Liga dos Campeões – 8ª Jornada – Benfica – Real Madrid
28 Janeiro, 2026 at 11:05 pm Deixe um comentário
Benfica – Anatoliy Trubin, Amar Dedić, Tomás Araújo, Nicolás Otamendi, Samuel Dahl, Leandro Barreiro, Fredrik Aursnes, Gianluca Prestianni (87m – João Rego), Heorhiy Sudakov (83m – Enzo Barrenechea), Andreas Schjelderup (90+3m – António Silva) e Evangelos “Vangelis” Pavlídis (90+3m – Franjo Ivanović)
Real Madrid – Thibaut Courtois, Federico Valverde, Raúl Asencio, Dean Huijsen (79m – David Alaba), Álvaro Carreras (79m – Brahim Díaz), Arda Güler (79m – Jorge Cestero), Aurélien Tchouaméni (55m – Eduardo Camavinga), Jude Bellingham, Franco Mastantuono (55m – Rodrygo de Goes), Vinícius Júnior e Kylian Mbappé
0-1 – Kylian Mbappé – 30m
1-1 – Andreas Schjelderup – 36m
2-1 – Evangelos “Vangelis” Pavlídis (pen.) – 45m
3-1 – Andreas Schjelderup – 54m
3-2 – Kylian Mbappé – 58m
4-2 – Anatoliy Trubin – 90+8m
Cartões amarelos – Leandro Barreiro (11m) e Samuel Dahl (85m); Aurélien Tchouaméni (3m), Raúl Asencio (45m), Dean Huijsen (62m), Álvaro Carreras (67m) e Rodrygo de Goes (90+6m)
Cartões vermelhos – Raúl Asencio (90+2m) e Rodrygo de Goes (90+7m)
Árbitro – Davide Massa (Itália)
Ou a prova provada que, por vezes, os milagres acontecem mesmo!
Analisada a tabela classificativa à entrada para a última jornada desta fase, assim como o alinhamento de jogos para esta noite decisiva, sabia-se que o Benfica – partindo no 29.º lugar – necessitaria de, pelo menos, ultrapassar cinco concorrentes (e esperando não ser ultrapassado, na diferença de golos, pelo… Pafos – 30.º). Tarefa impossível?
Bem, vistas as coisas, havia várias conjugações possíveis de resultados que poderiam beneficiar as pretensões benfiquistas; o mais difícil parecia mesmo o requisito indispensável de ter de derrotar o “todo poderoso” Real Madrid (que, à entrada para este jogo, era 3.º classificado)…
De facto, para além do seu próprio desafio, a equipa portuguesa necessitaria de um mínimo de cinco desfechos favoráveis em nove das outras contendas da ronda, cujo grau de probabilidade se poderia, em teoria, ordenar assim:
(i) O FC Copenhaga (26.º) não ganhar em Barcelona;
(ii) O Bodø/Glimt (28.º) não ganhar, em Madrid, ao At. Madrid;
(iii) O Olympiacos (24.º) não ganhar, em Amesterdão, ao Ajax;
(iv) O Napoli (25.º) não ganhar ao Chelsea;
(v) O Club Brugge (27.º) não ganhar ao O. Marseille;
(vi) O Athletic Bilbao (23.º) não ganhar ao Sporting;
(vii) O PSV Eindhoven (22.º) perder, em casa, com o Bayern;
(viii) O Monaco (21.º) perder, em casa, com a Juventus; e
(ix) O Bayer Leverkusen (20.º) perder, em casa, com o Villarreal.
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Deixando de parte esses considerandos, um Benfica corajoso e ambicioso, realizaria uma notável exibição, na linha da conseguida na recepção ao Napoli, em Dezembro passado, determinado em poder alcançar a vitória que lhe era imprescindível.
Impondo, desde início, um ritmo forte e grande dinâmica, beneficiando das debilidades defensivas do Real Madrid, a formação benfiquista só por grande falta de eficácia chegou ao intervalo (apenas) com a vantagem mínima (resultado que, aliás, perante tanto desperdício, poderia ter sido ainda bem mais penalizador).
A aposta de Mourinho em Prestianni e Schjelderup nas alas revelou-se vencedora, com a velocidade dos extremos a colocar a “cabeça em água” aos defesas contrários, que nunca conseguiram encontrar antídoto para travar as múltiplas investidas benfiquistas: reflexo disso, os extraordinários registos atingidos a nível das principais estatísticas, com um total de 22 remates, dos quais 12 à baliza e, nada menos, de sete grandes oportunidades de golo!
O primeiro momento de frisson ocorreu logo aos sete minutos, num alívio de Carreras, com a bola a esbarrar em Tomás Araújo e a sair muito próximo do poste. À passagem do quarto de hora, no mesmo minuto, “reclamou-se” penalty por duas vezes, tendo o árbitro assinalado mesmo a segunda delas, a qual, contudo, seria revertida pelo “VAR”. Mais seis minutos volvidos seria Courtois, com uma soberba intervenção, a negar o golo a Prestianni, num remate em arco. No canto, Aursnes, na cara do guarda-redes, rematou à figura.
Mas as coisas podiam ter corrido mesmo mal: a par da aparente inépcia na finalização, o Benfica viria a ver-se em desvantagem no marcador, à passagem da meia hora, numa das primeiras vezes em que a turma espanhola chegara à área contrária, num cabeceamento de Mbappé.
Inevitavelmente, acusando o tento sofrido, a equipa de alguma forma como que se descompôs, valendo, pouco depois, um voo de Trubin para evitar o que teria sido o segundo golo dos “merengues”, que, a acontecer, significaria o xeque-mate nas aspirações do clube português.
Não obstante, os astros começariam a alinhar-se: no minuto imediato, a culminar rápido contra-ataque, Schjelderup, com boa execução, também de cabeça, restabelecia a igualdade.
E o Benfica só não marcou de novo, outra vez devido a ter pecado incrivelmente na finalização: Schjelderup, com a “baliza aberta”, rematou contra Valverde; no canto, Barreiro não conseguiu cabecear para o fundo da baliza, com a bola a tocar na parte exterior das redes; e, pouco depois, Dedić, a optar pelo remate, em vez de assistir Pavlídis, em posição ideal para poder marcar.
Mas a avalancha ofensiva do Benfica era de tal modo insistente, qual “rolo compressor”, que o golo acabaria mesmo por chegar, mesmo à beira do descanso, na conversão de uma grande penalidade, a sancionar contacto (“agarrão”) de Tchouaméni sobre Otamendi.
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Pausa, então, para fazer o ponto de situação, em função dos resultados que se verificavam nos outros Estádios no final da primeira parte: o Benfica subira ligeiramente na pauta, ao 27.º posto, tendo ultrapassado o Bodø/Glimt (empatado a um em Madrid) e o Olympiacos (com o jogo ainda a zeros em Amesterdão). Era curto para as aspirações portuguesas, mas faltava ainda uma agitada segunda metade…
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No recomeço, depois do “puxão de orelhas” que se pode imaginar ter acontecido no balneário, o Real Madrid procurou entrar com outra atitude, forçando o Benfica a superar-se, e ir em busca do seu melhor nível, quer em acções atacantes, como, principalmente, nessa fase, para procurar controlar a sempre temível dupla Vinícius e Mbappé.
Não estavam ainda decorridos dez minutos da etapa complementar quando Schjelderup, numa das suas mais conseguidas exibições, ampliava o “placard” para 3-1, num remate colocado. O Benfica estava “nas nuvens”.
Mas este conforto de uma margem de dois golos seria “sol de (muito) pouca dura” (aliás, numa noite de chuva inclemente, efeito da tempestade Kristin, que, durante a madrugada, com ventos ciclónicos, devastara a região Centro do País).
Volvidos somente quatro minutos, Mbappé, outra vez, também ele a bisar, reduzia de novo para a diferença mínima e lançava a dúvida, fazendo crescer a incerteza.
A partir daí, ainda com meia hora por jogar – e pese embora Sudakov ter tido ainda um perigoso remate, rente ao poste -, o cariz da partida começaria a alterar-se substancialmente: ao Benfica começava a faltar o fôlego para manter o ritmo, enquanto o Real parecia poder tornar-se mais ameaçador, com duas atentas defesas de Trubin (aos 77 e 78 minutos).
Mesmo que apenas no subconsciente, gradualmente iria ganhando força a ideia de, prioritariamente, procurar preservar a tão preciosa vantagem. Na cabeça de todos passou a estar o pensamento na evolução dos resultados dos outros encontros…
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A meio da segunda parte o Benfica subira ao 25.º lugar: fora novamente ultrapassado pelo Bodø/Glimt – que de, forma sensacional, operara a reviravolta em Madrid, e ganhava por 2-1 ao Atlético – e pelo Olympiacos, que marcara em Amesterdão; mas ultrapassara, entretanto, o PSV (a perder 0-1 com o Bayern), Athletic Bilbao (que ia empatando, a dois golos, com o Sporting), Napoli (também igualado a duas bolas, com o Chelsea) e o FC Copenhaga (já a perder por 2-1 em Barcelona, depois de até ter começado por inaugurar o marcador).
Nessa altura, para se apurar, a turma da Luz estaria dependente, nomeadamente, de um golo do Ajax (frente ao Olympiacos) ou do At. Madrid (com o Bodo/Glimt).
Até que, às 21h28 (69 minutos de jogo em Amesterdão), o Ajax empatava frente ao Olympiacos, e o Benfica ascendia, pela primeira vez, a posição de apuramento (24.º posto)!
O momento de alegria não perduraria muito, uma vez mais. Nove minutos decorridos, o PSV empatava com o Bayern, relegando o Benfica, de novo, para a 25.ª posição.
Até final, nos últimos doze minutos de jogo em cada campo, haveria ainda mais dez golos; cinco deles sem influência prática nestas contas, da qualificação: o 4-1 no Barcelona-Copenhaga; o 6-0 no Liverpool-Qarabağ; o 2-3 apontado pelo Chelsea em Nápoles; e o 3-1 e 4-1 do Pafos ante o Slavia de Praga – até acabarem todos os outros prélios (antes do termo do da Luz), ficara a faltar um golo ao Pafos…
Numa empolgante “noite louca” do futebol europeu – como, porventura, nunca antes se terá vivido a nível das competições da UEFA -, vejamos então o impacto dos restantes (cinco) golos finais:
- Às 21h39 (79m), o Olympiacos fazia o 2-1 em Amesterdão, empurrando o Benfica ainda um degrau mais para baixo (26.º);
- Em paralelo, o Club Brugge ampliava para 3-0 a contagem frente ao O. Marseille – um golo que, nessa altura, mantinha tudo inalterado, mas que acabaria por vir a revelar-se absolutamente determinante;
- Às 21h43 (84m), o Bayern recolocava-se em vantagem (2-1) em Eindhoven; o Benfica ultrapassava assim o PSV, subindo outra vez à 25.ª posição. Para se apurar bastaria um golo do At. Madrid ou da Juventus (no Mónaco)… como serviria também mais um golo do Brugge ante o Marseille (na verdade, o que, a partir daquele preciso instante, e no decurso de quase vinte longos minutos, passaria a faltar – circunstância para a qual só bastante “fora de horas” se veio a despertar –, era, simplesmente, um golo adicional do Benfica);
- Às 21h54 (94m), também mesmo a findar, o Sporting chegava ao 3-2 em Bilbau, garantindo um fantástico apuramento directo para os 1/8 de final (a par de cinco clubes ingleses, do Bayern e do Barcelona; e, inclusivamente, terminando classificado à frente do Manchester City – e, por coincidência, em detrimento, precisamente, do Real Madrid, assim relegado para um indesejado 9.º lugar)!
Às 21h57, já praticamente todos os jogos tinham chegado ao fim… excepto em Madrid e na Luz. Nesse exacto minuto, tinha-se tornado evidente só restarem duas hipóteses: marcar o At. Madrid… ou o Benfica.
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Regressemos ao Estádio da Luz: o Benfica evidenciava, há largos minutos, falta de frescura, em aparente contraponto com o Real Madrid, mesmo que, a espaços – nomeadamente num desvio de Barreiro na pequena área, com mais uma grande defesa de Courtois (84 minutos) – procurasse ainda levar perigo ao sector recuado contrário.
José Mourinho transmitira já sinais inequívocos, fazendo entrar Barrenechea para trancar o resultado; até que, chegado o minuto 90+3 (o árbitro concedera cinco minutos de tempo de compensação), faria as últimas substituições, reforçando ainda mais a aposta na defesa do 3-2, em especial com a entrada de António Silva, por troca com Schjelderup, numa clara manobra de “marcha atrás”.
Só que o Real Madrid, com os seus jogadores, estranhamente, de “cabeça perdida”, cometeriam, então, uma espécie de “hara-kiri”, com duas expulsões (aos 92 e aos 97 minutos – no caso de Rodrygo, com duplo amarelo, num minuto, por se ter excedido nos protestos), que se viriam a revelar também cruciais no sublime lance derradeiro.
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Às 21h58 – em paralelo com as últimas substituições de Mourinho – terminava o encontro em Madrid, com uma muito imprevista vitória da turma norueguesa. O Benfica estava por sua (única) conta: precisava (mesmo) de marcar mais um golo, para ultrapassar o Marseille!
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Estavam quase esgotados os cinco minutos que Davide Massa concedera. E, breves segundos antes do excelso final, Trubin, após recolher uma bola que se escapara aos adversários, arrojava-se ao relvado, a “queimar tempo”.
Até que, vindo da bancada, um tonitruante clamor colectivo alertou todos (quer o treinador, quer os jogadores admitiram que não se tinham conseguido aperceber da necessidade de marcar esse tal golo suplementar), pedindo em uníssono, à moda antiga: “só mais um!”.
Ao minuto 97 (portanto, já nos “descontos dos descontos”), com o Real Madrid reduzido a nove elementos, surge um livre a favor do Benfica na zona intermediária; Aursnes, com um cruzamento teleguiado, leva a bola direitinha para a zona da entrada da área, em que o guarda-redes benfiquista – enfim incentivado pelo seu treinador a subir à área adversária – antecipando-se a todos, apareceu a cabecear, com um gesto técnico cheio de intenção, para o fundo da baliza de Courtois.
Eram 22h02, o Benfica ampliava o marcador para 4-2… e garantia, literalmente no último segundo (o árbitro apitaria de imediato), o apuramento para o play-off da Liga dos Campeões!
Foi o delírio dentro e fora de campo!
Após os 5-3 da Final da Taça dos Campeões Europeus de 1962 e dos 5-1 de 1965, em mais uma noite de magia, o Benfica voltava – pela terceira vez em quatro confrontos entre ambos – a golear o mais poderoso clube do planeta, detentor do maior palmarés a nível global (15 vezes Campeão Europeu e 9 vezes Campeão Mundial), Real Madrid!
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Afinal, nos outros nove jogos que interessavam ao Benfica, apenas tinham acabado por se verificar quatro (dos cinco) resultados de que necessitaria (os das alíneas (i), (iv), (vi) e (vii) dos “considerandos” iniciais). Falhou ao emblema português, fundamentalmente, o At. Madrid (derrotado, contra todas as expectativas, no seu próprio reduto, pelo Bodo/Glimt)…
O Benfica consumara a ultrapassagem de: (i) Marseille (que, à partida, era 19.º – equipa melhor posicionada de entre as que tinham 9 pontos à entrada para esta última jornada –, e que, para além do diferencial de 3 pontos, dispunha de vantagem de 4 golos na diferença geral de golos, motivo pelo qual terá estado fora das cogitações, até tão tarde, a possibilidade de vir a ser superada… e terminar mesmo por ser eliminada), assim como (ii) do PSV (que era 22.º), (iii) Athletic Bilbao (23.º), (iv) Napoli (25.º) e (v) FC Copenhaga (26.º).
Acabou, assim, in extremis, por não ser necessário ultrapassar os anteriores 27.º (Club Brugge) e 28.º classificados (Bodo/Glimt) – que concluíram a prova, respectivamente, no 19.º e no 23.º lugar –, nem o Olympiacos (que, neste último dia, subiu de 24.º a 18.º).
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A esta hora, a imagem do épico golo de Anatoliy Trubin (que foi, justamente, felicitado pelo próprio Thibaut Courtois) continua, incessantemente, a correr Mundo…
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