Posts filed under ‘Sociedade’
«Tributar o pai, a mãe, o avô, a avó, o gato e o periquito»
O risco de tudo isto está mais do que diagnosticado: o aumento da economia paralela; e a espiral recessiva, em que se aumenta cada vez mais os impostos para uma receita cada vez menor numa economia progressivamente recessiva e repleta de desempregados. Até porque, se o Governo mantiver a sua previsão de quebra do PIB em 1% para o próximo ano, estará provavelmente a ser optimista.
É assim que, em Lisboa, se trabalha no problema financeiro e se dissimula o problema político. Mesmo sabendo que a solução está fora daqui. Está em Berlim, em Bruxelas, em Frankfurt, em Washington, está até em Tóquio, onde decorre a reunião anual do FMI. Sim, FMI, o tal que diz que se enganou, afinal a sua prescrição falha… E vai fazer o quê? Brincar com o periquito?
«Gente talentosa»
1. Os explicadores profissionais das tolices que o governo faz já esclareceram que a opção de aumentar a taxação directa em lugar da indirecta no próximo ano pretende evitar a quebra das receitas agora verificada, dado que as pessoas podem contrair o consumo mas não reduzem o seu rendimento. Assim sendo, a execução orçamental estará mais controlada para o ano e o objectivo de redução do défice será confortavelmente cumprido.
Custa-me a crer que alguém acredite nesta fábula. O cataclismo em preparação estrangulará o mercado interno, arruinará muitas empresas e multiplicará o desemprego. Muitas pessoas ficarão sem meios de subsistência, logo deixarão de pagar impostos sobre o rendimento.
O resultado será, pois, similar àquele que experimentámos em 2012: miséria crescente para nada, pois que, no final, quer o défice quer o endividamento acabarão por aumentar.
Prémio Nobel da Paz – 2012
O prémio Nobel da Paz 2012 foi hoje atribuído, em Oslo, à União Europeia, «por mais de seis décadas contribuindo para o avanço da paz e reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa».
Também, necessariamente, um forte sinal de alerta para a intervenção presente – no actual contexto, de grande complexidade e delicadeza e em que a solidariedade entre Estados parece um conceito esquecido – e futura que esperamos da União Europeia…
Responsabilidade e Seriedade
FMI pede travão à austeridade na Europa
A directora-geral do FMI, a francesa Christine Lagarde, pediu aos Estados que ponham uma travão às medidas de austeridade, dando sinais de que a sua instituição está ficar cada vez mais preocupada com o impacto dos cortes governamentais sobre o crescimento.
Lagarde advertiu contra a prioridade aos cortes na despesa e aumentos de impostos: “Por vezes é melhor ter um pouco mais de tempo”, disse durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, em Tóquio, citada no Financial Times de hoje.
(Público)
Durão Barroso isenta troika de responsabilidade pela austeridade
O presidente da Comissão Europeia disse hoje, em Bruxelas, ser fundamental que se perceba que os Governos nacionais são responsáveis pelas medidas de austeridade que aplicam, e não a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu ou o Fundo Monetário Internacional.
José Manuel Durão Barroso, que intervinha numa conferência sobre o “Estado da Europa” consagrada ao tema da política de austeridade, sublinhou que “as decisões não são tomadas pelas instituições europeias, mas sim pelos governos da Europa, e isso é muito importante em termos de responsabilidade, porque esta é parte do problema”, já que alguns governos tentam passar a ideia de que as medidas que adoptam lhes são impostas, “o que não é verdade”.
(Público)
Que outra interpretação podem ter estas palavras de dois dos mais altos responsáveis de entidades integrantes da Troika senão uma lamentável fuga às responsabilidades e falta de seriedade? A culpa morre sempre solteira…
P. S. Por cruel ironia, estas declarações são veiculadas no mesmo dia em que é anunciado o verdadeiro impacto do “enorme [brutal!] aumento de impostos”, com a publicitação dos novos escalões de IRS previstos para o próximo ano:

(via “Dinheiro Vivo“)
(Às taxas indicadas acresce a sobretaxa de 4%, em todos os escalões; no escalão mais alto – agora a partir de um rendimento de 80 000 €, acresce ainda a taxa de solidariedade, de 2,5%, elevando a taxa global até uns absurdos 54,5%!)
Prémio Nobel da Literatura – 2012
O prémio Nobel da Literatura 2012 foi hoje atribuído ao escritor chinês Mo Yan, «que, com um alucinatório realismo funde contos populares, história e o contemporâneo».
Mo Yan tem um único livro traduzido em Portugal, “Peito Grande, Ancas Largas”, publicado originalmente em 2005, editado em 2007 pela Ulisseia. Esta obra suscitou grande controvérsia na China, tendo o autor sido mesmo obrigado a escrever uma auto-crítica ao seu próprio livro, o qual, posteriormente, viria a ser retirado de circulação.
Prémio Nobel da Química – 2012
O prémio Nobel da Química 2012 foi hoje atribuído aos investigadores estado-unidenses Robert J. Lefkowitz e Brian K. Kobilka (EUA), «pelos estudos sobre os receptores acoplados a proteínas G».
Prémio Nobel da Física – 2012
O prémio Nobel da Física 2012 foi hoje atribuído aos investigadores Serge Haroche (França, natural de Marrocos) e David J. Wineland (EUA), «por métodos experimentais inovadores que permitem medir e manipular sistemas quânticos individuais».
Prémio Nobel da Medicina – 2012
O prémio Nobel da Medicina 2012 foi hoje atribuído aos investigadores John B. Gurdon (Reino Unido) e Shinya Yamanaka (Japão), «pela descoberta de que as células maduras podem ser reprogramadas para se tornarem pluripotentes».
«Passa a palavra»
Como se faz a convocatória de um povo mantendo-o desinformado quanto à vida do seu País e de cada uma das vidas que o habitam? Vítor Gaspar fez anúncios negros repletos de espaços em branco. É preciso preencher esses espaços em branco, há dados fundamentais desconhecidos. Quais são os novos escalões de IRS? Quem vai pagar mais e quanto mais? O que é preciso poupar hoje para compensar mais tarde? Acima de que valor um trabalhador da iniciativa privada perde mais do que um salário em 2013? Qual é o máximo que um funcionário público pode perder? E o mínimo que um pensionista pagará? Quanto se vai pagar de IMI? Que valor de salário vai sobejar depois do fim das deduções fiscais? Em Maio de 2014, quando chegar o acerto do IRS, que surpresas haverá? Como podemos acreditar que há equidade sem dados para percebê-lo? Quanto vão pagar as concessionárias de PPP, se é que vão? Qual é a taxa sobre transacções financeiras? Que “grandes lucros” de empresas vão ser tributados? Qual a dimensão da economia paralela? Como será cortada despesa do Estado em quatro mil milhões de euros, como a troika obriga? Vão despedir militares, polícias? Vão cortar prestações sociais, subsídio de desemprego? Quanto? A quem? Não é uma falácia dizer que os portugueses vão ficar melhor em 2013 do que ficariam com a TSU, quando muitos vão ficar pior que em 2012? Como havemos de acreditar que a economia “só” decresce 1% no próximo ano? O que nos garante que não entramos em espiral recessiva? Por que razão a receita fiscal não quebrará no próximo ano se quebrou neste? Quando acaba afinal esta crise? Em 2014? Em 2018? Em dois mil e nunca? Que ambição podemos ter? Que gerações têm esperança? Que legado deixaremos? Sem respostas, os portugueses não sabem sequer quanto dinheiro vão ter daqui a três meses, quanto mais se acreditam no País.
Faltam cortes de despesa. Não há medidas de incentivo ao crescimento. O aumento do IRS é enorme. A julgar pela incidência, é preciso ganhar cada vez menos dinheiro para ter um “rendimento alto” para o fisco. Estamos mais pobres, mas há cada vez mais ricos.
«O bom exemplo»
A grande vantagem da conferência de imprensa de Vitor Gaspar foi a sua linear clareza: o anunciado “enorme aumento de impostos” é devido ao facto de “o ajustamento estar a revelar-se mais custoso do que o estimado”. Por outras palavras, o dinheiro vai todo para os cofres do estado, para que este possa pagar as suas dívidas. Nem mais, nem menos do que isto, e sem o álibi do recuo da medida para baixar a TSU, como é do mais elementar bom senso e bom gosto em circunstâncias tão dramáticas. […]
Ou seja, o governo anuncia que a redução da dívida do estado está para além das suas forças, o que já começara a ser perceptível de há algum tempo para cá. Sem juízos de valor sobre a delicada situação em que se encontra o governo de Passos Coelho, parece evidente que o país está irrecuperavelmente falido, que o governo se confessa impossibilitado de reverter a situação e que, muito em breve, os nossos credores serão chamados para novas conversações.



