Liga dos Campeões – “Play-off” intercalar – Benfica – Real Madrid
17 Fevereiro, 2026 at 11:03 pm Deixe um comentário
Benfica – Anatoliy Trubin, Amar Dedić, Tomás Araújo, Nicolás Otamendi, Samuel Dahl, Leandro Barreiro, Fredrik Aursnes (80m – Sidny Lopes Cabral), Gianluca Prestianni (81m – Dodi Lukébakio), Rafael “Rafa” Silva (74m – Richard Ríos), Andreas Schjelderup (74m – Heorhiy Sudakov) e Evangelos “Vangelis” Pavlídis
Real Madrid – Thibaut Courtois, Trent Alexander-Arnold, Antonio Rüdiger, Dean Huijsen, Álvaro Carreras (90+9m – Daniel “Dani” Carvajal), Federico Valverde, Arda Güler (86m – Brahim Díaz), Aurélien Tchouaméni, Eduardo Camavinga (90+4m – Thiago Pitarch), Kylian Mbappé e Vinícius Júnior
0-1 – Vinícius Júnior – 50m
Cartões amarelos – Gianluca Prestianni (78m), José Mourinho (85m – Treinador) e Heorhiy Sudakov (90+2m); Vinícius Júnior (51m) e Kylian Mbappé (87m)
Cartão vermelho – José Mourinho (85m – Treinador)
Árbitro – François Letexier (França)
É bem mais difícil escrever sobre este jogo do que sobre o de há três semanas. E não por causa da derrota. Mas, fundamentalmente, pela forma como o que deveria ser um dia de festa foi estragado, transformando-se numa triste noite, não só para o futebol e o desporto, mas em termos da sociedade em geral.
Procurando arrumar, desde já, o que acabou por se tornar numa mancha que se deixou alastrar, provocando – por via do inaceitável comportamento de um seu jogador, e de uma gestão de comunicação de crise absolutamente desastrosa, lesiva da imagem e da história do clube – gravíssimos danos reputacionais ao Benfica, no preciso momento em que está sob os holofotes globais, atendendo também à projecção do adversário em causa, apenas o clube mais emblemático a nível mundial: o que o Benfica (a sua Direcção) deveria ter feito, de imediato, era simples e básico: repudiar veementemente (passe o pleonasmo) qualquer forma de racismo; e proceder à abertura de processo interno de inquérito.
Sabemos, todos, que o problema – seja de racismo, seja de homofobia – está incrustado na sociedade, mesmo que possa parecer dormente. O que, naturalmente, não obsta a que sejam de evitar generalizações (“Os benfiquistas são racistas”) ou unanimismos (“Prestianni devia ser irradiado”) perigosos, sem respeito, sequer, pelo básico princípio da presunção de inocência.
Mas a mensagem tem de ser clara: não pode haver contemplações. Na sociedade, no Mundo, e no tempo em que vivemos, não é mais admissível qualquer tipo de menorização, ou sequer, discriminação social, em função de características físicas de um qualquer indivíduo.
Sobre o jogo: evidentemente, não há dois jogos iguais. O contexto era diferente, o foco dos jogadores era distinto. O rumo que os acontecimentos levaram acabou por escapar ao controlo (ao que poderia ser expectável) de todos.
Esta partida acabou por incorporar três partes bem diferenciadas: uma, nos primeiros vinte cinco a trinta minutos, com toada repartida; outra, até aos 50 minutos, em que o Real Madrid, colocando grande aceleração, encostou o Benfica “às cordas”; e uma, final, após a interrupção que se seguiu ao golo da equipa espanhola, em que ninguém parecia estar já “com cabeça” para prosseguir o jogo.
O facto de se tratar de uma fase a eliminar, a duas mãos, gera, instintivamente, um sentido de auto-preservação, de contenção do risco, dando prioridade à segurança do sector defensivo, com escassas oportunidades de golo. Na meia hora inicial, regista-se um lance de maior perigo para cada lado: primeiro, por Vinícius, a rematar ao lado; de seguida, Aursnes, com um pontapé de meia-distância, a solicitar boa intervenção de Courtois.
O Real Madrid colocaria então, grande intensidade, em pressão alta, não deixando o adversário respirar; à beira do intervalo adivinhou-se o golo, por mais de uma ocasião: primeiro numa rápida investida de Alexander-Arnold, a assistir Mbappé, que, porém, não chegou à bola; pouco depois, de novo o francês, com um potente remate; Trubin, chamado a trabalho de elevado grau de dificuldade, foi, então, crucial, para manter as suas redes a zeros.
As coisas não se alterariam substancialmente no recomeço, com o Real praticamente a entrar a ganhar, num “golo de bandeira” de Vinícius, a desferir um tiro, em arco, indefensável, a colocar a bola no vértice da baliza.
O jogo acabou nesse momento. O avançado brasileiro, de forma necessariamente admissível, foi celebrar o golo com uma dança, bamboleando-se junto à bandeirola de canto, o que – num ambiente efervescente – provocou exacerbada reacção adversa na bancada, com inaceitáveis arremesso de objectos e insultos de cariz racista. Também menos razoável se tornaria, então, a repetição da provocação (depois de se ter afastado, voltaria a essa zona), já depois de alerta do árbitro, o que levou mesmo a que Vinícius fosse admoestado com cartão amarelo. O argentino Prestianni seria, logo nesse momento, o primeiro a insurgir-se – também de forma excessiva – com a atitude do jogador contrário, tendo-se instalado a confusão entre os vários intervenientes, de um lado e de outro, em pleno relvado.
Os ânimos pareciam ter, de alguma forma serenado, dentro de campo, quando – no instante em que se preparava o pontapé de recomeço, no círculo central – Vinícius terá dirigido impropérios (“cagón de mierda”, terá dito) a Prestianni, o qual, tapando a boca com a camisola, o interpelou novamente. Acto súbito, o brasileiro desatou a correr desenfreadamente para a linha lateral, queixando-se que o argentino lhe teria dirigido insultos racistas, e manifestando a sua intenção de abandonar o campo (tendo, por seu lado, Prestianni alegado que não lhe terá chamado “mono”/”macaco”, mas “maricón”). O árbitro, de imediato, suspendeu o jogo, que assim se manteve interrompido durante mais de dez minutos, numa fase, de novo, de mau comportamento de parte dos adeptos.
No entretanto, Mourinho, falando com Vinícius, procurou convencê-lo a retomar a partida, também com Mbappé a mostrar-se muito activo, na defesa do seu colega de equipa. O jogo acabaria mesmo por ser reatado, mas estava indelevelmente contaminado pelo que sucedera, como que relegado para plano secundário.
Até final, cada vez que Vinícius – algo comprometido, como que a jogar a medo – tocava na bola, era sonoramente apupado. Perante o sucedido, o Benfica terá pouca moral para reclamar, mas parece claro que, tal como sucedera no desafio anterior, o Real Madrid deveria ter terminado reduzido a nove elementos: Valverde (mesmo que inadvertidamente) deu um soco na cara de Dahl e o próprio Vinícius deveria ter visto segundo cartão amarelo, por falta mais intensa.
Para acabar em maré negativa, seria, ao invés, Mourinho a ser expulso (o que o afasta do Bernabéu), por ter reclamado do facto de o árbitro ter também poupado cartões amarelos a Carreras e a Tchouaméni – que, caso lhes tivessem sido exibidos, teriam ficado fora do encontro da 2.ª mão, em Madrid.
Em suma, desde os 50 minutos, futebol houve muito pouco. Prejudicados foram todos, mas, principalmente (por responsabilidades próprias, de jogadores, treinador, adeptos e Direcção), a instituição Benfica.
Entry filed under: Desporto. Tags: Benfica, Ficha, Futebol, Liga Campeões.




Trackback this post | Subscribe to the comments via RSS Feed