09.05.1917 – 09.05.2017 – 100 anos da constituição da sociedade Manuel Mendes Godinho & Filhos

9 Maio, 2017 at 10:09 am Deixe um comentário

MMG&F

Pela mão do patriarca, Manuel Mendes Godinho, foi constituída, a 9 de Maio de 1917 – cumprem-se esta semana cem anos –, a sociedade em nome colectivo Manuel Mendes Godinho & Filhos, tendo por sócios os seus filhos, genros e noras, sedeada em Tomar, cujos fins e objecto eram a continuação da exploração comercial, industrial e agrícola dos estabelecimentos e das propriedades que constituíam o capital comum do sócio fundador e de sua esposa, que estaria na génese do maior grupo empresarial de Tomar e um dos principais em Portugal.

Nascido em Cem Soldos em 1849, Manuel Mendes Godinho daria, com 18 anos – há precisamente 150 anos – os primeiros passos na edificação do empreendimento que se viria a consubstanciar num verdadeiro império industrial (chegando a empregar, nos seus tempos áureos, mais de duas mil pessoas), tendo por capital um burro, iniciando-se nos negócios pela compra e venda de barro cozido, loiças e utensílios para guardar azeite e cereais.

Com notável lucidez, cedo compreendendo a importância da transformação dos cereais em farinha para produção de pão, montou de seguida um moinho, abrindo também uma casa comercial para venda de vinho, aguardente e azeite. Mas o seu primeiro grande “golpe de asa”, em 1888, seria a construção da estrada de Paialvo a Tomar, cujos proventos lhe proporcionariam desenvolver a actividade.

Já depois de ter assegurado a obra de canalização de água da fonte de Marmelais para a Fonte da Prata (1895), viria a realizar, a partir de 1908, grande investimento na aquisição, a João Torres Pinheiro, de todo o conjunto da Levada, em Tomar, compreendendo os lagares e moinhos, a moagem “A Nabantina” (inaugurada em 1883), para além do Açude dos Frades, da levada, e do direito ao uso da água.

Em 1909 deu início à construção da moagem “A Portuguesa” (inaugurada em 1912, manteria ininterrupta a sua laboração até 1999), no terreno do “Lagar d’El-Rei”, para, em 1910, adquirir o edifício e mecanismos da central eléctrica (inaugurada no final de 1900), assim como a concessão da distribuição de energia eléctrica à cidade de Tomar, que manteria até ao início dos anos 50.

Já nos anos 20, viria ainda a iniciar-se nos negócios bancários, numa primeira fase em associação com a Casa Espírito Santo Silva (que estaria na origem da criação do Banco Espírito Santo) e, de seguida, em nome próprio, por via da denominada “Casa Bancária Manuel Mendes Godinho & Filhos”, na sequência da obtenção do respectivo alvará, em 1925.

Após o falecimento do fundador, em 1924, sucedeu-lhe o filho João Mendes Godinho, que consolidou os negócios, possibilitando superar a grave crise económica mundial de 1929.

Seria já sob a liderança de João Mendes Godinho Júnior, um empreendedor de larga visão estratégica, nascido no final do ano de 1913, neto de Manuel Mendes Godinho, que o “Grupo Mendes Godinho” viria a sofrer decisivo impulso na sua expansão, integrando, na década de 60 do século XX, três fábricas de cerâmica (Tomar – após a aquisição da Cerâmica Prista, em 1950 –, Portela e Palença/Almada), uma fábrica de rações para animais (Vale Florido – Rações Sol), uma fábrica de extração de óleos de bagaço de azeitona (Vale Florido) – sendo o bagaço utilizado como combustível nos fornos das cerâmicas –, duas fábricas de Platex (indústria de placas de fibra de madeira, em Tomar e Nazaré, inauguradas respectivamente em 1961 e em 1967, introduzindo este produto no mercado português), uma fábrica de extracção de óleo de girassol, uma fábrica de colas para construção (Guia, Leiria).

Entretanto, em 10 de Novembro de 1960, por imposição legal, dava-se uma reestruturação societária que viria a ter impacto determinante, com a cisão das actividades industriais do Grupo, transferidas para a nova sociedade então constituída, Fábricas Mendes Godinho, S.A.R.L., passando a Manuel Mendes Godinho & Filhos a centrar-se na actividade bancária (“Casa Bancária”), ao mesmo tempo que detinha participação maioritária na sociedade então constituída (inicialmente, de 90%, passando depois a 75%, sendo as restantes acções detidas pelos membros da família), e mantinha a propriedade de diversos imóveis, nomeadamente os utilizados na actividade da sua participada.

Na sequência da aquisição (em 1964) da cerâmica de Palença, na margem sul do Tejo, viria a ser lançado o ambicioso projecto da unidade industrial de extracção de soja, com silo e cais de embarque/desembarque em águas profundas – um complexo industrial e terminal portuário, possibilitando a acostagem de navios de grande porte, até 80.000 toneladas; a 26 de Outubro de 1973 era constituída a TAGOL – Companhia de Oleaginosas do Tejo, S.A.R.L., que, iniciando a sua laboração em Setembro de 1975, viria a ser a grande e última “jóia da coroa” do Grupo.

Logo após o 11 de Março de 1975 (por Decreto-Lei de 14 de Março), processava-se a nacionalização da banca em Portugal, arrastando a empresa Fábricas Mendes Godinho – por via da nacionalização da sua sociedade-mãe, a “Casa Bancária Manuel Mendes Godinho & Filhos”, que nela participava em 75%, a qual, em 1976, seria incorporada por fusão no Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, E.P. –, vindo a sociedade a ser ocupada em Julho de 1975, o que viria a gerar um longo período de indefinição e de paralisia a nível de decisões estratégicas, com o Grupo a ser tutelado pelo Banco Espírito Santo e pelo Estado, o que viria a ter graves e irreversíveis efeitos, decorrentes também de uma conjuntura adversa, caracterizada por elevadas taxas de juro, numa fase em que o endividamento cresceu exponencialmente.

A 18 de Maio de 1978, por escritura pública, nascia a “Associação Cultural e Desportiva Mendes Godinho”, que deixaria também marca vincada a nível cultural e desportivo em Tomar.

Após mais de dez anos de gestão pública – e depois de o B.E.S.C.L. ter entretanto procurado alienar a participação de 75% em Fábricas Mendes Godinho, S.A.R.L. na Bolsa de Lisboa, operação que viria a ser anulada pelo Primeiro-Ministro –, em paralelo com uma longa disputa judicial com o Banco e com o Estado, os sócios privados (da família Mendes Godinho) conseguiriam, a 10 de Maio de 1986, em Assembleia Geral, retomar a administração das empresas do Grupo.

Mas os danos provocados pelos anos de indefinição acabariam por determinar a inviabilidade da recuperação das sociedades, até que, em 1993, a falência das unidades industriais de Fábricas Mendes Godinho, S.A. e da sua subsidiária TAGOL levaria à intervenção judicial por parte do líder dos bancos credores (Banco Português do Atlântico).

Ficaria ainda por concretizar um outro grande projecto impulsionado por João Mendes Godinho Júnior nos seus últimos anos de vida, o da navegabilidade do Tejo, que previa a construção de barragens em Almourol e na foz do Alviela (próximo de Vale de Figueira, no município de Santarém) – e ainda, possivelmente, uma terceira, de pequena altura, em Muge –, de forte capacidade de produção de energia, a par de proporcionar a navegação fluvial de grande gabarito europeu (embarcações até cinco mil toneladas), por via de eclusas a construir, com extensão de cerca de 200 metros, largura de 12 metros e profundidade até cinco metros, que possibilitariam significativos ganhos em termos de economia no consumo de combustível, paralelamente a favoráveis implicações de ordem ambiental.

(Artigo publicado nos jornais: “O Templário”, de 11 de Maio de 2017; e “Cidade de Tomar, de 12 de Maio de 2017)

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