Archive for 12 Setembro, 2026
Apresentação do Livro de Alexandre Rosa Freitas

- Introdução
Boa tarde a todos. Estamos, hoje, aqui reunidos para celebrar a partilha de uma vivência.
Cruzei-me, pela primeira vez, com o Alexandre Rosa Freitas em Maio de 2010, há já 16 anos, no contexto de homenagem promovida pelos Veteranos do União de Tomar aos Campeões Nacionais da II Divisão de 1973-74 – ele que fora um dos obreiros da histórica subida do União à I Divisão, em 1968.
Reencontrei-o, algum tempo depois, no final de 2016, a propósito da publicação do meu livro sobre a Matrena, em que o Alexandre teve importante participação, quer na recolha de imagens históricas, na revisão do texto, como, especialmente, na promoção e divulgação do livro, contribuindo para assegurar que pudesse ser dado à estampa.
Mais recentemente, há cerca de dois anos, o Alexandre concedeu-me também pertinente testemunho enquanto antigo aluno da Escola Industrial e Comercial, no contexto da publicação de outro livro, que escrevi, sobre os 140 anos da Escola Jácome Ratton.
Nutro, pois, especial apreço e simpatia pelo Alexandre, pelo que, decerto, não serei absolutamente neutro nesta apresentação. Mas, o livro, a forma como está escrito, e o que narra e descreve, fala por si.
Confesso que, ao ser informado pelo Alexandre que estava a escrever este livro – de que me facultou uma primeira versão –, foi com grande curiosidade que me abalancei à sua leitura, tendo dado, com muito gosto, algum apoio a nível de aspectos práticos relacionados com a edição.
É um prazer apresentar uma obra tão genuína, em que se manifesta uma memória prodigiosa, com recurso abundante ao discurso directo, imprimindo extraordinária vivacidade ao livro, que se lê de um fôlego… mesmo que nos deixe a pensar durante muito tempo.
Quando lemos o título “A vida que me fez como sou”, logo depreendemos que não se trata de um livro de ficção. De facto, estamos prestes a abrir a porta para uma vida real.
Como que olhando num espelho retrovisor, o Alexandre faz algo, nestas páginas, que exige muita coragem: relata os êxitos, mas sem esconder os “fantasmas”, colocando a sua verdade, bem como toda a sua vulnerabilidade nas nossas mãos.
Num livro de grande força humana, partilha o seu percurso, mostrando que a matéria-prima da vida não são os erros que cometemos, mas sim a folha em branco que, a partir deles, conseguimos escrever.
A narrativa arranca com as origens do autor. Mostra as fundações da sua infância e juventude, os cenários e as primeiras pessoas que influenciaram a sua caminhada.
O núcleo da história foca-se nas grandes viragens. Sejam desafios profissionais, provações pessoais ou escolhas difíceis, o livro centra-se na ideia de que os momentos de pressão são aqueles que definem quem somos.
A tragédia que viveu e a superação que revelou também o fizeram como ele é. Um homem moldado pelo papel, pelos recintos da prática desportiva, mas também pela capacidade de se levantar depois da queda mais dura.
Destaco, sobretudo, a sinceridade da escrita: é uma partilha transparente, sem filtros, onde o leitor se sente quase como se estivesse a ter uma conversa de café com o próprio Alexandre.
O facto de ser uma obra relativamente curta é uma das suas virtudes. Em cerca de 200 páginas, não se perde em floreados inúteis. A escrita é directa, autêntica, orientada para o essencial das memórias, tornando a leitura fluida, dinâmica e muito visual, qual filme a ser projetado numa tela.
Embora seja a história do Alexandre, o livro toca em sentimentos universais. A leitura interpela-nos a reflectir sobre a nossa própria vida: Quais foram os momentos que me fizeram como sou hoje?
- O Homem, o Acidente e a Prisão
A primeira parte destas memórias assenta no percurso de um homem moldado pelo trabalho e pela superação, na exigente indústria de fabricação de papel, como na prática desportiva a nível amador, mas de patamar muito considerável, tendo contribuído activamente para a subida da sua equipa à I Divisão Nacional.
Mas, também, na fragilidade: as nossas vidas podem mudar numa fracção de segundo.
O Alexandre transporta-nos para um dia de Julho de 1972. Um domingo de calor sufocante, com 38 graus. Um dia que tinha tudo para ser feliz — o casamento de amigos na Charola do Convento de Cristo, um jogo de futebol pelo Carregueiros onde até marcou um golo de canto direto… Depois, o regresso à festa, o cansaço acumulado, uma discussão acesa e a fatal decisão de pegar no carro.
O Alexandre entra no seu Toyota vermelho, percorre poucas centenas de metros, ultrapassa uma camioneta e “apaga-se”, só acordando no dia seguinte, numa clínica. Sofrera um trágico acidente de viação em São Lourenço, à entrada de Tomar.
A forma como descreve a gravidade daquele momento e o rescaldo no Tribunal de Tomar é de uma honestidade brutal. Assumindo a responsabilidade, escreve: «Estive “morto”, ressuscitei, atenderam os feridos, o condutor do primeiro carro faleceu, e, o do segundo, faleceu dias mais tarde.»
Levado a Julgamento, foi condenado a cumprir pena de seis meses e meio de detenção. Um momento muito sombrio na vida de qualquer jovem. Mas é na forma como encara esta provação que percebemos o homem que ele é.
Quero ler-vos a frase com que encerra esse capítulo, uma das mais fortes do livro: «Aprendi no berço, com pais que nada ou pouco sabiam ler e escrever, na rua, na escola, no desporto, no trabalho, mas onde mais aprendi, foi neste Estabelecimento Prisional. Sem rebuço, nem vergonha por dizê-lo.»
Os capítulos sobre a Cadeia Regional de Leiria e a Prisão Escola de Leiria são verdadeiramente singulares, de enorme riqueza de conteúdo.
Em vez de se deixar abater pelo ambiente hostil, demonstrando resiliência, o Alexandre adaptou-se com inteligência e astúcia prática, ocupando o tempo com trabalhos agrícolas, tarefas na capela e como responsável pela biblioteca.
O relato humaniza a experiência do cárcere, revelando detalhes do quotidiano, como a partilha de tarefas e pequenos estratagemas para garantir a sobrevivência e a dignidade na prisão.
Sublinho ainda os trechos que narram a passagem do autor ao serviço como Polícia Militar, num relato de rara força, que não tenta heroificar ninguém nem simplificar a realidade. Mostra homens dentro de uma máquina militar, cada um a tentar sobreviver – física, moral e humanamente – num tempo muito duro de Portugal.
Impressionam em particular, quer a descrição, com enorme detalhe, da parte operacional de uma escolta – comandada pelo então Furriel Miliciano Alexandre Rosa Freitas – a um militar “desertor” (palavra de que não gostava, preferindo antes “militar evadido”), assim como a forma como vai sendo suscitado, ao longo da narrativa, o conflito entre disciplina militar e consciência humana.
Alternando tensão e humor, a autenticidade está bem expressa nos procedimentos, nos toques regimentais militares, nas responsabilidades, no medo real da eventual fuga do detido, na tensão hierárquica entre oficiais, no peso disciplinar que incumbia sobre quem escoltava presos, no orgulho próprio da Polícia Militar, como, também, na mistura tipicamente portuguesa de dureza e humanidade. Nada soa inventado. Pelo contrário: soa vivido.
Recorda-nos que os militares eram instruídos não «para matar», mas «para não morrer»; ilustra de forma notável a forma como manteve a autoridade sem humilhar o evadido; culminando no abraço final, entre polícia e detido, que fecha simbolicamente esse episódio: até aí, o evadido era um homem sob custódia; naquele instante voltou a ser apenas um homem.
A frase do evadido à chegada a Penamacor é devastadora: «se fosse tratado como fui hoje pelo nosso Furriel e pelos seus mandados, jamais voltaria a fugir.»
Porque expõe uma verdade simples: a autoridade firme, mas digna, resulta melhor do que a brutalidade.
O retrato do Portugal desse tempo também aparece inteiro: a guerra colonial, a emigração clandestina, a pobreza, o medo da mobilização, os quartéis, os comboios humanos enviados para África, até à erosão silenciosa do regime antes do 25 de Abril.
- A Saga Industrial: Da “rejeição” ao “Topo”
Este livro atravessa temas como a redenção pessoal, a resiliência e a dedicação profissional. Após cumprir a pena que lhe fora imposta, o Alexandre levantou-se. Especializou-se na arte do papel e a sua competência cruzou fronteiras.
Retomou a carreira profissional, na fábrica de Porto de Cavaleiros, onde o seu trabalho foi de tal forma reconhecido que a Administração lhe pagou os salários do período em que esteve detido.
Nos anos seguintes, o Alexandre notabilizou-se de tal forma na indústria do papel, que liderou modernizações tecnológicas significativas, após ter “estagiado” em Paris e Viena. E o reconhecimento definitivo chegou em 1985, com um convite irrecusável para se mudar para Espanha, para ser Director Técnico de uma grande fábrica em Villarreal, a Clariana.
Aí, enfrentou o preconceito daqueles que não aceitavam que um, cito, “portuguesito” mandasse em centenas de trabalhadores. O livro partilha connosco, com humor e detalhe, este choque cultural. Foi alvo de ardis e sabotagens, mas, com determinação, provou o seu valor pelo trabalho. Mais tarde, na Tiscel, viu a fábrica arder e liderou a reconstrução em 21 dias de trabalho contínuo, sem folgas.
O “Topo” da carreira chega em 1992, quando aceita o convite para regressar a Portugal, como Director-Geral da IPT (Indústrias de Papel de Tomar), passando, numa conjuntura muito complexa, a liderar três fábricas: Porto de Cavaleiros, Matrena e Góis.
- O Regresso às Origens e o “Puto” de Santa Cita
O livro oferece-nos uma das reflexões mais tocantes sobre esta reviravolta da vida. Vou ler-vos o que o Alexandre escreveu ao revisitar o seu percurso:
«Um “puto” de Santa Cita, que, até aos seis anos, tomava banho nu no rio Nabão, que alguma vez, aos onze anos, não pagou bilhete no comboio […] “desviou” fruta na horta […], foi Polícia Militar, esteve privado da liberdade em Leiria, meteu a cabeça em máquinas onde muitos não meteram as mãos, veraneou por Espanha, agora convidado para Director Geral da IPT. Será que tinha de usar fato e gravata, ser cliente no café Paraíso […]? Não creio, não é possível. Mas foi.»
Aproveito para abrir um breve parêntesis: o desporto puro e amador – o futebol, o basquetebol e o voleibol – fora também uma grande escola. E a vida deu voltas tão bonitas que aquele mesmo miúdo que começara por jogar descalço, viria a ser vencedor da Zona Norte na II Divisão Nacional pelo U. Tomar, e também Campeão Distrital pelo Matrena, aí terminando a sua trajectória desportiva como treinador do lendário Ernesto Figueiredo, o “Altafini de Cernache”, jogador do Sporting Clube Portug. e internacional pela Selecção de Portugal, participante do Mundial de 1966.
Por fim, depois daquele regresso “triunfal” a Tomar em termos profissionais, a vida desafiou-o, ainda nos anos 90, a rumar a Norte, para Espinho (Fábrica de Azenha), e para a Gopaca, em Paços de Brandão, onde também assumiu a Direcção de Produção.
- O Encerramento: O Rio da Vida e o Juízo Final
Mas é no último capítulo, no “Encerramento”, que o Alexandre nos abre, por completo, o coração.
Aos 81 anos de idade, a viver sozinho em São Félix da Marinha — onde caminha diariamente seis quilómetros pelo passadiço da praia —, ele olha para o espelho sem medos.
Assume o seu forte carácter, o humor acutilante, a ironia mordaz e a intolerância perante a mentira e a injustiça. E escreve: «A solidão é o preço da liberdade».
No momento mais poético do livro, o autor desvenda o seu último desejo: que as suas cinzas fossem depositadas na praia do Agroal, imaginando uma deslumbrante viagem pelas águas do Nabão, passando por Porto de Cavaleiros (onde trabalhou), Tomar (onde estudou), Santa Cita (onde nasceu), Matrena (onde aprendeu), juntando-se ao Zêzere e ao Tejo em Constância, circundando o Castelo de Almourol, Santarém, Lisboa, Cacilhas… até desaguarem no Mar. É a geografia perfeita da sua alma.
E com uma lucidez desarmante, desafia as próprias convenções da fé. Afirmando-se um homem católico e praticante, que reza todas as noites, escreve com uma honestidade provocadora:
«Deus e o Diabo, não se entenderiam sobre a minha pessoa e personalidade. Teriam de decidir por moeda ao ar. Cara ou coroa. Se me perguntassem: Céu ou Inferno, que escolherias? Inferno, diria. […] Diz a Igreja que, quem merecer o Céu, tem a vida eterna. Não, vida eterna, Não. Para sofrimento, foi suficiente o que sofri na terra.»
- Conclusão
Em suma, «A vida que me fez como sou» é uma lição para todos nós. Lembra-nos de que as nossas memórias têm valor e que a nossa história merece ser contada, sem pruridos de tal poder ser considerado, de alguma forma, um exercício narcísico.
Mas esta obra é mais do que um mero registo de memórias; é um manifesto de autodescoberta de um homem livre, que se recusa a aceitar migalhas, que prefere a solidão crua a uma farsa, e que sabe que – como ele próprio diz – «ontem passou, hoje é para viver, amanhã não sei se chego. Um dia de cada vez […].»
Um dos grandes méritos deste livro é que o autor não escreve como quem queira “ajustar contas”, mas como quem quer compreender o que viveu. Isso dá credibilidade ao texto.
O Alexandre convida-nos, no final do livro, a fazer algo muito simples enquanto aqui andamos: «façamos do tempo, paz, alegria e boa vivência na comunidade».
Esta é, pois, uma leitura recomendada não só para quem conhece o trajecto do autor, mas para todos os que apreciam histórias reais de resiliência e identidade.
Termino, dando os Parabéns ao Alexandre Rosa Freitas pela coragem de escrever e publicar este livro, sobre uma vida de que certamente sentirá orgulho, deixando-nos um exemplo de que o nosso passado não nos prende, mas constrói-nos.
Obrigado por este contributo, e, acima de tudo, pela generosidade desta partilha.
Convido todos os presentes a mergulhar nas páginas deste livro memorável e a descobrir o homem por trás da história.
Muito obrigado a todos, e a palavra, agora, é do Alexandre!




