2008 – Depósitos da Memória

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O papel fundamental desempenhado pela escrita na conservação da memória era já claramente percebido na época medieval, o que era expresso de forma eloquente nos preâmbulos (arengas) com que se iniciavam muitos dos documentos, nos quais se louvava a escrita como remédio para obviar à fragilidade da memória humana (vidé artigos anteriores desta série).

Na actualidade, o quadro legislativo português, datado de 2001, inclui entre o património a proteger “todos os bens (…) portadores de interesse cultural relevante” e que reflectem “valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade”.

No ano de 1992, a UNESCO, preocupada com a preservação, criação e manutenção das diferentes instituições de memória e dos seus acervos, decidira já criar o Programa “Memória do Mundo”, propondo a intensificação dos esforços visando a preservação de documentos e arquivos históricos, de que a face mais publicamente visível é o “Memory of the World Register” (lista de património documental de reconhecido significado mundial), criado em 1995.

Um reflexo do reconhecimento de que as fontes escritas constituem um património a preservar, valorizar e explorar, considerado como “mirror of the world and its memory”… mas uma memória frágil, da qual, a cada dia, partes insubstituíveis desaparecem para sempre.

O Programa “Memória do Mundo” tem como valores fundamentais a noção de que o património documental é pertença da humanidade (de todos nós!), e, como tal, deverá ser integralmente preservado e protegido… para que seja acessível de forma permanente e universal.

Para além de ter começado por estabelecer uma relação de bibliotecas e arquivos em risco, e promovido o uso das novas tecnologias para a preservação e conservação de documentos, encorajando a produção de cópias e catálogos digitalizados, disponibilizados para consulta na Internet, assim como a publicação e distribuição de livros, CD’s, DVD’s e outros produtos, possibilitando a mais vasta divulgação, foram admitidas, até à data, cerca de 160 inscrições no Registo “Memory of the World”.

Em 2007, Portugal viu serem inscritos neste registo, como bens do património documental, o Tratado de Tordesilhas (datado de 1494, pelo qual Portugal e Espanha partilharam o mundo a descobrir – na sequência de candidatura conjunta dos dois países, os quais conservam, cada qual, o seu original do documento, escrito sobre pergaminho), tal como o “Corpo Cronológico” (colecção que reúne mais de 80 mil documentos em papel e pergaminho, datados desde 1161, mas principalmente dos séculos XV e XVI, na Torre do Tombo, em Lisboa), juntando-se à Carta de Pêro Vaz de Caminha, escrita já em papel, dirigida em 1500 ao Rei D. Manuel I, dando-lhe conta do achamento do Brasil.

A colecção “Corpo Cronológico” foi formada sob a iniciativa de Manuel da Maia, guarda-mor da Torre do Tombo – que recebeu a sua denominação no século XVIII, depois do Terramoto de 1755, que fez ruir a torre do castelo de S. Jorge, em Lisboa, onde se conservava o arquivo régio – durante o período de 1756 a 1764, tendo organizado a documentação com base em critérios cronológicos, do que decorre a sua designação.

A documentação que o integra contém fontes da maior relevância para o conhecimento da História da Europa, da África, da Ásia e da América do Sul, particularmente do Brasil: tratados de paz entre Portugal e outros países, doações régias, documentos sobre a administração do Reino e do Ultramar, correspondência sobre acontecimentos e política ultramarina (ocorrências em todas as possessões atlânticas e índicas), correspondência diplomática europeia (sobre assuntos da Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Europa Central, Europa Oriental e do Império Turco) e ultramarina, para além de alguns diplomas pontifícios.

No âmbito do Projecto “TT Online” foram digitalizados e disponibilizados online cerca de 45 300 documentos, correspondentes a mais de 300 000 imagens, em regime de plena acessibilidade.

Portugal conserva um elevado número de outros documentos que urge preservar – não apenas na Torre do Tombo, mas dispersos por todo o país -, em alguns casos esperando ainda a constituição de arquivos, guardados por ora sem cuidados e, em muitos casos, sem que se saiba sequer qual o material existente. Um desafio que requer uma resposta consentânea com a sua relevância, enquanto parte essencial da memória colectiva portuguesa.

(publicado originalmente em 24.06.2008)

30 Junho, 2013 at 11:00 am Deixe um comentário

2008 – Memória do Português escrito

MVR-10

É um costume reconhecido que, para que as coisas e os feitos se não percam no esquecimento, sejam confiados à fé das escrituras, porque tudo o que piedosamente for feito pelos bons, a não ser que seja passado a escrito, poderá vir a ser destruído pelos vindouros, quando não a cupidez os faça rebeldes às obras de caridade dos padres precedentes *

Memória do Português escrito

A escrita em português tem os seus antecedentes em textos latino-portugueses, prévios inclusivamente à própria fundação da nacionalidade, provenientes do mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto, datados de 1101 e 1125.

As manifestações iniciais do português escrito serão observáveis apenas a partir da segunda metade do século XII, constituindo-se porventura como textos mais antigos: a “Notícia de Fiadores de Paio Soares Romeu” (datado de 1175); e a “anotação de despesas de Pedro Parada” e o “Pacto entre Gomes Pais e Ramiro Pais” – estes não datados, mas presumivelmente escritos também em data aproximada.

Porém, esta classificação não está isenta de discórdia, em particular quanto ao atributo de “escritos em português” de certos textos, havendo quem advogue que o texto mais antigo que poderá merecer tal qualificativo dataria apenas de 1214 (“Notícia de Torto”) – opinião, ainda assim, não consensual, dado poder também considerar-se um documento “híbrido latino-português”.

Por outro lado, também o mais antigo documento régio escrito em português data de 1214, correspondendo ao testamento de D. Afonso II.

No período de 80 anos que decorre entre 1175 e 1255 (data dos mais antigos documentos em português produzidos na chancelaria do rei D. Afonso III), foram identificados cerca de 30 textos escritos em português – “produção primitiva”, constituída por documentos particulares, de carácter notarial –, levantando-se, também neste caso, alguma controvérsia, por um lado quanto ao qualificativo sobre a língua de escrita, por outro lado, quanto à (não) datação de alguns desses documentos.

Esses documentos correspondiam essencialmente a “notícias” (respeitando efectivamente a listas ou inventários), género diplomático que tinha por finalidade o registo de determinados factos, em ordem à preservação da sua memória.

Apenas o rei D. Dinis, a partir de 1279, determinaria o uso generalizado do português na chancelaria régia, de que decorreria um acréscimo relevante da produção documental em português no último decénio do século XIII, que só na centúria seguinte viria a assumir primazia face ao latim.

Não obstante, pode afirmar-se com elevado grau de certeza que, ainda antes do termo do século XII, o português escrito não era exclusivo da produção notarial, sendo já utilizado também a nível literário (arte poética dos trovadores, em folhas soltas, depois reunidas em cancioneiros), a qual se alargaria à prosa a partir de meados do século XIII, surgindo D. Afonso III como introdutor em Portugal do romance de cavalaria.

Numa época em que o digital ganha terreno ao texto impresso em papel, ainda uma pequena curiosidade a propósito do mais antigo texto conhecido escrito em papel em Portugal, datado de 1268, conforme documento em arquivo na Torre do Tombo, em Lisboa.

(Para saber mais, pode consultar o texto de base bibliográfica a este artigo: “O primeiro século do português escrito“, Ana Maria Martins)

* Soeiro, presbítero, Alcobaça, 1190 – Instituto dos Arquivos Nacionais – Torre do Tombo – Mosteiro de Alcobaça, 1ª incorp., Documentos Particulares, M.º 2, Doc. 12 – citado por Saul António Gomes, “Entre memória e história: os primeiros tempos da Abadia de Santa Maria de Alcobaça (1152-1215)”

(publicado originalmente em 23.06.2008)

30 Junho, 2013 at 9:00 am Deixe um comentário

100.ª edição do “Tour de France”

29 Junho, 2013 at 8:00 pm Deixe um comentário

2008 – Memória dos materiais de escrita

MVR-10

A escrita é guardiã fiel da memória. Deste modo ela torna presentes as coisas antigas, atesta as novas e, comprovando-as, delas dá testemunho a fim de que, no decurso dos tempos futuros, não caiam no esquecimento *

Com o final do Império romano do ocidente (final do século V d.C.), surge uma nova instituição, a Ordem monástica, assumindo o papel primordial a nível de transmissão da cultura, concentrando as tarefas de ensino e de escrita. Durante a Idade Média, os monges copistas, trabalhando no scriptorium de cada mosteiro e abadia, transcreviam ou copiavam textos, manuscritos, inicialmente sobre rolos de papiro e, mais tarde, em pergaminho, possibilitando o surgimento dos primeiros livros (“codex”).

Os rolos de papiro apresentavam vários inconvenientes, quer em termos de custo, quer pela sua fragilidade, assim como pelo facto de apenas serem utilizáveis de um dos lados, sendo, por outro lado, de difícil consulta e manuseamento.

Graças à sua resistência e grande capacidade de se manter inalterado ao longo de séculos, o pergaminho – feito a partir da pele de animais – constituir-se-ia como suporte básico de escrita durante toda a Idade Média, quer a nível de livros, quer de documentos. Tornaram-se então famosos os palimpsestos – etimologicamente, derivando das palavras gregas palin (“outra vez”) e psan (“raspar”) –, traduzindo que o pergaminho fora raspado (para apagar o texto inicial) e reescrito.

“Sabeis como procede o copista. Primeiro, começa por limpar a gordura do pergaminho com um raspador para retirar as maiores impurezas; depois, com a pedra-pomes, faz desaparecer completamente os pêlos e os ligamentos” (Hildeberto de Lavardin, início do século XII, citado por PERNOUD, Régine – La plume et le parchemin, Paris, Denoel, 1983, p. 76).

A pele dos animais (principalmente ovinos e caprinos) recebia ainda um banho de cal, sendo depois esticada em bastidores, onde, sob tensão, secava, após o que podia ser ainda polvilhada com cal, para que a tinta aderisse melhor, e, também, polida com pedra-pomes, para amaciar a sua superfície.

Só a partir do século XV o pergaminho perderia a primazia, perante a crescente utilização do papel, criado na China há cerca de 2000 anos, introduzido no Ocidente pelos árabes apenas cerca de 1150. Cânhamo, capim e palha foram também materiais para escrita utilizados pela humanidade.

Até ao século XIX produzia-se papel com base em trapos velhos (farrapos) lavados, deixados a apodrecer durante semanas, e depois desfeitos. A polpa assim obtida era então mergulhada em água e moldada em formas, sendo ainda prensada, banhada em cola e estendida para secagem.

O papel produzido a partir da pasta de celulose apenas surgiria em meados desse século, passando então a madeira a ser a principal matéria-prima para fabrico de papel. Apenas a partir da década de 60 do século XX o eucalipto se tornou amplamente utilizado como principal fonte de fibra.

Eram diversos os instrumentos utilizados na escrita pelos escribas, desde o esquadro, régua, compasso e estilete (para marcação das margens e das linhas das folhas), passando pelos primordiais cálamo (caneta feita de cana fina e oca, utilizada desde a Antiguidade) e penas de ave, principalmente de ganso (usadas a partir do século IV d.C.) – que ditaria a sua lei até à Idade Contemporânea, com a invenção dos aparos de metal.

As tintas utilizadas, essencialmente metalo-gálicas – compostas por sal metálico (sulfato de cobre ou de ferro) e ácido gálico, de nozes de galha (excrecências formadas nas folhas ou ramos de carvalho) –, podiam ser de “cor” (destinadas à decoração dos manuscritos e às letras iniciais – obtidas a partir da adição de corantes), ou “negras” (efectivamente, com uma tonalidade variando entre o castanho amarelado e o preto, para escrita dos textos, quer em livros, quer em documentos). Nas iluminuras era também usada a folha de ouro, aplicada com minúcia sobre o pergaminho.

Bibliografia consultada

– “Monumentos de Escrita – 400 anos da história da Sé e da cidade de Viseu (1230 – 1639)”, Roteiro da Exposição, Maria do Rosário Barbosa Morujão e Anísio Miguel de Sousa Saraiva, pp. 17 a 19

– “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual“, Rita de C. R. de Queiroz)

* Fr. Gonçalo, “Uisensis dictus episcopus”, Alcobaça, 1176 – Instituto dos Arquivos Nacionais – Torre do Tombo – Mosteiro de Alcobaça, 1ª incorp., Documentos Particulares, M.º 1, Doc. 13

(publicado originalmente em 22.06.2008)

29 Junho, 2013 at 7:00 pm Deixe um comentário

2008 – Memória da escrita

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Sempre que os homens sentiram a necessidade de conservar os instantes que a história comporta, a escrita se fez lei. Em todos os tempos, o homem que soube escrever foi rei *

Há mais de dois milhões de anos que a humanidade começou a comunicar por via da articulação de sons.

Não obstante o homem exprimir o seu pensamento e procurar comunicar através de meios gráficos há cerca de 20 000 anos (desde a arte rupestre, com inscrições e pinturas cavernas, a partir do Paleolítico superior), apenas cerca de 30 a 40 séculos a.C. seria criado o primeiro código de escrita, inventado pelos Sumérios, permitindo dar os primeiros passos na fixação da linguagem oral de uma forma perene, ao mesmo tempo que vinha permitir a comunicação através do tempo e do espaço.

Desde as origens da escrita – cuja difusão, com início nas civilizações da Mesopotâmia, Egipto, China antiga e América pré-colombina, está primordialmente associada à evolução da memória –, foram utilizados diversos suportes, como placas de argila, pedra e madeira, rolos de papiro, pergaminho, antes do papel, que só chegaria à Europa cerca de 1150 e apenas a partir do século XV adquiriria a primazia.

Cerca de meados do quarto milénio a.C., os Sumérios, ocupando a Mesopotâmia – geralmente considerada a civilização mais antiga da humanidade, constituindo-se, durante cerca de 1500 anos, no grupo cultural dominante no Médio Oriente – introduziram a escrita cuneiforme (caracteres em forma de “cunha”, inscritos em tábuas de argila por via de estiletes, inicialmente com um sistema pictográfico, em que imagens ou objectos expressavam ideias), o que estaria associado a uma produção literária bastante evoluída, a par de um desenvolvido sistema jurídico, culminando no Código de Hamurabi, o mais remoto de que há conhecimento (cerca de 1800 a.C.).

Juntamente com a escrita cuneiforme, a escrita hieroglífica egípcia tornar-se-ia num dos mais importantes contributos para o desenvolvimento dos sistemas de escrita, na transição para o uso de sinais de escrita com valor fonético, surgindo a escrita semítica como o protótipo da escrita alfabética (formada por 22 símbolos).

O alfabeto fenício, adoptado pelos gregos cerca de 900 a.C., sendo objecto de adaptação até ao século IV a.C. (originando o alfabeto jónico, com 24 letras), tornar-se-ia na origem directa de todas as escritas alfabéticas ocidentais.

O alfabeto latino, derivado do grego, compreendia inicialmente apenas 16 letras, só posteriormente tendo sido introduzidas as letras g, h, j, k, q, v, x e y. O latim, difundido no mundo ocidental pelos romanos, originaria diversas línguas românicas, que começaram a ser traduzidas de forma escrita a partir do século IX d.C. No caso do português, apenas seria observável sob a forma escrita a partir da segunda metade do século XII.

(Para saber mais, pode consultar o texto de base bibliográfica a este artigo: “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual“, Rita de C. R. de Queiroz)

* Georges Jean, “La escritura: memoria de la humanidad”, tradução Enrique Sánchez Hormigo, Ediciones B, S. A., Barcelona, 1998

(publicado originalmente em 21.06.2008)

29 Junho, 2013 at 5:00 pm Deixe um comentário

2008 – A imprensa e os arquivos da Memória

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A memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações *

Com Gutenberg e a imprensa (cerca de 1450), a escrita ascende a uma outra plataforma, amplificando a memória colectiva a tal ponto que já não é passível de ser fixada (decorada) na íntegra, no que se traduz numa nova revolução, iniciando o declínio da “arte da memória”, tal qual valorizada pela escolástica.

O texto escrito torna-se hegemónico a nível do movimento científico, dando origem, a partir sensivelmente do século XVIII, à “sociedade leitora”, a par do surgimento do conhecimento enciclopédico, procurando concretizar a quimera de concentrar numa única obra todo o conhecimento da humanidade, em múltiplas artes da cultura, artes e ciência.

Começam, também no século XVIII, a ser criados os primeiros “depósitos da memória”, que assim começa a materializar-se, nomeadamente com os arquivos centrais como a Casa de Sabóia em Turim ou em São Petersburgo. Com a Revolução Francesa surgem os Arquivos Nacionais, em 1790; em Inglaterra, o Public Record Office nasce, em Londres, em 1838, passando a estar disponíveis para consulta pública documentos constitutivos da memória nacional.

Em paralelo, são inaugurados os primeiros museus públicos: o Louvre, cerca de 1750, o Pio-Clementino (Vaticano – cerca de 1770), o Prado (Madrid – 1785) ou o de Berlim (1830).

Também por esta época (década de 1830), dá-se outra revolução na memória “social”, com o aparecimento da fotografia (introduzida por Louis Daguerre e Joseph Nicéphore Niepce), possibilitando, pela primeira vez, “conservar o tempo” em imagens…

Antecedendo a derradeira fractura revolucionária, com origem a partir de 1950, com o início da memória electrónica, precursora da sociedade da informação ou da actual sociedade em rede, desde 1993, com a abertura da Internet ao domínio público, acelerando bruscamente o fluxo de informação e a socialização.

Bibliografia consultada

– “Memória e sociedade contemporânea: Apontando tendências”, Ângela Maria Barreto, Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v.12, n.2, p. 161-176, jul./dez., 2007

– “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual”, Rita de C. R. de Queiroz

* Jorge Luis Borges

(publicado originalmente em 18.06.2008)

29 Junho, 2013 at 3:00 pm Deixe um comentário

2008 – História da Memória

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Chego aos campos e vastos palácios da memória onde estão tesoiros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda a espécie. Aí está também escondido tudo o que pensamos, quer aumentando quer diminuindo ou até variando de qualquer modo os objectos que os sentidos atingiram. Enfim, jaz aí tudo o que se lhes entregou e depôs, se é que o esquecimento ainda o não absorveu e sepultou. *

Jacques LeGoff (na sua obra “História e Memória”) propõe algumas fases na “história da memória”:

1. Memória oral
2. Memória oral em que a memória escrita assume uma função específica
3. Fase medieval de equilíbrio entre as duas fontes de memória
4. Fase moderna, em que a memória escrita assume papel decisivo
5. Fase da memória em expansão.

Nas sociedades sem escrita, a memória oral consubstanciava-se na preservação da informação por especialistas, os chamados “homens-memória”, verdadeiros guardiões da história dos grupos ou comunidades, assumindo papel fundamental na transmissão do saber. A memória transmitia-se por via da aprendizagem, não sendo uma reprodução exacta “palavra por palavra”, mas antes uma evocação mais ou menos difusa.

Com o advento da escrita, a memória colectiva viria a sofrer uma verdadeira revolução, com o aparecimento de novas possibilidades de conservação da informação: primeiro, sob a forma de inscrição (de que constituem exemplos, entre outros, os obeliscos e estelas); mais tarde, por via de documentos escritos, possibilitando perenizar a informação, superando barreiras de tempo e espaço.

Grandes civilizações de eras antigas como as da Mesopotâmia, do Egipto, da China ou da América Pré-Colombina, serviram-se da memória escrita como marca de progresso. Já na época da Grécia antiga, os “mnemon” (“memórias-vivas”), que asseguravam a conservação da memória do passado relativamente a decisões judiciais, acabariam por vir a transformar-se, com a evolução da memória escrita, em arquivistas.

Na Idade Média, o conceito de memória evolui, passando a estar primordialmente associado à difusão da doutrina cristã, com a memória dos livros sagrados, dos Santos, e dos obituários, evocando os nomes de benfeitores. Por outro lado, a escrita, conjugando a memória e a alegoria personificante da divindade, torna-se o veículo privilegiado da relação do crente com Deus. Nesta fase, a memória escrita desenvolve-se ainda em paralelo, ou de forma complementar, com a memória oral. Os manuscritos serviam então, também, para ser aprendidos de cor…

Bibliografia consultada

– “Memória e sociedade contemporânea: Apontando tendências”, Ângela Maria Barreto, Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v.12, n.2, p. 161-176, jul./dez., 2007

– “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual”, Rita de C. R. de Queiroz

* Santo Agostinho, “Confissões” (tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina), Braga, Livraria Apostolado, 11ª edição, 1984

(publicado originalmente em 17.06.2008)

29 Junho, 2013 at 1:00 pm Deixe um comentário

2008 – O que é a Memória?

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Porque é frágil a memória dos homens e para que, com o tempo, não caiam no esquecimento os feitos dos mortais, nasceu o remédio da escrita para que, por meio dele, os factos passados se conservem como presentes para o futuro. *

O que é a memória?

As definições de memória falam-nos da função ou capacidade de captar, gravar/reter, armazenar/arquivar, classificar e, num segundo tempo, evocar/recuperar informação.

Em termos gerais, e de forma subjectiva, uma faculdade cognitiva de recordação ou lembrança.

Dizem-nos também que não existe uma única memória genérica, mas sim várias dimensões da memória, decorrendo de diferentes fontes / estímulos, desde os associativos, aos emocionais, passando pelos conceptuais.

E, noutro prisma, (i) Memória de procedimentos, entendida como a capacidade de reter e processar informações não verbalizadas, de que será um dos exemplos mais cabais “aprender a andar de bicicleta”; e (ii) Memória declarativa, associada à capacidade de verbalizar determinado facto, compreendendo vertentes diversas:

  • memória sensorial (tempo médio de percepção de um estímulo pelos nossos órgãos sensoriais, de 3 a 5 décimos de segundo) – visual ou auditiva (também passível de captação via outros sentidos);
  • memória de curto prazo, imediata, objecto de solicitação a todo o instante, permitindo reter – até durante um período de algumas dezenas de segundos – até cerca de 7 elementos distintos; e
  • memória de longo prazo, de cariz permanente (virtualmente, durante toda a vida) – contrariamente às anteriores, em que a informação percepcionada é rapidamente esquecida ou apagada –, com uma considerável capacidade de retenção ou armazenamento mental, a qual é depositária das nossas lembranças e aprendizagem, permitindo tirar proveito das experiências vivenciadas.
  • A memória, assim considerada como base do conhecimento, necessita portanto ser trabalhada / estimulada, facultando também a partilha entre indivíduos com essas vivências comuns, permitindo dessa forma a transmissão de experiências e valores entre gerações.

    * Arenga de 1260 (Viseu, Arquivo do Museu de Grão Vasco, PERG / 08)

    (publicado originalmente em 17.06.2008)

    29 Junho, 2013 at 11:00 am Deixe um comentário

    2008 – Memória

    MVR-10

    Conjunto de textos publicados a propósito do aniversário do Memória Virtual, retomando a sua matriz, tendo como tema em foco a Memória, em algumas das suas múltiplas vertentes.

    (Imagens via: 1 / 2 / 3)

    (publicado originalmente em 06.06.2008)

    29 Junho, 2013 at 9:00 am Deixe um comentário

    2005 – O pulsar dos Diários Virtuais em Portugal

    MVR-10

    O PULSAR DOS DIÁRIOS VIRTUAIS EM PORTUGAL

    O texto apresentado na presente página corresponde à comunicação que apresentei no II Encontro de Weblogs, na Universidade da Beira Interior, em 15.10.2005, procurando sintetizar as origens da blogosfera e início da sua expansão em Portugal, desde 1999/2000 até meados de 2005.

    Pode também consultar as retrospectivas anuais que tenho vindo a preparar sobre alguns dos aspectos mais em destaque na blogosfera portuguesa, nas páginas indicadas de seguida:

    1. Blogosfera em 2003
    2. Blogosfera em 2004
    3. Blogosfera em 2005
    4. Blogosfera em 2006
    5. Blogosfera em 2007
    6. Blogosfera em 2008
    7. Blogosfera em 2009

    RESUMO

    Tal como na génese dos blogues a nível mundial (a partir de 1996/1997), também o seu advento em Portugal, nos anos de 1999/2000, terá presumivelmente tido origem no seio de pessoas associadas ao meio informático e, numa fase imediata (a partir de 2001), profissionais da comunicação.

    Apenas no final de 2002 / início de 2003, com o aparecimento dos primeiros blogues assumindo ambos os pólos da tradicional dicotomia política direita-esquerda (inicialmente “personificados” por “A Coluna Infame” e pelo “Blogue de Esquerda”), numa conjuntura de eminente intervenção militar estado-unidense no Iraque, a blogosfera portuguesa despertaria, fervilhando numa rápida explosão (culminando no virar do primeiro para o segundo semestre de 2003), num “espiral círculo virtuoso”, potenciado pela forte mediatização proporcionada pela adesão de José Pacheco Pereira ao fenómeno, com a criação (em Maio de 2003) do Abrupto, associada a numerosas referências nos “media” tradicionais e atraindo novas figuras para a blogosfera, entre os milhares de anónimos que a ela afluíam diariamente.

    Neste período de cerca de 2 anos e meio, o pulsar dos diários virtuais em Portugal sempre foi bastante determinado pelo cruzamento entre a mediatização, que favoreceu a sua expansão, e a sua vertente política, assumindo peso predominante em termos dos principais “blogues de referência”, sem contudo retirar espaço a outros projectos, mais orientados para as áreas culturais ou de cariz humorístico ou irónico, de que são exemplos, nomeadamente, o Janela Indiscreta, o Blogue dos Marretas e o Gato Fedorento (com blogues “políticos” como o próprio Abrupto, Blogue de Esquerda e Dicionário do Diabo a não descurarem também uma vertente cultural).

    Depois de, em 2003, se ter processado a definitiva afirmação dos blogues, 2004 seria o ano da consolidação da blogosfera portuguesa, que, continuando a manter a tendência de crescimento da oferta, enfrentou um período de estabilização de audiências, passado o período de maior instabilidade da conjuntura política, retomando novamente uma fase crescente por ocasião da campanha autárquica de 2005.

    O futuro não deixará de ter como pano de fundo as múltiplas potencialidades que a ferramenta proporciona, com um progressivo alargamento do campo de intervenção, do texto à fotografia, passando pelo áudio e vídeo, com os blogues a tornarem-se cada vez mais multimédia.

    1. INTRODUÇÃO

    A simplicidade de criação, a autonomia (autor e editor fundindo-se num único indivíduo), funcionalidade e prontidão (“em tempo real”) de edição que possibilita, a potencial universalidade de destinatários, o espírito de pertença a uma comunidade que propiciam, a sua estrutura “hipertextual” (com sistemáticas referências a outras páginas), torna os blogues numa ferramenta de comunicação pessoal ímpar, um meio de expressão pessoal sem paralelo na história, vivendo-se um momento similar àqueles em que novas ferramentas de comunicação tiveram a sua génese, como o livro impresso, o jornal, o telefone, a rádio, a televisão, a própria Internet.

    O seu carácter de publicação dinâmica (com frequentes actualizações), associado ao espírito comunitário que potencia – um “ponto de encontro diário” entre quem escreve e quem lê (agregando pessoas com interesses comuns) – será porventura o principal factor distintivo de outras páginas na Internet.

    Os weblogs – contracção de web (“rede”) e log (“registo / diário de bordo”) – são páginas na Internet, de carácter diarístico, regularmente actualizadas, com ligações (links) a artigos noutras páginas da web, disponibilizando frequentemente a faculdade de comentários por parte dos leitores (abrindo uma janela para a socialização). Os textos (designados de “posts” ou “entradas”), geralmente de curta extensão, são datados, sendo comummente apresentados por ordem cronológica inversa, dos mais recentes para os mais antigos, assim sublinhando a importância do imediatismo, sendo normalmente mantidos em arquivo por data de publicação, de periodicidade semanal ou mensal.

    (publicado originalmente entre 01.11.2005 e 30.11.2005 – o texto integral pode ser lido aqui, estando também disponíveis para consulta as resenhas anuais sobre a blogosfera, dos anos de 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008 e 2009)

    28 Junho, 2013 at 9:00 pm Deixe um comentário

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    Convicto da compreensão da inexistência de intenção de prejudicar terceiros, não obstante, agradeço antecipadamente a qualquer entidade que se sinta lesada pela apresentação de algum conteúdo o favor de me contactar via e-mail (ver no topo desta coluna), na sequência do que procederei à sua imediata remoção.

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