U. Tomar – Centenário (XVIII)
(“O Templário”, 30.01.2014)
Ainda na época 1967-68, e a faltar apenas três jornadas para o termo da prova, o União, líder destacado, com quatro pontos de vantagem, deslocava-se a Torres Novas, para defrontar o 2.º classificado, num jogo verdadeiramente decisivo, como que uma “final” antecipada. Estávamos a 21 de Abril de 1968, um dia que ficaria gravado a ouro na história do União de Tomar!
«E o jogo propriamente dito o que foi? Um encontro pleno de vibração mas onde andou arredada a boa técnica já que as duas equipas preocuparam-se mais em jogar depressa (tendo como grande aliado as reduzidas dimensões do rectângulo de jogo) do que em fazer prevalecer as suas intenções em lances esclarecidos e de bom «association». E, já que ambas se equivaleram em vontade e bravura, postos na luta, os tomarenses acabaram por se superiorizar graças à sua «cabeça-fria» e à sua maior lucidez de processos, trunfos naturais em face da sua maior tranquilidade na tabela classificativa em contraste com o seu opositor para quem o jogo era realmente de «vida ou de morte»
À maior sagacidade e clareza dos pupilos de Oscar Tellechea, opôs o Torres Novas um futebol todo coração e pernas, feito com garra e frenesim, mas onde faltou a tal «cabeça fria», do seu adversário. E, como os atacantes locais não estavam em tarde «sim», faltando-lhes talento e potência de remate para transformar em golo uma ou duas oportunidades surgidas, quando o marcador ainda estava em branco (Gamboa foi o mais desastrado e infeliz), o desfecho premeia a equipa que menos jogou em quantidade mas a mais hábil na sua qualidade.»(1)
Graças a dois golos, de Totói (28m) e Alberto (73m), a que o Torres Novas apenas contrapôs um tento, por Gamboa (84m), o União obtinha a, até então, mais importante vitória do seu historial:
«Num mini-rectângulo, onde qualquer espécie de futebol estruturado é praticamente impossível, o União fez o jogo que mais lhe convinha e do qual melhores resultados podia tirar. Assentando numa defesa muitíssimo bem organizada onde os avançados locais nunca conseguiram uma nesga para rematar em boas condições e dispondo os outros jogadores bem espalhados pela defesa e meia-defesa local o União desmembrou por completo a equipa local e comandou a partida durante quase todo o tempo.»(2)
«Verdade seja que as duas equipas se empregaram com entusiasmo e apego à luta, mais técnica e mais esclarecida a equipa tomarense, mais em força e genica a equipa torrejana, pelo que o espectáculo, se não teve os primores técnicos que um jogo de nervos não permitiria, teve no entanto a virtude de prender a assistência pela luta posta em jogo pelos dois contendores.»(3)
Com este triunfo, alcançado no terreno do mais directo rival, o União de Tomar ampliava a sua vantagem para seis pontos, garantindo matematicamente o 1.º lugar na classificação final e consequente promoção à I Divisão, feito que alcançava pela primeira vez na sua história, de já mais de meio século de existência. Aqui fica a homenagem aos onze heróis que participaram nesta brilhante façanha: Conhé; Cabrita, Faustino, Alexandre e Santos; Bilreiro e Cláudio; Lecas, Alberto, Djunga e Totói.
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O pulsar do campeonato – 14ª jornada
(“O Templário”, 30.01.2014)
No arranque da segunda volta do Campeonato Distrital da I Divisão, dois destaques principais: começando pelo União de Tomar, um excelente triunfo em Torres Novas, por 3-2, num desafio em que os unionistas “entraram a ganhar”, com um golo logo no minuto inicial, tendo tido ainda a capacidade de sofrimento e de reacção necessárias para operar a reviravolta no marcador, depois de os torrejanos se terem entretanto colocado em vantagem; depois, começa já a ser repetitivo o enaltecer do excelente desempenho do Coruchense que, vencendo em Fazendas de Almeirim (1-0) ampliou para três pontos a sua vantagem na liderança da prova.
Para os tomarenses – que conseguiram o pleno de vitórias no mês de Janeiro –, foi o quarto triunfo obtido em outros tantos jogos disputados neste início de ano do centenário (um para a Taça do Ribatejo, três a contar para o campeonato), com um score global de 13-5, assim reforçando a sua meritória posição (5.º posto, partilhado com o Amiense), agora a começar a dispor de vantagem mais tranquilizadora (já oito pontos) sobre a zona perigosa da classificação.
Por seu lado, a formação de Coruche consegue ainda melhor: depois de um início algo titubeante, com quatro empates nas cinco rondas iniciais, acumula já uma série de sete jogos sucessivos a ganhar no campeonato (curiosamente, neste período, a única equipa capaz de travar o líder foi… o guia da II Divisão Distrital, Barrosense, que impôs um empate a uma bola em desafio da Taça do Ribatejo).
Aproveitando os desaires de Torres Novas e Fazendense, o At. Ouriense, regressando aos triunfos (não obstante por margem tangencial, de 1-0, sobre o Mação), ascendeu de novo ao 2.º lugar, ultrapassando aqueles rivais na luta pelo título, os quais passaram entretanto a distar já quatro pontos do guia. Salvo maior imprevisto, deverá sair deste quarteto, que continua a ocupar os lugares do topo da tabela, o futuro Campeão Distrital.
Efectivamente, União de Tomar e Amiense – que, nesta ronda, venceu face ao grupo dos Empregados do Comércio, por 2-1 – registam um atraso de cinco pontos para o duo que imediatamente os precede na pauta classificativa, estando ambos a nove pontos do comandante.
Daqui para baixo, subsiste uma grande amálgama na classificação, com metade dos concorrentes separados por apenas quatro pontos, embora se vá assistindo a tendências e trajectórias algo divergentes: o Mação, actual sexto classificado (quatro pontos abaixo de União e Amiense), apesar de uma carreira algo irregular, parece poder vir a superiorizar-se à restante concorrência, nomeadamente com o Pontével em notória quebra de rendimento, há sete jogos sem vencer (depois de cinco triunfos nas sete primeiras rondas), e, pior, surpreendentemente derrotado em casa na última jornada pelo U. Chamusca (0-1).
Também sem ganhar há quatro jornadas surge a formação dos Empregados do Comércio, que – a par do Benavente (que empatou com o Cartaxo a um golo) – dispõem agora de um único ponto de vantagem sobre o trio formado por Assentis, Cartaxo e U. Chamusca, emblemas que, integrando a parte baixa da classificação, registam não obstante uma média de um ponto por jogo, beneficiando também da má campanha da U. Abrantina, “lanterna vermelha” destacada, já com nove pontos de atraso (tendo desperdiçado uma oportunidade, ao não ter conseguido melhor do que a igualdade a um tento na recepção à turma de Assentiz).
Na próxima semana, o campeonato terá mais um breve interregno para disputa da eliminatória correspondente aos 1/8 Final da Taça do Ribatejo, com destaque para os confrontos que opõem Torres Novas e Fazendense, Benavente e União de Tomar, e ainda com a curiosidade de ver o que serão capazes de fazer Glória do Ribatejo, Vale da Pedra e U. Almeirim – equipas actualmente a militar na II Divisão Distrital –, frente aos primodivisionários Mação, Assentis e Pontével.
Falando da II Divisão, o Barrosense destaca-se cada vez mais na liderança, dispondo agora já de uma vantagem de sete pontos sobre o Rio Maior, tendo beneficiado do desaire do U. Almeirim, derrotado pelo U. Santarém. A Norte, tudo está mais indefinido, com o comando agora partilhado por Atalaiense (que cedeu empate caseiro ante o Caxarias) e Pego, com o Mindense apenas um ponto mais abaixo.
Terminou entretanto a primeira fase da edição inaugural do Campeonato Nacional de Seniores, com a derradeira jornada a ficar assinalada, na série F, por empates em todos os cinco desafios disputados; em concreto, no que às equipas do Distrito respeita, Riachense e Alcanena não conseguiram desfazer o nulo no prélio que disputaram em Riachos, tendo o Fátima registado igual desfecho na recepção ao Lourinhanense. O Mafra (que mantém a invencibilidade) e U. Leiria (tendo empatado entre si, a três tentos, em Leiria) são os dois clubes apurados para a fase de disputa do título e de promoção à Liga 2, integrando uma série (“Sul”), conjuntamente com B. C. Branco, Sertanense, Loures, Oriental, Pinhalnovense e Ferreiras.
Os grupos do Distrito de Santarém disputarão a manutenção, partindo para a segunda fase com metade dos pontos até agora obtidos, com o seguinte escalonamento: Alcanenense (15 pontos); Fátima (14); Lourinhanense (13); Caldas (12); Torreense (11); Carregado (9); Portomosense (6); e Riachense (4 pontos). Serão despromovidos aos Distritais os dois últimos classificados de cada uma das oito séries; os antepenúltimos classificados de cada série terão de realizar uma eliminatória (“play-off”), em que os (quatro) clubes vencidos serão igualmente despromovidos.
(Artigo publicado no jornal “O Templário”, de 30 de Janeiro de 2014)
Momentos de felicidade
Na nossa vida, temos por vezes o privilégio de viver momentos de rara felicidade (que, naturalmente, se desejam não tão raros assim…). Hoje experimento um desses momentos.
O meu imenso agradecimento a Vítor Serpa, Director do jornal “A Bola”, o mais marcante jornal desportivo de Portugal.
(A “trilha sonora” é a que, nesta ocasião – esperando me seja relevada a pretensão -, me surgiu à mente…)
U. Tomar – Centenário (XVII)
(“O Templário”, 23.01.2014)
Se, na semana passada, aqui fora evocada a “estreia” do União de Tomar na II Divisão (após 23 anos de ausência), com uma goleada sofrida em Leça da Palmeira, regressamos hoje, precisamente ao mesmo cenário, para recordar um jogo-charneira da época de 1967-68, disputado a 4 de Fevereiro de 1968, no arranque da segunda volta do Campeonato Nacional da II Divisão, com uma épica reviravolta no marcador, consolidando a liderança unionista, a caminho da I Divisão.
Uma partida repleta de histórias… Na sequência da lesão do defesa central, Maçarico – num tempo em que não haviam ainda sido introduzidas as substituições –, o treinador Óscar Tellechea ver-se-ia obrigado a uma verdadeira revolução táctica: no início da segunda parte, o avançado Totói recuaria para defesa central, despachando bolas lá para a frente, enquanto Maçarico era colocado como extremo, apenas “para atrapalhar”…
«Embora a perder por 3 bolas ao intervalo, isso não significava, de forma alguma, um domínio esmagador do Leça, antes foram alguns acidentes próprios do jogo. Permitindo, é certo, pelo seu figurino táctico, que o jogo se desenrolasse mais no seu meio campo, o União nunca foi dominado, mas antes demonstrou ao longo de todo o jogo uma superioridade técnica apreciável. […]
Com o começo do 2.º tempo, o União imprimindo um pouco mais de velocidade de jogo, sempre com o jogador que transportava a bola bem apoiado por um ou dois companheiros, começou a abrir brechas na defensiva local que nunca mais se entendeu com a marcação do ataque tomarense. […]
Marcado um golo aos 9 minutos, por Maçarico que, aleijado, jogou deslocado para a ponta-esquerda e logo outro, passados 2 minutos por Alberto, o União tomou deliberadamente o comando do jogo e realizou até final uma exibição digna de registo, demonstrando personalidade e capacidade futebolística que podem atirar a equipa, sem sombra de dúvida por mais altos voos.»(1)
Entrando mal no jogo, o União sofrera três golos de rajada, entre os 13 e os 26 minutos. Na segunda parte, começaria por marcar dois tentos em dois minutos, que, pela oportunidade com que foram alcançados, se viriam a revelar decisivos; aos 66 minutos, de novo por Alberto, empataria a 3-3. A doze minutos do termo, ainda Alberto (com um “hat-trick”), colocava os “rubro-negros” em vantagem, para, já no derradeiro minuto, Araújo fixar a marca em 5-3:
«Uma equipa que em campo adversário está a perder ao fim do 1.º tempo por 3-0 e ainda com um defesa na ponta esquerda em inferioridade física, e que no 2.º tempo supera tudo isto e tem moral e força física para ir vencer por 5-3, sem dúvida que tem muito valor e legitimamente pode aspirar a largos voos.»(2)
E aqui fica elencado o rol de onze heróis, participantes nesta fantástica jornada: Conhé; Cabrita, Maçarico, Santos e Bilreiro; Faustino e Araújo; Lecas, Alberto, Cláudio e Totói.
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O pulsar do campeonato – 13ª jornada
(“O Templário”, 23.01.2014)
Está bem vivo este campeonato, qual “caixinha de surpresas”, com sucessivas alterações no comando, a cada jornada. Na última ronda, mercê de um excelente triunfo obtido pelo Coruchense, numa sempre difícil deslocação a Amiais de Baixo (e logo por 2-0), e beneficiando da quebra da série de onze jogos de invencibilidade do At. Ouriense, derrotado em Fazendas de Almeirim – depois de ter perdido na ronda inaugural, a turma de Ourém só agora voltou a sofrer novo desaire, curiosamente no último jogo da primeira volta –, o grupo de Coruche, de forma sensacional, isola-se no comando da prova.
Dispõe o Coruchense, é verdade, de curtíssima vantagem, de um único ponto, sobre um par de sérios candidatos ao título, formado por Torres Novas e Fazendense, e, agora, de uma margem de três pontos face ao At. Ouriense. Neste momento, tanto poderá ser aplicável o provérbio de “candeia que vai à frente alumia duas vezes”, como o facto de que falta (ainda) disputar precisamente metade da competição.
Tendo ambos vencido os respectivos desafios – no caso do Torres Novas, com inesperadas dificuldades frente ao U. Chamusca, por tangencial 2-1, acabando o jogo com algum sofrimento; o Fazendense, mais afirmativamente, impondo-se por 3-1 ao At. Ouriense (que vinha de uma estrondosa goleada obtida perante o Amiense) – continuarão, não obstante, estes dois clubes, pelo menos em teoria, a ser os principais aspirantes à subida ao Campeonato Nacional de Seniores. Mas a luta está bem renhida, para já, aparentemente, reservada ao quarteto do topo da tabela.
Outro grande vencedor da jornada foi o União de Tomar, que, superiorizando-se, em Abrantes, à U. Abrantina (por 2-1, depois de ter chegado a dispor de vantagem de dois golos), ascendeu – no termo da primeira volta do campeonato, agora que já todas as equipas se defrontaram entre si – a uma excelente 5.ª posição na pauta classificativa, a par do Amiense, pese embora distem ambos seis pontos do At. Ouriense, pelo que não parece perspectivável que se venham a imiscuir directamente na disputa de lugares mais cimeiros. Mas, como este campeonato tem demonstrado à saciedade, nada pode ser dado por adquirido, assim como nada pode ser liminarmente afastado.
Continua a assistir-se, todavia, a um agrupamento dos diversos concorrentes, na parte intermédia da classificação, pelo que será crucial manter a regularidade de (bons) resultados, sob pena de se poder cair rapidamente na tabela: de facto, a formação unionista (tal como o conjunto de Amiais de Baixo) têm o Mação somente um ponto abaixo, o Pontével a dois, a equipa dos Empregados do Comércio a quatro, Benavente a cinco, e Cartaxo e Assentis a seis pontos; tudo bastante concentrado ainda.
Para tal, contribuíram também os restantes desfechos do fim-de-semana: empate do Mação em Assentiz (2-2), o nulo do derby municipal do Cartaxo, entre Pontével (que, curiosamente, somou a segunda igualdade sucessiva) e Cartaxo (o “rei” dos empates, contando já com sete…), e a vitória tangencial do Benavente sobre os Empregados do Comércio, mercê de um solitário tento.
Ou seja, à parte a U. Abrantina, que se afunda cada vez mais na posição de “lanterna vermelha”, já a sete pontos do U. Chamusca, e a nove do Cartaxo e Assentis, pelo que as probabilidades jogam bastante em seu desfavor em termos de eventuais aspirações à manutenção, tudo subsiste muito indefinido.
E, como o calendário não pára, teremos já, neste fim-de-semana, no arranque da segunda volta, mais um leque de interessantes emparelhamentos. Começando por baixo, a U. Abrantina, recebendo precisamente o Assentis, terá porventura uma das últimas oportunidades de procurar encetar uma recuperação; passando ao pólo oposto, teremos um empolgante Fazendense-Coruchense, onde a liderança estará, uma vez mais, em jogo. Uma contenda em relação à qual os desfechos do At. Ouriense-Mação e do Torres Novas-U. Tomar serão também, necessariamente, de forte relevância (esperando-se que o União possa explorar e tirar partido de alguma pressão a que os torrejanos não deixarão de estar submetidos).
Na II Divisão Distrital, na série mais a Norte, nenhum dos dois primeiros venceu; o Atalaiense, empatando em Ferreira do Zêzere já na parte final da partida, mantém, não obstante, a liderança, tendo aproveitado o desaire caseiro do Pego ante o Mindense, para ampliar para dois pontos a sua vantagem, com a formação de Minde a subir ao 3.º posto, reentrando na luta, a três pontos do guia. A Sul, o sempre fiável Barrosense, vencendo fora o Vale da Pedra, dilatou já para cinco pontos o seu avanço face ao U. Almeirim (que não foi além do nulo caseiro ante o Muge).
Por fim, no Campeonato Nacional de Seniores, a penúltima jornada da primeira fase da competição foi bastante negativa para as equipas do Distrito, que somaram três derrotas: o Alcanenense, em casa, com o U. Leiria (0-1), assim se vendo, desde já, matematicamente arredado da possibilidade de disputar, na segunda fase da prova, a série de promoção à “Liga 2” (reservada aos dois primeiros classificados, já apurados, Mafra e U. Leiria); o Fátima, perdendo algo inesperadamente no Carregado (1-2); o Riachense, inapelavelmente batido em Torres Vedras, por 1-5. Na próxima e derradeira ronda a formação de Riachos terá a visita do conjunto de Alcanena, enquanto o Fátima recebe o Lourinhanense, em jogos em que, não obstante, os pontos “continuam a contar”, dado que cada equipa iniciará a segunda fase, de disputa da manutenção, com metade dos pontos obtidos na primeira fase.
(Artigo publicado no jornal “O Templário”, de 23 de Janeiro de 2014)
U. Tomar – Centenário (XVI)
(“O Templário”, 16.01.2014)
Retomando o fio condutor da história, depois da festiva temporada de 1964-65, as exigências competitivas eram substancialmente acrescidas com o regresso do União – 23 anos depois da última participação – à II Divisão Nacional, prova cujo jogo de estreia, a 12 de Setembro de 1965, teria um penoso desfecho para as cores unionistas, perdendo 0-6 em Leça da Palmeira.
Mas, a época de 1965-66, teria também o seu grande dia de “festa”, a 7 de Novembro de 1965, com um histórico jogo para o União de Tomar, que – apenas então, ao fim de mais de 50 anos de existência –, se estrearia na segunda mais importante competição futebolística nacional, a Taça de Portugal! O adversário neste baptismo seria, bem a propósito, o Belenenses, clube do qual o União é a delegação n.º 2.
E, de forma absolutamente surpreendente, visitando um “grande” do futebol português, num encontro ao mais alto nível – porventura o, até então, mais exigente em termos competitivos de toda a sua história – a turma unionista, com uma enorme força de vontade e coragem, imporia, no final do tempo regulamentar, um excelente empate a dois golos (tentos do União marcados por Totói e por Morado), traduzindo, perante tão categorizado opositor e num terreno pesado, uma admirável resistência! Que apenas viria a ser quebrada já na 2.ª parte do prolongamento, em que a equipa nabantina acabaria enfim por soçobrar, vindo a sofrer mais três golos nesse derradeiros quinze minutos, saldando-se assim o desfecho desta eliminatória (1/32 Final) numa tão concludente como ilusória vantagem belenense, de 5-2…
«Está em nítido progresso o futebol da divisão secundária do nosso futebol. Especialmente, ontem, à tarde, o União constituiu uma excelente surpresa não apenas para a crítica mas para o público que esteve no Restelo e que dispensou calorosa e significativa salva de palmas, quando os jogadores de Tomar abandonaram o relvado, após 2 horas de jogo. Este União, a jogar sempre assim, seria uma equipa que podia figurar na segunda metade da tabela do Campeonato Nacional da I Divisão, com o seu futebol perfeitamente sistematizado, uma estruturação em toda a equipa que a faz mover-se como um bloco, uma preocupação de manter sempre a bola rente à relva, enfim uma entreajuda entre os vários sectores que muito complicaram o trabalho do Belenenses, obrigando-o por vezes a remeter-se a uma defensiva preocupada e desorientada para salvaguardar as suas balizas.
E no meio de tudo isto, o que é mais espantoso é que o «onze» visitante não adoptou qualquer sistema defensivo, antes dispôs os seus haveres exactamente como os do adversário, encaixando-se no seu sistema e jogando durante as duas horas de igual para igual. Enfim, uma excelente equipa, um magnífico representante da linda cidade de Tomar, que passa a ter na sua equipa de futebol mais um excelente motivo de propaganda da sua terra. Parabéns ao clube e ao seu técnico, que julgamos ser o argentino Di Paola, que fez parte de uma bela equipa do Lusitano eborense.»(1)
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O pulsar do campeonato – 12ª jornada
(“O Templário”, 16.01.2014)
E, num ápice, na retoma do campeonato distrital da I Divisão, assistimos a uma revolução no topo da pauta classificativa! Chegados à penúltima jornada da primeira volta da competição, as duas equipas que, durante toda a prova, até agora, a haviam liderado – Torres Novas e Fazendense – vêem-se sensacionalmente ultrapassadas pelo At. Ouriense e pelo Coruchense, com a imprevisibilidade do futebol a constituir-se como um dos seus grandes atractivos. Agora com o quarteto da frente concentrado num intervalo de um único ponto, o campeonato está verdadeiramente ao rubro.
De facto, contrariando a expectativa que aqui havia adiantado de uma ronda possivelmente marcada pelos empates, apenas se registaram duas igualdades, um nulo no Cartaxo-Torres Novas, e a dois golos no Empregados do Comércio-Pontével (curiosamente, o primeiro empate averbado pela equipa visitante, que assim conseguiu finalmente estancar um ciclo de quatro derrotas sucessivas).
Mas o grande desfecho da ronda chega-nos de Ourém, com a goleada imposta pelo At. Ouriense ao Amiense, por categórica marca de 6-2. Em Coruche, num resultado mais previsível, o Coruchense, vencendo o Benavente por 2-1, guindou-se também ao comando da prova, posição que partilha com os oureenses – sendo agora ambas, precisamente, as únicas equipas com apenas uma derrota (o Coruchense, em Tomar; o At. Ouriense, em Mação, curiosamente logo na jornada inaugural, pelo que – tendo evitado também o desaire caseiro perante o União de Tomar, devido à tal grande penalidade desaproveitada pelos nabantinos, já em período de descontos – mantém uma série invicta de onze jogos).
Para tal ascensão ao topo da classificação, contribuiu também – para além do empate cedido pelos torrejanos – a derrota sofrida pelo Fazendense… em Mação, no que se afigurava como um verdadeiro jogo de “tripla”, onde perdeu por 0-2.
Por fim, nos restantes encontros, vitórias previsíveis do U. Chamusca sobre a U. Abrantina (por margem inequívoca, de 3-0), e do União de Tomar face ao Assentis, por 4-2, confirmando a retoma – depois de uma ligeira “seca” de golos, nas partidas com o Cartaxo e na Chamusca – da grande produtividade ofensiva, na sequência dos 4-0 averbados ante o Alferrarede (exceptuando aqueles dois jogos “em branco”, os unionistas acumulam um extraordinário pecúlio de 22 golos marcados nos últimos cinco jogos disputados – pese embora dois deles a contar para a Taça do Ribatejo).
A tradução destes resultados a nível classificativo consubstancia-se num agrupamento generalizado dos diversos clubes concorrentes; para além do já referido quarteto, também a meio da tabela se assiste a uma compactar de posições, estando o 5.º e o 9.º classificados separados por apenas quatro pontos. O Amiense – distando agora cinco pontos de Fazendense e Torres Novas – encabeça este grupo, com dois pontos de vantagem sobre o Mação, surgindo logo de seguida U. Tomar e Pontével, apenas um ponto mais abaixo, duo que conta também com essa mesma folga mínima, face ao Pontével.
Tendo voltado aos triunfos, o União de Tomar tem vindo paulatinamente a recuperar posições, ascendendo ao 7.º posto; porém, a margem sobre a zona mais arriscada da tabela é ainda perigosamente curta: apenas quatro pontos separam os unionistas do par formado por Cartaxo e Assentis; estando o Benavente e U. Chamusca somente um ponto mais atrás.
A excepção é, por agora, a formação da U. Abrantina, cada vez mais última, já com um fosso de sete pontos face aos mais directos concorrentes. O que não significa, necessariamente, que o União de Tomar – que se deslocará precisamente a Abrantes na próxima jornada –, não deva estar prevenido para os riscos que aí poderá correr, tendo de encarar com máxima concentração este desafio, em ordem a prosseguir na senda dos bons resultados.
Na derradeira ronda da primeira metade da prova, destaque ainda para um aliciante confronto entre Fazendense e At. Ouriense (defrontando-se portanto o anterior e o actual guia), com a turma de Fazendas de Almeirim a procurar recuperar a liderança. Mas teremos mais: em especial, o Amiense-Coruchense, em que o grupo de Amiais de Baixo procurará impor nova derrota à formação do Sorraia; assim como o curioso derby do município do Cartaxo, em Pontével.
Na II Divisão Distrital, as equipas da frente de ambas as séries venceram os seus desafios, mantendo-se portanto as respectivas posições e distâncias relativas: o Atalaiense lidera na série mais a Norte, com o Pego a um ponto e o Caxarias a três; a Sul, o Barrosense continua a dispor de vantagem de três pontos sobre o U. Almeirim, com o Porto Alto a cinco pontos.
Por fim, referência ainda ao Campeonato Nacional de Seniores, que teve a sua antepenúltima jornada da primeira fase, com o Alcanenense a obter um bom triunfo em Porto de Mós (3-0), enquanto o Fátima e Riachense registaram empates a um golo, respectivamente na deslocação às Caldas, e na recepção ao Lourinhanense. O clube de Alcanena mantém o 3.º lugar, a dois pontos do U. Leiria – que, curiosamente, recebe na próxima ronda, num desafio que se assume como sendo de cariz determinante –, imediatamente seguido pelo Fátima, três pontos mais abaixo; o Riachense, ainda “lanterna vermelha”, tem agora o Portomosense a três pontos. Por seu lado, o Fátima, de visita ao Carregado, e o Riachense, em deslocação a Torres Vedras, procurarão somar mais alguns pontos.
(Artigo publicado no jornal “O Templário”, de 16 de Janeiro de 2014)
Acordo ortográfico: acabar já com este erro antes que fique muito caro
Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps e muita da “má despesa”.
O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica sobre a melhor forma de escrever português, não é uma adaptação da língua escrita à língua falada, não é uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não é um instrumento de cultura e criação.
É um acto político falhado na área da política externa, cujas consequências serão gravosas principalmente para Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da língua portuguesa. Porque, o que mostra a história das vicissitudes de um acordo que ninguém deseja, fora os governantes portugueses, é que vamos ficar sozinhos a arcar com as consequências dele.
O acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da memória e da história, de que a ortografia é um elemento fundamental, a que assistimos todos os dias. E como os nossos governantes, salvo raras excepções, pensam em inglês “economês”, detestam as humanidades, e gostam de modas simples e modernices, estão bem como estão e deixam as coisas andar, sem saber nem convicção.
O mais espantoso é que muitos do que atacaram o “eduquês” imponham este português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos sms, e que nem sequer serve para aquilo que as línguas de contacto servem, comunicar. Ninguém que saiba escrever em português o quer usar, e é por isso que quase todos os escritores de relevo da língua portuguesa, sejam nacionais, brasileiros, angolanos ou moçambicanos, e muitas das principais personalidades que têm intervenção pública por via da escrita, se recusam a usá-lo. As notas de pé de página de jornais explicando que, “por vontade do autor”, não se aplicam ao seu texto as regras da nova ortografia são um bom atestado de como a escrita “viva” se recusa a usar o acordo. E escritores, pensadores, cronistas, jornalistas e outros recusam-no com uma veemência na negação que devia obrigar a pensar e reconsiderar.
Se voltarmos ao lugar-comum em que se transformou a frase pessoana de que a “minha pátria é a língua portuguesa”, o acordo é um acto antipatriótico, de consequências nulas no melhor dos casos para as boas intenções dos seus proponentes, e de consequências negativas para a nossa cultura antiga, um dos poucos esteios a que nos podemos agarrar no meio desta rasoira do saber, do pensar, do falar e do escrever, que é o nosso quotidiano.
Aos políticos que decidiram implementá-lo à força e “obrigar” tudo e todos ao acordo, de Santana Lopes a Cavaco Silva, de Sócrates a Passos Coelho, e aos linguistas e professores que os assessoraram, comportando-se como tecnocratas – algo que também se pode ter do lado das humanidades, normalmente com uma militância mais agressiva até porque menos “técnicas” são as decisões –, há que lembrar a frase de Weber que sempre defendi como devendo ser inscrita a fogo nas cabeças de todos os políticos: a maioria das suas acções tem o resultado exactamente oposto às intenções. O acordo ortográfico é um excelente exemplo, morto pelo “ruído” do mundo. O acordo ortográfico nas suas intenções proclamadas de servir para criar uma norma do português escrito, de Brasília a Díli, passando por Lisboa pelo caminho, acabou por se tornar irritante nas relações com a lusofonia, suscitando uma reacção ao paternalismo de querer obrigar a escrita desses países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e Coimbra.
O problema é que sobra para nós, os aplicantes solitários da ortografia do acordo. O acordo, cuja validade na ordem jurídica nacional é contestável, que nenhum outro país aprovou e vários explicitamente rejeitaram, só à força vai poder ser aplicado. A notícia recente de que, nas provas – que acabaram por não se realizar – para os professores contratados, um dos elementos de avaliação era não cometerem erros de ortografia segundo a norma do acordo mostra como ele só pode ser imposto por Diktat, como suprema forma de uma engenharia política que só o facto de não se querer dar o braço a torcer explica não ser mudado.
Porém, começa a haver um outro problema: os custos de insistirem no acordo. A inércia é cara e no caso do acordo todos os dias fica mais cara. A ideia dos seus defensores é criar um facto consumado o mais depressa possível. É esta a única força que joga a favor do acordo, a inércia que mantém as coisas como estão e que implica custos para o nosso défice educativo e cultural.
É o caso dos nossos editores de livros escolares que começaram a produzir manuais conforme o acordo e que naturalmente querem ser ressarcidos dos seus gastos. Mas ainda não é um problema insuperável e, acima de tudo, não é um argumento. Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps, e muita da “má despesa”. Porque será isso que o acordo será, se não se atalhar de imediato os seus estragos no domínio cultural.
O erro, insisto, foi no domínio da nossa política externa com os países de língua portuguesa, e esse erro é hoje mais do que evidente: os brasileiros, em nome de cuja norma ortográfica foram introduzidas muitas das alterações no português escrito em Portugal, nunca mostraram qualquer entusiasmo com o acordo e hoje encontram todos os pretextos para adiar a sua aplicação. No Brasil já houve vozes suficientes e autorizadas para negar qualquer validade a tal acordo e qualquer utilidade na sua aplicação. Os brasileiros que têm um português dinâmico, capaz de absorver estrangeirismos e gerar neologismos com pernas para andar muito depressa, sabem que o seu “português” será o mais falado, mas têm a sensatez de não o considerar a norma.
Nós aqui seguimos a luta perdida dos franceses para a sua língua falada e escrita, também uma antiga língua imperial hoje em decadência. Querem, usando o poder político e o Estado, manter uma norma rígida para a sua língua para lhe dar uma dimensão mundial que já teve e hoje não tem. Num combate insensato contra o facto de o inglês se ter tornado a língua franca universal, legislam tudo e mais alguma coisa, no limite do autoritarismo cultural, não só para protegerem as suas “indústrias” culturais, como para “defender” o francês do Canadá ao Taiti. Mas como duvido que alguém que queira obter resultados procure no Google por “logiciel”, em vez de “software”, ou “ordinateur”, em vez de “computer”, este é um combate perdido.
Está na hora de acabar com o acordo ortográfico de vez e voltarmos a nossa atenção e escassos recursos para outros lados onde melhor se defende o português, como por exemplo não deixar fechar cursos sobre cursos de Português nalgumas das mais prestigiadas universidades do mundo, ter disponível um corpo da literatura portuguesa em livro, incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras. Tenho dificuldade em conceber que quem escreve aspeto – o quê? – em vez de aspecto, em português de Portugal, o possa fazer.
José Pacheco Pereira, Historiador (Público, 18 de Janeiro de 2014 – via ILC Contra o Acordo Ortográfico)
Cristiano Ronaldo “Bola de Ouro FIFA 2013”
Depois de ter já conquistado o troféu em 2008, Cristiano Ronaldo foi hoje novamente distinguido com a “Bola de Ouro“, galardão que premeia o melhor jogador do Mundo, distinção que Eusébio (em 1965) e Luís Figo (em 2000) também já tinham merecido.











