Posts filed under ‘Sociedade’
Memória (IV)
Sempre que os homens sentiram a necessidade de conservar os instantes que a história comporta, a escrita se fez lei. Em todos os tempos, o homem que soube escrever foi rei *



Há mais de dois milhões de anos que a humanidade começou a comunicar por via da articulação de sons.
Não obstante o homem exprimir o seu pensamento e procurar comunicar através de meios gráficos há cerca de 20 000 anos (desde a arte rupestre, com inscrições e pinturas cavernas, a partir do Paleolítico superior), apenas cerca de 30 a 40 séculos a.C. seria criado o primeiro código de escrita, inventado pelos Sumérios, permitindo dar os primeiros passos na fixação da linguagem oral de uma forma perene, ao mesmo tempo que vinha permitir a comunicação através do tempo e do espaço.
Desde as origens da escrita – cuja difusão, com início nas civilizações da Mesopotâmia, Egipto, China antiga e América pré-colombina, está primordialmente associada à evolução da memória –, foram utilizados diversos suportes, como placas de argila, pedra e madeira, rolos de papiro, pergaminho, antes do papel, que só chegaria à Europa cerca de 1150 e apenas a partir do século XV adquiriria a primazia.
Cerca de meados do quarto milénio a.C., os Sumérios, ocupando a Mesopotâmia – geralmente considerada a civilização mais antiga da humanidade, constituindo-se, durante cerca de 1500 anos, no grupo cultural dominante no Médio Oriente – introduziram a escrita cuneiforme (caracteres em forma de “cunha”, inscritos em tábuas de argila por via de estiletes, inicialmente com um sistema pictográfico, em que imagens ou objectos expressavam ideias), o que estaria associado a uma produção literária bastante evoluída, a par de um desenvolvido sistema jurídico, culminando no Código de Hamurabi, o mais remoto de que há conhecimento (cerca de 1800 a.C.).
Juntamente com a escrita cuneiforme, a escrita hieroglífica egípcia tornar-se-ia num dos mais importantes contributos para o desenvolvimento dos sistemas de escrita, na transição para o uso de sinais de escrita com valor fonético, surgindo a escrita semítica como o protótipo da escrita alfabética (formada por 22 símbolos).
O alfabeto fenício, adoptado pelos gregos cerca de 900 a.C., sendo objecto de adaptação até ao século IV a.C. (originando o alfabeto jónico, com 24 letras), tornar-se-ia na origem directa de todas as escritas alfabéticas ocidentais.
O alfabeto latino, derivado do grego, compreendia inicialmente apenas 16 letras, só posteriormente tendo sido introduzidas as letras g, h, j, k, q, v, x e y. O latim, difundido no mundo ocidental pelos romanos, originaria diversas línguas românicas, que começaram a ser traduzidas de forma escrita a partir do século IX d.C. No caso do português, apenas seria observável sob a forma escrita a partir da segunda metade do século XII.
(Para saber mais, pode consultar o texto de base bibliográfica a este artigo: “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual“, Rita de C. R. de Queiroz)
* Georges Jean, “La escritura: memoria de la humanidad”, tradução Enrique Sánchez Hormigo, Ediciones B, S. A., Barcelona, 1998
Memória



A necessitar de tempo para organizar a “Memória“… A emissão será retomada dentro de pouco tempo. Enquanto isso, pode revisitar a Memória, nos três textos já publicados (I, II e III).
Memória (III)
A memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações *



Com Gutenberg e a imprensa (cerca de 1450), a escrita ascende a uma outra plataforma, amplificando a memória colectiva a tal ponto que já não é passível de ser fixada (decorada) na íntegra, no que se traduz numa nova revolução, iniciando o declínio da “arte da memória”, tal qual valorizada pela escolástica.
O texto escrito torna-se hegemónico a nível do movimento científico, dando origem, a partir sensivelmente do século XVIII, à “sociedade leitora”, a par do surgimento do conhecimento enciclopédico, procurando concretizar a quimera de concentrar numa única obra todo o conhecimento da humanidade, em múltiplas artes da cultura, artes e ciência.
Começam, também no século XVIII, a ser criados os primeiros “depósitos da memória”, que assim começa a materializar-se, nomeadamente com os arquivos centrais como a Casa de Sabóia em Turim ou em São Petersburgo. Com a Revolução Francesa surgem os Arquivos Nacionais, em 1790; em Inglaterra, o Public Record Office nasce, em Londres, em 1838, passando a estar disponíveis para consulta pública documentos constitutivos da memória nacional.
Em paralelo, são inaugurados os primeiros museus públicos: o Louvre, cerca de 1750, o Pio-Clementino (Vaticano – cerca de 1770), o Prado (Madrid – 1785) ou o de Berlim (1830).
Também por esta época (década de 1830), dá-se outra revolução na memória “social”, com o aparecimento da fotografia (introduzida por Louis Daguerre e Joseph Nicéphore Niepce), possibilitando, pela primeira vez, “conservar o tempo” em imagens…
Antecedendo a derradeira fractura revolucionária, com origem a partir de 1950, com o início da memória electrónica, precursora da sociedade da informação ou da actual sociedade em rede, desde 1993, com a abertura da Internet ao domínio público, acelerando bruscamente o fluxo de informação e a socialização.
Bibliografia consultada
– “Memória e sociedade contemporânea: Apontando tendências”, Ângela Maria Barreto, Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v.12, n.2, p. 161-176, jul./dez., 2007
– “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual”, Rita de C. R. de Queiroz
* Jorge Luis Borges
Memória (II)
Chego aos campos e vastos palácios da memória onde estão tesoiros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda a espécie. Aí está também escondido tudo o que pensamos, quer aumentando quer diminuindo ou até variando de qualquer modo os objectos que os sentidos atingiram. Enfim, jaz aí tudo o que se lhes entregou e depôs, se é que o esquecimento ainda o não absorveu e sepultou. *



Jacques LeGoff (na sua obra “História e Memória”) propõe algumas fases na “história da memória”:
1. Memória oral
2. Memória oral em que a memória escrita assume uma função específica
3. Fase medieval de equilíbrio entre as duas fontes de memória
4. Fase moderna, em que a memória escrita assume papel decisivo
5. Fase da memória em expansão.
Nas sociedades sem escrita, a memória oral consubstanciava-se na preservação da informação por especialistas, os chamados “homens-memória”, verdadeiros guardiões da história dos grupos ou comunidades, assumindo papel fundamental na transmissão do saber. A memória transmitia-se por via da aprendizagem, não sendo uma reprodução exacta “palavra por palavra”, mas antes uma evocação mais ou menos difusa.
Com o advento da escrita, a memória colectiva viria a sofrer uma verdadeira revolução, com o aparecimento de novas possibilidades de conservação da informação: primeiro, sob a forma de inscrição (de que constituem exemplos, entre outros, os obeliscos e estelas); mais tarde, por via de documentos escritos, possibilitando perenizar a informação, superando barreiras de tempo e espaço.
Grandes civilizações de eras antigas como as da Mesopotâmia, do Egipto, da China ou da América Pré-Colombina, serviram-se da memória escrita como marca de progresso. Já na época da Grécia antiga, os “mnemon” (“memórias-vivas”), que asseguravam a conservação da memória do passado relativamente a decisões judiciais, acabariam por vir a transformar-se, com a evolução da memória escrita, em arquivistas.
Na Idade Média, o conceito de memória evolui, passando a estar primordialmente associado à difusão da doutrina cristã, com a memória dos livros sagrados, dos Santos, e dos obituários, evocando os nomes de benfeitores. Por outro lado, a escrita, conjugando a memória e a alegoria personificante da divindade, torna-se o veículo privilegiado da relação do crente com Deus. Nesta fase, a memória escrita desenvolve-se ainda em paralelo, ou de forma complementar, com a memória oral. Os manuscritos serviam então, também, para ser aprendidos de cor…
Bibliografia consultada
– “Memória e sociedade contemporânea: Apontando tendências”, Ângela Maria Barreto, Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v.12, n.2, p. 161-176, jul./dez., 2007
– “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual”, Rita de C. R. de Queiroz
* Santo Agostinho, “Confissões” (tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina), Braga, Livraria Apostolado, 11ª edição, 1984
Memória (I)
Porque é frágil a memória dos homens e para que, com o tempo, não caiam no esquecimento os feitos dos mortais, nasceu o remédio da escrita para que, por meio dele, os factos passados se conservem como presentes para o futuro. *



O que é a memória?
As definições de memória falam-nos da função ou capacidade de captar, gravar/reter, armazenar/arquivar, classificar e, num segundo tempo, evocar/recuperar informação.
Em termos gerais, e de forma subjectiva, uma faculdade cognitiva de recordação ou lembrança.
Dizem-nos também que não existe uma única memória genérica, mas sim várias dimensões da memória, decorrendo de diferentes fontes / estímulos, desde os associativos, aos emocionais, passando pelos conceptuais.
E, noutro prisma, (i) Memória de procedimentos, entendida como a capacidade de reter e processar informações não verbalizadas, de que será um dos exemplos mais cabais “aprender a andar de bicicleta”; e (ii) Memória declarativa, associada à capacidade de verbalizar determinado facto, compreendendo vertentes diversas:
A memória, assim considerada como base do conhecimento, necessita portanto ser trabalhada / estimulada, facultando também a partilha entre indivíduos com essas vivências comuns, permitindo dessa forma a transmissão de experiências e valores entre gerações.
* Arenga de 1260 (Viseu, Arquivo do Museu de Grão Vasco, PERG / 08)
Regulação europeia sobre blogues
Parece começar a germinar o que poderá constituir-se em regulação jurídica relativamente aos blogues, com a aprovação, pela Comissão Europeia de Cultura, no passado dia 3, de uma resolução em que se sugere a clarificação do estatuto, jurídico ou outro, dos blogues e incentiva a sua classificação voluntária em função das responsabilidades e interesses profissionais e financeiros dos seus autores e editores.
Promove-se assim a prestação de informação – para já de carácter voluntário – nomeadamente sobre a identidade do autor ou os seus interesses políticos ou sociais, uma vez que «o estatuto dos seus autores e editores, nomeadamente o seu estatuto jurídico, não está definido nem é indicado aos leitores, o que causa incertezas em relação à imparcialidade, fiabilidade, protecção das fontes, aplicabilidade dos códigos deontológicos e atribuição de responsabilidades em caso de acção judicial».
Pode saber mais aqui (El País) ou aqui (GranoSalis).
TGV – Lançado primeiro Concurso Público – Poceirão-Caia
O Governo lançou hoje o concurso público relativo à construção do troço Poceirão-Caia da Rede de Alta Velocidade (“TGV”), numa extensão de cerca de 200 km, integrando a ligação Lisboa-Madrid – a iniciar em 2010, prevendo-se que possa entrar em serviço em 2013 -, colocando as capitais ibéricas a 2h45 de distância, atingindo uma velocidade máxima de 350 km/hora. O traçado prevê estações em Évora (a 30 minutos de Lisboa) e em Elvas. O preço do bilhete Lisboa-Madrid é, nesta data, estimado em 100 euros.
O custo estimado do investimento neste primeiro troço ascende a cerca de 1 700 milhões de euros (correspondendo a cerca de 340 milhões de contos), esperando o Governo que o custo real venha a situar-se a um patamar algo inferior a esta projecção. O custo total da Rede de Alta Velocidade é, nesta altura, calculado em cerca de 7 100 milhões de euros.
As próximas etapas previstas são: Lisboa-Poceirão (compreendendo também a nova ponte Chelas-Barreiro), com um investimento estimado em cerca de 1 600 milhões de euros; seguindo-se Lisboa-Pombal e Pombal-Porto (total previsto de 3 800 milhões de euros).
Por outro lado, a linha Porto-Vigo deverá começar a ir a concurso no final de 2009 (troço Braga-Valença), com um investimento de cerca de 800 milhões de euros.
TomarLego
Uma sugestão para o Dia Mundial da Criança: pode visitar este fim-de-semana em Tomar – no Ginásio do Pavilhão Municipal – a Exposição “TomarLego”, a propósito da comemoração dos 50 anos da invenção do brick (um brinquedo com forte cariz educativo, originário da Dinamarca), replicando uma cidade construída com base em legos, com cerca de seis metros, reunindo um conjunto de peças disponibilizadas por um grupo de coleccionadores de lego (“0937”).
Esta exposição será inaugurada (sábado, pelas 14h30) contando com a presença da mulher mais idosa da Europa, a tomarense Maria de Jesus, de 114 anos e 8 meses de idade.
Ainda (contra) o acordo ortográfico
Um dossier com pareceres de índole fundamentalmente linguística, alguns dos quais inéditos, será entregue ao Presidente da República na próxima segunda-feira por signatários do Manifesto em defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico, o qual conta já mais de 44 000 subscritores.




