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Bruno Lage

Confesso que me sinto como se ainda estivesse em negação, incrédulo e sem conseguir compreender o que se passou desde Fevereiro.

Bruno Lage estreou-se no comando técnico do Benfica a 6 de Janeiro de 2019, no Estádio da Luz, recebendo o Rio Ave, em jogo da 16.ª jornada do campeonato.

Vindo de uma traumatizante derrota em Portimão – a qual sentenciou a carreira de Rui Vitória no clube -, por via de dois auto-golos (e que colocava então a equipa no 4.º lugar, a sete pontos do líder, FC Porto), aos vinte minutos de jogo, o Benfica, jogando em casa, via-se em desvantagem por 0-2… Era difícil começar pior. Mas o grupo uniu-se, revoltou-se e operou uma notável reviravolta, acabando por vencer por 4-2.

Até final da temporada de 2018-19, Bruno Lage acumularia um absolutamente incrível registo de 18 vitórias em 19 jornadas, tendo cedido um único empate, ante a B. SAD… depois de ter chegado a dispor de vantagem de 2-0.

Aos 4-2 frente ao Rio Ave, somaram-se outras doze (!) impressivas goleadas: 5-1 ao Boavista; 4-2 em Alvalade, frente ao Sporting; 3-0 nas Aves; 4-0 ao Chaves; 4-0 em Moreira de Cónegos; 4-1 em Santa Maria da Feira; 4-2 ao V. Setúbal; 6-0 ao Marítimo; 4-1 em Braga; 5-1 ao Portimonense (também numa épica reviravolta, com todos os cinco golos apontados na derradeira meia hora); 4-1 ao Santa Clara; para além do fantástico 10-0 ao Nacional (retenho especialmente a humildade de Bruno Lage nesse dia, quase como que a “pedir desculpa”).

Bruno Lage - 10-0

Numa caminhada que ninguém podia antecipar, o Benfica triunfaria em Guimarães, Alvalade, “Dragão”, Moreira de Cónegos, Braga e Vila do Conde, derrotando sucessivamente – em terreno alheio – todos os clubes classificados do 2.º ao 7.º lugares no final do campeonato!

Como consequência, o Benfica – com um sensacional registo de 103 golos marcados em 34 jogos – recuperou o significativo atraso com que partia, chegando, de forma brilhante, ao título.

A senda triunfal prosseguiu, na época de 2019-20, com um percurso quase a “papel químico”: nas primeiras 19 rondas, outra vez 18 vitórias, e um único desaire, em casa, com o FC Porto.

Isto é, sob a direcção de Bruno Lage, foi alcançado um impressionante ciclo de 18 vitórias consecutivas fora de casa, a que se somaram outros 18 triunfos (em 20 jogos) no Estádio da Luz, numa fenomenal série – a melhor de sempre da centenária história do Benfica – de 36 vitórias, 1 empate e 1 derrota, nos seus primeiros 38 jogos, com 119 golos marcados e 24 golos sofridos.

Subitamente, desde a 20.ª jornada, em dez jogos, apenas duas vitórias, quatro empates e quatro derrotas, invertendo-se os papéis: de sete pontos de avanço, na liderança, para seis pontos de atraso, em relação ao FC Porto.

O que se terá passado?

É verdade que Bruno Lage deixara entrever, no seu percurso triunfal, algumas fragilidades: se na primeira derrota, com o FC Porto, para a Taça da Liga, o resultado pareceu ser fortuito e injusto, perante a exibição efectuada, a eliminação nas meias-finais da Taça, em Alvalade, e, sobretudo, a oscilante campanha europeia não deixaram de suscitar alguma inquietude. Mas que, até certo ponto, tinha justificação na deliberada aposta na reconquista do título de Campeão.

Já esta época, no jogo com o FC Porto, na Luz – logo na 3.ª jornada -, o Benfica denotara absoluta incapacidade para conseguir contrariar a forma como o adversário se dispôs em campo. O desempenho a nível europeu voltou a ser titubeante; a participação na Taça da Liga, com três empates em outros tantos jogos, foi obviamente medíocre.

Mas a “roda” começou, claramente, a “desandar”, a partir do início de 2020: vitórias muito sofridas, em casa, ante o D. Aves, a B. SAD e, para a Taça, com o Famalicão, evidenciavam que algo não estava bem. A derrota no Porto seria o ponto culminante, do qual a equipa não conseguiria, nunca mais, recuperar.

As conferências de imprensa que eram um bálsamo (Bruno Lage nunca deixava de, pedagogicamente, de forma entusiasmada e completamente aberta, explicar as opções tomadas e dissecar as incidências de cada jogo) começaram gradualmente – à medida que os resultados negativos se iam tornando recorrentes – a banalizar-se, como se o discurso se tivesse de alguma forma esgotado, passando a socorrer-se de chavões e generalidades, “jogando mais à defesa”.

A contagiante alegria que transmitia, assim como alguma inocência e a genuinidade que transparecia foram-se esvaindo. Jogo após jogo, Bruno Lage parecia carregar um fardo cada vez mais pesado, aparentando crescente impotência para dar a volta à situação, pese embora, teimosamente, nunca tivesse deixado de acreditar, até ao fim (mesmo após a derrota na Madeira?).

O empate em Famalicão, que proporcionou o apuramento para a final da Taça, e as igualdades com Moreirense e V. Setúbal – ainda antes da interrupção do campeonato – eram sinais inequívocos. Depois de três meses de paragem, a retoma revelou-se penosa: outros dois empates, com Tondela e Portimonense, antes dos fatais desaires com o Santa Clara e Marítimo, função de erros defensivos primários (a par de uma quase total eficácia dos adversários).

Lamentável foi a forma como – ainda no cargo – a Direcção do Benfica logo começou, de forma atabalhoada, em notório desespero, a busca do seu sucessor, fragilizando ainda mais a sua posição, de incómodo extremo no que viria a ser o seu último desafio, na Madeira, em que, uma vez mais, faltou uma “pontinha” de felicidade, para evitar o descalabro.

Por tudo o que deu ao Benfica, Bruno Lage – um de nós, que tanto gostava de, no centro do relvado, fitar os adeptos nas bancadas – não merecia, nem a infeliz sucessão de resultados, que acabariam por ditar a sua saída, nem, sobretudo, a forma como foi “destratado” pela “estrutura” do clube.

Recupero as palavras de Vasco Mendonça, no “Expresso“:

Lembro-me que, depois de confirmado o 37, tinha elaborado mentalmente uma série de agradecimentos que partilharia se por acaso voltasse a cruzar-me contigo. Pelo título, claro, mas também pela cultura desportiva e pelos momentos dentro do 37: a reviravolta no primeiro jogo, a vitória no Dragão, o 10-0, outra reviravolta contra o Portimonense, uma das celebrações mais viscerais que este estádio da Luz viveu. […]

Há uma frase da qual tão cedo não me vou esquecer. Depois da vitória no Dragão, uma daquelas que dá a um treinador aquele capital que os benfiquistas reservam para os grandes, disseste humildemente que os jogadores fizeram de ti treinador. Tudo aquilo soou estranhamente decente no contexto do futebol português e foi-se prolongando ao ponto de até os adeptos dos rivais reconhecerem essa qualidade, um acontecimento muito raro por cá.

Não sei se os mesmos jogadores que fizeram de ti treinador campeão decidiram fazer de ti, por agora, treinador sem clube. Não sei exactamente em que parte do caminho é que te perdeste, ou se era eu que estava demasiado inebriado pelo milagre da época passada para ver o que estava à nossa frente. Talvez seja um pouco das duas coisas.

Suspeito que um dia saberemos todos melhor o que se passou e porque é que, de forma meio angustiante, te foste tornando parte do problema. Será que aceitaste ser parte do problema? Ou será que parte desse problema te foi imposto? Sinceramente ainda não percebi, mas uma coisa é evidente: acabaste por ser a única parte do problema que esta direcção pareceu interessada em resolver, ou seja, resolvendo pouco ou nada. Tu dirás de forma simples que é a vida de um treinador. E a vida de um adepto do Benfica é pedir a tua cabeça quando se ganha 2 jogos em 13. Faz parte. É um final triste, mas tenho a certeza que foi um dos maiores privilégios da tua vida.

Disseste uma vez, quase sem voz na noite mais feliz da tua passagem pelo clube, que era importante reconhecer a mais valia do adversário no momento das derrotas para que este reconhecesse a nossa mais valia no momento das vitórias. Obrigado pela decência que emprestaste ao cargo na maioria dos momentos. Não serviu para ganhar todos os jogos, mas penso que conquistou o respeito de muitos benfiquistas. Felicidades.

3 Julho, 2020 at 11:37 pm Deixe um comentário


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