“Encontros com os cidadãos – Os desafios da Europa” (Emmanuel Macron / António Costa)

27 Julho, 2018 at 3:44 pm Deixe um comentário

Numa iniciativa do Governo português, realizou-se hoje, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, mais uma edição dos “Encontros com os cidadãos”, sob o lema “Os desafios da Europa”, com a participação do Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa, e do Presidente da República de França, Emmanuel Macron.

Recupero de seguida algumas das principais declarações de Macron, primeiro num curto discurso, de cerca de um quarto de hora, após o que se iniciou um espaço de debate, respondendo a questões colocadas pela assistência.

O presidente francês começou por enfatizar o período excepcional que representa a existência da União Europeia no âmbito da história milenar da Europa, como uma fase única à nível de paz, liberdade e democracia, em contraste com um passado de conflitos e guerras.

Considera que a União Europeia vive uma crise democrática desde há 15 anos, pese embora o crescimento/alargamento, tendo deixado de convergir, ao invés, agravando-se a divergência entre Estados membros. Ainda assim, a União – afirma – continua a ser a única solução de futuro.

Defende que é fundamental prosseguir uma política comum em matéria de solidariedade face aos refugiados, mas sem esquecer a protecção das fronteiras.

Reforçou ainda que necessitamos de uma abordagem europeia também à nível económico; precisamos de uma Europa mais unida, mais convergente, mais solidária, em termos económicos e financeiros. Estes são os fundamentos da construção europeia, que temos de recuperar.

A concluir a sua intervenção inicial, referindo que este tipo de debates são uma boa demonstração do reforço da democracia na União Europeia, sublinhou que as eleições europeias (de 2019) são determinantes, dado que os próximos cinco anos serão cruciais para o futuro da Europa, ameaçada pela fractura dos nacionalismos extremistas, em oposição aos reformistas que visam a sua refundação.

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No período de perguntas e respostas, alguns dos principais pontos frisados por Macron:

  • Temos um sério desafio contra as forças extremistas que querem fracturar a Europa. Não podemos aceitar nenhum recuo da Europa, nem restrições à circulação.
  • O par França-Alemanha é condição necessária mas não suficiente para o reforço da Europa. É um duo que não deve/pode decidir pelos outros. Mas sim um tandem que tem de se articular com os outros, tendo uma grande responsabilidade em termos do futuro europeu.
  • Proposta de refundação da Europa, avançando para maior integração, abrangendo quem tiver disponibilidade para tal e sem que os outros países possam bloquear esses avanços. E a França até tem particulares responsabilidades nessa matéria, devido à reprovação da “Constituição Europeia” no referendo de 2005.
  • Assumo uma Europa a múltiplos círculos e a diferentes velocidades – na verdade, esta é a situação que, aliás, temos já há muito tempo na União Europeia. Cada círculo concêntrico deve estar aberto a acolher outros países, à medida que tal seja possível. Vejo também um círculo mais alargado, para além da União, incluindo a Rússia e a Turquia (acordos de associação).
  • Não é admissível que membros da União Europeia não partilhem dos seus valores fundacionais. Passamos muitas horas, inclusivamente noites, em negociações, em busca de compromissos, mas não podemos aceitar o que seria uma traição ao próprio projecto europeu.
  • A selecção de França deu-nos grande orgulho. Todos os jogadores, independentemente da sua origem, dão vivas à República e à França. O desporto é uma alavanca fantástica para a integração. Necessitamos transpor esse exemplo para a sociedade em termos gerais.
  • Mas não escondo que a França é hoje um país mais desigual que há 30 anos. O que fizemos no desporto temos de fazer noutras áreas, promovendo a integração e a mobilidade social. Devemos ter um mercado de trabalho muito mais integrado.
  • Precisamos de uma Europa mais sensível, mais “sensual” mesmo! Uma Europa menos burocrata, que comunique melhor. Acredito no papel da Universidade, no contributo determinante das experiências internacionais. A Europa não pode ser tão “fria”…

Macron rêve d’une Europe «sensuelle»

Macron à l’aise

Tout aussi agréable pour Emmanuel Macron et sans aucun accroc fut sa première « consultation citoyenne » organisée dans la capitale portugaise. Dans le grand auditorium de la fondation Gulbenkian, Emmanuel Macron retrouve le dispositif qu’il affectionne. Un jeu de questions-réponses sur l’avenir de l’Europe qui se veut sans détour.

Dans la salle aux deux tiers pleine, des étudiants, et surtout beaucoup d’expatriés Français à Lisbonne, l’interrogent poliment sur la gouvernance de l’Europe ou le couple franco-allemand. Un exercice sans risque pour le chef de l’État. Pas une question sur l’affaire Benalla ne lui sera posée.

Emmanuel Macron ne boude pas son plaisir. Et se laisse même aller à caresser l’idée d’une « Europe sensuelle », faite d’échanges universitaires et d’expérience de vie commune dans les différents pays. « L’Europe doit redevenir un objet politique chaud lance-t-il, il nous faut une Europe sensible et pas seulement des règles. On a créé une Europe un peu bureaucratique, il faut bien le dire. »

Un public déjà convaincu

Face à ce public courtois et déjà convaincu, Macron approfondit son idée d’une Europe à trois cercles et à plusieurs vitesses (la France occupant le « cœur du réacteur »), et en profite pour poser les jalons de la future campagne des Européennes 2019.

« Les mois qui sont devant nous sont essentiels prévient-il, ils préparent des élections décisives. Soit nous arrivons à refonder l’Europe, soit nous décidons son délitement. Ce grand clivage, c’est un débat entre les nationalistes, ceux qui sont pour la fracture européenne et les progressistes européens. »

Jamais mis en difficulté, le président a pu dérouler ses fondamentaux du discours fondateur de la Sorbonne en septembre 2017. Pour sa première « consultation citoyenne » hors de France, son hôte portugais, proeuropéen et francophile, avait bien fait les choses.

(Le Parisien – Myriam Encaoua)

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