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CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (XII)

“Foi o capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água que, a nosso parecer, era esta mesma que vem ter à praia em que nós tomámos água. Ali ficámos um pedaço bebendo e folgando ao longo dela, entre esse arvoredo, que é tanto e tamanho e tão basto e de, tantas prumagens que lhe não pode homem dar conto. Há entre ele muitas palmas de que colhemos muitos e bons palmitos.

Quando saímos do batel, disse o capitão que seria bom irmos direitos à cruz, que estava encostada a uma árvore, junto com o rio, para se pôr de manhã, que é sexta-feira, e que nos puséssemos todos em joelhos e a beijássemos, para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim o fizemos.

E esses dez ou doze, que aí estavam, acenaram-lhes que fizessem assim e foram logo todos beijá-la. Parece-me gente de tal inocência que, se o homem entendesse e eles a nós, que seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece. E, portanto, se os degradados que aqui hão-de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, fazerem-se cristãos e crerem na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade e imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar.

E logo lhes Nosso Senhor deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens e ele, que nos por aqui trouxe, creio que não foi sem causa. E, portanto, Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar na santa fé católica, deve entender em sua salvação; e prazerá a Deus que, com pouco trabalho, será assim. Eles não lavram nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse inhame que aqui há muito e dessa semente e fruitos que a terra e as árvores de si lançam.

E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos. Enquanto ali, este dia, andaram, sempre ao som dum tamborim nosso dançaram e bailaram com os nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus. Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso em tal maneira que, se os homem todos quisera convidar, todos vieram.

Porém não trouxemos esta note às naus senão quatro ou cinco, a saber: o capitão-mor, dous, e Simão de Miranda, um, que trazia já por pajem, e Aires Gomes, outro, assim pajem. Os que o capitão trouxe era um deles um dos seus hóspedes que à primeira, quando aqui chegámos, lhe trouxeram, o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão os quais foram esta noute muito bem agasalhados assim de vianda como de cama de colchões e lençóis por os mais amansar.

E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de Maio, pela manhã, saímos em terra corri nossa bandeira e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz para ser melhor vista. E ali assinou o capitão onde fizessem a cova para a chantar, e, enquanto a ficaram fazendo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, abaixo do rio, onde ela estava.”

[2159]

22 Março, 2005 at 6:14 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (XI)

“Eu creio, Senhor, que não dei ainda aqui conta a Vossa Alteza da feição de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos e as setas compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá por- alguns, que creio que o capitão a Ela há-de enviar.

À quarta-feira não fomos em terra, porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. Eles acudiram à praia muitos, segundo das naus vimos, que seriam obra de trezentos, segundo Sancho de Tovar, que lá foi, disse.

Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degradado, a que o capitão ontem mandou que, em toda maneira, lá dormissem, volveram-sé já de noute, por eles não quererem que lá dormissem. E trouxeram papagaios verdes e outras aves pretas, quase como pegas, senão quanto tinham o bico branco e os rabos curtos.

E quando se Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam-se vir com ele alguns, mas ele não quis senão dous mancebos dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noute mui bem pensar e curar. E comeram toda vianda que lhes deram. E mandou-lhes fazer cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noute. E assim não foi mais esse dia que para escrever seja.

À quinta-feira, derradeiro d’Abril, comemos logo quase pela manhã e fomos em terra por, mais lenha e água. E, em querendo o capitão sair, desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dous hospedes. E, por ele não ter ainda comido, puseram-lhe toalhas e veio-lhe, vianda e comeu. Assentaram cada um dos hóspedes em sua cadeira e de tudo o que lhes deram comeram mui bem, especialmente lacão cozido, frio, e arroz. Não lhes deram, vinho, por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel e eles connosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta e, tanto que a tomou, meteu-a logo no beiço; e, porque se lhe não queria ter, deram-lhe uma pequena de cera vermelha e ele corregeu-lhe detrás seu adereço para se ter, e meteu-a no beiço assim revolta para cima. E vinha tão contente com ela, como se tivera uma grande jóia. E, tanto que saímos em terra foi-se logo com ela, que não apareceu aí mais.

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles e daí a pouco começaram de vir; e parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta. Traziam alguns deles arcos e setas e todos os deram por carapuças ou por qualquer cousa que lhes davam. Comiam connosco do que lhes dávamos e bebiam alguns dele vinho e outros o não podiam beber, mas parece-me que se lho avezarem que o beberão de boa vontade.

Andavam todos tão dispostos e tão bem feitos e galantes com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mui boas vontades, e levavam-na aos batéis. E andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nos andávamos entre eles.”

[2157]

21 Março, 2005 at 6:04 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (X)

“Tinham dentro muitos esteios e d’esteio a, esteio uma rede, atada pelo cabos em cada esteio, altas, em que dormiam, e, debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma em um cabo e outra no outro. E diziam que, em cada casa, se acolhiam trinta ou quarenta pessoas e que assim os achavam e que lhes davam de comer daquela vianda que eles tinham, a saber: muito inhame e outras sementes, que na terra há, que eles comem.

E, como foi tarde, fizeram-nos logo todos tornar e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo eles diziam, queriam-se vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e por outras cousinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos muito grandes e formosos e dous verdes, pequeninos e carapuças de penas verdes e um pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assás formoso, segundo Vossa Alteza todas estas cousas verá, porque o capitão mandar, segundo ele disse. E, com isto, vieram. E nós tornámo-nos às naus.

À terça-feira, depois de comer, foi-nos em terra dar guarda de lenha e lavar roupa. Estavam na praia, quando chegámos, obra de sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegámos, vieram-se logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto connosco, que nos ajudavam deles a acarretar lenha e meter nos batéis e lutavam com os nossos e tomavam muito prazer.

E, enquanto nós fazíamos a lenha, faziam dous carpinteiros uma grande cruz dum pau que se ontem para isso cortou. Muitos deles vinham ali estar com. os carpinteiros e creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro, com que a faziam, que por verem a cruz, porque eles não têm cousa que de ferro seja e cortam sua madeira e paus com cunhas, metidas em um pau, entre duas talas mui bem apertadas e por tal maneira, que andam fortes segundo os homens, que ontem a suas casas foram diziam, porque lhas viram lá.

Era já a conversação deles connosco tanta, que quase nos torvavam ao que havíamos de fazer. E o capitão mandou a dous degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e a outras, se houvessem delas novas, e que, em toda maneira, não se viessem a dormir às naus, ainda que os eles mandassem. E assim se foram.

Enquanto andávamos nesta mata, a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá nesta terra muitos, mas eu não veria mais que até nove ou dez. Outras aves, então, não vimos; somente algumas pombas seixas e pareceram-me maiores, em boa quantidade, que as de Portugal. Alguns diziam que viram rolas, mas eu não as vi, mas, segundo os arvoredos são mui muitos, e grandes e d’infindas maneiras, não duvido que por esse sertão haja muitas aves. E acerca da noute nos volvemos para as naus com nossa lenha.”

[2151]

18 Março, 2005 at 6:12 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (IX)

“E isto me faz presumir que não têm casas nem moradas em que se acolham. E o ar, a que se criam, os faz tais. Nem nós ainda até agora não vimos nenhumas casas nem maneira delas. Mandou o capitão àquele degradado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles, o qual se foi e andou lá um bom pedaço.

E à tarde tornou-se, que o fizeram eles vir e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas e não lho tomaram nenhuma cousa do seu. Antes disse ele que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que ele levava e fugia com elas e ele se queixou e os outros foram logo após ele e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar. E então mandaram-no vir.

Disse ele que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes, como d’Entre Doiro e Minho. E assim nos tornámos às naus, já quase noite, a dormir.

À segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos e estiveram assim um pouco afastados de nós. E despois, poucos e poucos, misturavam-se connosco e abraçavam-nos e folgavam e alguns deles se esquivavam logo.

Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer cousa. E em tal maneira se passou a cousa, que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles, onde muitos deles estavam com moças e mulheres e trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas d’aves, deles verdes e deles amarelos, de que creio que o capitão há-de mandar amostra a Vossa Alteza.

E, segundo diziam esses que lá foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos de mais perto e mais à nossa vontade, por andarmos todos quase misturados, e ali deles andavam daquelas tinturas quartejados, outros de metades, outros de tanta feição, como em panos d’armar, e todos com os beiços furados e muitos com os ossos neles e deles sem ossos. Traziam alguns deles uns ouriços verdes d’árvores que, na cor, queriam parecer de castanheiros, senão quanto eram mais e mais pequenos.

E aqueles eram cheios, d’uns grãos vermelhos pequenos, que, esmagando-os entre os dedos, faziam tintura multo vermelha de que eles andavam tintos. E quanto mais se molhavam tanto mais vermelhos ficavam. Todos andam rapados até cima das orelhas e assim as sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas da tintura preta que parece uma fita preta, ancha de dous dedos.

E o capitão mandou àquele degradado Afonso Ribeiro e a outros dous degradados, que fossem andar lá entre eles, e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. E aos degradados, mandou que ficassem lá esta noute. Foram-se lá todos e andaram entre eles e, segundo eles diziam, foram, bem uma légua e meia a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez casas, as quais, diziam que eram tão compridas cada uma como esta nau capitania. E eram de madeira, e das ilhargas, de tábuas, e cobertas de palha; de razoada altura e todas em uma só casa, sem nenhum repartimento.”

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17 Março, 2005 at 6:12 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (VIII)

“E despois moveu o capitão para cima, ao longo do rio, que anda sempre a carão da praia, e ali esperou um velho que trazia na mão uma pá d’almadia. Falou, estando o capitão com ele perante todos nós, sem o nunca ninguém entender nem ele a nós, quanto a cousas que lhe homem perguntava d’ouro, que nós desejávamos saber se o havia na terra. Trazia este velho o beiço tão furado, que lhe caberia pelo furado um grande dedo polegar.

E trazia metido no furado uma pedra verde, ruim, que çarrava por fora aquele buraco. E o capitão lha fez tirar e ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do capitão para lha meter. Estivemos sobre isso um pouco rindo então enfadou-se o capitão e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, não, por ela valer alguma cousa, mas por mostra.

E despois, a houve o capitão creio para com as outras cousas a mandar a Vossa Alteza. Andámos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas, não muito altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos. Então tornou-se o capitão para baixo, para a boca do rio, onde desembarcámos.

E além do rio andavam muitos deles, dançando e folgando uns ante outros, sem se tomarem pelas mãos, e faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém que é homem gracioso e de prazer, e levou consigo um gaiteiro nosso, com sua gaita, e meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos. E eles folgavam e riam e andavam com ele mui bem, ao som da gaita. Despois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito.

E, conquanto os com aquilo muito segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como monteses. E foram-se para cima. E então o capitão passou o rio com todos nós outros e fomos pela praia, de longo, indo os batéis assim a carão de terra. E fomos até uma lagoa grande d’água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai água por muitos lugares.

E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles andar entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou e levava-lho e lançou-o na praia. Abasta (que até aqui, como quer que se eles em alguma parte amansassem, logo duma mão para a outra se esquivavam, como pardais de cevadoiro, e homem não lhes ousa falar de rijo por se mais não esquivarem.

E tudo se passa como eles querem por os bem amansar. Ao velho, com que o capitão falou, deu uma carapuça vermelha e com toda a fala, que com ele passou, e com a carapuça, que lhe deu, tanto que se espediu, que começou de passar o rio, foi-se logo recatando e não quis mais tornar do rio para aquém.

Os outros dous, que o capitão teve nas naus, a que deu o que já dito é, nunca aqui mais apareceram, de que tiro ser gente bestial e de pouco saber e por isso são assim esquivos. Eles, porém, com tudo, andam muito bem curados e muito limpos e naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos e tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser.”

[2147]

16 Março, 2005 at 6:11 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (VII)

“A isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque geral costume era dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há aí tudo o que lhes perguntam, e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dous homens destes degradados que aqui deixassem do que eles dariam, se os levassem, por ser gente que ninguém entende; nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor o estoutros não digam, quando cá Vossa Alteza mandar.

E que, portanto, não curassem aqui de, por força, tomar ninguém nem fazer escândalo, para os de todo mais amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dous degradados, quando daqui partíssemos. E assim, por melhor parecer a todos, ficou determinado.

Acabado isto, disse o capitão que fôssemos nos batéis em terra e ver-se-ia bem o rio quejando era e também para folgarmos. Fomos todos nos batéis em terra, armados, e a bandeira connosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, onde nós íamos. E, antes que chegássemos, do ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos e acenavam que saíssemos.

E, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E, tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio e foram entre eles. E alguns aguardavam e outros se afastavam, mas era a cousa de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer cousa que lhes davam.

Passaram além tantos dos nossos e andavam assim misturados com eles, que eles se esquivavam e afastavam-se e iam-se deles para cima, onde outros estavam. E então o capitão fez-se tomar ao colo de dous homens e passou o rio e fez tornar todos. A gente que ali era não seria mais que aquela que soía.

E, tanto que o capitão fez tornar todos, vieram alguns deles a ele, não por o conhecerem por senhor, cá me parece que não entendem nem tomavam disso conhecimento, mas porque a gente nossa passava já para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas já ditas e resgatavam por qualquer cousa em tal maneira que trouxeram dali para as naus muitos arcos e setas e contas.

E então tornou-se o capitão aquém do rio e logo acudiram muitos à beira dele. Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho e quartejados assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, pareciam assim bem.

Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres moças, assim nuas que não pareciam mal, entre as quais andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tinta daquela tintura preta e o resto todo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas e também os colos dos pés. E suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas que não havia aí nenhuma vergonha.

Também andava aí outra mulher moça com um menino ou menina no colo, atado com um pano não sei de quê aos peitos, que lhe não apareciam senão as perninhas, mas as pernas da mãe e o resto não traziam nenhum pano.”

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15 Março, 2005 at 6:10 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (VI)

“Enquanto estivemos à missa e à pregação, seriam na praia outra tanta gente pouco mais ou menos como os d’ontem, com seus arcos e setas, os quais andavam folgando e olhando-nos, e assentaram-se. E, despois d’acabada a missa, assentados nós à pregação, alevantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço.

E alguns deles se metiam em almadias, duas ou três, que aí tinham, as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra senão quanto podiam tomar pé. Acabada a pregação, moveu o capitão e todos para os batéis, com nossa bandeira alta; e embarcámos e fomos assim todos contra terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo Bartolomeu Dias em seu esquife, por mandado do capitão, diante, com um pau duma almadia, que lhes o mar levara, para lho dar, e nós todos, obra de tiro de pedra trás ele.

Como eles viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pusessem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra, e outros os não punham. Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não já que m’a mim parecesse que lhe tinham acatamento nem medo.

Este, que os assim andava afastando, trazia seu arco e setas e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos e espáduas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo; e os vazios com a barriga e estômago eram da sua própria cor. E a tintura era assim, vermelha que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias. E andava entre eles sem eles entenderem nada nele quanto a para lhe fazerem mal, senão quanto lhe davam cabaços d’água.

E acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao capitão e viemo-nos às naus a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem lhes dar mais opressão. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram. Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Foram alguns, em nós aí estando, buscar marisco e não no acharam.

E acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de bergões e d’amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E, tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por mandado do capitão-mor, com os quais se ele apartou e eu na companhia.

E perguntou assim a todos se nos parecia ser bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que agora nós podíamos saber, por irmos de nossa viagem.

E, entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. E nisto concluíram. E, tanto que a conclusão foi tomada, perguntou mais se seria bom tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza e deixar aqui por eles outros dous destes degradados.”

[2143]

14 Março, 2005 at 6:09 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (V)

“Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles por a barberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenámos-lhes que se fossem e assim o fizeram e passaram-se além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis e encheram não sei quantos barris d’água, que nós levávamos. E tornámo-nos às naus. E, em nós assim vindo, acenaram-nos que tornássemos e tornámos.

E eles mandaram o degradado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para dar lá ao senhor, se o aí houvesse. Não curaram de lhe tomar nada e assim o mandararam com tudo. E então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhes desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo em vista de nós àquele que da primeira o agasalhou; e então veio e trouxemo-lo.

Este que o agasalhou era já de dias e andava todo, por louçainha, cheio de penas, pegada pelo corpo, que parecia assetado como S. Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas e outros de vermelhas e outros de verdes.

E uma daquelas moças era toda tinta, de fundo a cima, daquela tintura, a qual, certo, era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela.

Nenhum deles não era fanado, mas todos assim como nós. E com isto nos tornámos e eles foram-se. À tarde saiu o capitão-mor em seu batel com todos nós outros e com os outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, a carão da praia, mas ninguém sai em terra por o capitão não querer, sem embargo de ninguém nela estar. Somente sai ele com todos em um ilhéu grande, que na baía está, que de baixa-mar fica mui vazio mas é de todas partes cercado d’água, que não pode ninguém ir a ele sem barco ou a nado.

Ali folgou ele e todos nós outros bem uma hora e meia. E pescaram, aí andando marinheiros com um cinchorro, e mataram pescado miúdo não muito. E, então volvemo-nos às naus já bem noute.

Ao domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão d’ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se corregessem nos batéis e fossem com ele; e assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperável e dentro nele alevantar altar mui bem corregido e ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique em voz entoada e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que ali todos eram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida da por todos com muito prazer e devoção.

Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre alta, à parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e pôs-se em uma cadeira alta e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história Evangelho. E, em fim dela, tratou de nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da cruz, sob cuja obediência vimos, a qual veio muito a propósito e fez muita devoção.”

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11 Março, 2005 at 6:09 pm 1 comentário

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (IV)

“Ao sábado, pela manhã, mandou o capitão fazer vela e fomos demadar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis, sete braças. E entraram todas as naus dentro e ancoraram-se em cinco, seis braças, a qual ancoragem dentro é tão grande e tão segura que podem jazer dento nela mais de 200 navios e naus. E tanto que as naus foram pousadas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do capitão-mor.

E da daqui mandou o capitão Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dous homens e os deixassem ir com seu arco e setas, a cada um dos quais mandou dar uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosairo de contas brancas d’osso, que eles levavam nos braços, e um cascavél e uma campainha.

E mandou com eles para ficar lá um mancebo degradado, criado de João Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para andar lá com eles e saber de seu viver e maneira e a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia.

Ali acudiram logo obra de 200 homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pusessem os arcos e eles os puseram e não se afastavam muito. E, mal tinham posto os arcos, então saíram os que nós levávamos e o mancebo degradado com eles, os quais, assim como saíram, não pararam mais, nem esperava um por outro senão a quem mais correria.

E passaram um rio, que por aí corre, d’água doce, de muita água, que lhes, dava pela braga e outros muitos com eles. E foram assim correndo além do rio entre umas moitas de palmas, onde estavam outros, e ali pararam. E, naquilo, foi o degradado com um homem que logo ao sair do batel, o agasalhou e levou-o até lá. E logo o tornaram a nós. E com ele vieram ou outros que nós levámos, os quais vinham já nus e sem carapuças. E então se começaram de chegar muitos. E entravam pela beira do mar para os batéis até que mais não podiam.

E traziam cabaços d’água e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos d’água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel, mas, junto com ele, lançavam-nos da mão e nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma cousa. Levava, Nicolau Coelho cascavéis e manilhas e a uns dava um cascavél e a outros uma manilha, de maneira que, com aquela encarna, quase nos queriam dar a mão.

Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer cousa que lhes homem queriam dar. Dali se partiram os outros dois mancebos que não os vimos mais. Andavam ali muitos deles ou quase a maior parte que todos traziam aqueles bicos d’osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles traziam beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos a saber: um na metade e os dous nos cabos.

E andavam aí outros quartejados de cores, isto é: deles a metade da sua própria cor e a metade de tintura negra, maneira d’azulada, e outros quartejados d’escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.”

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10 Março, 2005 at 6:08 pm

CARTA DE PÊRO VAZ DE CAMINHA (III)

“Metem-no pela parte de dentro do beiço e o que lhe fica entre o beiço e os dentes é feito como roque de xadrez; e em tal maneira o trazem ali encaixado, que lhes não dá paixão nem lhes estorva a fala, nem comer, nem beber.

Os cabelos seus são corredios e andavam tosquiados de tosquia alta mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas.

E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma maneira de cabeleira de penas d’ave amarela, que seria de comprimento dum coto, mui basta e mui çarrada que lhe cobria o toutiço e as orelhas, a qual andava pegada nos cabelos, pena e pena, com uma confecção branda como cera e não no era; de maneira que andava a cabeleira mui redonda e mui basta e mui igual, que não fazia mingua mais lavagem para a levantar.

O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar d’ouro mui grande ao pescoço. E Sancho de Tovar e Simão de Miranda e Nicolau Coelho e Aires Correa e nós outros, que aqui na nau com ele imos, assentados no chão por essa alcatifa.

Acenderam tochas e entraram e não fizeram nenhuma menção de cortesia nem de falar ao capitão nem a ninguém. Um deles, porém, pôs olho no colar do capitão e começou d’acenar com a mão para a terra e despois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata. Mostraram-lhes um papagaio pardo, que aqui o capitão traz, tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como queos havia aí. Mostraram-lhes um carneiro, não fizeram dele menção. Mostraram-lhes uma galinha, (quase haviam medo dela e não lhe queriam por a mão e despois a tomaram como espantados).

Deram-lhes ali de comer pão e pescado cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados; não quiseram comer daquilo quase nada. E alguma cousa, se a provavam, lançavam-na fogo fora. Trouxeram-lhes vinho por uma taça, mal lhe puseram a boca e não gostaram dele nada nem o quiseram mais.

Trouxeram-lhes água por uma albarrada; tomou cada um deles um bocado dela e não beberam; somente lavaram as bocas e lançaram fora. Viu um deles umas contas de rosairo, brancas; acenou que lhas dessem e folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço e despois tirou-as e embrulhou-as no braço; e acenava para a terra e então para as contas e para o colar do capitão, como que dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós assim por o desejarmos; mas, se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, porque lhos não havíamos de dar. E despois tornou as contas a quem lhas deu. E então estiraram-se assim de costas na alcatifa, a dormir, sem ter nenhuma maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capitão mandou pôr à cabeça de cada um deles um coxim e o da cabeleira procurava assaz por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto em cima e eles consentiram e ficaram e dormiram.”

[2135]

9 Março, 2005 at 6:17 pm

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