Cai o mito Armstrong? Ou o ciclismo?

24 Agosto, 2012 at 11:57 am 2 comentários

Hepta-vencedor do “Tour de France”, de forma consecutiva, nos anos de 1999 a 2005, o ciclista estado-unidense Lance Armstrong, actualmente com 40 anos, declarou ontem abdicar da luta pela sua defesa, face às acusações de dopagem que enfrenta há cerca de dez anos, culminando com a recente acusação formal (no final de Junho) da Agência Antidopagem dos EUA (USADA), em função do que deverá ser desapossado de todos os títulos conquistados na Volta a França (resultados obtidos após o mês de Julho de 1998), sendo também banido da modalidade a título definitivo.

Não obstante manter a sua alegação de inocência, justificando a sua decisão com os efeitos que esta disputa teve sobre a sua família e actividade na sua Fundação (de luta contra o cancro), declarou: «There comes a point in every man’s life when he has to say, “Enough is enough.” For me, that time is now».

Numa modalidade que, ao longo do tempo, e, com crescente incidência nos anos mais recentes tem sido particularmente abalada por este flagelo (com sucessivas desclassificações de vencedores das mais importantes provas), parece cada vez mais evidente que não haverá, ao mais alto nível, absoluta inocência, sendo o fenómeno profundo e transversal.

Conforme já aqui referi por mais de uma vez, dada a particularidade intrínseca deste tipo de competição, requerendo rápidas recuperações de esforço (os ciclistas deparam-se, dia após dia, ao longo de 3 semanas, com longas e exigentes etapas), todo o pelotão recorre necessariamente a suplementos vitamínicos, que foram sendo alvo de gradual processo de sofisticação, visando escapar ao controlo, num contexto em que o ténue limiar entre a legalidade e a ilegalidade é constantemente testado. As principais agremiações/marcas rodearam-se de experimentadas equipas médicas, investigando e desenvolvendo substâncias sintéticas, doseadamente administradas, procurando a maximização do rendimento competitivo dos seus atletas, a par de uma complexa gestão dos limites: em geral, as substâncias proibidas tornam-se efectivamente ilícitas em termos das regras desportivas quando excedem determinados níveis fixados em regulamento.

Com este orwelliano reescrever da história, em que as classificações das provas são alteradas vários anos após a sua realização, é o ciclismo que perde toda a sua credibilidade, o que se tem vindo também a generalizar a outras modalidades desportivas de alta competição, como o atletismo ou a natação (com as assombrosas marcas a que vimos assistindo).

Como combater este flagelo, que desvirtua a verdade desportiva, quase obrigando a que o doping seja prática de adopção comum para que os principais competidores se defrontem em condições equitativas? Qual o caminho a seguir quando tantos dos grandes campeões – quais “heróis” populares -, parecem denotar ser afinal ídolos de “pés de barro”?

Para termos uma ideia mais concreta de tal descredibilização, recupero de seguida um exercício (artigo publicado na Slate.fr, da autoria de Johan Hufnagel) do que poderá ser o “refazer” das classificações do “Tour de France” nos últimos anos, excluindo as diversas situações de ciclistas que enfrentaram casos relativos a processos de doping ou sobre os quais recaem suspeitas… com a curiosidade de, nos anos de 2002 e 2004, o hipotético vencedor “corrigido” passar a ser o português José Azevedo (respectivamente 6º e 5º na classificação final dessas duas edições)!

P. S. Um outro exercício de “reescrita” da história a nível das classificações do “Tour”, naturalmente não isento de controvérsia, é proposto aqui, por François Thomazeu, em artigo publicado em blogue no “Le Monde”.

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Bulgária – Agosto 2012 RTP – Orçamento

2 comentários Add your own

  • 1. silver price  |  31 Agosto, 2012 às 1:17 pm

    Um dos maiores ciclistas da história, o americano Lance Armstrong, foi banido, nesta sexta-feira (24), do esporte, pela Agência Antidoping dos Estados Unidos. Não foram somente as vitórias que fizeram de Lance Armstrong um dos heróis do esporte mundial. Depois de vencer uma batalha contra um câncer de testículo com metástases no pulmão e no cérebro, o ciclista americano ganhou sete edições seguidas da volta da França, a mais importante competição desse esporte. Armstrong criou uma fundação que arrecadou mais de R$ 600 milhões para ajudar vítimas de câncer. Nesta sexta-feira (24), a Agência Nacional Antidoping dos Estados Unidos anunciou que baniu o ciclista do esporte e ainda retirou todos os títulos conquistados a partir de agosto de 1998. Para a agência, o atleta usou substâncias proibidas, como hormônios e esteroides, além de se submeter a transfusões de sangue para tentar esconder o uso dessas drogas. Tudo para melhorar seu desempenho nas competições. Em seu site oficial, Lance Armstrong afirma que o processo é tendencioso e injusto. Ele diz que está sendo alvo de uma perseguição. Por isso, anunciou que desistiu de tentar provar a inocência dele. Segundo o presidente da Agência Mundial Antidoping, a declaração foi uma confissão de culpa. “Como ele não conseguiu provar o contrário, é uma admissão de que usou essas substâncias”, disse John Fahey. Armstrong sempre negou as acusações, e alega que passou por mais de 500 exames antidoping durante a carreira. Um episódio que coloca uma nuvem sobre o legado do maior nome do ciclismo.Nota: por motivos contratuais, o vídeo desta reportagem não pode ser exibido na internet.

    Responder
  • 2. A confissão de Lance Armstrong « Memória Virtual  |  18 Janeiro, 2013 às 9:12 pm

    […] Cai o mito Armstrong? Ou o ciclismo? […]

    Responder

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