Posts filed under ‘Cultura, Artes e Letras’
À CONVERSA COM PAUL AUSTER (IV)
Começou por referir que vivemos num mundo global (“Ainda ontem estava em Nova Iorque; agora, poucas horas depois, aqui estou em Lisboa”), em que, naturalmente – e não obstante o predomínio do inglês como língua “comum” a nível internacional –, são necessárias traduções… e, portanto, tradutores.
Más traduções podem “matar uma obra”; inversamente, algumas (boas) traduções dão nova alma ou mesmo nova vida ao livro; podem chegar inclusivamente ao ponto de ser melhores que o original!…
É impossível replicar a 100 % um livro; cada língua é diferente, tem as suas especificidades próprias, os seus pontos de riqueza.
Daria mesmo o exemplo de uma obra de Dostoiewsky (“Crime e Castigo”) que leu quando tinha cerca de 15 anos, naturalmente não em russo, mas em inglês, numa tradução feita um século após a escrita do livro e que, não obstante poder não traduzir eventualmente de forma fiel o original, lhe proporcionou tal prazer na leitura que contribuiu decisivamente para o seu gosto pela escrita.
Rematou dizendo que “um livro não são só palavras, mas, principalmente, as emoções que pode transmitir”.
Questionado a propósito da Trilogia de Nova Iorque, confidenciaria que demorou cerca de 15 anos a escrever esta obra (entre 1970 e 1985), tendo começado a sua escrita numa época em que Nova Iorque era uma cidade verdadeiramente caótica.
Abrindo o coração à audiência, referiria o momento mais emocionante da sua vida como escritor quando, em 1992, encontrou um Bósnio, durante o cerco de Sarajevo, na guerra de secessão jugoslava, que se fazia acompanhar do livro.
[2241]
À CONVERSA COM PAUL AUSTER (III)
A questão seguinte remeteu para um paradigma das obras de Auster: em todos os seus livros, em determinado momento da história, seja no início, a meio ou no final, os personagens acabam por “perder tudo”; até que ponto considera que a sorte é importante ou pode mesmo ser determinante na vida das pessoas.
Auster sintetizou dizendo que os seus livros mais não são do que uma metáfora do que todas as pessoas passam na vida: momentos bons; momentos menos bons, de perda, até desespero. As suas histórias são sobre a vida (“that’s what this is all about”)…
Foi de seguida questionado sobre se utiliza, na sua escrita, como método, uma técnica similar à da escrita de peças de teatro.
Refutaria, afirmando que já escreveu argumentos para cinema, mas nunca para teatro e que os romances têm uma técnica distinta.
A propósito: porque escreve tão frequentemente sobre a “escrita”?
Diz Auster: “É um tema! Também faz parte do mundo”… e, com algum humor e ironia, “o que conheço melhor” (aquele de que estará mais à vontade para falar). Aprecia-o a tal ponto, que o potenciou em “A Noite do Oráculo”, contando histórias dentro de histórias, dentro de histórias…
Retomando de alguma forma o tema inicial da oralidade da escrita, foi então questionado sobre a eventual perda que decorrerá para a escrita da necessidade de tradução.
Mais uma vez apreciando a questão, o escritor faria aqui talvez a maior “dissertação” da noite…
[2240]
À CONVERSA COM PAUL AUSTER (II)
E, na sequência da parte inicial do encontro com o escritor, a propósito da leitura em voz alta, a primeira pergunta, abrindo da melhor forma a conversa, seria mesmo sobre a importância que a sonoridade da leitura terá sobre a forma de escrita; até que ponto, esse “teste” será importante para a fixação definitiva do texto.
Auster, visivelmente satisfeito com esta pergunta inicial, respondeu que tinha a sorte de ser casado com uma escritora (Siri Hustvedt) e confirmou a importância da sonoridade da leitura. Afirmou proceder regularmente, a cada 30 ou 40 páginas escritas, à leitura oral, para a mulher, de excertos das suas obras, de que resultariam revisões ao texto, na procura de lhe dar a melhor forma, não só escrita, mas também em termos de oralidade.
Ainda a propósito de ser casado com uma escritora, a pergunta seguinte foi a de se a personagem do seu livro seria uma continuação de uma personagem de uma obra da esposa.
Responderia taxativamente que não; os livros que escreve são, naturalmente, independentes dos escritos por Siri Hustvedt!…
Seguiu-se a referência à técnica peculiar de Auster, em cujas obras o protagonista vai contando a sua história e introduzindo outras histórias. Culminando em “A Noite do Oráculo”, em que, para além da história dentro da história, terá sentido a necessidade de recorrer a extensas notas de rodapé.
O escritor afirma não pensar que se trate de um novo estilo, a desenvolver, mas sim de uma consequência natural de esta sua última obra compreender várias histórias paralelas que vão nascendo e que se vão entrecruzando dentro do enredo principal.
[2239]
À CONVERSA COM PAUL AUSTER (I)
O resumo que a partir de agora aqui irei apresentando sobre a “conversa de Paul Auster” com os seus leitores portugueses baseia-se em breves notas que – “ao correr da pena” e de forma necessariamente sintética e abreviada – fui tomando ao longo dessa “conversa” de cerca de 50 minutos, na passada sexta-feira, na Culturgest.
Aqui expresso portanto o meu antecipado pedido de desculpas pelas omissões ou incorrecções inerentes inclusivamente a uma “conversa” mantida em inglês.
Releve-se-me também esta “longa” introdução, antes de chegar à conversa em concreto, mas, constituindo esta uma ocasião única, procurarei conservá-la na minha memória, pretendendo fixar também aqui, por via destes escritos, alguns detalhes do que foi uma noite inesquecível. (Evidentemente, como facilmente se depreenderá, Auster é, “apenas”, o meu autor contemporâneo preferido – de que, neste espaço, tenho tratado repetidamente, com referência às suas diversas obras).
O ambiente era intimista, com três confortáveis sofás individuais, para o editor (Manuel Alberto Valente), para a escritora Luísa Costa Gomes (apresentada como um dos amigos portugueses do escritor, a par de Paulo Branco), que leu alguns excertos de “A Noite do Oráculo”, ocupando Paul Auster o lugar central, frente a uma sala repleta de público ávido de ouvir esta figura maior da literatura mundial; uma sala com excelentes condições, quer a nível de acústica, quer, inclusivamente, de luminosidade, contribuindo para o referido ambiente.
Um público que representará uma “imensa minoria” de portugueses que comungam do privilégio de partilhar o gosto pela escrita especial de Auster, com um carácter distintivo que o torna único; uma “imensa minoria” (a qual terá – infelizmente – de ser ainda, de alguma forma, considerada uma “elite”) que tem interesses que vão para além dos produtos de “consumo imediato” a que alguns pretendem resumir a oferta que nos é disponibilizada, essencialmente via televisão.
Após a meia hora inicial de leitura partilhada de “A Noite do Oráculo”, em inglês (pelo autor) e em português, Paul Auster começou por revelar o seu sentido de humor, ao dizer que, finda a leitura, não sabia exactamente o que era suposto ir passar-se de seguida, colocando-se naturalmente à disposição do público para as questões que lhe pretendesse formular.
E, num curtíssimo espaço, de cerca de vinte segundos, fez-se silêncio, até que alguém ousasse quebrar a natural barreira da inibição de estar em diálogo frente-a-frente com o admirado escritor.
A partir daí, vencida essa “barreira”, sucederam-se as perguntas, interessantes, pertinentes e inteligentes, que terão concerteza constituído motivo de particular gratificação para o editor português.
[2238]
PAUL AUSTER NA CULTURGEST
Acabado de chegar de uma magnífica sessão “à conversa com Paul Auster”, é enorme a satisfação que experimento.
A primeira grande (e boa) surpresa foi ver a fila que – uma hora antes do início da sessão – se formava junto à Culturgest; não são apenas os U2 que dão origem a filas para comprar bilhetes!…
Depois, com o Grande Auditório da Culturgest perfeitamente repleto (estimo cerca de 1 000 pessoas), o editor em Portugal (Edições Asa) introduziu Paul Auster, que, acompanhado pela escritora Luísa Costa Gomes, brindou a audiência com meia hora de leitura de algumas passagens da última obra do autor (“A Noite do Oráculo”), respectivamente na versão original (em inglês), e em português.
O melhor estava ainda para vir, com cerca de 50 minutos de “conversa” entre o escritor e o público, respondendo a cerca de 20 perguntas, interessantes, pertinentes, inteligentes (obviamente, sempre em inglês) – nos próximos dias, aqui apresentarei uma breve súmula dessa “conversa”.
No final, a inevitável sessão de autógrafos, culminando uma noite inesquecível.
Amanhã (aliás, hoje!), Paul Auster estará presente na FNAC Chiado, pelas 21 horas. Imperdível!
[2237]
PAUL AUSTER EM LISBOA
O escritor norte-americano Paul Auster estará em Lisboa amanhã e depois, para lançamento da nova tradução de “A música do acaso”.
Amanhã, na Culturgest, sala 2, pelas 21h30, com entrada gratuita, Auster terá oportunidade de falar sobre o caderno português que é “peça-chave” na intriga de “A Noite do Oráculo”.
No dia 30, pelas 21 horas, a FNAC do Chiado recebe a iniciativa “Universo Austeriano”, também com a presença do escritor, que terá oportunidade de falar da sua relação com a escrita e da origem das suas obras.
[2231]
HANS CHRISTIAN ANDERSEN – 200 ANOS
Faz hoje 200 anos, nascia em Odense Hans Christian Andersen, escritor dinamarquês, mundialmente celebrizado pelos seus “Contos” (inicialmente publicados a partir de 1835-37, datando os últimos de 1872), traduzidos para mais de 80 idiomas.
Destacam-se os contos de tradição popular (“Companheiro de Viagem”, “Os Cisnes Selvagens”), a que se seguiram contos do mundo das fadas (“O Duende”, “A Colina dos Elfos”), sobre a natureza (“O Rouxinol”, “O Sapo”, “O Abeto”, “As Flores da Pequena Ida”); são também famosos os contos “O Soldadinho de Chumbo”, “O Patinho Feio” e, sobretudo, “A Pequena Sereia”.
A visitar até 14 de Maio, a exposição na Biblioteca Nacional.
P. S. Parabéns Catarina! Parabéns também à Carla, pelo “segundo aniversário”!
[2180]
"ANTES DO FIM"
“As Edições ArcosOnline.com acabam de lançar um novo livro em formato digital. Desta vez, a editora apresenta-nos uma narrativa de um novo escritor português, chamado Nuno Gomes. A obra intitula-se “Antes do Fim” e marca o início daquilo que pode vir a tornar-se uma verdadeira carreira literária.
“Antes do Fim”, diz-nos Nuno Gomes (que não é futebolista, mas sim arquitecto), é uma breve narrativa que foi pensada, inicialmente, como um argumento para uma curta-metragem. De acordo com o autor, a obra “não tem falsas ambições”, e as palavras que a compõem são como “pancadas no vazio, desligadas de sentidos metafóricos falaciosos, tentando estabelecer ritmos de leitura, batidas de tensão”. Porque “a angústia destas personagens é real, e as palavras não o escondem”. O fim revela-se a cada parágrafo, a cada letra, numa convergência implacável. Todas as diferentes histórias, todos os flashbacks e personagens se entrecruzam, e todos os tempos se tornam um, o presente, o fim. E o fim revela-se tão inevitável quanto todos os elementos que o originam.”
[2172]
LÍNGUAS MINORITÁRIAS NA EUROPA (XX)
O Corso pertence ao grupo linguístico ítalo-românico, aproximado aos dialectos do centro de Itália.
A língua corsa é utilizada no conjunto da ilha francesa da Córsega, à excepção da cidade de Bonifácio, em que é falado um dialecto de origem genovesa. O dialecto da região de Gallura, no norte da Sardenha, é próximo dos falantes do sul da Córsega, devendo contudo o sardo propriamente dito ser considerado uma língua distinta.
Segundo diversas estimativas, o Corso será a primeira língua de cerca de 10 % da população total da ilha (cerca de 25 000 falantes); cerca de metade da população (ou seja, cerca de 125 000 pessoas) terão algum domínio sobre a língua, uma redução face aos cerca de 65 % estimado no início dos anos 80, com o acréscimo do predomínio do francês.
Até ao início do século XIX, o Corso e o italiano eram considerados como dois dialectos de uma mesma língua, sendo o Corso a língua falada e o italiano a língua escrita. A partir do segundo império, o Corso separou-se do italiano e tende a ser percebido – nomeadamente por via do desenvolvimento de uma literatura de expressão corsa – como uma língua autónoma.
O movimento cultural corso não procurou impor uma língua unificada na totalidade da ilha. Os linguistas corsos falam de “língua polinómica”; o seu ensino baseia-se em primeira análise em cada variedade local, só depois por via do conhecimento passivo do conjunto de falares da ilha. Assiste-se contudo, desde há alguns anos, pelos intelectuais, criadores e profissionais da comunicação, à emergência de um “corso elaborado” relativamente unificado.
De acordo com o sistema legal francês, o Corso não tem estatuto oficial, não obstante beneficiar de algum reconhecimento, na sequência de decreto governamental francês de 1974 que prevê o ensino da língua nas escolas, sancionando assim o uso opcional do corso.
Não obstante, o reforço do francês pode deixar antever que a uma geração bilingue poderá suceder-se uma geração monolinguística.
Realce, não obstante, para a pressão de várias associações de promoção da língua, no sentido da introdução do Corso no sistema educacional.
Artigos 1, 3, 4 e 5 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em corso:
“Articulu Prima
Nascenu tutti l’omi liberi è pari di dignità è di diritti. Pussedanu a raghjone è a cuscenza è li tocca ad agiscia trà elli di modu fraternu.
Articulu 3
Hà dirittu ogni persona à a vita, à a libertà è à a sicurezza.
Articulu 4
In la schjavitù o in la sirvitù ùn sarà tenutu nimu; sò pruibiti a schjavitù è u cumerciu di i schjavi in qualunqua forma.
Articulu 5
Un’ sarà turmentatu nimu, nè sottumessu à castichi o azzioni crudeli, inumani o vili.”
[2166]
LÍNGUAS MINORITÁRIAS NA EUROPA (XIX)
O Bretão (em bretão Brezhoneg) é a única língua céltica presente no Continente Europeu. É considerada uma língua céltica insular ou “neo-céltica”, diferente do gaulês, apesar de algumas influências desta língua.
A população bretã descende principalmente de um misto de armoricanos e celtas de língua bretã provenientes da Grã-Bretanha no final do período Romano.
É falado na região da Bretanha, no noroeste de França, numa linha que vai de Paimpol a Vannes, sendo constituído por dois grupos principais de dialectos: o KLT (Cornualha, Léon, Trégor) e o vanetês (no Morbihan). O ensino e os media utilizam cada vez mais uma língua unificada.
Serão cerca de 240 000 os falantes de Bretão (20 % da população da região), principalmente entre os mais idosos. A maior parte dos residentes nas cidades de menos de 10 000 habitantes são pelo menos capazes de compreender a língua.
Não existe uma política específica relacionada com esta língua, falando-se de uma situação de tolerância de alguma forma hostil, que virá contribuindo para que se instale uma crise no uso do Bretão, língua pouco prestigiada. É permitido o ensino opcional, por vezes extra-curricularmente.
O Bretão tem o mesmo estatuto que outras línguas não oficiais em França (nos termos da Constituição de 1992, o Francês é a (única) língua da República Francesa). A França recusa-se a assinar tratados internacionais sobre os direitos das minorias autóctones e o uso de línguas maternas.
Artigos 1, 3, 4 e 5 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em Bretão:
“Mellad unan (1)
Dieub ha par en o dellezegezh hag o gwirioù eo ganet an holl dud. Poell ha skiant zo dezho ha dleout a reont bevañ an eil gant egile en ur spered a genvreudeuriezh.
Mellad tri (3)
Gwir a zo gant pep hini d’ar vuhez, d’ar frankiz, ha d’an diogelroez evitañ.
Mellad peuar (4)
Ne vo dalc’het den er sklaverezh nag er sujidigezh; berzet e vo kement stumm a sklaverezh hag a werzhañ-sklaved.
Mellad pemp (5)
Ne vo lakaet den da c’houzañv ar jahinerezh, na doareoù pe kastizoù kriz ha didruez.”
[2163]



