Posts tagged ‘Camões’

"OS LUSÍADAS" (II)

No Canto II, com a chegada a Mombaça (Quénia), Baco continua a sua acção, instigando os mouros contra os portugueses. Seriam salvos por Vénus, afastando a armada, e intercedendo junto de Júpiter, profeta de feitos gloriosos dos portugueses no Oriente, aparecendo Mercúrio num sonho a Vasco da Gama e aconselhando-o a dirigir-se a Melinde, onde seria bem recebido.

“Já neste tempo o lúcido Planeta
Que as horas vai do dia distinguindo,
Chegava à desejada e lenta meta,
A luz celeste às gentes encobrindo;
E da casa marítima secreta
Lhe estava o Deus Nocturno a porta abrindo,
Quando as infidas gentes se chegaram
Às naus, que pouco havia que ancoraram.

Dantre eles um, que traz encomendado
O mortífero engano, assi dizia:
– «Capitão valeroso, que cortado
Tens de Neptuno o reino e salsa via,
O Rei que manda esta Ilha, alvoraçado
Da vinda tua, tem tanta alegria
Que não deseja mais que agasalhar-te,
Ver-te e do necessário reformar-te.

«E porque está em extremo desejoso
De te ver, como cousa nomeada,
Te roga que, de nada receoso,
Entres a barra, tu com toda armada;
E porque do caminho trabalhoso
Trarás a gente débil e cansada,
Diz que na terra podes reformá-la,
Que a natureza obriga a desejá-la.

«E se buscando vás mercadoria
Que produze o aurífero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rígido diamante,
Daqui levarás tudo tão sobejo
Com que faças o fim a teu desejo.»”

[1830]

5 Novembro, 2004 at 6:52 pm

"OS LUSÍADAS" (I)

A obra épica de Camões compreende dez partes, designadas por Cantos, cada um com um número variável de estâncias (sendo o maior o Canto X); as estrofes são oitavas, compostas portanto de oito versos, sempre com o mesmo esquema de rimas (rima cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos); cada verso é constituído por dez sílabas métricas.

O Canto I inicia-se com a “Proposição”, em que é apresentado o objectivo da obra, que, tratando-se de uma epopeia, é o de celebrar os feitos e conquistas lusitanos (vitórias em África e na Ásia, desde D. João a D. Manuel e as navegações no Oriente) – centrada portanto na celebração de uma viagem, na história de um povo, na vitória sobre “os deuses” –, logo seguida da “Invocação”, em que o poeta solicita às ninfas do Tejo (musas) que lhe dêem inspiração, a que se segue a “Dedicatória”, a oferenda do poema ao Rei D. Sebastião.

A narrativa apenas começa na estância 19, com a armada de Vasco da Gama já a meio da viagem, no Índico, a caminho de Moçambique, enquanto que o Concílio dos deuses aprecia se deverão ajudar (Júpiter e Vénus) ou impedir (Baco) os portugueses na sua ousada aventura; com a “vitória” da tendência apoiante, resta a Baco colocar obstáculos à empreitada dos portugueses no caminho até à Índia, recorrendo para tal às ciladas dos povos africanos (Rei de Moçambique).

“As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando:
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”

[1828]

4 Novembro, 2004 at 6:03 pm

CAMÕES (III)

Camões Em 1567, acompanha o capitão Pêro Barreto a Moçambique, onde continuaria a viver da generosidade dos amigos, ocupando-se então na revisão do manuscrito de “Os Lusíadas”.

Regressado a Lisboa em 1569 com a ajuda de Diogo do Couto, trazendo consigo Jau, o escravo javanês comprado em Moçambique, dedicou todos os seus esforços à impressão da sua obra-prima, contando com o patrocínio de D. Manuel de Portugal (Conde de Vimioso), o que conseguiria fazer em 1572, na oficina do mestre António Gonçalves.

Viria a alcançar grande êxito, recebendo paralelamente, por alvará de D. Sebastião, a quem tinha dedicado o poema, uma tença trienal de 15 000 réis, ou seja, 40 réis por dia (“em respeito aos serviços prestados na Índia e pela suficiência que mostrou no livro sobre as coisas de tal lugar”). A pensão (correspondendo a cerca de ¼ do salário de um carpinteiro) viria a ser renovada em 1575 e em 1578.

Em 1578, partia para o Norte de África o Rei e o seu exército, para a trágica derrota de Alcácer Quibir.

Em 1579, a peste grassa em Lisboa. Camões, entretanto regressado, é atacado pela doença; deixaria a vida numa pobre casa da Calçada de Santana, a 10 de Junho de 1580, que viria a ser consagrado como feriado: “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”.

Mais tarde, passaria a repousar no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

(Biografia baseada nomeadamente no texto “Camões, Poeta pelo Mundo em Pedaços Repartido”, de Aníbal Pinto de Castro, na página do Instituto Camões).

[1826]

3 Novembro, 2004 at 6:36 pm 1 comentário

CAMÕES (II)

Camões Após o regresso a Lisboa, retomou a vida boémia, envolvendo-se novamente numa rixa que o levaria a ser preso na cadeia do Tronco da cidade durante alguns meses, tendo sido libertado por carta régia de perdão de Março de 1552, de D. João III, com a condição de servir na milícia do Oriente durante três anos, pelo que embarca, em 1553, para a Índia, na armada de Fernão Álvares Cabral.

Chegado a Goa, é integrado na expedição organizada pelo Vice-Rei D. Afonso de Noronha contra o Rei de Chembe, na costa do Malabar. De seguida, em 1554, sob o comando de D. Fernando de Meneses, integrou a armada que patrulhava o Mar Vermelho, em perseguição a navios mouros que comercializavam entre a Índia e o Egipto.

Seria depois nomeado “Provedor-Mor dos defuntos nas partes da China”, em Macau, entreposto comercial português na China. Começa então a escrever “Os Lusíadas”. O seu comportamento não terá sido contudo o melhor, uma vez que, ao regressar do Japão, Leonel de Sousa o obriga a regressar a Goa, para responder em tribunal.

Na viagem, no final de 1558 ou início de 1559, naufraga na costa do Cambodja, na foz do rio Mekong, conseguindo apenas salvar, a custo, o manuscrito de “Os Lusíadas”, já numa fase adiantada. Nesse naufrágio, teria perdido a companheira chinesa (Dinamene).

Depois de permanecer na região em companhia de monges budistas, acabaria por chegar a Goa em 1560, numa situação precária que o levou a solicitar a protecção do Vice-Rei D. Constantino de Bragança, procurando ser libertado da prisão a que fora submetido, motivada por dívidas, e, posteriormente, do novo Vice-Rei, D. Francisco Coutinho (Conde do Redondo).

[1823]

2 Novembro, 2004 at 6:28 pm

CAMÕES (I)

Camoes A biografia de Camões, maior poeta português de sempre, apresenta diversos aspectos em que, não existindo base documental segura, se baseia em indícios e, em alguns casos, na “lenda”.

Luís Vaz de Camões nasceu provavelmente em Lisboa (ou Coimbra?), em 1524 ou 1525, numa família da pequena nobreza, de origem galega, filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá e Macedo.

Tendo a sua educação sido iniciada em Lisboa por dominicanos e jesuítas, terá depois estudado em Coimbra, eventualmente no Mosteiro de Santa Cruz (de que era prior o tio, D. Bento de Camões), até cerca dos 18 anos, sem chegar contudo a frequentar a Universidade.

Nessa ocasião, frequenta os centros aristocráticos, onde tem acesso às obras de Petrarca, que tomaria por modelo, obtendo domínio sobre a literatura clássica da Grécia e Roma; lê latim e aprende a escrever em castelhano.

Entre 1542 e 1545, terá vivido em Lisboa, rapidamente se notabilizando como poeta, apaixonando-se por Catharina de Atayde, dama da Rainha (a que dedicou poemas, designando-a pelo anagrama de “Natércia”).

Caracteriza-se por um carácter folgado e briguento, vindo as suas frequentes desavenças a provocar o seu desterro no Ribatejo, em 1548.

Depois de viver seis meses na província, com dificuldades financeiras, resolve alistar-se na milícia do Ultramar. Cerca de 1549, terá ido com o exército para Ceuta, onde permaneceria até 1551, sendo nessa ocasião ferido, o que o levou a perder um dos olhos, na Batalha de Mazagão, contra os Mouros.

Há 1 ano no Memória Virtual – Visão (a partir) de Angola

[1821]

1 Novembro, 2004 at 11:28 am

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