Há 10 anos, “A Coluna Infame”
BEM-VINDO. «A Coluna Infame» é o novo blog (web-log) português de artes, literatura, política e ideias. Para conservadores, liberais e independentes, mas não só. Mande-nos sugestões, comentários, links para artigos e sites. Não deixe evidentemente de visitar o nosso inspirador, o grande Andrew Sullivan, em http://www.andrewsullivan.com. Este blog, mantido por João Pereira Coutinho, Pedro Lomba e Pedro Mexia, é independente de partidos, igrejas, grupos económicos ou lóbis de qualquer género. Nem sequer estamos sempre de acordo uns com os outros. Somos homens livres, que maçada. «A Coluna Infame» ficará uns dias em fase meramente experimental, dado o facto de um dos seus autores estar em Oxford, a ver a civilização, o outro no Tribunal da Boa-Hora, a defender oficiosamente ladrões de auto-rádios, e o terceiro pelos cafés do Saldanha, entre pilhas literárias e musas condescendentes e caprichosas. Mas em breve o trio estará reunido. Num computador perto de si.
Faz hoje 10 anos, nascia a blogosfera em Portugal, com o surgimento d’A Coluna Infame, sobre cujo fim (ocorrido a 10 de Junho de 2003) escrevia, três dias depois, em editorial no “Público”, o seu então Director José Manuel Fernandes:
A “Coluna Infame” acabou. A blogosfera está mais pobre. E o país também – mesmo que a maioria nunca tenha ouvido falar nem da “Coluna”, nem da blogosfera. […]
Na blogosfera portuguesa a “Coluna Infame” era uma referência fundadora, quer por ser um dos primeiros espaços de debate político desse universo virtual, quer por ser animada por intelectuais de direita. Estas duas qualidades são importantes.
Na verdade, a blogosfera é a mais vibrante das expressões modernas da Ágora ateniense, esse espaço público onde os cidadãos se encontravam para discutir os assuntos que a todos diziam respeito. A blogosfera é mais democrática, mais aberta, mais plural, mais interessante e mais rica do que os espaços de debate da maioria dos meios de comunicação tradicionais, mesmo os famosos fóruns de discussão radiofónicos (para não falar dos talk-shows televisivos). Na blogosfera reage-se à actualidade em cima da actualidade, e o comentário (ou “post”) colocado num blog gera quase de imediato uma cascata de reacções.
Como que fechando um ciclo, um dos seus autores, Pedro Mexia, encerra hoje mais um dos seus blogues, “Lei Seca“, escrevendo:
Faz esta semana dez anos que tenho um diário. Uma espécie de diário. Há uma década, quando havia apenas umas centenas de blogues, eu explicava o que era um blogue dizendo: «É um diário». […]
Reconheço que os blogues introduziram modificações importantes no género diarístico. Tanto a publicação imediata como o acesso universal tornam o blogue num exercício perigoso. Porque o diário era por natureza privado, mediado, nalguns casos secreto, escrito em código, às vezes de publicação póstuma. Há bastantes diários editados em vida, incluindo um dos melhores, o de Gide, mas mesmo esses aparecem de tantos em tantos anos, filtrados de um material original que não conhecemos, ao passo que os blogues vão surgindo como work in progress. Escrever um diário «em directo» exige que se invente, em equilíbrio instável, uns quantos filtros, regras, deontologias, cuidados difíceis, falíveis, como manter o anonimato de terceiros ou não escrever «online» aquilo que se deve dizer de viva voz. No meu caso, isso significou também criar um registo que destapa a vida íntima e protege a vida privada, um registo a que chamei «confessionalismo hermético».
(Não digam a ninguém, mas…
…este Orçamento vai correr mal. Ninguém acredita nele, nem quem o faz. Mas shiu, parece que isso não pode ser dito alto, piscamos os olhos uns aos outros mas não dizemos nada. Hoje há OE, hoje temos a angústia do guarda-redes no momento do penálti, hoje vamos discutir o indiscutível mas só uma coisa não tem alternativa: insistir em vez de desistir. Insistir na mudança. Não seremos nós, será o tempo a rasgar o OE. […]
Pronto, não digam nada, guardem silêncio, há uma encenação para cumprir, por causa das opiniões públicas dos países do Norte, por causa dos gajos dos mercados. Guardemos os falhanços para nós e, aqui que ninguém nos ouve, fechemos os parêntesis e escrevamos uma única frase, audível e responsabilizadora).
Os portugueses têm de pagar austeridade. O Governo tem o dever de garantir a sua racionalidade, equidade e propósito. A UE e o FMI têm de mudar de plano – eles não são só credores, são responsáveis. E nós não podemos deixar que eles se esqueçam disso. Fazê-los merecer o próximo Nobel da Paz.
Prémio Nobel da Economia – 2012
O prémio Nobel da Economia 2012 foi hoje atribuído aos estado-unidenses Alvin E. Roth e Lloyd S. Shapley, «pela teoria de alocações estáveis e prática de desenho de mercado».
Resultados das Eleições nos Açores

(via)
Depois de cerca de 20 anos de consulado de Mota Amaral, e de 16 anos de mandatos de Carlos César, Vasco Cordeiro foi hoje eleito para Presidente do Governo Regional dos Açores.
Comparativamente com as eleições de 2008, o PS, reforça a sua maioria absoluta, contando com mais um deputado eleito; enquanto o PSD elege mais dois deputados. Ao invés, o CDS perde dois eleitos, e o BE perde um deputado.
A abstenção caiu ligeiramente, de 53,2% para 52,1%. Destaque ainda para o significativo acréscimo dos votos brancos, passando de 1,9% para 3,2%.
Plano B que devia ter sido Plano A
A vedeta dos tempos de hoje: o Plano B. Nada mau para um povo acusado de só ter olhos para o passado. Mudámos, agora é: ai, o que vai ser a seguir… Aquele “ai” é que está a mais mas não se pode ter tudo. O futuro, pois. Pacheco Pereira, o pessimista lúcido, já disse, esta semana, na Quadratura do Círculo, que não gosta dos termos “Governo de Salvação Nacional”, nem de “Governo de Iniciativa Presidencial”, mas que lá vai ter de ser, vai. Como diria uma das suas expressões favoritas, “está escrito nas estrelas”. Por acaso também está escrito numa crónica minha, aqui, no dia seguinte às últimas legislativas. Ao governo que devia ser chamei, simplesmente, “Governo”. O programa era o assinado com a troika e a composição era o que tinha de ser: sob a liderança do PSD, o partido mais votado, a aliança com o PS e o CDS. Os três juntos permitiam convencer melhor os portugueses sobre os sacrifícios. E os três juntos permitiam que esses sacrifícios não fossem canalizados para experiências particulares (na altura eu não sabia mas hoje pode explicar-se melhor do que devíamos fugir: chamemos-lhe maluquices do Gaspar). O Plano B apresentei-o como Plano A. Mau analista político que eu sabia ser, refugiei-me no bom senso e escrevi a crónica a 6 de junho de 2011. Errei foi na última frase: “Pensem nisso, antes que os factos obriguem a pensá-lo daqui a seis meses.” Fui tolamente otimista. Precisámos de um ano e quatro meses.
O “caso Armstrong” e José Azevedo
Desde 2003, ano em que iniciei a publicação deste blogue, por várias vezes aqui tive a oportunidade de enaltecer as grandes proezas obtidas por Lance Armstrong, e, em particular, de vibrar intensa e orgulhosamente com os feitos do português José Azevedo:
- 05.12.2003 – José Azevedo, o ciclista português com melhor palmarés depois do mítico Joaquim Agostinho (5º no “Giro de Itália” e 6º no “Tour de France”), acaba de ser contratado pela equipa norte-americana “US Postal”, que tem por “chefe-de-fila” Lance Armstrong, o penta-vencedor da maior prova mundial de ciclismo (“Tour”). Esta contratação insere-se no âmbito de uma estratégia da equipa de proporcionar a Armstrong a 6ª vitória consecutiva na prova, o que constituiria um “record” inédito, devendo Azevedo assumir o principal papel no apoio ao norte-americano, sendo esta selecção uma prova de confiança nas capacidades do português e uma inegável honra desportiva.
- 03.07.2004 – Lance Armstrong tem perante si um (último?) grande desafio: o de, vencendo pela sexta vez consecutiva, se tornar no maior campeão de sempre.
- 19.07.2004 – Porque, se Lance Armstrong – obviamente com grande mérito – se prepara para definitivamente entrar na “lenda do TOUR”, aproximando-se, dia a dia, de uma inédita 6ª vitória consecutiva, há que atribuir uma parcela dessa vitória à brilhante prestação do português. Quem teve a oportunidade de acompanhar a “épica” etapa de Sábado, com a chegada ao Plateau de Beille, não pode ter deixado de se entusiasmar com o trabalho de José Azevedo, abrindo caminho ao seu “chefe-de-fila” para uma extraordinária vitória, “destroçando” toda a concorrência (resta o italiano Ivan Basso como último obstáculo para Armstrong).
- 21.07.2004 – Aproveitando a oportunidade, para destacar (mais uma vez) o magnífico desempenho de José Azevedo, hoje no “Tour de France”, em contra-relógio individual com o final no cume do Alpe d’Huez, “etapa-rainha” da maior prova de ciclismo do mundo. José Azevedo foi 4º classificado, logo após as maiores figuras do ciclismo mundial da actualidade: Lance Armstrong, Jan Ullrich, Andreas Kloden – uma proeza ao nível das realizadas por Joaquim Agostinho! – tendo ascendido ao 5º lugar da classificação geral. Brilhante!
- 24.07.2004 – O norte-americano Lance Armstrong, alcançando a sua 6ª vitória consecutiva no “Tour de France” – maior prova de ciclismo do mundo – converte-se no maior campeão de sempre, superando as grandes “lendas” Eddy Merckx, Miguel Indurain, Bernard Hinault e Jacques Anquetil. Uma proeza histórica, porventura irrepetível. Desde 1999, ano após ano, mostrando sucessivamente ser o ciclista mais completo do pelotão, tornou-se praticamente imbatível em contra-relógios e muitas vezes vencedor de etapas de montanha (onde nunca denotou sintomas de que pudesse “fraquejar”), uma combinação perfeita para o sucesso. […] Por fim, o “nosso grande campeão”, José Azevedo. Uma prova magnífica, de esforço, trabalho, dedicação e glória. Não só deu todo o apoio que Armstrong necessitou para vencer esta prova – ganhando direito a “saborear” um pouco da magnífica proeza de Armstrong – , como conseguiu ainda marcar presença de destaque entre os melhores (com um magnífico 4º lugar no mítico Alpe d’Huez), finalizando num brilhante 5º lugar na classificação geral, imediatamente após Jan Ullrich. Uma proeza ao nível de Joaquim Agostinho; a melhor classificação de sempre de um português, desde o 3ºlugar de Agostinho de há 25 anos atrás. A propósito, leiam-se as palavras do Director da Equipa: “Le directeur sportif de l’US.Postal Johan Bruynel ne tarit pas d’éloges sur son équipe. Hincapie d’abord, Beltran ensuite, Landis hier qui a fournit un travail considérable pour Lance Armstrong, notamment ont contribué à son sixième sacre. Mais surtout Bruynel salue les performances de José Azevedo, le Portugais, omniprésent aux côtés du patron dans toutes les ascensions des Pyrénées et des Alpes, et par ailleurs cinquième au classement général. « S’il était leader dans une autre équipe, Azevedo aurait les moyens de jouer le podium” explique-t-il.”
- 24.07.2005 – 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7! Nasce o mito Armstrong. Hoje, Lance Armstrong encerrou a sua carreira de ciclista com “chave de ouro”, conquistando a 7ª vitória consecutiva na Volta a França em Bicicleta, assim entrando na lenda do desporto. Imbatível desde 1999, Armstrong fez, neste seu “Tour de despedida”, uma prova confiante, serena, tranquila, convicto de que, mais uma vez, a vitória não lhe escaparia.
- 01.07.2006 – Tem início hoje na “Capital da Europa”, Strasbourg, o “Tour de France“, este ano com a particularidade de o ciclista que envergará a camisola com o nº 1 ser o português José Azevedo, sucessor do “campioníssimo” Lance Armstrong (hepta-vencedor da prova – de 1999 a 2005 -, entretanto retirado da competição) como “chefe-de-fila” da equipa “Discovery Channel”.
- 23.07.2006 – José Azevedo efectuou uma boa prova, embora sem deslumbrar, terminando no 19º lugar. Poderia ter feito melhor… ainda assim finalizaria como o melhor ciclista da Discovery, a equipa que, tendo ficado sem o hepta-vencedor Lance Armstrong, procura ainda o seu “herdeiro”.
Hoje, conhecido o relatório da USADA – United States Anti-Doping Agency sobre a investigação do caso Lance Armstrong, é impossível deixar de me colocar a interrogação sobre qual o envolvimento que terá tido José Azevedo no âmbito deste processo? Para reflexão, aqui transcrevo alguns excertos de tal relatório, relativamente ao ano de 2004, em que o ciclista português, não só obteve a sua melhor classificação no “Tour de France”, como foi preponderante na conquista da vitória na prova por parte do seu “chefe-de-fila” na equipa US Postal:
Floyd Landis reported that Ferrari attended the training camp in Puigcerdà to monitor the team members’ blood values and that Ferrari “administered EPO and testosterone as needed to ensure the team was ready for the Tour de France.” […]
By this time, the use of testosterone patches was quite prevalent on the U.S. Postal Service cycling team. Michele Ferrari and Johan Bruyneel both advised that testosterone patches could be used for short periods with little risk of detection.
Landis testified that, “[o]n or about July 12, 2004, blood was transfused into me and a few other members of the team,” including, Lance Armstrong and George Hincapie. […]
Floyd Landis also testified regarding a second transfusion received by Armstrong, Landis and other members of the team. Landis testified that this transfusion occurred on the team bus between the finish of a stage and the hotel and that the driver had pretended to have engine trouble and stopped on a mountain road for an hour so that the team could have blood infused.
George Hincapie confirms that, “[a]fter a stage during the 2004 Tour de France blood transfusions were given on the team bus to most of the riders on the team.” […]
The administration of EPO in small doses to stimulate the production of immature red blood cells known as reticulocytes in order to mask the transfusion was standard practice on the USPS/Discovery Channel Team as Tom Danielson has indicated.
P.S. Um retrato, tão triste, como fiel, do que foi o ciclismo de competição ao mais alto nível, desde 1996, é expresso neste quadro, com as ligações ao doping dos 3 primeiros classificados de cada edição do “Tour”. Arrepiante!
A “viragem” de orientação no FMI
FMI ensaia mudança de pele em 4 actos
É cedo para concluir se a teoria dos “austeristas” foi derrotada pela “revelação” espetacular feita por Olivier Blanchard no “World Economic Outlook” – um dos mais importantes documentos anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) – sobre o erro do multiplicador orçamental. […]
Acto I – FMI reconhece o erro no cálculo do “multiplicador” da austeridade
Acto II – Investigadores do FMI recomendam terapia diferente da troika
Acto III – World Economic Outlook de outubro de 2012 diz que depressão mundial depende de Bruxelas, Berlim e Washington
Acto IV — “É preciso deitar a crise para trás das costas”, diz Christine Lagarde
(artigo de Jorge Nascimento Rodrigues, de leitura obrigatória).
«A governação de cabotagem»
De novo, insisto, o espectáculo desta governação é penoso de se ver. […]
O resultado é a mais absurda governação à vista que é possível imaginar. […]
Nota actual: o que se está a passar com o Orçamento de Estado nunca foi visto em democracia: um Orçamento feito na rua e nos jornais, com fugas, umas deliberadas, outras não, com “balões de ensaio” para ver no que dá, com anúncios absurdos e irresponsáveis de violentos, seguidos de pequenas moderações para enganar, com alvos genéricos e, quando a coisa corre mal, mais pancada na função pública. Se é deliberado, tipo pau seguido de cenoura para esconder o pau que fica, coloca o governo ao nível de um mau assessor de comunicação, a fazer truques de marketing. Para isso há melhores profissionais fora de Portugal que podem ser contratados.
Só este triste espectáculo devia levar o Presidente a pôr alguma ordem nesta trapalhada ambulante, ridícula e perigosa ao mesmo tempo.
Fim do Euro ou maior integração?
Há coisas que parecem tão evidentes, que custa a crer como é possível tanta cegueira… Luciano Amaral (em debate na SIC Notícias) acaba de definir, numa frase singela, as alternativas para a saída da actual crise europeia:
- Ou acaba o euro (no seu modelo actual);
- Ou terá de haver maior integração (particularmente em termos orçamentais e políticos) a nível da União Europeia.
Custa assim tanto a perceber?




