"BLOGUES – MILITÂNCIA SEM FIOS"

22 Abril, 2004 at 1:55 pm 1 comentário

Depois do “entusiasmo mediático” do Verão passado, os “blogues” quase tinham “desaparecido” dos meios de comunicação tradicionais.

Paulo Pena, em artigo na revista “Visão” (edição de 15 a 21 de Abril) volta a “colocá-los no mapa”, a propósito do seu papel na convocação da militância política (artigo com o título “SMS – Militância sem Fios” – “As mensagens escritas e os blogs ajudaram a derrotar o PP espanhol e a divulgar as últimas manifestações contra a guerra em Portugal. São novos meios de agitprop, que vieram para ficar”. – ver em “entrada estendida”).

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“Em tempos que já lá vão, convocar uma manifestação dava muito trabalho. Era preciso escrever um panfleto e imprimi-lo aos milhares (a esquerda sempre teve um problema insolúvel com a ecologia”). Havia então que organizar a sua distribuição, o que implicava muitas mãos dispostas a repetir o mesmo gesto, nas ruas, à porta do metro, à saída das faculdades, nos portões das fábricas. Ou então, se havia dinheiro, a mensagem podia figurar em cartazes, colados por brigadas nocturnas, com uma mistela pouco saudável de soda cáustica, água e farinha. Hoje, só os curandeiros menos abastados usam destas técnicas. Uma manifestação pode nascer a partir de um telemóvel: «Não à guerra! manif. dia 20, 15H30, Lrg. Camões, Lx, Pr. Batalha, Porto. Manda para os telemóveis dos teus amigos.»

[…]

“«Tudo em comunicação é moda. Tudo o que se repete é cansativo. Mas as formas tradicionais de propaganda estão esgotadas», contrapõe Daniel Oliveira, um dos cinco autores do Barnabé, o blog mais lido em Portugal com mais de 300 mil visitas no currículo e a caminho do primeiro milhão de hits (número de vezes que a página foi aberta).[…]

Os blogs

Não é só na ATTAC que «há troca de informações sem hierarquia» nem «centros de decisão». Acompanhando o alastrar da Internet e dos telemóveis, o mundo dos fazedores de política cresceu. Seja na forma como se mobilizam manifestantes seja na discussão. Os blogs portugueses viveram o seu apogeu quando a guerra do Iraque monopolizava, e encarniçava, os debates. E conseguiram liderá-los.

A Coluna Infame nasceu para combater a «hegemonia cultural da esquerda». Era um ponto de encontro para «conservadores, liberais e independentes». Os seus responsáveis já escreviam em jornais (Pedro Mexia e Pedro Lomba vinham das páginas do DN Jovem, e o primeiro escrevia críticas literárias no DNA, enquanto João Pereira Coutinho assinava uma crónica semanal em O Independente). Hoje, depois de muitos posts e do encerramento intempestivo da Coluna Infame os três escrevem regularmente sobre política, e ganharam novas tribunas. Os dois Pedros escrevem no primeiro caderno do Diário de Notícias e João Pereria Coutinho «transferiu-se» para o Expresso.

Esta disputa esquerda-direita, feita por novos protagonistas, tanto em idade como em notoriedade, levou o decano dos nomes sonantes da blogosfera portuguesa, Pacheco Pereira, a denunciar uma mudança: «Não havia antes hegemonia da “direita” e agora há da “esquerda”. (…) Mais do que a política, mudou o estilo e a dimensão, e uma sensação que a blogosfera é agora mais hostil do que cozy», escreveu o eurodeputado no seu blog.

Esta é a face mais visível da capacidade de intervenção política dos blogs. Uma tomada de posição pode ter uma réplica imediata. Por isso, as polémicas entre os blogs depressa alastraram ao mundo dos jornais impressos. As suas opiniões passaram a ser estudadas e publicadas. E os seus autores tornaram-se concorrentes dos comentadores habituais. «Nós fazemos o combate pela agenda mediática, é essa a função de um blog», afirma Daniel Oliveira, do Barnabé.

Um exemplo: Nuno Ramos de Almeida conheceu as biografias dos três japoneses sequestrados no Iraque, e a notícia da sua iminente libertação, através da rede mundial da ATTAC, muito antes de qualquer notícia dos jornais.

“Self-media”

No Barnabé foram dados à estampa, em primeira mão, os manuscritos de Manuela Ferreira Leite no debate parlamentar sobre o Programa de Estabilidade e Crescimento. «A possibilidade de cada um se tornar emissor de informações democratiza a comunicação», elogia Ulisses Garrido.

O fenómeno self-media, em que cada um produz a informação que quer, acessível até para os info-excluídos, ganhou fama mundial antes das manifestações de Madrid. Howard Dean foi o seu primeiro beneficiário, nas primárias dos democratas americanos.

«A campanha de Dean mudou as regras do jogo», ao introduzir métodos inovadores de «auto-organização», explica Howard Rheingold autor do livro Smart Mobs: A Nova Revolução Social, em entrevista à Business Week. No fundo, o «fenómeno Dean» desencadeou-se através de uma sensação de «proximidade» que a Internet possibilitou a vários dos seus apoiantes. Descentralizando as acções de campanha, Dean conseguiu chegar mais longe que qualquer outro dos seus adversários, e com menos custos.

O fenómeno teve, no entanto, um epílogo: Dean perdeu. «Mandar um jovem de 23 anos da Califórnia falar a agricultores do Iowa não é eficaz.» Ou seja, o sucesso do «voluntariado Dean» acabou por ser a sua maior fraqueza, a «descoordenação», explica Rheingold.

Por isso, até agora, os bons exemplos desta nova agitprop, são momentos que exigiam respostas rápidas. Em Espanha, a Telefónica calcula que na véspera das eleições espanholas o número de SMS subiu 20 % (cerca de 500 mil). No dia do escrutínio, o aumento foi de 40 % (um milhão de mensagens escritas).”

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UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (IV) EURO 2004 (XIX) – 1976

1 Comentário

  • 1. Blueyes40  |  17 Maio, 2004 às 3:13 pm

    Vivam os blogs! Cumprimentos


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