Os mercúrios

14 Abril, 2009 at 5:10 pm Deixe um comentário

Evocando o mensageiro dos deuses, a designação de mercúrio foi adoptada por publicações de vários países europeus, como Holanda, Alemanha, França, onde se tornou um nome comum. As características dos mercúrios apresentam-se cada vez mais distintas das das gazetas, podendo dizer-se que aqueles estavam para estas como as revistas estão para os jornais, na actualidade. Por exemplo, o primeiro volume, anual, do Mercure français, de 1611, constitui uma sequência dos resumos cronológicos de Palma Cayet, relatando os principais acontecimentos ocorridos após 1605 em França e no estrangeiro.

No nosso país, o mais importante é o Mercúrio Português, que aparece em Janeiro de 1663 (Lisboa, Ofic. Henrique Valente de Oliveira: mensal, preço variando entre 10 e 5 réis). Foi redigido até Dezembro de 1666 pelo notável escritor e diplomata António de Sousa Macedo, geralmente considerado «o primeiro jornalista português» (1). Embora, cronologicamente, não tivesse sido Sousa Macedo o primeiro jornalista português, foi na verdade ele o primeiro quem, pela versatilidade da sua cultura e pelo seu estilo directo e conciso, apresentou uma verdadeira constituição de jornalista, ainda não visível em Manuel de Galhegos. A pureza do estilo jornalístico de Sousa Macedo está bem patente na sua própria declaração no número de Dezembro de 1666:

«Simples e corrente foi o estilo de Mercúrio, ajustando-se sempre com a maior certeza que pôde alcançar, sem afectar locuções altas que desdissessem a sinceridade de uma pura narração.»

[…]

Inseria também muitas outras informações, tanto do País como do estrangeiro; mas a sua feição era sensivelmente diferente da da Gazeta, pois, embora não perdesse o carácter predominantemente noticioso, tinha já acentuada intenção política.

Outros mercúrios aparecem então no nosso país, mas esses com características mais próximas das que tomaram os seus homónimos estrangeiros.

(1) Além dos 50 números que se publicaram nestes quatro anos (afora dois suplementos), saíram ainda 7 no ano imediato de 1667, redigidos por autor anónimo. Vinha a público no fim de cada mês e constava de 8 a 32 páginas de impressão, sempre no formato de 4º.

“História da Imprensa Periódica Portuguesa”, José Tengarrinha, 2º edição, 1989, pp. 39 e 41

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