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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – DO LADO DE SWANN (V)

“Durante todo o tempo em que estava longe de Gilberte, tinha necessidade de a ver, porque, procurando constantemente ter presente a sua imagem, acabava por já não o conseguir e por já não saber exactamente a que correspondia o meu amor. Além disso, ela ainda nunca me dissera que me amava. Muito pelo contrário, afirmara muitas vezes que tinha amigos que preferia, que eu era um bom companheiro com quem gostava de jogar embora um pouco distraído, não muito interessado no jogo; enfim, dera-me muitas vezes sinais ostensivos de frieza, que teriam abalado a minha crença de que era para ela um ser diferente dos outros se tal crença tivesse a sua origem num amor que Gilberte sentisse por mim, e não, como tinha, no amor que eu sentia por ela, o que tornava essa crença muito mais resistente, porque a fazia depender do próprio modo como era obrigado, por uma necessidade interior, a pensar em Gilberte. Mas os sentimentos que nutria por ela, nem eu lhos tinha declarado ainda. É certo que em todas as páginas dos meus cadernos escrevia indefinidamente o seu nome e a sua morada, mas, ao ver aquelas vagas linhas que traçava sem que por causa disso ela pensasse em mim, linhas que lhe faziam ocupar à minha volta tanto espaço aparente sem por isso estar mais dentro da minha vida, sentia-me desanimado porque elas não me falavam de Gilberte, que nem sequer as veria, mas do meu próprio desejo, que pareciam mostrar-me como algo de puramente pessoal, irreal, fastidioso e impotente. O mais imediato era que Gilberte e eu nos víssemos e que pudéssemos fazer um ao outro a confissão recíproca do nosso amor, que até então por assim dizer não havia começado ainda. É claro que as diversas razões que me tornavam tão impaciente de a ver teriam sido menos imperiosas para um homem maduro. Mais tarde, então mais hábeis na cultura dos nossos prazeres, acontece contentarmo-nos com aquele que sentimos ao pensar numa mulher como eu pensava em Gilberte, sem ficarmos inquietos por saber se essa imagem corresponde ou não à realidade, e também com o de amar sem necessidade da certeza de que ela nos ama; ou ainda renunciarmos ao prazer de lhe confessar a nossa inclinação por ela, a fim de conservarmos mais viva a inclinação que ela tem por nós, imitando aqueles jardineiros japoneses que, para obterem uma flor mais bela, lhe sacrificam várias outras.”

[879]

2 Janeiro, 2004 at 8:20 am

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – DO LADO DE SWANN (IV)

“Mas de repente foi como se ela tivesse entrado, e esta aparição constituiu para ele um sofrimento de tal modo dilacerante que teve de levar a mão ao coração. É que o violino subira a notas altas, onde permanecia como que à espera, uma espera que se prolongava com ele a mantê-las, na exaltação em que estava de avistar já o objecto da sua espera que se aproximava, e com um esforço desesperado para tentar durar até à sua chegada, para o receber antes de expirar, para lhe conservar ainda por um momento, com todas as suas últimas forças, o caminho aberto para ele poder passar, como se aguenta uma porta que, se não fosse isso, cairia. E antes de Swann ter tempo de compreender e pensar: «É a pequena frase da sonata de Vinteuil, é preciso não ouvir!», todas as suas recordações do tempo em que Odette estava apaixonada por ele e que até ali ele conseguira guardar invisíveis nas profundidades do seu ser, enganadas por aquele brusco raio do tempo de amor que julgaram regressado, tinham despertado e, em voo rápido, de novo haviam subido a cantar-lhe perdidamente, sem piedade pelo seu presente infortúnio, os esquecidos estribilhos da felicidade.

Em lugar das expressões abstractas «tempo em que eu era feliz», «tempo em que eu era amado», que muitas vezes até então pronunciara, e sem excessivo sofrimento, porque a sua inteligência lá tinha encerrado apenas supostos extractos do passado que dele nada conservavam, deparou com tudo o que fixara para sempre a específica e volátil essência daquela felicidade perdida; reviu tudo, as pétalas nevadas e frisadas do crisântemo que ela lhe atirara para a carruagem, que apertara contra os lábios; o timbre em relevo da Maison Dorée na carta onde lera: «Treme-me tanto a mão ao escrever-lhe»; a aproximação entre as suas sobrancelhas quando lhe dissera com um ar suplicante: «Não vai demorar muito a dar-me sinal de si?»; sentiu o cheiro do ferro de frisar com que punha em pé o seu cabelo «em escova» enquanto o Loredanol ia à procura da pequena operária; as chuvas de temporal que caíram tantas vezes nessa Primavera, o regresso glacial na sua vitória, ao luar, todas as malhas de hábitos mensais, de impressões de estação, de reacções cutâneas, que haviam estendido sobre uma série de semanas uma rede uniforme em que de novo o seu corpo estava apanhado. Naquele momento, satisfazia uma curiosidade voluptuosa conhecendo os prazeres das pessoas pelo amor.”

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1 Janeiro, 2004 at 1:00 pm

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – DO LADO DE SWANN (III)

“De entre todos os modos de produção do amor, de entre todos os agentes de disseminação do mal sagrado, efectivamente este grande sopro de agitação que por vezes passa sobre nós é um dos mais eficazes. Então está a sorte lançada, o ser com que nos recreamos em determinado momento é o que iremos amar. E nem sequer é preciso que nos tenha agradado até então mais ou tanto como outros. O que é necessário é que o nosso gosto por ele se torne exclusivo. E essa condição é realizada quando – nesse momento em que ele nos fez falta – a busca dos prazeres que o seu encanto nos dava foi bruscamente substituída em nós por uma necessidade ansiosa, que tem por objecto aquele mesmo ser, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam impossível de satisfazer e difícil de curar – a necessidade insensata e dolorosa de o possuir.

Só ia a casa dela à noite, e nada sabia de como ela ocupava o seu tempo durante o dia, nem do seu passado, a tal ponto que lhe faltava até aquela pequena informação inicial que, permitindo-nos imaginar o que não sabemos, nos dá vontade de o conhecer. Por isso, não se interrogava acerca daquilo que ela faria, nem do que teria sido a sua vida. Sorria apenas às vezes ao pensar que alguns anos antes, quando não a conhecia, lhe haviam falado de uma mulher, que, se bem se recordava, devia ser por certo ela, como de uma cortesã, de uma mulher tida por conta, uma daquelas mulheres a quem atribuía ainda, porque pouco vivera em contacto com elas, o carácter integral e essencialmente perverso, de que por longo tempo as dotou a imaginação de certos romancistas. Dizia de si para si que muitas vezes há apenas que seguir no sentido contrário ao das reputações que o mundo cria para avaliar exactamente uma pessoa, quando a um carácter assim contrapunha Odette, boa, ingénua, inflamada de ideal, quase tão incapaz de não dizer a verdade que, tendo-lhe pedido um dia, para que ele pudesse jantar a sós com ela, que escrevesse aos Verdurin a dizer que estava doente, no dia seguinte a vira diante da senhora Verdurin, que lhe perguntava se estava melhor, corar, balbuciar e reflectir na cara, sem querer, o desgosto, o suplício que lhe era mentir, e, enquanto multiplicava na resposta os pormenores inventados da sua pretensa indisposição da véspera, parecer pedir perdão com os seus olhares suplicantes e a sua voz desolada pela falsidade das suas palavras.”

[870]

31 Dezembro, 2003 at 8:45 am

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – DO LADO DE SWANN (II)

“Como eu não tinha qualquer noção da hierarquia social, a impossibilidade que há muito o meu pai decidira de que frequentássemos a senhora e a menina Swann, ao fazer-me imaginar entre elas e nós grandes distâncias, tivera antes o efeito de lhes atribuir prestígio a meus olhos. Lamentava que a minha mãe não tingisse o cabelo nem pintasse os lábios, como eu ouvira dizer à nossa vizinha, a senhora Sazerat, que a senhora Swann fazia para agradar, não ao marido, mas ao senhor de Charlus, e pensava que devíamos ser para ela objecto de desprezo, o que me desgostava, sobretudo por causa da menina Swann, que me haviam dito ser uma menina tão bonita e com quem eu sonhava muitas vezes atribuindo-lhe sempre um mesmo rosto arbitrário e encantador. Mas, quando soube nesse dia que a menina Swann era um ser de uma condição tão rara, mergulhada como no seu elemento natural em tantos privilégios que, quando perguntava aos pais se vinha alguém jantar, lhe respondiam com estas sílabas cheias de luz, com o nome desse conviva de oiro que para ela não passava de um velho amigo da família: Bergotte; que, para ela, a conversa íntima à mesa, o que para mim correspondia à conversa da minha tia-avó, eram palavras de Bergotte acerca de todos aqueles assuntos que não pudera abordar nos seus livros, e sobre os quais eu bem gostaria de o ouvir emitir os seus oráculos; e que, por fim, quando ia visitar cidades, ia com ele ao seu lado, desconhecido e glorioso, como os deuses que desciam ao meio dos mortais – então senti, ao mesmo tempo que o valor de um ser como a menina Swann, como eu havia de lhe parecer grosseiro e ignorante, e experimentei tão vivamente a suavidade e a impossibilidade que para mim existiria em ser seu amigo que me enchi ao mesmo tempo de desejo e desespero. Agora, a maioria das vezes, quando pensava nela, via-a diante do pórtico de uma catedral, explicando-me o significado das estátuas, e, com um sorriso que me lisonjeava, apresentando-me a Bergotte como seu amigo. E sempre o encanto de todas as ideias que as catedrais em mim faziam nascer, o encanto das encostas da Ilha de França e das planícies da Normandia, faziam refluir os seus efeitos sobre a imagem que formava da menina Swann; era estar pronto para amá-la”.

[864]

30 Dezembro, 2003 at 8:56 am

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – DO LADO DE SWANN (I)

A fechar o ano, nesta semana, breves excertos do primeiro volume desta grande obra de Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido”, recentemente editada em Portugal, com a tradução de Pedro Tamen.

“Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes, mal apagava a vela, os olhos fechavam-se-me tão depressa que não tinha tempo de pensar: «Vou adormecer.» E, meia hora depois, era acordado pela ideia de que era de tempo de conciliar o sono; queria poisar o volume que julgava ter nas mãos e soprar a chama de luz; dormira, e não parara de reflectir sobre o que acabara de ler, mas tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto especial; parecia-me que era de mim mesmo que a obra falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. Esta crença sobrevivia alguns segundos ao despertar; não me chocava a razão, mas pesava-me nos olhos como escamas, e impedia-os de verificar que a palmatória já não estava acesa. Depois começava a tornar-se-me ininteligível, tal como, após a metempsicose, os pensamentos de uma existência anterior; o assunto do livro soltava-se de mim, e ficava livre de me adaptar ou não a ele; logo recuperava a vista, e ficava muito admirado de encontrar em meu redor uma obscuridade, doce e repousante para os olhos, mas talvez ainda mais para o espírito, ao qual se revelava como coisa sem causa, incompreensível, como coisa verdadeiramente obscura. A mim mesmo perguntava que horas poderiam ser; ouvia o apito dos comboios que, mais ou menos afastado, como o cantar de um pássaro numa floresta, acentuando as distâncias, me descrevia a extensão dos campos desertos onde o viajante se apressa para a próxima paragem; e o estreito caminho para onde segue vai ficar-lhe gravado na memória pela excitação que deve a lugares novos, a actos inusitados, à conversa recente e às despedidas à luz do candeeiro alheio, que o acompanhavam ainda no silêncio da noite, à doçura próxima do regresso”.

[858]

29 Dezembro, 2003 at 12:36 pm

O LIVRO DAS ILUSÕES (VI)

.Até então, considerara Frieda e Hector como parceiros iguais naquela aventura. Alma falara bastante do casal e nem por uma vez me ocorrera que as suas motivações pudessem ser diferentes, que os seus pensamentos não estivessem em perfeita sintonia. Em 1939, Frieda e Hector haviam feito um pacto tendo em vista a produção de filmes que nunca seriam mostrados ao público; ambos tinham subscrito o princípio de que todas a obras que realizassem juntos seriam destruídas. Tais eram as condições do regresso de Hector ao cinema. Era uma interdição brutal e, no entanto, só o sacrifício da única coisa que teria dado sentido ao trabalho . o prazer de o partilhar com os outros . permitiria a Hector justificar a decisão de realizar essa obra. Os filmes seriam portanto uma forma de penitência, o reconhecimento de que o seu papel no homicídio acidental de Brigid O.Fallon era um pecado sem remissão possível. Eu sou um homem ridículo. Deus pregou-me muitas partidas. A uma forma de punição sucedia-se outra, e, na lógica intrincada e autotorturante da sua decisão, Hector continuara a pagar as suas dívidas a um Deus em que se recusava a acreditar. A bala que lhe dilacerara o peito no banco de Sandusky tornara possível o casamento com Frieda. A morte do filho tornara possível o seu regresso ao cinema. Contudo, nenhuma dessas cruzes absolvera Hector da sua responsabilidade pelo que sucedera na noite de 14 de Janeiro de 1929. Nem o sofrimento físico causado pela arma de Knox, nem o sofrimento mental provocado pela morte de Taddy haviam sido terríveis o bastante para o libertarem. Fazer filmes, sim. Gastar cada partícula do seu talento e energia na realização desses filmes. Fazê-los como se a sua vida dependesse disso, e, depois, no fim dessa vida, assegurar-se de que eles são destruídos. É-lhe interdito deixar atrás de si o menor traço da sua obra, da sua pessoa..

[706]

6 Dezembro, 2003 at 12:18 pm

O LIVRO DAS ILUSÕES (V)

.Se uma árvore cai na floresta e ninguém a ouve cair, será que a queda dessa árvore produz um som? Por essa altura, Hector lera já uma imensidão de livros e conhecia todos os ardis e argumentos dos filósofos. Se alguém faz um filme e ninguém o vê, será que esse filme existe? Foi assim que ele justificou o seu regresso ao cinema. Faria filmes que nunca seriam mostrados ao público, faria filmes pelo simples prazer de fazer filmes. Era um acto de um niilismo absolutamente único, e, no entanto, Hector nunca fugiu ao rumo que traçou. Imagina que és bom em determinada coisa e que sabes que és bom, imagina que és tão bom nessa coisa que o mundo . se puder ver a tua obra . sentirá por ti uma admiração extrema. E imagina depois que não permites que o mundo veja a tua obra . que manténs essa obra secreta para todo o sempre. Eram necessários uma concentração e um rigor extremos para fazer o que Hector fez . e também um toque de loucura. Sim, julgo que Hector e Frieda são ambos um pouco loucos, mas a verdade é que conseguiram realizar algo de notável. Emily Dickinson escreveu na obscuridade, mas tentou publicar os seus poemas. Van Gogh tentou vender os seus quadros. Tanto quanto sei, Hector é o primeiro artista a fazer a sua obra com a intenção consciente, premeditada, de a destruir. Claro que há Kafka, que disse a Max Brod para queimar os seus manuscritos, mas, quando chegou o momento decisivo, Brod não conseguiu levar a cabo o que prometera. Mas Frieda fá-lo-á. Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Um dia depois de Hector morrer, Frieda levará os filmes para o jardim e queimá-los-á a todos . todas as cópias, todos os negativos, todos os fotogramas que ele jamais fez. Isso é certo. E tu e eu seremos as únicas testemunhas..

[697]

5 Dezembro, 2003 at 8:24 am 1 comentário

O LIVRO DAS ILUSÕES (IV)

.Meia hora depois, Alma começou a falar. Por essa altura, estávamos a onze mil metros de altitude, voando por sobre um qualquer condado anónimo da Pennsylvania ou do Ohio, e Alma continuou a falar durante toda a viagem até Albuquerque, Houve uma breve pausa quando aterrámos e a história continuou quando nos metemos no seu carro e encetámos a viagem de duas horas e meia até Tierra del Sueño. Seguimos por uma série de estradas do deserto enquanto o entardecer ia dando lugar ao crepúsculo e o crepúsculo à noite. Que me lembre, a história só parou quando chegámos aos portões do rancho . e, mesmo aí, ainda não tinha chegado ao fim. Alma falara durante quase sete horas e, ainda assim, não tivera tempo para encaixar tudo.

A sua narrativa dera grandes saltos de início, ziguezagueando constantemente entre o passado e o presente, e eu precisei de algum tempo para me orientar e dar uma ordenação cronológica aos acontecimentos.

.

Tentou matar-se em Montana no dia seguinte, disse Alma e, três dias depois, tentou de novo em Chicago. Da primeira vez, enfiou o revólver na boca; da segunda, comprimiu o cano contra o olho esquerdo . porém, tanto num caso como noutro, não foi capaz de desferir o golpe fatal. Hospedara-se numa pensão em South Wabash, nos limites de Chinatown, e, após a segunda tentativa falhada, saiu para a noite quente e húmida de Junho, à procura de um sítio onde pudesse embebedar-se. Imaginava que, se conseguisse enfiar álcool suficiente no seu corpo, acabaria por ganhar coragem para se atirar ao rio antes que a noite acabasse. Esses eram de facto os seus planos, mas, não muito tempo depois de ter saído em busca de álcool, deu de caras com algo que era melhor do que a morte, melhor do que a mera danação que procurara naqueles últimos dias. Chamava-se Sylvia Meers e, sob a sua direcção, Hector aprendeu que poderia continuar a matar-se sem ter de dar o golpe final. Foi ela quem o ensinou a beber o seu próprio sangue, quem o instruiu nos prazeres de devorar o seu próprio coração..

[691]

4 Dezembro, 2003 at 1:35 pm

O LIVRO DAS ILUSÕES (III)

.Escrevi o livro em menos de nove meses. O manuscrito ultrapassou as trezentas páginas dactilografadas e cada uma dessas páginas foi para mim uma guerra. Se consegui acabar, foi apenas porque não fiz mais nada. Trabalhava sete dias por semana, sentado à secretária entre dez a doze horas por dia, e, exceptuando as minhas pequenas excursões à Montague Street para me abastecer de comida e papel, tinta e fitas para a máquina de escrever, raramente deixava o apartamento. Não tinha telefone, nem rádio, nem TV, nem vida social de tipo nenhum. Uma vez em Abril e outra em Agosto, viajei de metro até Manhattan, a fim de consultar alguns livros na biblioteca pública, mas, tirando isso, não pus o pé fora de Brooklin. Eu estava no livro, e o livro estava na minha cabeça e, desde que eu permanecesse dentro da minha cabeça, poderia continuar a escrever o livro. Era como viver numa cela acolchoada, mas, de todas as vidas que poderia ter vivido nesse momento, essa era a única que para mim fazia sentido. Eu não era capaz de estar no mundo, e sabia que, se tentasse regressar ao mundo antes de estar pronto para isso, acabaria esmagado. De modo que me refugiei na toca que era o meu pequeno apartamento e passei os dias a escrever sobre Hector Mann. Era um trabalho lento, talvez mesmo um trabalho sem o menor significado, mas a verdade é que exigiu toda a minha atenção durante nove meses seguidos, e, como eu estava demasiado atarefado para poder pensar noutra coisa qualquer, provavelmente impediu-me de enlouquecer..

[685]

3 Dezembro, 2003 at 8:52 am

O LIVRO DAS ILUSÕES (II)

.Toda a gente pensava que ele estava morto. Em 1988, quando saiu o meu livro sobre os seus filmes, quase sessenta anos haviam passado sem que Hector Mann tivesse dado o menor sinal de vida. Tirando uma meia dúzia de historiadores e entusiastas de fitas antigas, poucas pessoas pareciam saber que ele alguma vez existira.

«Double or Nothing», a última das doze comédias em duas bobinas que Mann fizera no final da era do mudo chegou às salas de cinema a 23 de Novembro de 1928. Dois meses depois, sem se despedir de nenhum dos amigos ou associados, sem deixar nenhuma carta, sem informar ninguém dos seus planos, abandonou a casa que alugara em North Orange Drive e nunca mais foi visto. O «DeSoto» azul estava na garagem; o contrato de aluguer era válido por mais três meses; a renda fora integralmente paga. Havia comida na cozinha, whiskey no bar, e, nas gavetas do quarto, não faltava uma única peça de roupa. De acordo com o «Los Angeles Herald Express» de 18 de Janeiro de 1929, «era como se Mann tivesse saído para um breve passeio e pudesse voltar a qualquer instante». Mas a verdade é que não voltou e, a partir desse momento, foi como se Hector Mann tivesse desaparecido da face da terra.

.

O livro foi publicado pela University of Pennsylvania Press fez agora onze anos em Março. Três meses depois, logo após a saída das primeiras críticas em revistas trimestrais de cinema e publicações académicas, uma carta apareceu na minha caixa de correio.

.

«Caro Professor Zimmer», rezava a nota. «Hector leu o seu livro e gostaria de conhecê-lo. Está interessado em fazer-nos uma visita? Atenciosamente, Frieda Spelling (Mrs. Hector Mann)»..

[680]

2 Dezembro, 2003 at 8:50 am

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