BLOGOSFERA EM 2006 (XVII)
12 Dezembro, 2006 at 8:20 am Deixe um comentário
A 3 de Julho, a Visão lançava os blogues: “Visão7Sul” e “Visão7Norte”, com as correspondentes agendas culturais e de espectáculos.
Na mesma altura, o Expresso apresentava também o “Caro leitor – O Blogue da Direcção do Expresso”.
Entretanto, a SIC lançara também uma rede de blogues para acompanhamento de temáticas tão diversas como a situação em Timor, o furacão Katrina, o conflito no Líbano, ou o 11 de Setembro (“Impressões”, por Luís Costa Ribas), ou as expedições de João Garcia ao Shisha Pangma e Kangchenjunga.
E, a 6, Luís Carmelo iniciava a publicação, também no Expresso, de “Blogues e meteoros”:
“Blogues e meteoros
De olho na blogoesfera
Escrevi há uma década o meu primeiro livro acerca dos temas da instantaneidade e da teoria da cultura. O título desse livro, Anjos e Meteoros, torna-se hoje no subtexto com que passo a baptizar estas crónicas.
Não há adaptações inocentes. Nem de um filme que adapta um romance (já vivi a experiência), nem de um nome que adapta uma tradição (por mais íntima que seja). Quando se adapta, repete-se uma respiração, um sabor, um aceno que nos povoa. Se nesse livro já distante, os anjos eram mediadores entre a ordem terrena e uma outra omnipresente e perfeita, já os blogues de hoje contracenam com a metáfora da velocidade – os meteoros – enquanto novos enunciados que estão a contribuir para alargar o espaço público contemporâneo na omnipresença da rede (e não só).
Quando um novo medium surge, é normal que haja um período inicial de adequação das linguagens à nova moldura comunicacional. Essa procura de sentido aconteceu, por exemplo, com a fotografia, com o cinema, com a rádio ou com a televisão.
Na fotografia, Disdéri codificou a pose, Nadar patenteou a fotografia aérea, os retratos fizeram furor nas classes médias, Ruskin sentiu-se esteticamente incomodado, Muybridge ensaiou o movimento e Salomon criou o fotojornalismo. No cinema, Méliès viveu a mais feérica das prestidigitações, enquanto os Lumière nem chegaram a acreditar no destino ficcional da imagem móvel. Guazzoni fez ressoar a tradição operática, Griffith celebrou a montagem, as séries de episódios fizeram brado e as muitas vanguardas entraram em cena após a Primeira Grande Guerra Mundial. A rádio demorou algum tempo para saber o que fazer a uma voz que estava e não estava, ao mesmo tempo, nos locais onde era escutada. A televisão inventou-se a falar devagar com locutoras fotogénicas que anunciavam uma faixa de programas para todo o serão. Um dia veio a cor, o vídeo e o digital. A televisão, às vezes, já não sabe se é televisão, mas continua a processar-se como se fosse, ela mesma, uma permanente metamorfose de tons.
Ainda que grande parte dos bloggers (passarei a utilizar a palavra “blogueador”) e dos críticos da blogosfera não tenham plena consciência do fenómeno, a verdade é que a blogosfera está a atravessar, neste preciso momento, o seu período histórico de procura, ou de adequação do uso das linguagens às características inovadoras do novo medium. Esta travessia pioneira é riquíssima e está excessivamente próxima da experiência para que possa ser ajuizada e examinada de um modo taxativo. Contudo, sinalizá-la, proceder a anatomias cruzadas, identificar tendências e entender os modos como está a criar impactos diversos na rede e no mundo off-line é uma tarefa, não apenas possível, quanto urgente.
É esse o desígnio e o desafio desta espécie de observatório da blogosfera.”
Luís Carmelo (prof. universitário e ensaísta)
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