova, oferece uma definição mais académica do termo “Technorati”, recorrendo ao estilo das entradas de dicionário: “palavra derivada do calão Fenício para “mercador cujas bugigangas gozam de sucesso considerável entre os Hititas”. Designa actualmente o instrumento utilizado para medir a relevância ontológica de um sujeito X, em relação a um padrão abstracto Z denominado, por convenção, “Pacheco Pereira””.

O poeta e cronista Manuel António Pina não tem dúvidas em sugerir este Pastoral Portuguesa como um dos mais recomendáveis blogues portugueses em actividade. E sabe do que fala, porque é um leitor infatigável da blogosfera. Já em 2003 afirmava, na Visão (esta e outras informações foram colhidas na muito útil cronologia comentada da blogosfera portuguesa que Leonel Vicente vem disponibilizando em “http://leonelvicente.jottit.com), que “a blogosfera é o lugar onde hoje melhor se escreve e se pensa em português”.

Mexia e Ivan Nunes também apreciam o autor que se esconde sob o pseudónimo Rogério Casanova , mas, quando se lhes pergunta que talentos oculta a blogosfera que não tenham ainda “saltado” para os jornais, para a televisão, ou para as páginas de um livro, referem ambos o mesmo nome: alguém que se assina “maradona”, assim mesmo, sem maiúscula inicial, e que alimenta o blogue A Causa foi Modificada.

E, como nota Ivan Nunes, há blogues que conseguiram atingir um estatuto de referência no interior da blogosfera, ainda antes de serem conhecidos fora dela. “Nunca esqueçamos”, diz, “o Gato Fedorento, que foi um blogue antes de ser tudo o resto, e antes de eles imaginarem que podia ser tudo o resto, e ainda menos esqueçamos O Meu Pipi, que foi um fenómeno extraordinário”. Este último, que ostentava uma assombrosa erudição em matéria de gíria aplicável aos órgãos e actividades sexuais, e que chegou mesmo à edição em livro, é ainda hoje um enigma por desvendar. A identidade do seu autor nunca foi revelada.

Apesar destes exemplos, Mexia e Ivan Nunes coincidem em sugerir que haverá apenas “uns cem blogues” que vale a pena ler. Mexia sublinha que o número é arbitrário e que é um modo de dizer que a blogosfera não é um viveiro de talentos ocultos. Rui Tavares, sem propriamente discordar, acha que há, ainda assim, bastantes autores talentosos a escrever em blogues, e nota que o panorama dos colunistas e comentadores que fizeram o seu nome nos jornais não é mais animador. “Se deixarmos ficar só os melhores, os que são bons e escrevem bem, temos o Pacheco Pereira, o Vasco Pulido Valente, o Manuel António Pina, o Ferreira Fernandes… quem mais?”.

Público

8 Dezembro, 2008 at 8:17 am Deixe um comentário


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