Archive for 30 Julho, 2005

"A CAPITAL" / "O COMÉRCIO DO PORTO" – O FIM

Dois títulos que fazem parte da nossa história colectiva, mas que não resistiram as “leis do mercado”, “A Capital” e “O Comércio do Porto” são hoje publicados pela última vez.

Até qualquer dia

APPIO SOTTOMAYOR

Em 21 de Fevereiro de 1968, os ardinas começaram a apregoar um título de jornal que soou estranho a muitos ouvidos. A Capital – gritavam os vendedores, juntando o novo brado aos já habituais que anunciavam a República, o Diário de Lisboa, o Diário Popular. A surpresa não era, no entanto, generalizada: grande número de habituais leitores da imprensa sabiam já que um outro diário iria aparecer. Não que houvesse – como hoje se faria – luzida campanha de televisão e rádio a anunciar o evento, nem que aparecessem cartazes apelativos pelas esquinas a dar conta do caso. Antes se tratava de um extraordinário caso de publicidade “de ouvido”. A notícia espalhou-se e foi confirmada pelos factos. E assim se pode dizer, sem pruridos, que houve um jornal que, ao sair das máquinas pela primeira vez, já tinha leitores assegurados.

Para o êxito inicial e a expectativa com que o diário foi recebido concorreram vários factores. Será de pôr em primeiro lugar a personalidade dos seus principais responsáveis, Norberto Lopes e Mário Neves. Os dois jornalistas tinham sido, até 1967, respectivamente director e director-adjunto do Diário de Lisboa. Este periódico, não se colocando numa situação de oposição aberta e declarada ao regime do Estado Novo (como a República), representava, porém, um certo escol de intelectualidade que o tornava respeitado pelo público, sendo tido em conta pelo poder. Tratava-se de um vespertino bem escrito, que tradicionalmente dispunha de um corpo redactorial de primeira água, habituado a não informar sem uma investigação séria. Algumas medidas de carácter administrativo e uma remodelação gráfica pouco ou nada compartilhada pela direcção do jornal levaram à demissão dos dois principais responsáveis.

Decidiram estes então lançar outro periódico. O prestígio de que ambos gozavam terá sido uma das causas do interesse pelo novo projecto. Tratar-se-ia, por certo, de “coisa séria”. Outra importante causa da expectativa terá residido no simples facto de ver surgir um novo título. Ao leitor actual, habituado a uma situação de liberdade geral, nada dirá este facto: que mais teria criar outra empresa? Acontece que estávamos em 1968, o Estado Novo era tentacular, Salazar era o Presidente do Conselho e ninguém, dentro do regime, veria com entusiasmo a abertura de um novo jornal encabeçado por dois homens tidos à partida como não afectos. Ao que constou, Mário Neves ter-se-á valido, por uma única vez, do seu parentesco com o Prof. Marcello José das Neves Alves Caetano para ajudar no empurrão inicial. O certo é que as autorizações foram dadas.

Outra novidade residiu na forma de constituir a empresa.

Economicamente, esta não ofereceria à partida grandes aliciantes: o mercado parecia saturado; só em Lisboa, saíam de manhã o Diário de Notícias, O Século, A Voz, o Novidades, o Diário da Manhã; à tarde, publicavam-se os três já referidos. Outros diários, nomeadamente os do Porto (Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, Jornal de Notícias) eram distribuídos a nível nacional. Era razoável, pois, perguntar se caberia mais um título.

Constituiu-se então a Sociedade Gráfica de A Capital. Esta era, na base, uma sociedade de redactores – os dois directores e ainda Maurício de Oliveira, Álvaro Salema, Carlos Ferrão, Fernando Soromenho, Carlos Machado, Alves Fernandes, Manuel Nunes e Eugénio Quinhones de Sá. Mas estes eram apoiados por uma quase multidão de pequenos accionistas, entre os quais avultavam profissionais liberais, leitores habituais dos artigos de Norberto Lopes, amigos de Mário Neves, confiantes em que ambos lhes saberiam dar um jornal independente e digno. O dinheiro não abundou, mas apareceu. O próprio título poderá ter exercido alguma influência no agrado dos leitores mais velhos. Lembravam-se ainda de um diário honesto, aguerrido, republicano e democrático, que tinha sido publicado em Lisboa até 1926. Tinham passado 42 anos, é certo. Mas a memória popular é muito mais consistente do que se julga.

Gozando destas ou doutras vantagens, arrostando com os riscos apontados e com uma evidente falta de meios técnicos, A Capital surgiu, há 37 anos. Para ficar. Para tentar cumprir o objectivo a que se propôs: ser um jornal colocado “acima de tendências partidárias, de interesses privados e das oligarquias reinantes”, procurando fazer “crítica construtiva e, a despeito de divergências de opinião, não regateando aplausos a quem os mereça”. “Nem demagogia irresponsável nem aquiescência subserviente”, foi a promessa feita em 21 de Fevereiro de 1968. São quase quatro décadas de História, vivida por dentro todos os dias.”

(Continua na edição impressa)
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30 Julho, 2005 at 10:10 am


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