2008 – Memória Enciclopédica

30 Junho, 2013 at 1:00 pm Deixe um comentário

MVR-10

[…] afin que les travaux des siècles passés n’aient pas été inutiles pour les siècles qui succèderont; que nos neveux devenant plus instruits, deviennent en même temps plus vertueux et plus heureux; et que nous ne mourions pas sans avoir bien mérité du genre humain *

Conhecimento enciclopédico – L’Encyclopédie

Etimologicamente a palavra Enciclopédia significa encadeamento de conhecimentos – os quais têm por base a memória –, procurando concretizar a quimera de reunir e concentrar num único documento todo a sabedoria (dispersa) da humanidade, em múltiplas vertentes da cultura, artes e ciência, com o objectivo de a transmitir « aux hommes qui viendront après nous», às gerações vindouras.

No final do século XVIII, o movimento do Iluminismo, advogando uma nova concepção de sociedade, baseada na democracia e na liberdade de pensar e de questionar, com forte apetência pelo saber, visando favorecer a difusão dessa concepção, procurou levar o conhecimento até junto de todos, numa época que constituiu a “Idade de ouro” dos Dicionários.

Em 1751, surgiam os dois primeiros tomos de L’Encyclopédie ou “Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers”, o maior empreendimento editorial, filosófico e científico até à época, quer pelo seu volume, quer pelos recursos empregues. As suas origens remontam a 1745, decorrendo da iniciativa de tradução para francês do Dicionário Universal inglês (“Cyclopaedia” ou “Universal dictionary of arts and sciences”, de Ephraim Chambers, publicado em Londres a partir de 1728, objecto de sucessivas reedições), trabalho encarregue, em 1747, a Denis Diderot (Academia das Ciências e Belas Artes) e a Jean le Rond d’Alembert (Academia Real das Ciências).

A obra, prevendo compreender inicialmente 10 volumes, atingiria, no seu termo, um total de 28 volumes – 17 de texto (com mais de 70 000 artigos) e 11 de imagens (quase 3 000 ilustrações) – ao longo de mais de 25 anos de trabalho, constituindo-se como uma recolha crítica dos saberes, da sua elaboração e da sua transmissão, e, sobretudo crítica dos dogmas, vindo consequentemente a ter fortes repercussões sociais, que levariam inclusivamente à sua vigilância, censura e, mesmo, à sua interdição em 1752. Os 10 últimos volumes de texto apenas seriam publicados em 1765, enquanto que os volumes de imagens seriam finalizados em 1772.

Como marcas distintivas em relação aos anteriores Dicionários Universais, destacavam-se:

  • o facto de se tratar de um projecto colectivo (elaborada por uma “sociedade de gente de letras”), envolvendo mais de 150 colaboradores, recorrendo a especialistas em diversas matérias (e não apenas a compilações do passado): Diderot assegurava a parte de história da filosofia; d’Alembert ocupou-se da componente da Matemática e Física, Buffon das Ciências da natureza, Daubenton da História Natural, Barthez, Bordeau e Tronchin da Medicina, Quesnay e Turgor da Economia, Jean-Jacques Rousseau da Música e da Teoria Política, para além de outros nomes famosos como os de Montesquieu e Voltaire
  • beneficiava já de um sistema de reencaminhamento entre artigos, antecipando a interactividade (hoje potenciada com o uso do hipertexto), organizados em três grandes categorias ou ramos do conhecimento – História/Memória, Filosofia/Razão e Poesia/Imaginação – permitindo uma legibilidade transversal
  • integrava também as “artes mecânicas” no círculo do conhecimento
  • compreendia 11 volumes de imagens, entendidos como uma forma de enriquecimento dos conteúdos textuais.

O projecto ARTFL da Universidade de Chicago desenvolveu na Internet uma versão da primeira edição de L’Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers, de Diderot e d’Alembert.

* Denis Diderot, “L’Encyclopédie”

Das origens de “L’Encyclopédie” até ao surgimento da Wikipedia – «a enciclopédia livre que todos podem editar» – decorreram exactamente 250 anos, mas a motivação continua a ser a mesma, a de reunião e acumulação de uma base de conhecimento universal, concentrada num meio virtualmente à disposição de todos, de acesso gratuito.

Wikipedia, uma enciclopédia online, foi criada em Janeiro de 2001, como um projecto paralelo à Nupedia, enciclopédia com filosofia análoga, iniciada em 2000, e que – devido ao complexo processo de validação da fiabilidade e qualidade das suas entradas – acabaria por ter o seu fim em 2003.

À semelhança da Enciclopédia idealizada por Diderot e d’Alembert, a Wikipedia é um empreendimento colectivo – necessariamente, em muito maior escala –, colaborativo (recorrendo à tecnologia wiki, aplicação de gestão de conteúdos adaptada a portais colaborativos) e voluntário, operando em rede, em que qualquer pessoa pode adicionar ou alterar artigos, sendo também os seus conteúdos de acesso livre.

A versão original, em inglês, compreende mais de 1 500 000 artigos, dispondo a versão em português de cerca de 200 000 entradas (8ª maior versão), números que crescem diariamente. Este projecto abrange já cerca de 250 idiomas, com um número global de artigos (em todos os idiomas) que ultrapassou – há precisamente três meses – os 10 000 000.

Constitui-se assim no mais completo arquivo de informação estruturada alguma vez elaborado pela humanidade – tendo por base a acção colectiva e a interacçãoonline –, de actualização permanente e praticamente instantânea, elevando à máxima potência imaginável o conceito de “arquivo da memória”.

Em 2005, o “Seigenthaler incident” suscitaria – com particular acuidade – a questão do grau de precisão, fiabilidade e credibilidade da Wikipedia; não obstante, num estudo da Nature, tendo por termo de comparação a Encyclopedia Britannica, a enciclopédia online, não obstante o seu carácter de “obra a milhares de mãos”, não se sairia mal.

Inquestionável será a apreciação de que a sua qualidade é, necessariamente, bastante desigual, oscilando entre artigos de grande rigor e outras entradas com numerosos erros ou falhas, o que impossibilita a sua aceitação generalizada nos meios académico e científico.

Os seus críticos, de que é exemplo José Pacheco Pereira, autor que tem publicado reflexões sobre o tema – que, não obstante reconhecer tratar-se de uma grande realização da Rede, refere não existir forma de «escapar ao problema da validação científica no julgamento da Wikipedia» –, apontam que a forma de desenvolvimento deste projecto, sem revisão e sem edição, acaba por se traduzir num produto final repleto de «erros, incorrecções, artigos doutrinários passando por entradas enciclopédicas, que a tornam imprestável para qualquer trabalho sério», tendendo a «tornar-se o maior problema da pesquisa em linha para trabalhos escolares, académicos e jornalísticos».

Sendo inegáveis as suas virtualidades, tal como noutras áreas, decisiva será aobrigatória confrontação e cruzamento de fontes, devendo recorrer-se à Wikipediacom o necessário grau de cepticismo e reserva, e, preferencialmente, como forma de obter um primeiro e rápido (instantâneo) “aperçu” sobre o tema em causa – lançando pistas, apontando caminhos para desenvolvimento das pesquisas -, o qual carecerá imperativamente, para efeitos de maior rigor, de ser complementado pela consulta de fontes cientificamente idóneas.

Para saber mais, pode consultar as seguintes referências, também à guiza de pistas para início de exploração:

– “The Early History of Nupedia and Wikipedia: A Memoir
– “Wikipedia: 10 milhões de artigos
– “A política portuguesa na Wikipedia
– “Para o debate sobre a Wikipedia
– “O problema da Wikipedia: os erros do artigo “Partido Comunista Português”

(publicado originalmente em 24.06.2008 e 25.06.2008)

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