O Pulsar do Campeonato – 1ª Jornada

(“O Templário”, 17.09.2026)

No arranque do Distrital da I Divisão da época de 2026-27, assinala-se, desde logo, a curiosidade de nenhuma equipa ter logrado marcar mais de dois golos: houve quatro vitórias por 2-0 e três por 2-1, para além de um empate a 2-2. Ao vencer, num “derby” entre vizinhos, no reduto do Porto Alto, o Samora Correia (de regresso às provas distritais após uma curta passagem pelo Campeonato de Portugal) terá mostrado já as primeiras credenciais como candidato. É de realçar também o triunfo, porventura menos expectável, do Ouriquense face ao Coruchense.

Para além do Samora, também U. Tomar e Torres Novas obtiveram êxitos extramuros, confirmando o favoritismo que, à partida, lhes seria atribuído nas visitas a Pontével e a Boleiros.

Anota-se, neste início de temporada, que o Amiense é o único totalista na competição nos últimos quinze anos, com presença ininterrupta na divisão principal do futebol distrital desde (pelo menos) 2011-12. Nesse mesmo período, Mação, Torres Novas e U. Tomar apenas não participaram numa edição, por terem disputado uma temporada nos campeonatos nacionais, cada um deles.

O emblema dos Amiais de Baixo é também – de entre os 16 clubes que disputam o campeonato deste ano – o recordista, atingindo a sua 52.ª participação na prova, à frente de Alcanenense e Coruchense (48) e de Torres Novas e U. Tomar (45 cada).

Destaques – O maior destaque da ronda inaugural vai para a vitória do Samora Correia no “derby” ante o Porto Alto, num duelo em estreia absoluta neste escalão. Este embate tinha ainda o acréscimo de interesse decorrente da notável campanha que a turma da AREPA realizou na época passada, terminando à beira de um lugar no pódio. Pois, os samorenses não deixaram os créditos por mãos alheias, saindo vencedores por 2-0 – com dois tentos apontados já na recta final da etapa complementar –, impondo, logo na abertura, o primeiro desaire a um conjunto que, no campeonato precedente, prolongara a invencibilidade ao longo de 23 jornadas!

O U. Tomar quebrou uma incrível sequência de quase seis meses sem ganhar – período em que somara apenas três pontos, nos últimos nove encontros do campeonato anterior –, desde que, a 22 de Março, fora vencer a… Pontével, por categórico 3-0. Foi, pois, necessário retornar a Pontével, para voltar “a ser feliz”.

Os unionistas colocaram-se em vantagem à beira do intervalo, na conversão de uma grande penalidade, a materializar a superioridade que tinham evidenciado, após desperdício de algumas ocasiões de golo. No segundo tempo, os donos da casa foram acreditando que seria possível evitar a derrota, e acabariam por empatar, também na conversão de castigo máximo, já dentro dos derradeiros dez minutos. Numa fase em que o jogo estava “partido”, os tomarenses chegaram à vitória mesmo em cima do minuto noventa, conquistando, por fim, os três pontos em disputa.

O Torres Novas foi também vencer em terreno alheio, em Boleiros, ante o novo primodivisionário (recente vice-campeão da II Divisão Distrital), Vasco da Gama. A formação torrejana impôs-se por 2-0, com um tento apontado em cada parte do desafio, confirmando os superiores argumentos de que disporá, depois de, na época finda, ter concluído a prova no pódio.

Merece ainda realce o triunfo alcançado pelo Entroncamento AC, na recepção ao Abrantes e Benfica. A turma da cidade ferroviária operou a reviravolta no marcador, com dois golos nos instantes finais, fixando o resultado em 2-1, depois de os abrantinos terem aberto o “placard”, já a meio da segunda parte. Um bom começo para a equipa agora orientada por Daniel Kenedy.

Surpresas – A maior surpresa da jornada foi a vitória do Ouriquense ante o Coruchense, por 2-0, com os golos obtidos também na segunda parte. Foi um desfecho que não estaria nas expectativas gerais, marcando o regresso do grupo de Vila Chã de Ourique à I Divisão, após uma longa ausência, de cerca de 15 anos – desde a desistência da competição, em Novembro de 2011. Os locais foram capazes de se superiorizar ao conjunto do Sorraia, 6.º classificado no ano anterior, e que revelara então potencial para fazer melhor. Mais adiante se poderá aquilatar se este terá sido um “passo em falso” dos visitantes, ou se os anfitriões vão continuar a surpreender pela positiva.

Algo imprevisto foi também o empate (2-2) no “derby” entre Amiense e Moçarriense. O grupo dos Amiais, na sua “fortaleza”, começou por dispor de vantagem de dois tentos, apontados ainda na metade inicial do primeiro tempo. Contudo, a turma da Moçarria reduziu antes da meia hora, acabando por restabelecer a igualdade já no quinto minuto do tempo de compensação.

Confirmações – O Mação – que deixara escapar o título de Campeão Distrital na temporada anterior por um único ponto, voltando a perfilar-se como um dos principais candidatos nesta nova edição da prova – recebeu e bateu o At. Ouriense, também por 2-0, com um golo a fechar cada uma das partes do desafio. Os maçaenses entraram cientes de que foram precisamente os dois empates cedidos ante a equipa de Ourém que lhe custaram o troféu, não vacilando desta feita.

Também o Alcanenense (5.º classificado no ano anterior), visitado pelo Águias de Alpiarça (7.º) confirmou o favoritismo que lhe era creditado. A equipa de Alcanena venceu por tangencial 2-1, tendo, aliás, chegado ao intervalo com vantagem de dois golos. Os alpiarcenses ainda assustaram, reduzindo a diferença, não tendo, todavia, evitado a derrota.

Liga 3 – Já com cinco rondas disputadas, o U. Santarém alcançou, no passado fim-de-semana, a sua primeira vitória nesta época. Com este resultado, passa a somar quatro pontos, posicionando-se no 9.º (penúltimo) lugar, só à frente do V. Sernache (que regista um único ponto). Ainda assim, os escalabitanos estão, por ora, a apenas três pontos do quarto classificado, precisamente o Louletano, terreno onde foram ganhar por 2-1. A reviravolta em Loulé consumou-se nos últimos cinco minutos, revertendo a situação de desvantagem que registaram durante quase todo o jogo.

Campeonato de Portugal – Tendo-se atingido, neste caso, a 4.ª jornada, os dois representantes do Distrito têm denotado algumas dificuldades: o Fátima, com quatro pontos (fruto de uma vitória e um empate) partilha o 9.º/10.º posto com o At. Malveira, dois pontos acima do Sertanense; por sua vez, o Fazendense é 12.º (antepenúltimo), só com um ponto (contando um jogo em atraso).

Ambas as formações sofreram desaires caseiros no último Domingo: os fatimenses foram batidos pelo Oliveira do Hospital (actual vice-líder, a um ponto do Mortágua), por via de um solitário tento, sofrido num “penalty” à beira do fim do encontro; já o conjunto das Fazendas de Almeirim (recente Campeão Distrital) perdeu por 1-2 ante O Elvas (5.º classificado), tendo registado o seu ponto de honra também já no final da partida.

Antevisão – Na 2.ª jornada do Distrital, destacam-se os seguintes confrontos: Coruchense-Alcanenense, Moçarriense-Mação (este adiado para dia 23); e Ouriquense-Torres Novas e Vasco da Gama-U. Tomar (nestes dois últimos casos, devido a inversão da ordem de jogos).

Participam na 2.ª eliminatória da Taça de Portugal quatro clubes da região: o U. Santarém recebe o Merelinense (Distrital de Braga), tendo o Fátima a visita do Vinhais, “lanterna vermelha” da Série B do Campeonato de Portugal, emblema que conta por derrotas os quatro jogos realizados; por seu turno, o Fazendense será anfitrião do Ginásio Figueirense (Castelo Rodrigo – Distrital da Guarda). Já o Mação desloca-se a Alpendorada (11.º da Série B do Campeonato de Portugal).

Na ronda inicial da prova rainha, o U. Santarém ficara isento por sorteio, ao passo que Fátima, Mação e Fazendense eliminaram, respectivamente, Benfica e Castelo Branco (3-1), Gavionenses (5-0) e Moçarriense (1-0) – sendo este o terceiro desafio sucessivo entre os grupos das Fazendas e da Moçarria, após os duelos na Final da Taça do Ribatejo e na Supertaça Dr. Alves Vieira.

(Artigo publicado no jornal “O Templário”, de 17 de Setembro de 2026)

20 Setembro, 2026 at 11:00 am Deixe um comentário

Liga Europa – 2026-27 – 1ª Jornada – Resultados e Classificação

16.09.2026 - Ararat-Armenia - Sparta Praha                1-4
16.09.2026 - Omonoia - Celta de Vigo                      1-0
16.09.2026 - AC Milan - Benfica                           0-2
16.09.2026 - Bayer Leverkusen - NK Celje                  2-0
16.09.2026 - Hapoel Beer-Sheva - Dinamo Zagreb            0-0
16.09.2026 - Olympiakos - Jagiellonia Białystok           2-1
16.09.2026 - Anderlecht - Ol. Lyonnais                    1-2
16.09.2026 - Sturm Graz - Stade Rennais                   0-0
16.09.2026 - Sunderland - AZ Alkmaar                      1-0
17.09.2026 - OFI Creta - Hoffenheim                       2-0
17.09.2026 - Levski Sofia - FC Salzburg                   0-1
17.09.2026 - Beşiktaş - Ol. Marseille                     4-1
17.09.2026 - Celtic - Ferencvárosi                        1-3
17.09.2026 - Crystal Palace - Lech Poznań                 4-0
17.09.2026 - Viktoria Plzeň - Union Saint-Gilloise        0-3
17.09.2026 - Juventus - N.E.C. Nijmegen                   5-0
17.09.2026 - Lillestrøm - Torreense                       1-2
17.09.2026 - Real Sociedad - Bournemouth                  1-2

16 Setembro, 2026 at 10:05 pm Deixe um comentário

Liga Europa – 1ª Jornada – AC Milan – Benfica

AC MilanAC Milan – Mike Maignan, Filippo Terracciano (45m – Mario Gila), Koni De Winter, Strahinja Pavlović, Samuel Chukwueze, Ardon Jashari (73m – Adrien Rabiot), Yunus Musah, Davide Bartesaghi (57m – Alexis Saelemaekers), Omari Hutchinson (45m – Christian Pulišić), Alphadjo Cissè (57m – Diego Moreira) e Gonçalo Ramos

BenficaBenfica – Anatoliy Trubin, Daniel Banjaqui, Alessandro Circati, Tomás Araújo, Souffian El Karouani (88m – Samuel Dahl), Fredrik Aursnes (70m – Leandro Barreiro), João Palhinha, Dodi Lukébakio, Heorhiy Sudakov (70m – Gianluca Prestianni), Jakub Kamiński (80m – Andreas Schjelderup) e Jhon Durán (80m – Evangelos “Vangelis” Pavlídis)

0-1 – Dodi Lukébakio – 16m
0-2 – Jakub Kamiński – 54m

Cartões amarelos – Strahinja Pavlović (11m); Souffian El Karouani (26m), Jhon Durán (37m), Daniel Banjaqui (77m), Leandro Barreiro (85m) e Evangelos “Vangelis” Pavlídis (90m)

Árbitro – Jarred Gillett (Austrália)

16 Setembro, 2026 at 9:56 pm Deixe um comentário

Apresentação do Livro de Alexandre Rosa Freitas

  1. Introdução

Boa tarde a todos. Estamos, hoje, aqui reunidos para celebrar a partilha de uma vivência.

Cruzei-me, pela primeira vez, com o Alexandre Rosa Freitas em Maio de 2010, há já 16 anos, no contexto de homenagem promovida pelos Veteranos do União de Tomar aos Campeões Nacionais da II Divisão de 1973-74 – ele que fora um dos obreiros da histórica subida do União à I Divisão, em 1968.

Reencontrei-o, algum tempo depois, no final de 2016, a propósito da publicação do meu livro sobre a Matrena, em que o Alexandre teve importante participação, quer na recolha de imagens históricas, na revisão do texto, como, especialmente, na promoção e divulgação do livro, contribuindo para assegurar que pudesse ser dado à estampa.

Mais recentemente, há cerca de dois anos, o Alexandre concedeu-me também pertinente testemunho enquanto antigo aluno da Escola Industrial e Comercial, no contexto da publicação de outro livro, que escrevi, sobre os 140 anos da Escola Jácome Ratton.

Nutro, pois, especial apreço e simpatia pelo Alexandre, pelo que, decerto, não serei absolutamente neutro nesta apresentação. Mas, o livro, a forma como está escrito, e o que narra e descreve, fala por si.

Confesso que, ao ser informado pelo Alexandre que estava a escrever este livro – de que me facultou uma primeira versão –, foi com grande curiosidade que me abalancei à sua leitura, tendo dado, com muito gosto, algum apoio a nível de aspectos práticos relacionados com a edição.

É um prazer apresentar uma obra tão genuína, em que se manifesta uma memória prodigiosa, com recurso abundante ao discurso directo, imprimindo extraordinária vivacidade ao livro, que se lê de um fôlego… mesmo que nos deixe a pensar durante muito tempo.

Quando lemos o título “A vida que me fez como sou”, logo depreendemos que não se trata de um livro de ficção. De facto, estamos prestes a abrir a porta para uma vida real.

Como que olhando num espelho retrovisor, o Alexandre faz algo, nestas páginas, que exige muita coragem: relata os êxitos, mas sem esconder os “fantasmas”, colocando a sua verdade, bem como toda a sua vulnerabilidade nas nossas mãos.

Num livro de grande força humana, partilha o seu percurso, mostrando que a matéria-prima da vida não são os erros que cometemos, mas sim a folha em branco que, a partir deles, conseguimos escrever.

A narrativa arranca com as origens do autor. Mostra as fundações da sua infância e juventude, os cenários e as primeiras pessoas que influenciaram a sua caminhada.

O núcleo da história foca-se nas grandes viragens. Sejam desafios profissionais, provações pessoais ou escolhas difíceis, o livro centra-se na ideia de que os momentos de pressão são aqueles que definem quem somos.

A tragédia que viveu e a superação que revelou também o fizeram como ele é. Um homem moldado pelo papel, pelos recintos da prática desportiva, mas também pela capacidade de se levantar depois da queda mais dura.

Destaco, sobretudo, a sinceridade da escrita: é uma partilha transparente, sem filtros, onde o leitor se sente quase como se estivesse a ter uma conversa de café com o próprio Alexandre.

O facto de ser uma obra relativamente curta é uma das suas virtudes. Em cerca de 200 páginas, não se perde em floreados inúteis. A escrita é directa, autêntica, orientada para o essencial das memórias, tornando a leitura fluida, dinâmica e muito visual, qual filme a ser projetado numa tela.

Embora seja a história do Alexandre, o livro toca em sentimentos universais. A leitura interpela-nos a reflectir sobre a nossa própria vida: Quais foram os momentos que me fizeram como sou hoje?

  1. O Homem, o Acidente e a Prisão

A primeira parte destas memórias assenta no percurso de um homem moldado pelo trabalho e pela superação, na exigente indústria de fabricação de papel, como na prática desportiva a nível amador, mas de patamar muito considerável, tendo contribuído activamente para a subida da sua equipa à I Divisão Nacional.

Mas, também, na fragilidade: as nossas vidas podem mudar numa fracção de segundo.

O Alexandre transporta-nos para um dia de Julho de 1972. Um domingo de calor sufocante, com 38 graus. Um dia que tinha tudo para ser feliz — o casamento de amigos na Charola do Convento de Cristo, um jogo de futebol pelo Carregueiros onde até marcou um golo de canto direto… Depois, o regresso à festa, o cansaço acumulado, uma discussão acesa e a fatal decisão de pegar no carro.

O Alexandre entra no seu Toyota vermelho, percorre poucas centenas de metros, ultrapassa uma camioneta e “apaga-se”, só acordando no dia seguinte, numa clínica. Sofrera um trágico acidente de viação em São Lourenço, à entrada de Tomar.

A forma como descreve a gravidade daquele momento e o rescaldo no Tribunal de Tomar é de uma honestidade brutal. Assumindo a responsabilidade, escreve: «Estive “morto”, ressuscitei, atenderam os feridos, o condutor do primeiro carro faleceu, e, o do segundo, faleceu dias mais tarde.»

Levado a Julgamento, foi condenado a cumprir pena de seis meses e meio de detenção. Um momento muito sombrio na vida de qualquer jovem. Mas é na forma como encara esta provação que percebemos o homem que ele é.

Quero ler-vos a frase com que encerra esse capítulo, uma das mais fortes do livro: «Aprendi no berço, com pais que nada ou pouco sabiam ler e escrever, na rua, na escola, no desporto, no trabalho, mas onde mais aprendi, foi neste Estabelecimento Prisional. Sem rebuço, nem vergonha por dizê-lo.»

Os capítulos sobre a Cadeia Regional de Leiria e a Prisão Escola de Leiria são verdadeiramente singulares, de enorme riqueza de conteúdo.

Em vez de se deixar abater pelo ambiente hostil, demonstrando resiliência, o Alexandre adaptou-se com inteligência e astúcia prática, ocupando o tempo com trabalhos agrícolas, tarefas na capela e como responsável pela biblioteca.

O relato humaniza a experiência do cárcere, revelando detalhes do quotidiano, como a partilha de tarefas e pequenos estratagemas para garantir a sobrevivência e a dignidade na prisão.

Sublinho ainda os trechos que narram a passagem do autor ao serviço como Polícia Militar, num relato de rara força, que não tenta heroificar ninguém nem simplificar a realidade. Mostra homens dentro de uma máquina militar, cada um a tentar sobreviver – física, moral e humanamente – num tempo muito duro de Portugal.

Impressionam em particular, quer a descrição, com enorme detalhe, da parte operacional de uma escolta – comandada pelo então Furriel Miliciano Alexandre Rosa Freitas – a um militar “desertor” (palavra de que não gostava, preferindo antes “militar evadido”), assim como a forma como vai sendo suscitado, ao longo da narrativa, o conflito entre disciplina militar e consciência humana.

Alternando tensão e humor, a autenticidade está bem expressa nos procedimentos, nos toques regimentais militares, nas responsabilidades, no medo real da eventual fuga do detido, na tensão hierárquica entre oficiais, no peso disciplinar que incumbia sobre quem escoltava presos, no orgulho próprio da Polícia Militar, como, também, na mistura tipicamente portuguesa de dureza e humanidade. Nada soa inventado. Pelo contrário: soa vivido.

Recorda-nos que os militares eram instruídos não «para matar», mas «para não morrer»; ilustra de forma notável a forma como manteve a autoridade sem humilhar o evadido; culminando no abraço final, entre polícia e detido, que fecha simbolicamente esse episódio: até aí, o evadido era um homem sob custódia; naquele instante voltou a ser apenas um homem.

A frase do evadido à chegada a Penamacor é devastadora: «se fosse tratado como fui hoje pelo nosso Furriel e pelos seus mandados, jamais voltaria a fugir.»

Porque expõe uma verdade simples: a autoridade firme, mas digna, resulta melhor do que a brutalidade.

O retrato do Portugal desse tempo também aparece inteiro: a guerra colonial, a emigração clandestina, a pobreza, o medo da mobilização, os quartéis, os comboios humanos enviados para África, até à erosão silenciosa do regime antes do 25 de Abril.

  1. A Saga Industrial: Da “rejeição” ao “Topo”

Este livro atravessa temas como a redenção pessoal, a resiliência e a dedicação profissional. Após cumprir a pena que lhe fora imposta, o Alexandre levantou-se. Especializou-se na arte do papel e a sua competência cruzou fronteiras.

Retomou a carreira profissional, na fábrica de Porto de Cavaleiros, onde o seu trabalho foi de tal forma reconhecido que a Administração lhe pagou os salários do período em que esteve detido.

Nos anos seguintes, o Alexandre notabilizou-se de tal forma na indústria do papel, que liderou modernizações tecnológicas significativas, após ter “estagiado” em Paris e Viena. E o reconhecimento definitivo chegou em 1985, com um convite irrecusável para se mudar para Espanha, para ser Director Técnico de uma grande fábrica em Villarreal, a Clariana.

Aí, enfrentou o preconceito daqueles que não aceitavam que um, cito, “portuguesito” mandasse em centenas de trabalhadores. O livro partilha connosco, com humor e detalhe, este choque cultural. Foi alvo de ardis e sabotagens, mas, com determinação, provou o seu valor pelo trabalho. Mais tarde, na Tiscel, viu a fábrica arder e liderou a reconstrução em 21 dias de trabalho contínuo, sem folgas.

O “Topo” da carreira chega em 1992, quando aceita o convite para regressar a Portugal, como Director-Geral da IPT (Indústrias de Papel de Tomar), passando, numa conjuntura muito complexa, a liderar três fábricas: Porto de Cavaleiros, Matrena e Góis.

  1. O Regresso às Origens e o “Puto” de Santa Cita

O livro oferece-nos uma das reflexões mais tocantes sobre esta reviravolta da vida. Vou ler-vos o que o Alexandre escreveu ao revisitar o seu percurso:

«Um “puto” de Santa Cita, que, até aos seis anos, tomava banho nu no rio Nabão, que alguma vez, aos onze anos, não pagou bilhete no comboio […] “desviou” fruta na horta […], foi Polícia Militar, esteve privado da liberdade em Leiria, meteu a cabeça em máquinas onde muitos não meteram as mãos, veraneou por Espanha, agora convidado para Director Geral da IPT. Será que tinha de usar fato e gravata, ser cliente no café Paraíso […]? Não creio, não é possível. Mas foi.»

Aproveito para abrir um breve parêntesis: o desporto puro e amador – o futebol, o basquetebol e o voleibol – fora também uma grande escola. E a vida deu voltas tão bonitas que aquele mesmo miúdo que começara por jogar descalço, viria a ser vencedor da Zona Norte na II Divisão Nacional pelo U. Tomar, e também Campeão Distrital pelo Matrena, aí terminando a sua trajectória desportiva como treinador do lendário Ernesto Figueiredo, o “Altafini de Cernache”, jogador do Sporting Clube Portug. e internacional pela Selecção de Portugal, participante do Mundial de 1966.

Por fim, depois daquele regresso “triunfal” a Tomar em termos profissionais, a vida desafiou-o, ainda nos anos 90, a rumar a Norte, para Espinho (Fábrica de Azenha), e para a Gopaca, em Paços de Brandão, onde também assumiu a Direcção de Produção.

  1. O Encerramento: O Rio da Vida e o Juízo Final

Mas é no último capítulo, no “Encerramento”, que o Alexandre nos abre, por completo, o coração.

Aos 81 anos de idade, a viver sozinho em São Félix da Marinha — onde caminha diariamente seis quilómetros pelo passadiço da praia —, ele olha para o espelho sem medos.

Assume o seu forte carácter, o humor acutilante, a ironia mordaz e a intolerância perante a mentira e a injustiça. E escreve: «A solidão é o preço da liberdade».

No momento mais poético do livro, o autor desvenda o seu último desejo: que as suas cinzas fossem depositadas na praia do Agroal, imaginando uma deslumbrante viagem pelas águas do Nabão, passando por Porto de Cavaleiros (onde trabalhou), Tomar (onde estudou), Santa Cita (onde nasceu), Matrena (onde aprendeu), juntando-se ao Zêzere e ao Tejo em Constância, circundando o Castelo de Almourol, Santarém, Lisboa, Cacilhas… até desaguarem no Mar. É a geografia perfeita da sua alma.

E com uma lucidez desarmante, desafia as próprias convenções da fé. Afirmando-se um homem católico e praticante, que reza todas as noites, escreve com uma honestidade provocadora:

«Deus e o Diabo, não se entenderiam sobre a minha pessoa e personalidade. Teriam de decidir por moeda ao ar. Cara ou coroa. Se me perguntassem: Céu ou Inferno, que escolherias? Inferno, diria. […] Diz a Igreja que, quem merecer o Céu, tem a vida eterna. Não, vida eterna, Não. Para sofrimento, foi suficiente o que sofri na terra.»

  1. Conclusão

Em suma, «A vida que me fez como sou» é uma lição para todos nós. Lembra-nos de que as nossas memórias têm valor e que a nossa história merece ser contada, sem pruridos de tal poder ser considerado, de alguma forma, um exercício narcísico.

Mas esta obra é mais do que um mero registo de memórias; é um manifesto de autodescoberta de um homem livre, que se recusa a aceitar migalhas, que prefere a solidão crua a uma farsa, e que sabe que – como ele próprio diz – «ontem passou, hoje é para viver, amanhã não sei se chego. Um dia de cada vez […].»

Um dos grandes méritos deste livro é que o autor não escreve como quem queira “ajustar contas”, mas como quem quer compreender o que viveu. Isso dá credibilidade ao texto.

O Alexandre convida-nos, no final do livro, a fazer algo muito simples enquanto aqui andamos: «façamos do tempo, paz, alegria e boa vivência na comunidade».

Esta é, pois, uma leitura recomendada não só para quem conhece o trajecto do autor, mas para todos os que apreciam histórias reais de resiliência e identidade.

Termino, dando os Parabéns ao Alexandre Rosa Freitas pela coragem de escrever e publicar este livro, sobre uma vida de que certamente sentirá orgulho, deixando-nos um exemplo de que o nosso passado não nos prende, mas constrói-nos.

Obrigado por este contributo, e, acima de tudo, pela generosidade desta partilha.

Convido todos os presentes a mergulhar nas páginas deste livro memorável e a descobrir o homem por trás da história.

Muito obrigado a todos, e a palavra, agora, é do Alexandre!

12 Setembro, 2026 at 4:00 pm Deixe um comentário

Liga dos Campeões – 2026-27 – 1ª Jornada – Resultados e Classificação

08.09.2026 - AEK Athens - LASK                            1-0
08.09.2026 - Club Brugge - Aston Villa                    2-3
08.09.2026 - Borussia Dortmund - Villarreal               3-2
08.09.2026 - FC Porto - Manchester City                   0-2
08.09.2026 - Lille - Real Betis                           2-3
08.09.2026 - Real Madrid - Internazionale                 2-1
09.09.2026 - FC Barcelona - Feyenoord                     5-1
09.09.2026 - VfB Stuttgart - Viking FK                    3-1
09.09.2026 - Liverpool - Atlético de Madrid               2-1
09.09.2026 - Paris Saint-Germain - Slovan Bratislava      6-1
09.09.2026 - Sporting - Galatasaray                       3-1
09.09.2026 - Napoli - Arsenal                             0-1
10.09.2026 - Fenerbahçe - AS Roma                         1-1
10.09.2026 - PSV Eindhoven - Shakhtar Donetsk             1-1
10.09.2026 - Como - RB Leipzig                            4-1
10.09.2026 - Bayern München - Bodø/Glimt                  5-0
10.09.2026 - Manchester United - Sabah                    4-0
10.09.2026 - Slavia Praha - Lens                          2-3

10 Setembro, 2026 at 9:58 pm Deixe um comentário

Liga Conferência – 2026-27 – Calendário

É o seguinte o calendário completo da “UEFA Conference League” 2026-27:

(clicar na imagem para ampliar)

29 Agosto, 2026 at 8:43 pm Deixe um comentário

Liga Europa – 2026-27 – Calendário

É o seguinte o calendário completo da “Europa League” 2026-27:

(clicar na imagem para ampliar)

29 Agosto, 2026 at 8:09 pm Deixe um comentário

Liga dos Campeões – 2026-27 – Calendário

É o seguinte o calendário completo da “Champions League” 2026-27:

(clicar na imagem para ampliar)

29 Agosto, 2026 at 6:21 pm Deixe um comentário

Liga Conferência – 2026-27 – Sorteio

Igualmente na terceira época do novo formato da prova, neste caso, numa “Liga” disputada em seis rondas, com cada clube a defrontar um adversário de cada um dos “Potes” 1 a 6, é o seguinte o sorteio da “UEFA Conference League” 2026-27:

(clicar na imagem para ampliar)

As seis rondas serão disputadas, a 15 de Outubro (1.ª), 22 de Outubro (2.ª), 5 de Novembro (3.ª), 26 de Novembro (4.ª), 10 de Dezembro (5.ª) e 17 de Dezembro (6.ª e última jornada, com todos os 18 jogos no mesmo dia e à mesma hora).

A Final da Liga Conferência desta temporada é prevista disputar-se no “Beşiktaş Stadium”, em Istambul, Turquia, a 2 de Junho de 2027.

28 Agosto, 2026 at 1:54 pm Deixe um comentário

Liga Europa – 2026-27 – Sorteio

Também na terceira temporada neste novo formato, numa “Liga” disputada em oito rondas, com cada clube a defrontar dois adversários de cada um dos “Potes” 1 a 4, é o seguinte o sorteio da “Europa League” 2026-27, indicando-se a sombreado, para cada equipa, os jogos a disputar fora de casa:

(clicar na imagem para ampliar)

As oito rondas serão disputadas, a 16 e 17 de Setembro (1.ª), 15 de Outubro (2.ª), 22 de Outubro (3.ª), 5 de Novembro (4.ª), 26 de Novembro (5.ª), 10 de Dezembro (6.ª), 21 de Janeiro (7.ª) e 28 de Janeiro (8.ª e última jornada, com todos os 18 jogos no mesmo dia e à mesma hora).

A Final da Liga Europa desta época é prevista disputar-se no “Waldstadion”, em Frankfurt, Alemanha, a 26 de Maio de 2027.

Apenas três clubes garantiram a participação nas três edições deste novo formato, em “Fase de Liga”: Ferencvárosi, Ol. Lyonnais e Viktoria Plzeň.

28 Agosto, 2026 at 1:18 pm Deixe um comentário

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