Posts filed under ‘Livro do mês’

O LIVRO DAS ILUSÕES (I)

No seu mais recente romance, .O Livro das Ilusões., Paul Auster oferece-nos aquela que é, possivelmente, a mais rica e empolgante das suas obras, assim apresentada pela editora (Edições Asa):

.Após a morte da mulher e dos filhos num acidente de avião, David Zimmer entra em depressão. Para tentar fugir ao desespero, entrega-se à escrita de um livro sobre Hector Mann, um virtuoso do cinema mudo dado como desaparecido em 1929.

Publicada a obra, David aceita traduzir as .Memórias do Túmulo., de Chateaubriand, e refugia-se num lugar perdido para fazer face à hercúlea tarefa que se impôs. É então que recebe uma estranha carta proveniente de uma pequena cidade do Novo México, supostamente escrita pela mulher de Hector: «Hector leu o seu livro e gostaria de encontrá-lo. Está interessado em fazer-nos uma visita?».

Trata-se de uma impostura ou Hector Mann está realmente vivo?

Zimmer hesita, até que uma noite uma jovem mulher lhe bate à porta e o obriga a decidir-se, transformando para sempre a sua vida.

Contada pela jovem mulher, a história do extraordinário e misterioso Hector Mann é o fio condutor do presente romance. Mas o poder narrativo de Paul Auster transporta-nos bem para lá da magia do cinema mudo e mergulha-nos no coração de um universo muito pessoal, em que o cómico e o trágico, o real e o imaginado, a violência e a ternura se misturam e dissolvem..

Durante esta semana, na secção .Livro do Mês., apresentarei alguns breves extractos desta empolgante obra.

[674]

1 Dezembro, 2003 at 2:06 pm 2 comentários

SOPHIA DE MELLO BREYNER (VII)

NA MORTE DE CECÍLIA MEIRELES

“Seu canto permanece
Alinhando nas páginas dos livros
Verso por verso letra por letra
Canto de poeta
Canto
Interior a tudo

Canto de Cecília
A profunda a secreta
Construtora de um dia
Amargo e ledo
Construtora de um espaço clássico
Num arquipélago nebuloso e medido

Cecília – cinza
As palavras no meio do mar permanecem enxutas”

[563]

9 Novembro, 2003 at 7:11 pm

SOPHIA DE MELLO BREYNER (VI)

BEBIDO O LUAR

“Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Porquê jardins que nós não colheremos
Límpidos nas auroras a nascer,
Porquê o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver”.

PROMESSA

“És tu a Primavera que eu esperava
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante”.

[552]

8 Novembro, 2003 at 12:11 pm

SOPHIA DE MELLO BREYNER (V)

LISBOA

“Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver”

[546]

7 Novembro, 2003 at 12:47 pm

SOPHIA DE MELLO BREYNER (IV)

FERNANDO PESSOA

“Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo.

Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um de deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas”.

PUDESSE EU

“Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!”

P. S. Parabéns Sophia de Mello Breyner, no dia do seu 84º aniversário!

[540]

6 Novembro, 2003 at 1:58 pm 1 comentário

SOPHIA DE MELLO BREYNER (III)

LIBERDADE

“Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade”.

AS ONDAS

“As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim”.

ESPERA

“Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro”.

[534]

5 Novembro, 2003 at 1:13 pm

SOPHIA DE MELLO BREYNER (II)

POESIA

“Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu . eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei”.

[528]

4 Novembro, 2003 at 1:57 pm

SOPHIA DE MELLO BREYNER (I)

Sophia de Mello Breyner Andresen, recentemente distinguida com o Prémio Rainha Sofia de Poesia, nasceu na cidade do Porto em 1919, tendo origem paterna dinamarquesa, sendo autora de contos ensaios, ficção e poesia, de que é uma das figuras máximas do último século, em Portugal . vidé .entrada. nº 472, de 28 de Outubro.

Sophia de Mello Breyner publicou a sua primeira obra (.Poesia.) em 1944, sendo de referir ainda: “Dia do Mar” (1947), “Coral” (1950), .Tempo Dividido. (1954), .Mar Novo. (1958), “O Cristo Cigano” (1961), “Livro Sexto” (1962), “Geografia” (1967), .Antologia. (1968), .Grades. (1970), .11 Poemas. (1971), .Dual. (1972), .O Nome das Coisas. (1977), .Poemas Escolhidos. (1981), .Navegações. (1983), .Antologia. (1985), “Ilhas” (1989), .Obra Poética. (1990/1991), .Musa. (1994), .Signo. (1994) e “O Búzio de Cós e Outros Poemas” (1998), para além de livros em prosa (nomeadamente “Os Contos Exemplares” (1962) e .Histórias da Terra e do Mar. (1984)), assim como livros para crianças, como .O Rapaz de Bronze. (1956), “A Menina do Mar” (1958), “A Fada Oriana” (1958), .Noite de Natal. (1960), .O Cavaleiro da Dinamarca. (1964), .A Floresta. (1968), .O Tesouro. (1978) e .A Árvore. (1985).

Ao longo desta semana, na secção .Livro do Mês., apresentarei extractos de alguns dos mais belos poemas de Sophia de Mello Breyner.

M A R

“Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.”

[521]

3 Novembro, 2003 at 8:34 am 15 comentários

DIÁRIO – XII – MIGUEL TORGA (VII)

“S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1976 – São tantas da noite. Sentado à lareira, com o rádio aberto a transmitir os gorjeios de uma senhora que me parecem um comentário escarninho ao que escrevo, medito na minha vida, cada vez mais perto do fim. O que fiz e não fiz, o peso que tiveram em tudo quanto realizei literariamente, e até humanamente, esta paisagem e as sombras que a habitam, a distância a que fiquei da meta que me propus ou que as circunstâncias me iam propondo, a luta que travei para ser convivente até ao limite da dignidade, e como foram catastróficos certos desfechos afectivos. Poucos quiseram compreender que um poeta nem pode deixar de ser rebelde, nem ceder à tentação de se ver transformado em bandeira. Que o seu destino não é sentir-se identificado. Mas que, embora isolado do semelhante, não está obrigatoriamente separado dele. E que, faça o que fizer, fica sempre fora da expectativa dos outros e da sua própria. Tão desencontrado consigo mesmo, que só se encontra para se perder ainda mais.

Bruxelas, 6 de Junho de 1977 – Palavras que vim hoje aqui dizer.

“Minhas Senhoras e Meus Senhores:

A poesia está de festa. Não porque a vemos neste momento celebrada na pessoa de um poeta qualquer, mas porque uma das tonalidades da sua voz foi finalmente ouvida e reconhecida num conclave onde até hoje nenhum Espírito Santo a fizera descer. É o português uma velhíssima e nobre língua latina espalhada pelos cinco continentes. Nela cantaram e cantam grandes vultos inspirados, de Camões a Fernando Pessoa, de Bernardim Ribeiro a Teixeira de Pascoaes. Capaz de dar guarida às mais desabusadas fúrias épicas e às mais discretas confidências líricas, dúctil e colorida em todos os paralelos geográficos que nas suas andanças visitou, poucas a igualam nos fecundos dons proteicos, na sua barroca plasticidade.”

…”

[385]

12 Outubro, 2003 at 6:33 pm 1 comentário

DIÁRIO – XII – MIGUEL TORGA (VI)

“Coimbra, 25 de Abril de 1975 – Eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na pátria a maior consolação cívica que tive. Era comovedor ver a convicção, a compostura, o aprumo, a dignidade assumida pela multidão de eleitores a caminhar para as urnas, cada qual compenetrado de ser portador de uma riqueza preciosa e vulnerável: o seu voto, a sua opinião, a sua determinação.

S. Martinho de Anta, 28 de Junho de 1976 – Não tenho mão em mim. Trabalho excessivamente, sofro excessivamente, vivo excessivamente. Vou às do cabo em tudo, como se cada minuto fosse decisivo no meu destino. Durmo acordado, ando a galope, morro por antecipação.

Albufeira, 1 de Agosto de 1976 – Metade de Portugal atravessado, debaixo de um calor escaldante. Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo, Alentejo e Algarve. Um microcosmo a arder em febre natural e social, esta última patenteada nos cartazes profusos, na linguagem desbragada, na freima de comícios, no lixo acumulado, nas terras por amanhar. Não há dúvida: o país não é o mesmo de há três anos. A revolução que o sacudiu, para se dar altura, teve de conferir altura ao que destruiu. A maneira que encontrou de conseguir projectar a sua imagem, foi acelerar o processo subversivo.

S. Martinho de Anta, 6 de Setembro de 1976 – O Prémio Internacional de Poesia. Deus me proteja.

Chaves, 8 de Setembro de 1976 – Exausto. Em Portugal, a glória dura um dia, quando muito. Mas chega e sobra.

[377]

11 Outubro, 2003 at 12:11 pm

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