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CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (II)

“E, tanto que ele começou para lá d’ir, acudiram pela praia homens, quando dois, quando três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, eram ali 18 ou 20 homens pardos, todos nus, sem nenhuma cousa que lhes cobrisse suas vergonhas.

Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijos para o batel e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pusessem os arcos; e eles os puseram.

Ali não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho, que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas d’aves, compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer d’aljaveira, as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza.

E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder deles haver mais fala, por azo do mar. A noute seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros, que fez caçar as naus e especialmente a capitania.

E à sexta, pela manhã, às 8 horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar âncoras fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados pela popa, contra o norte para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde ficássemos para tomar água e lenha, não por nos já minguar, mas por nos acertarmos aqui. E quando fizemos vela seriam já na praia assentados junto com o rio obra de 60 ou 70 homens, que se juntaram ali poucos e poucos.

Fomos de longo, e mandou o capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e que, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem. E, sendo nós pela costa, obra de 10 léguas donde nos levantámos acharam os ditos navios pequenos um arrecife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus arribaram sobre eles. E um pouco ante sol-posto amainaram obra d’uma légua do arrecife ancoraram-se em 11 braças.

Desembarque.jpegE sendo Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou em uma almadia dous daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos. E um deles trazia um arco e 6 ou 7 setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas e não lhes aproveitaram. Trouxe-os logo já de noute, ao capitão, onde foram recebidos com muito prazer e festa. A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos.

Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. Traziam ambos os beiços de baixo furados e metido por eles um osso branco de comprimento duma mão travessa e de grossura dum fuso d’algodão e agudo na ponta como furador.”

[2131]

8 Março, 2005 at 6:07 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (I)

“SENHOR

Posto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que para o bem contar e falar o saiba pior que todos fazer.

Mas tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual, bem certo, creia que por afremosentar nem apear haja aqui de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer e os pilotos devem ter esse cuidado.

E, portanto, Senhor, do que hei-de falar começo e digo que a partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de Março.

E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achámos entre as Canárias, mais perto da Grã Canária. E ali andámos todo aquele dia, em calma, à vista delas, obra de três ou quatro léguas.

E domingo, 22 do dito mês, às 10 horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas do Cabo Verde, isto é, da ilha de S. Nicolau, segundo dito de Pêro Escobar, piloto. E a noute seguinte, à segunda-feira, quando lhe amanheceu, se perdeu da frota Vasco d’Ataíde, com a sua nau, sem aí haver tempo forte nem contrairo para poder ser. Fez o capitão suas diligências para o achar, a umas e a outras partes, e não apareceu mais.

E assim seguimos nosso caminho por este mar e longo, até terça-feira d’oitavas de Páscoa, que foram 21 dias d’Abril, que topámos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha, segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas, os quais eram muita quantidade d’ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho e assim outras, a que também chamam rabo d’asno.

MapaBrasil.jpeg

E à quarta-feira seguinte, pela manhã, topámos aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d’um grande monte, mui alto e redondo, e d’outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz.

Mandou lançar o prumo, acharam 25 braças, e, ao solposto, obra de 6 léguas de terra, surgimos âncoras em 19 braças; ancoragem limpa. Ali ficámos toda aquela noute.

E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra e os navios pequenos diante, indo por 17, 16, 15, 14, 13, 12, 10 e 9 braças até meia légua de terra, onde todos lançámos âncoras em direito da boca dum rio. E chegaríamos a esta ancoragem às 10 horas, pouco mais ou menos.

E dali houvemos vista d’homens, que andavam pela praia, de 7 ou 8, segundo os navios pequenos disseram, por chegarem primeiro. Ali lançámos os batéis e esquifes fora e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor e ali falaram. E o capitão mandou no batel, em terra, Nicolau Coelho, para ver aquele rio.”

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7 Março, 2005 at 6:15 pm

PEDRO ÁLVARES CABRAL – A VIDA E A VIAGEM (IV)

PACabralSeguiria para Cochim, onde, chegado a 24 de Dezembro, seria recebido pacificamente, estabelecendo uma feitoria e alcançando uma aliança com o Samorim, carregando de especiarias (pimenta, canela e gengibre) os porões das naus, iniciando o regresso a Lisboa a 16 de Janeiro de 1501.

Chegaria a Lisboa a 23 de Julho de 1501, no termo de uma expedição não muito bem sucedida, em particular, pela incapacidade em submeter o Samorim de Calecut, apesar dos ricos carregamentos que transportara.

No ano seguinte, chegou a ser escolhido para comando da expedição no regresso à Índia, o que não se viria contudo a concretizar, vindo a ser substituído por Vasco da Gama.

Para honrar a palavra do Rei e a pedido deste, Cabral desistiu da capitania da sua segunda armada à Índia. D. Manuel agradeceu-lhe e prometeu que lhe daria o comando de outras armadas.

Porém, Pedro Álvares Cabral acabaria por se retirar da corte, fixando-se nas suas propriedades próximo de Santarém, onde viveu até 1520, tendo sido entretanto agraciado com a comenda da Ordem de Cristo.

Tinha dado ao sonhado Império Português a sua maior dimensão, desde as terras da América abrangidas pela linha de Tordesilhas até ao Oriente. Estranhamente, nem o Rei D. Manuel I, nem os seus conselheiros, perceberam que este navegador trouxera também a notícia de uma terra de rara beleza e riqueza.

Apenas em 1514 seria agraciado com uma tença de 200 mil reais anuais. Só a partir de cerca de 1530, a Terra de Santa Cruz começaria a ser colonizada e, apenas em 1540, adquiria o seu nome definitivo, Brasil (com origem na madeira pau-brasil).

P. S. A propósito de Pedro Álvares Cabral, visite-se a excelente página da C. M. Belmonte, uma das fontes para as notas aqui apresentadas nos últimos dias.

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3 Março, 2005 at 6:04 pm

PEDRO ÁLVARES CABRAL – A VIDA E A VIAGEM (III)

PACabralDe qualquer forma, Pedro Álvares Cabral apenas permaneceria em terra (na actual Baía Cabrália, na costa da Bahia) durante cerca de 10 dias, em que estabeleceu contactos com os índios, tendo sido também celebradas algumas missas.

Contudo, antes de retomar caminho para Oriente, via Cabo da Boa Esperança, a 2 de Maio, mandou erguer um padrão de pedra, tendo entretanto despachado um navio para Portugal (a nau de Gaspar Lemos) com a importante notícia do descobrimento (“achamento”) do Brasil, uma carta escrita por Pêro Vaz de Caminha.

Durante o percurso até à Índia, a armada perde mais cinco navios devido a uma tormenta de vinte dias ao largo do cabo da Boa Esperança, com furiosos vendavais e um mar agitado: quatro deles naufragaram, tendo perecido todos os tripulantes, incluindo Bartolomeu Dias, o primeiro a ter realizado o feito de “dobrar” esse cabo (em 1487); enquanto que uma nau se afastou, apenas se vindo a juntar novamente a Pedro Álvares Cabral em Cabo Verde, já aquando do regresso.

Depois de se deter algumas vezes na costa leste de África (em Sofala, Moçambique e Melinde), apenas seis naus avistariam Calecut, a 13 de Setembro de 1500.

Pedro Álvares Cabral procurava estabelecer uma feitoria em terra; contudo, muitos dos seus ocupantes portugueses acabariam por ser massacrados. O capitão português retaliou, queimando as embarcações muçulmanas que se encontravam no porto e bombardeando a cidade, sem conseguir contudo submeter o Samorim.

[2114]

2 Março, 2005 at 6:23 pm 2 comentários

PEDRO ÁLVARES CABRAL – A VIDA E A VIAGEM (II)

PACabralDepois dos preparativos, no Domingo de 8 de Março, a viagem iniciou-se a 9 de Março de 1500, partindo do Restelo, transpondo a barra do Tejo e entrando nas águas do Atlântico.

Seguindo as instruções náuticas de Vasco da Gama, começou por passar no arquipélago de Cabo Verde, tendo depois, devido aos ventos e correntes, de alargar a rota para Sudoeste, pelo Atlântico Sul.

E é nesse “desvio” de quase um mês, talvez ainda mais impulsionado para Oeste pelos fortes ventos alísios, que, dois dias depois da Páscoa, a 21 de Abril – não sendo definitivo se por mero acaso, ou se em resultado de uma iniciativa intencional pré-determinada de exploração de novas terras (eventualmente já antes descobertas, em 1498, por Duarte Pacheco Pereira –, se avista grande quantidade de algas no mar.

PACabral-Mapa.jpegNo dia seguinte, vêem-se aves no céu, indiciando a proximidade de terra firme. Quando, horas depois, nesse dia de 22 de Abril, a terra é avistada, é dado o nome de Monte Pascoal a uma elevação, chamando-se à terra, “Terra de Vera Cruz”.

Na manhã seguinte, a 23 de Abril de 1500, a armada aproxima-se da linha de costa, vindo Nicolau Coelho a desembarcar, vendo então os primeiros indígenas (índios Aymoré), que parecem ter uma atitude pacífica, não mostrando intenção de fazer uso dos arcos e setas que transportam.

No dia seguinte, toda a tripulação desembarcaria, 10 léguas a Norte, em Porto Seguro, ficando deslumbrados com o clima, paisagens, animais e com as gentes “pardos e todos nus”.

Mais tarde, saber-se-ia que Cabral não fora o primeiro europeu a chegar ao Brasil; anteriormente, já Américo Vespucci (em Julho de 1499) e o espanhol Vicente Yañez Pinzón, antigo tripulante da armada de Colombo (em Janeiro de 1500) haviam avistado essa nova terra.

O que nunca foi possível confirmar foi se os portugueses já conheceriam a sua existência antes e se tal teria sido o motivo de terem conseguido uma revisão da repartição original do mundo em duas zonas de exploração (Portuguesa e Espanhola), ajustando a linha de separação mais para ocidente, de forma a incluir o território do Brasil na zona portuguesa (Tratado de Tordesilhas de 1494), o que teria levado a que o mesmo não tivesse sido anteriormente explorado.

[2112]

1 Março, 2005 at 6:02 pm

PEDRO ÁLVARES CABRAL – A VIDA E A VIAGEM (I)

PACabralPedro Álvares Cabral nasceu em Belmonte, por volta de 1467-1468, nono filho de Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte e regedor da justiça real na comarca da Beira e Ribacoa, e de Isabel Gouveia.

Embora não beneficiasse das honrarias (donatarias e senhorios) acordadas ao filho primogénito, cedo ingressou como moço fidalgo na corte de D. João II (1478), ainda com o sobrenome materno de Gouveia, com o objectivo de receber uma educação própria da sua condição social, incluindo a instrução literária, assim como o uso de armas.

Viria posteriormente a prestar serviço numa praça do Norte de África, após o que, ainda jovem, casaria com Isabel de Castro, sobrinha do que viria a ser o maior governante da Índia, Afonso de Albuquerque.

Após o regresso de Vasco da Gama da Índia no Outono de 1499, dando conta ao rei das dificuldades em comerciar com os povos orientais, em Fevereiro de 1500 D. Manuel nomeia Pedro Álvares Cabral capitão-mor de uma armada de 13 navios (10 naus e três caravelas – tendo também por capitães Nicolau Coelho, Bartolomeu Dias, Diogo Dias, Sancho de Tovar, Simão de Miranda de Azevedo, Aires Gomes da Silva, Pedro de Ataíde, Vasco de Ataíde, Simão de Pina, Nuno Leitão da Cunha, Gaspar de Lemos e Luís Pires e recorrendo aos experientes pilotos Pêro Escobar, Pêro de Alenquer e Afonso Lopes), para uma segunda expedição à Índia.

Foi-lhe confiada a missão de transportar 1 500 homens para terras do Oriente (a maior frota de sempre, comparando com apenas cerca de 170 homens na primeira expedição à Índia) e conseguir restabelecer relações de amizade e alianças de comércio com o Samorim de Calecut, de forma a assegurar o domínio da rota e do comércio de especiarias, por via do estabelecimento permanente no território, tendo ainda presente a intenção de difundir o cristianismo entre os povos do Oriente.

[2107]

28 Fevereiro, 2005 at 6:01 pm 1 comentário

MODERNISMO (II)

No primeiro número da revista Orpheu, surgiam críticas violentas, nomeadamente nos poemas “Ode Triunfal”, de Álvaro de Campos e “Manucure”, de Mário de Sá-Carneiro.

Paradoxalmente, a revista esgotou por via de um “sucesso negativo”: quem comprava a revista, lançava de imediato a sua ira contra os autores.

Apenas teria um segundo e último número, em Julho de 1915, mais orientada para o Futurismo, não chegando a ser editado o terceiro número, na sequência do suicídio de Mário de Sá-Carneiro.

Não obstante, a ela se sucederiam diversas publicações, embora também com vida efémera, de que se destacam: “Centauro” (1916), “Exílio” (1916), “Ícaro” (1917) e “Portugal Futurista” (1917).

Após o primeiro período, do “Orphismo”, numa segunda fase, surgiria a revista “Presença”, lançada em Marco de 1927, fundada por Branquinho da Fonseca (que viria a ser substituído, em 1930, por Adolfo Casais Monteiro), vindo a ter nomeadamente como colaboradores Miguel Torga, José Régio, Adolfo Rocha, João Gaspar Simões e Irene Lisboa, iniciando-se um período designado pelo “Presencismo”.

Defendiam uma análise interior e introspecção, colocando ênfase no individualismo e esteticismo.

Através da “Presença”, seriam divulgadas as principais obras e escritores europeus da primeira metade do século XX.

Com o termo da actividade deste grupo, em 1940, encerrava-se o “Modernismo” em Portugal.

Seguir-se-iam mais tarde as fases do Neo-realismo (em que os escritores da época apresentavam uma literatura de carácter social, aproximada à dos autores do Realismo) e Surrealismo (influenciadas pelas teorias de André Breton).

[2099]

24 Fevereiro, 2005 at 8:55 am

MODERNISMO (I)

No início do século XX, começaram a surgir revistas culturais, principal fonte de divulgação da arte; em 1910, era lançada a revista “Águia”, dirigida por Teixeira de Pascoaes, tendo por objectivo a exaltação da Pátria, por via do saudosismo, ressurgindo então o mito do “Sebastianismo”. Seria ainda uma fase de “Pré-Modernismo”.

O “Modernismo” teria o seu início em Portugal por volta de 1915 com o lançamento, em Abril desse ano, da revista “Orpheu”, por um grupo de escritores e artistas plásticos, compreendendo nomeadamente Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal e Luís de Montalvor.

Este grupo era influenciado pelo “Futurismo” de Marinetti, assim como pelo existencialismo de Heidegger, que defendia o determinismo individual acima da determinação social, tendo como objectivo principal exaltar a modernidade e colocar Portugal “a par da Europa”.

Iniciava-se então em Portugal (desde Outubro de 1910) o período republicano, marcado por graves crises, que levou à criação de duas correntes opostas: a nacionalista (favorável ao governo) e a integralista (defendendo as ideias do nazi-fascismo então emergente na Europa).

A par de um período “revolucionário” de golpes e contra-golpes de Estado, nos primeiros anos da República, o contexto internacional era também muito conturbado, com a I Guerra Mundial (colocando em causa a posse das colónias portuguesas em África, o que obrigou à participação activa de Portugal, com corpos expedicionários em França) e, de seguida, a Revolução Russa de 1917.

[2098]

23 Fevereiro, 2005 at 1:54 pm

FUTURISMO EM PORTUGAL

Portugal tomou contacto com o Futurismo por intermédio de intelectuais portugueses que se encontravam em Paris, Mário de Sá-Carneiro e o pintor Guilherme Santa-Rita, que encararia o movimento com grande entusiasmo, vindo a assumir-se como o seu líder em Portugal, o que, contudo, se consubstanciava apenas na publicação, no 2º volume da Revista Orpheu (Julho de 1915), de quatro “trabalhos futuristas”.

Mais vincadamente, seria através dos poetas que surgiriam composições poéticas de cariz futurista, em particular, a “Ode Triunfal” e a “Ode Marítima”, de Fernando Pessoa; “Manucure”, de Mário de Sá-Carneiro e o “Manifesto Anti-Dantas”, de Almada Negreiros.

Em Abril de 1917, seria realizado um espectáculo “futurista”, desenvolvido por Almada Negreiros e Santa-Rita, em que o primeiro leria o seu “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX” – em que declarava: “Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva. (…) É preciso criar a pátria portuguesa do século XX. O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem Portugueses, só vos faltam as qualidades”, adiantando ainda que, para cumprir este objectivo, seria necessário combater o romantismo, o saudosismo, o sentimentalismo sebastianista, o amadorismo e o derrotismo.

Seriam ainda apresentados o “Manifesto Futurista da Luxúria”, de Mme. de Saint-Point, e o texto “Music-Hall et Tuons le Clair de Lune”, de Marinetti. Esta apresentação não viria contudo a ter grande adesão.

Surgiria ainda, de seguida, a Revista “Portugal Futurista”, que seria todavia apreendida pela polícia.

O “Futurismo” teria consequentemente uma vida muito curta em Portugal, de pouco mais de 6 meses, sem prejuízo de ter deixado importantes influências particularmente em Almada Negreiros (poeta, dramaturgo, romancista, caricaturista, coreógrafo e… futurista), recorrendo nomeadamente ao “escândalo” (de que constitui melhor exemplo o “Manifesto Anti-Dantas”), o que levaria a que fosse considerado “louco”.

[2094]

22 Fevereiro, 2005 at 6:07 pm

FUTURISMO – "MANIFESTO FUTURISTA"

O Futurismo revelou-se como uma vertente do Modernismo, tendo sido introduzido em 1909 por Filippo Marinetti, com o seu “Manifesto Futurista”, caracterizando-se pela exaltação da velocidade, energia e da força, a par de uma inquestionável crença no progresso científico-tecnológico, anunciando paralelamente uma nova concepção estética, simbolizada por exemplo no automóvel, projectando-se no futuro.

MANIFESTO FUTURISTA (Publicado em 20 de Fevereiro de 1909, no “Le Figaro”)

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.

5. Nós queremos glorificar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.

6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, esforço e liberdade, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.

8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade omnipotente.

9. Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo –, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda a natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda a vileza oportunista e utilitária.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifónicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas lutas eléctricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as fábricas penduradas nas nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.

[2092]

21 Fevereiro, 2005 at 6:06 pm 1 comentário

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