Posts filed under ‘Semana da História’

PORTUGAL – NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (V)

“A organização política e administrativa que os Romanos deram ao território foi destruída pelos grupos de bárbaros que invadiram a Europa ocidental nos princípios do século V.

Em 411 entraram no nosso actual território grandes bandos de alanos, vândalos e suevos, povos que tinham sido violentamente arrancados das suas terras pela invasão dos Hunos e que depois dessa expulsão vagabundearam pela Europa à procura de novas terras onde pudessem viver. Os Alanos eram oriundos da região do Cáucaso; os Vândalos eram germanos de raiz escandinava; os Suevos também eram germânicos, supõe-se que aparentados com os grupos de anglos e saxões que, por essa mesma altura, se foram instalar na Inglaterra.

Só os Suevos fundaram organização política de certa duração.

Estabilizados, organizaram um reino que abrangia a Galiza e tinha capital em Braga.

Estes grupos bárbaros não eram numerosos. Apesar disso, dominaram as províncias romanas com enorme rapidez e, depois de instalados, não provocaram grandes resistências por parte das populações.”

“História concisa de Portugal”, José Hermano Saraiva

[1017]

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20 Fevereiro, 2004 at 1:50 pm

PORTUGAL – NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (IV)

“A ocupação romana não se fez à boa paz. Os historiadores referem em especial a resistência dos Lusitanos. Nenhum dos caudilhos da resistência indígena que às legiões se depararam por toda a Europa impressionou tanto os historiadores romanos como Viriato, o chefe dos Lusitanos que, entre os anos de 147-139 a. C. conseguiu conglobar sob o seu comando grandes regiões do Centro da Península e impor cruéis reveses às tropas de Roma.

Plínio, o Antigo, escritor romano que desempenhou um cargo administrativo na Península entre os anos de 69 a 73, resume nestas poucas linhas a situação das cidades lusitanas: «Toda a província está dividida em três conventos: o emeritense, o pacense e o escalabitano. O total dos povos é de quarenta e cinco: cinco colónias, um município de cidadãos romanos, três cidades do Lácio antigo, trinta e seis cidades estipendiárias.»

Os conventos eram divisões administrativas e judiciais. No nosso território ficavam dois conventos da Lusitânia (o pacense, com sede em Beja, e o escalabitano, com sede em Santarém) e um convento da Tarraconense (o brácaro, com sede em Braga).

O único município de cidadãos romanos era Lisboa, que por essa altura se tornou uma grande cidade portuária, por onde saía a produção local para a Itália. À produção cerealífera se atribui o desenvolvimento de Santarém e de Beja e o das cidades do antigo Lácio, que eram Évora, Beja, Alcácer do Sal.”

“História concisa de Portugal”, José Hermano Saraiva

[1012]

19 Fevereiro, 2004 at 8:55 am

PORTUGAL – NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (III)

“O primeiro desembarque de tropas romanas na Península deu-se em 219 a. C. O quadro de povoamento que os Romanos vieram encontrar seria aproximadamente o seguinte: para norte do Douro viviam os Calaicos, uma palavra relacionada com kelticoi, nome que os Romanos davam aos Celtas e que veio a dar o termo galegos. Entre o Douro e o Tejo, mas alastrando muito para além da nossa actual fronteira, habitavam os Lusitanos, que os Romanos descreviam como um ramo de Celtiberos, isto é, como um povo que resultara da fusão de Celtas e de Iberos.

Para o sul do Tejo habitavam povos a que os antigos chamavam célticos. No Algarve viviam os Cónios, povo cuja longa emigração a caminho do sul está atestada nos topónimos Conímbriga e Coina. Eram talvez, do mesmo modo que os Lusitanos, celtas chegados cedo e deslocados para o sul pela pressão dos que foram chegando depois.”

“História concisa de Portugal”, José Hermano Saraiva

[1010]

18 Fevereiro, 2004 at 6:25 pm

PORTUGAL – NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (II)

“A idade do bronze (2000 a. C. – 800 a. C.) registou provavelmente novos movimentos migratórios, porque a forma de sepultar os mortos mudou muito; em vez das grandes criptas colectivas, predomina o túmulo individual. Foi ao longo deste período que se estabeleceu um tipo de povoamento de que existem hoje ainda muitos vestígios: os castros, povoações formadas por casas de pedras, com cobertura de colmo, situados em pontos altos e que foram escolhidos com preocupações defensivas.

O povo português resultou assim de um milenário processo de miscigenação de sangue e de sucessivas sobreposições culturais.

A partir dos princípios do primeiro milénio antes de Cristo começaram a chegar grandes bandos de gente oriunda da Europa central: os Celtas. Tinham uma enorme vantagem técnica sobre as populações que encontravam instaladas: sabiam trabalhar o ferro.

Os Celtas lutaram com as populações indígenas, mas acabaram por se fundir com elas.”

“História concisa de Portugal”, José Hermano Saraiva

P. S. O Pedro anunciou o fim do Flor de Obsessão (e mais, que irá ser mesmo apagado…). É um pouco da “magia e do encanto original” da blogosfera que se perde, com este abandono de um dos “fundadores” (a propósito, vejam-se os textos d’A Praia e do Barnabé… e, também, do Contra a Corrente).

P. S. 2 – O Blogue de Esquerda lança mesmo um “Manifesto pelo regresso da Coluna“!

[1006]

17 Fevereiro, 2004 at 1:55 pm

PORTUGAL – NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (I)

Em cada um dos últimos meses, tenho dedicado nesta página (de “Memória”…), uma semana a temas de História.

Nesta semana (e a continuar no próximo mês), farei referência – por via de excertos de uma obra de José Hermano Saraiva – à história do nascimento da nação portuguesa.

“Os mais antigos vestígios de vida humana encontrados no nosso território são os calhaus rolados em que um dos topos foi intencionalmente aguçado para os transformar em instrumentos de luta ou trabalho e que têm aparecido em vários pontos: a Gruta da Furninha, em Peniche (que nos períodos pré-históricos era uma ilha), nas proximidades das Caldas da Rainha, nos arrabaldes de Lisboa, na Arrábida, em Sines.

Os homens que as usaram viveram há aproximadamente quatrocentos mil anos e deixaram vestígios numa grande parte da Europa ocidental.

Há cerca de dez mil anos, o clima europeu estacionou em condições que não eram basicamente diferentes das actuais. Acabaram os grandes gelos, os mamutes e as renas foram-se deslocando para o norte. Desde então, a marcha da humanidade processou-se com maior rapidez e os vestígios da vida humana tornaram-se muito mais numerosos, porque o homem começou a agir sobre a natureza. Nos vales do Tejo e do Sado têm-se encontrado montes de restos de alimentos, formados especialmente por conchas de mariscos. Esses restos são em tal quantidade que indicam a existência de grupos, no mesmo local, durante centenas ou milhares de anos: é a primeira prova de vida sedentária no nosso território.”

“História concisa de Portugal”, José Hermano Saraiva

[1002]

16 Fevereiro, 2004 at 12:35 pm

QUANDO TUDO FALTAR RESTA A PALAVRA (V)

.No final violento e incerto de um século em que o estudo da palavra empenhou como nunca filológos, linguistas, semióticos, biólogos, filósofos . de Saussure a Derrida ., a crença no poder da palavra (ou do homem?) é tão forte como a descrença. A poesia de Rilke, Apollinaire, Pessoa, Arghezi, Pound, Eliot, Vallejo, Maiakovsi, Huidobro, Brecht, Drummond, Ritsos, João Cabral, Celan, Juarroz, parece veicular (e às vezes figurar) mais claramente do que a prosa os dois pontos de vista. Nas suas melhores expressões, a arte verbal das últimas décadas tornou-se cada vez mais enigmática porque se empenhou cada vez mais em decifrar os enigmas do mundo e do homem, dando conta de cisões, incompatibilidades, incertezas e limites que só nela e por ela parecem suspensos ou atenuados.

Por enquanto ainda poderemos continuar a dizer como António Machado, que, se nada mais tivermos de seguro, .nos queda la palabra…

“Quando tudo faltar resta a palavra (Arnaldo Saraiva) . Notícias do Milénio”

[938]

23 Janeiro, 2004 at 6:03 pm

QUANDO TUDO FALTAR RESTA A PALAVRA (IV)

.Se o romance atingira já no início do século XVII as alturas do .Dom Quixote., é no século XIX que, pela quantidade e pela qualidade, ele se impõe como uma espécie literária privilegiada, que ainda não deixou de ser, e se desdobrou em variantes que vão do romance histórico ao policial, do rural ao urbano, do psicológico ao de aventuras: Walter Scott, Dickens, Balzac, Eça, Machado de Assis, Flaubert, Dostoiewski, ou Knutt Hamsum, Proust, Kafka, Joyce, Guimarães Rosa, Bouhmil Hrabal, Beckett, Ítalo Calvino, Garcia Marquez, Kenzaburo Oe e Paul Auster..

“Quando tudo faltar resta a palavra” (Arnaldo Saraiva) . “Notícias do Milénio”

[935]

22 Janeiro, 2004 at 6:45 pm

QUANDO TUDO FALTAR RESTA A PALAVRA (III)

.É com o Renascimento, já depois da invenção da imprensa ou do livro por Gutenberg (1434), e quando se multiplicam gramáticos, filológos, dicionaristas e até tradutores, como Fernão de Oliveira, António de Nebrija e Lutero, que a prosa das línguas românicas atinge a perfeição, visível na ficção de Rabelais (1494-1553) ou de Bernardim Ribeiro (c.1480-?) e de Trancoso (c.1520-antes de 1596), mas visível também nos muitos livros de viagem que, à semelhança do pioneiro .Livro de Marco Polo” (1254-1324), dão conta de partes do planeta até então desconhecidas; Carminha, Fernão Mendes Pinto, Vespucci, Bartolomé de las Casas, etc.
.
O Renascimento e o Barroco favorecem também o aparecimento de obras teatrais como talvez não se escrevessem desde os gregos: Gil Vicente (1465-1536?), Lope de Vega (1562-1635), Shakespeare (1564-1616), Caldéron de la Barca (1600-1681), Molière (1622-1673) produzem autos, tragédias, comédias insuperáveis..

“Quando tudo faltar resta a palavra” (Arnaldo Saraiva) . “Notícias do Milénio”

[932]

21 Janeiro, 2004 at 8:02 am

QUANDO TUDO FALTAR RESTA A PALAVRA (II)

.. Entre estes numerosos poemas narrativos e de fôlego, incidindo sobre lutas e figuras típicas do Império Romano ou do carolíngio, dos tempos das cruzadas e dos tempos feudais, sobressaíram a .Chanson de Roland., escrita no fim do século XI, o .Cantar de Mio Cid., composto em 1140, e o .Cantar dos Nibelungos., do início do século XIII.

No século XVI as canções de gesta repercutiriam em poemas como .Orlando Furioso. de Ludovico Ariosto (1474-1533) . 46 cantos celebrando as lutas de Carlos Magno com Agramante ou os amores de Orlando e Angélica . ou como .Jerusalém Libertada. de Torquato Tasso (1544-1595) . 20 cantos à volta dos sucessos da primeira cruzada. Este poema apareceu no ano da morte de Camões, que em 1572 publicara o mais típico e mais original poema épico do Renascimento, .Os Lusíadas..

Mas a Idade Média também nos legou um .moderno. e complexo poema épico . a .Divina Comédia. de Dante (1265-1321); como nos legou as baladas e os .Testamentos. de Villon (1431-depois de 1463), onde o sentimento do tempo e o sentimento de culpa têm uma intensidade e uma expressão afins das modernas ..

“Quando tudo faltar resta a palavra” (Arnaldo Saraiva) . “Notícias do Milénio”

[931]

20 Janeiro, 2004 at 1:43 pm

QUANDO TUDO FALTAR RESTA A PALAVRA (I)

.Quando se aproximava do ano 1000 da era cristã, a humanidade já beneficiava de dois milhões de anos de comunicação por sons articulados; já se valia de muitas línguas, certamente muitas mais do que as três mil ou cinco mil que fala nos fins do século XX; já conhecia vários sistemas ou códigos de escrita, o primeiro dos quais inventado pelos sumérios entre 30 e 40 séculos a.C.; já dispunha de uma fecunda e diversificada literatura oral e escrita, egípcia, chinesa, indiana, mesopotâmica, hebraica, grega, latina; já contava com numerosos livros . tabuletas de argila e de madeira, rolos de papiros, volumes de pergaminho, codex; o papel, que os chineses usavam desde talvez 150 a.C., só seria usado na Europa a partir de 1150..

“Quando tudo faltar resta a palavra” (Arnaldo Saraiva) . “Notícias do Milénio”

[928]

19 Janeiro, 2004 at 12:33 pm

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