«Os cornos do touro cegam-no»

3 Agosto, 2012 at 10:55 pm Deixe um comentário

Ontem a Europa não foi salva outra vez. Espanha calou-se, Itália falou baixo, as bolsas desabaram, os juros subiram. O de sempre. Mas como nunca: a fagulha aproxima-se do paiol. Como salvar a Europa?

O de sempre é criar expectativas monumentais antes e conseguir com que resultados bons pareçam péssimos. Não foram péssimos. São insuficientes. Mas só os espanhóis não querem ver o que lhes está à frente.

Mariano Rajoy é um negacionista desesperado. Poucas imagens foram mais ridículas do que vê-lo, no dia em que pediu 100 mil milhões de euros para os bancos espanhóis, a celebrar golos no estádio de futebol. A encenação mostrou o delírio do líder espanhol, que ademais está mais preocupado em falar aos mercados do que ao seu povo. Infelizmente, isto não é um assunto só de espanhóis.

Os cornos do touro estão a cegá-lo. Espanha capitula. Nos bancos, há anos de prejuízos assustadores pela frente, que levarão à intervenção mais ou menos patrocinada pelo Estado. A dívida soberana está em contagem decrescente para um resgate. O dinheiro da Europa chega?

Numa frase simplista: os 500 mil milhões actuais chegariam para Espanha, não para Itália. Em Itália, está um homem pouco político – não foi aliás eleito – e talvez seja essa a razão que nele evita a catatonia do “está tudo bem” que hoje Rajoy (como antes Sócrates) cabeceia. Itália vai precisar de ajuda? Mario Monti, desarmado e desarmante, respondeu: “Não sei”. Ninguém sabe. Alerta geral.

Abramos a Bíblia: para vencer os cinco reis amorreus que queriam chacinar os guerreiros de Israel, Josué pediu a Deus que parasse o Sol. (A história é muito citada por causa do dogma da Igreja Católica contra o heliocentrismo de Copérnico que condenaria Galileu: se Josué mandou parar Sol e não a Terra, é o Sol que se move, logo o universo seria geocêntrico. Mas aqui a história é citada com licença da polémica de meio milénio). Foi uma matança furiosa, choveram pedras do céu, mas a mortandade era longa, de noite os amorreus fugiriam e poderiam reorganizar-se para Jerusalém. Era preciso tempo, era preciso mais dia. Então, Josué disse as palavras célebres: “Sol, detém-te em Gibeão e tu, Lua, no vale de Aijalom”. E assim, os astros pararam no firmamento durante um dia, dando tempo à matação. E a batalha foi vencida.

A Europa precisa de tempo que não tem para vencer a batalha. A forma de evitar o colapso do euro é avançar na construção de uma união bancária e numa política económica integrada que supõe um federalismo à alemã por ora irrealizável. Mas o sol não pára, o dia avança furiosamente nos mercados financeiros. Nas bolsas. Sobretudo nos mercados de dívida: quem, e por quanto, empresta a Espanha, que já pagou mais por emissões do que Portugal?

O “plano de choque”, que foi alvitrado nos últimos dias e frustrado ontem, passava por fazer “tudo o que for necessário”. Supôs-se que os juros desceriam, que o BCE passaria a comprar dívida dos Estados em mercado secundário, que seriam anunciados mais empréstimos a longo prazo à banca (mais um programa LTRO), admitiu-se uma licença bancária para o fundo europeu. Essa seria a alegria dos espanhóis e dos italianos. Mas a decisão só alegrou os alemães: o BCE poderá comprar dívida pública no mercado secundário só num quadro de apoio expresso a países. Só haverá ajuda se pedirem ajuda e se aceitarem os termos que uma intervenção externa exige: austeridade.

A solução evoluiu para uma intervenção em Espanha e Itália (é impressionante como num repente se normalizou falar de uma intervenção em Itália…) diferente da portuguesa. Não há dinheiro para retirar estes dois países do mercado, colocando-os num ecossistema controlado. O plano passa por fazer uma gestão quase diária da dívida destes países, com um pulmão nos mercados e outro em respiração assistida. E mesmo assim, diz o BCE, os empréstimos serão a curto prazo – para manter os países na trela. Para obrigá-los à austeridade e às reformas estruturais. Para obrigarem os mediterrâneos a serem como os bárbaros.

Algumas considerações que não nos cansaremos de repetir: a crise não é de nações, não é portuguesa nem espanhola, é do euro; a austeridade não tem alternativa europeia, mas não está a resultar, porque desemprega, porque mata a economia, destrói a sociedade, tritura riqueza em impostos, porque nisso torna a própria dívida insustentável; as reformas estruturais são apesar disso importantes, para libertar a economia dos interesses que a capturam, para abri-la à concorrência.

Não há nenhuma resposta instantânea para a crise. Nenhuma cimeira, nenhum BCE, nenhum alemão tem poder para desligar num átimo a máquina da destruição. O que tem de ser feito é moroso e doloroso. Mas escusa de ser desvairado. Precisa de sentido. Não está a ter. Tem de ter.

(Pedro Santos Guerreiro – Jornal de Negócios)

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